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O barão da Bahia beija a lona
Data: 16/08/95
Edição: 1405
Pág: 84-91
 



REPORTAGEM DE VEJA

O barão da Bahia beija a lona

Ângelo Calmon de Sã, o dono do
Econômico, fez o que quis do banco
acabou sob intervenção do BC


Na sexta-feira passada, o senador baiano Antonio Carlos Magalhães telefonou três vezes para o presidente Fernando Henrique Cardoso para pedir que o Banco Central não interviesse no Banco Econômico.

- Isso que vocês vão fazer é muito ruim para a Bahia - disse o senador.
- O que o senhor acha que eu sinto? Também é muito ruim para o Brasil intervir num banco. Ainda mais num banco do tamanho do Econômico.
- Não tem uma solução que mantenha o banco na Bahia? - insistiu ACM.
- Tudo foi tentado, senador.
No começo da tarde, Fernando Henrique Cardoso chamou o presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães, filho de ACM, e contou sobre a intervenção. Ouviu um apelo final:
- Por favor. certifique-se de que é a última solução possível.
FHC ligou para o presidente do Banco Central, Gustavo Loyola:
- Gostaria que vocês se reunissem para ver se é a única saída.
Ordem cumprida, Loyola retornou o telefonema:
- A única solução é uma intervenção dura, presidente. Se não for assim, vai ficar ruim: a diretoria do BC sai.
- Então vamos para essa solução: a intervenção e, se for o caso, a liquidação - ordenou Fernando Henrique.

Assim foi decretada a intervenção do Banco Central no oitavo maior banco privado brasileiro, também o mais antigo, com 161 anos de existência. Na mesma leva foi anunciada a intervenção em dois outros bancos menores, o Mercantil de Pernambuco e o Comercial de São Paulo. "O Ângelo Calmon veio várias vezes ao Banco Central, foi advertido várias vezes da situação de seu banco, que era grave, e agora tivemos de tomar essa decisão porque as outras soluções propostas eram muito caras para o Erário", disse Loyola, ao explicar a intervenção. As soluções "muito caras" eram as alternativas que o banqueiro Angelo Calmon de Sã estudava para salvar seu negócio sem desalinhar os cabelos, pintados e implantados. Angelo Calmon queria 1,2 bilhão de reais, quantia que seria refinanciada em cinco anos, com juros de caderneta de poupança. Como, nesse período, o Econômico poderia emprestar esse dinheiro a juros de mercado, 40% ao ano, em breve a dívida teria evaporado e seu banco estaria bem de saúde - por conta do contribuinte.

Com a intervenção, Angelo Calmon ficou proibido de dar palpites sobre a condução dos negócios ou vender um alfinete que seja, mesmo que o objeto esteja em sua casa, na cômoda, ao lado de sua cama. Seus bens, declarados à Receita em 93 milhões de dólares, estão indisponíveis. Os dele e os de toda a diretoria. Isso não quer dizer que ele irá tomar-se pobre da noite para o dia. Um dos ex-donos do Comind, liquidado em 1985, Paulo Pompéia Gavião Gonzaga, mora numa mansão em São Paulo e tem BMW na garagem. O gaúcho Roberto Maisonnave, ex-dono do banco Maisorinave, também liquidado em 1985, mora em Porto Alegre, tem casa de inverno em Gramado e outra de verão em Torres, a praia mais elegante do litoral gaúcho, e passa parte das férias com a família em Punta del Este, no Uruguai.

Bilhões todo dia - Ângelo Calmon não é mais banqueiro. O Banco Central já decidiu que, para suas mãos, o Econômico não volta mais. E se quiser comprar outro banco, quando reouver seus bens, só poderá fazê-lo com a permissão do BC. No lugar do barão da Bahia, ocupará a principal sala da agência-sede do banco, no 110 andar de um edifício em Salvador, o contabilista Francisco Flávio Salles Barbosa, funcionário aposentado do BC. Homem do ramo, Barbosa foi chefe do departamento responsável pelas liquidações do Comind e do Auxiliar, em 1985. Para azar dos que esperavam uma solução baiana, Barbosa é paulista. A intervenção no Econômico, que o mercado aposta ser o prenúncio da liquidação, deve durar seis meses, prorrogáveis por mais seis. A partir desta segunda-feira, suas 279 agências amanhecem lacradas e assim devem ficar pelas próximas duas ou três semanas. Só depois disso os 800 000 correntistas poderão sacar de suas contas correntes e cadernetas de poupança quantias de até 5 000 reais. Valores mais altos terão de esperar.

Para o pequeno poupador, esperar mais de quinze dias para sacar o dinheiro é um horror. Já os grandes investidores, que mexem com dinheiro gordo e informação quente, não foram apanhados de surpresa. Parte dos grandes clientes vinha saltando fora há tempos. Só neste ano, o Econômico perdeu 880 milhões de reais em depósitos. O Bradesco tirou os 50 milhões de reais que mantinha ali aplicados. O mesmo fizeram o Real, o Lloyds e o Banco do Brasil. "Quando vimos que podíamos perder dinheiro, sacamos tudo", diz um operador do 1313. Até o Banespa, que também está sob intervenção do BC, sacou os 247 milhões de reais que tinha investidos no Econômico. Dos grandes fundos de pensão, dez sacaram 160 milhões só neste ano. O campeão foi o Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, que tirou 87 milhões de reais.

Mede-se a saúde de um banco comparando o dinheiro que entra. pela captação. com aquele que sai, pelos resgates. 0 banco está bem quando recebe mais do que entrega. Está mal quando ocorre o inverso. Durante o ano de 1995, todo o dinheiro que o Econômico captava era menor do que aquilo que os clientes retiravam de suas agências. Resultado: todos os dias. no final do expediente bancário, o banco ficava no vermelho. Para fechar o caixa no azul, obrigação de todo banco, precisava tomar emprestados cerca de 2 bilhões de reais. Seu descrédito na praça era tamanho que, junto à banca privada, não conseguia mais de 80 milhões.

A diferença, o Econômico conseguia em Brasília. Uma parte obtinha junto à Caixa Econômica Federal, obrigada pelo Banco Central a comparecer quase todo dia. A Caixa emprestou mais de 1 bilhão de reais nos piores dias. Num dos dias mais tranqüilos, 2 de maio, colocou 570 milhões. 0 resto do dinheiro, o Econômico buscava na linha de redesconto do Banco Central, onde batia diariamente havia nove meses. Na quinta-feira passada, o Econômico precisou de 3 bilhões de reais e, só para o Banco Central, pediu quase 2 bilhões. Era demais. Foi o sinal de alarme que decidiu a intervenção, anunciada no dia seguinte.

Operação Uruguai - A partir de agora, uma equipe de funcionários do Banco Central dará um mergulho em profundidade na contabilidade do Econômico. Vai verificar documentos, empréstimos e toda sorte de operação. Com carta branca para trabalhar, o interventor pode demitir funcionários, cobrar devedores e vender participações acionárias do Econômico em outras empresas sem consultar ninguém. Desde fevereiro que o departamento de fiscalização do Banco Central acompanha os números do Econômico de perto, produzindo relatórios mensais. VEJA teve acesso a um desses relatórios, referente ao mês de julho. No capítulo dos empréstimos feitos pelo banco. há casos notáveis. 0 maior devedor do Econômico é a construtora baiana Concic, que tem um papagaio de 203 milhões de reais e fatura 150. Diz o relatório que a Concic ofereceu como parte do pagamento créditos de 20 milhões que tem a receber do governo federal - mico que ninguém sabe quando e se será pago. Entre outros empréstimos, encontram-se 14 milhões de reais devidos pela Casa Mayrink Veiga, cuja matriarca já vendeu até um Rolis-Royce em leilão para pagar credores mais aflitos.

Nas quinze páginas do relatório, há ainda um caso estranhíssimo. No dia 25 de agosto de 1993, o Econômico realizou duas operações de empréstimos, ambas de 20,6 milhões de dólares. O esquisito é que as duas empresas tornadoras, a Moviplan Projetos e Incorporações Ltda. e a Personal Empreendimentos Ltda. dão como endereço um mesmo lugar no Rio de Janeiro e têm os mesmos sócios. Um deles, Raimundo César Menezes, assinou o pedido de dinheiro nas duas vezes sem declarar profissão, atividade. bens ou mesmo sua filiação. O outro, Sérgio Ricardo Torres de Mello. teve o cuidado de preencher os campos. Disse ser secretário, estenógrafo, datilógrafo e recepcionista. E. segundo disse, é dono apenas de um Chevette 83. Entre as garantias dos dois empréstimos, a dupla apresentou o aval de uma empresa com sede no Uruguai. Naquele mesmo dia, o Econômico autorizou um terceiro empréstimo, também de 20,6 milhões de reais. para uma empresa chamada Loulouah Participações e Empreendimentos SIC Ltda. Como garantia do empréstimo, a Loulouah também apresentou o aval de uma empresa no Uruguai, sediada no mesmo endereço da que garantiu os dois empréstimos daquele dima empresa chamada Loulouah Participações e Empreendimentos SIC Ltda. Como garantia do empréstimo, a Loulouah também apresentou o aval de uma empresa no Uruguai, sediada no mesmo endereço da que garantiu os dois empréstimos daquele dia.

"Quando decidir" - Um último relatório foi fechado na terça-feira passada, entregue por Gustavo Loyola ao ministro Pedro Malan. da Fazenda. Segundo o documento, nas duas últimas semanas, o volume de depósitos em caderneta de poupança caiu à metade e o total em contas correntes ficou um terço menor. Os estouros estão em toda parte. Segundo o relatório, se vender tudo o que possui, o Econômico ainda ficara devendo. A dívida é 16% superior ao patrimônio líquido. Repleto de anexos técnicos, o relatório contém uma conclusão curta e grossa, aprovada pela diretoria do BC. Era preciso liquidar o banco imediatamente ou fazer a intervenção a portas fechadas, com possibilidade de liquidação, "Com uma intervenção, podemos entrar profundamente nas contas do Econômico", disse Loyola a Malan. "Se em trinta dias, no máximo em sessenta, não conseguirmos chegar a uma solução, o jeito é liquidar", completou. Malan repassou o resultado a Fernando Henrique no mesmo dia. "Quando vamos ter de decidir isto?", quis saber o presidente. "Até o final da semana", respondeu o ministro. O presidente concordou.

Dono de 33% das ações (incluindo seus parentes), mas controlador de 61 % através de sociedade com outros acionistas numa holding, Ângelo Calmon sempre viveu às turras com outro grande acionista do banco, Paulo Sérgio Tourinho.

Para sua felicidade, no final de 1993, Tourinho anunciou que pretendia vender sua parte no banco. Como não tinha recursos próprios para adquiri-la, Ângelo Calmon saiu atrás do dinheiro alheio. Iniciou os primeiros contatos com um banco português estatal, o Banco Português do Atlântico, BPA. Em março do ano passado, o Econômico chegou a assinar um protocolo de acordo com o BPA, mas o negócio desandou quando o BPA foi privatizado.

Com a chegada do Plano Real, que lhe tirou o dinheiro fácil da inflação, começou a faltar dinheiro para fechar o caixa. Em dezembro, o Econômico colocou o pé pela primeira vez no redesconto do Banco Central. Para se capitalizar, planejou lançar 750 milhões de reais em papéis no exterior - sonho desfeito com a quebra do México. No início do ano, a captação do Econômico começou a despencar e suas idas ao redesconto tornaram-se habituais, em valores crescentes. Na gestão Persio Arida, Ângelo Calmon foi a Brasília pedir tempo para resolver o problema do banco e, como se estivesse num comício sindical, jurou que não estava preocupado com seus próprios interesses, mas com o emprego de seus 9 500 funcionários. O apelo não comoveu e, a partir de então, a saída, segundo um banqueiro carioca que examinou a fundo a documentação do banco, foi esconder a feiúra da realidade em balanços embelezados. "Examinei as contas do Econômico três vezes", diz esse banqueiro. "O balanço está todo maquilado."

Se a inflação baixa foi um baque, a alta dos juros foi outro estrago. Ainda assim, Ângelo Calmon custou a se render. Continuou buscando um parceiro salva-vidas mesmo depois que o Banco Central já concluira que, com sua saída do comando, a liquidação seria inevitável. Em abril, o banqueiro Pedro Henrique Mariani, do Banco da Bahia e de outras catorze empresas que, juntas, faturam 250 milhões de reais, ofereceu-se como candidato a parceiro. Mas Ângelo Calmon o achava pequeno demais. "Ele queria empresários mais fortes e convidou Emílio Odebrecht para conversar", conta um executivo do Econômico.

Elevador exclusivo - Nascia ali a rodada de conversas que seria ampliada com a participação de Paulo Cunha, presidente do grupo Ultra, e Max Feffer, presidente do grupo Suzano. Econômico, Odebrecht, Suzano, Ultra e Mariani são sócios na Companhia Petroquímica do Nordeste, a Copene, que fatura 1,2 bilhão de reais por ano. O negócio não vingou porque era uma conversa na qual ninguém falava a mesma língua. Angelo Calmon queria falar sobre seus projetos para o Econômico, mas seus parceiros só estavam interessados nas empresas petroquímicas, a começar pela Copene. "Foi uma decepção para o Angelo", diz um amigo seu. "Ele percebeu que só queriam falar sobre a Copene, e ficaram desanimados quando viram que tinham também de entrar o banco."

O primeiro a pular fora foi o primeiro que entrou, Mariani. Eleito coordenador conversas do grupo, até porque era o que entendia do sistema financeiro, Mariani esteve na quinta-feira 3 em Brasília para falar com Loyola. Foi contar que não participaria da operação-hospital. Mariani estava com receio. Assim que o mercado soube de sua aproximação com uma empresa apodrecida, foi o próprio prestígio de suas empresas que começou a cair na praça. Na mesma quinta-feira. Emílio Odebrecht foi visitar o governador Paulo Sou to, da Bahia. E mandou que um diretor seu, José Mascarenhas, procuras se o governo paulista. A proposta de Odebrecht: o governo da Bahia os 170 milhões de reais que o Estado deve à empresa por obras públicas realiza das na gestão Nilo Coelho, e todo o dinheiro seria aplicado no Econômico. O mesmo discurso seria repetido em São Paulo por Mascarenhas. Não colou. e Emílio Odebrecht ficou ainda mais convencido de que não entende de banco. No sábado 5, Victor Gradim, diretor da Odebrecht, procurou o Econômico para dizer que a empresa estava fora. Na terça-feira passada, numa conversa reservada, Emílio Odebrecht, chefe de um grupo que fatura 3,4 bilhões de reais por ano, revelou suas razões para fugir do negócio. "Eu tenho grandes amigos no sistema financeiro que sempre nos ajudaram. Não quero briga com eles. E também não entendo de banco", disse a um amigo.

Cunha e Feiter, que só compareciam às reuniões por boa educação, agradeceram. "Você acha que o Max Feffer, do grupo Suzano, que amealhou um patrimônio de 1,5 bilhão de dólares, vai arriscar tudo isso para salvar o pescoço do Ângelo?", pergunta um banqueiro próximo das negociações. Como última esperança para o Econômico, Antonio Carlos Magalhães chamou o economista Daniel Dantas. na esperança de que ele conseguisse armar uma fórmula para salvar o banco. "Na Bahia, Daniel Dantas faz o que eu mando", explica o senador. A intervenção de Daniel Dantas fracassou, mas isso não fez dele um perdedor.

Aos 59 anos, quatro filhos, casado com Atina Maria, cuja beleza lhe rendeu o título de míss Bahia, Angelo Calmon de Sá é um homem vaidoso. Bebe vinhos finos, fala com sotaque baiano, adora uma conversa e, depois de ser presidente do Banco do Brasil e ministro da Indústria e Comércio no Governo de Emesto Geisel, adquiriu apego às pompas do poder. Na matriz do banco há seis elevadores. Cinco são para diretores e funcionários. O sexto serve apenas ao presidente. "Uma vez um diretor com vinte anos de casa entrou no elevador e, mais tarde, foi repreendido", conta um ex-colega de Econômico. No jatinho do banco, Angelo Calmon só viaja sozinho. Mesmo que diretores estejam indo para a mesma cidade, o presidente vai no jatinho e os outros. de avião de carreira - o que pode ser uma medida de segurança, para o caso de acidente, mas sempre foi visto como esnobismo. Quando reassumiu a presidência do Econômico, depois de uma curta passagem pelo ministério de Fernando Collor, o ex-banqueiro não topou dividir uma sala de 600 metros quadrados com os demais diretores, sem divisórias e com um coletivo de secretárias. Reinstalou-se no gabinete um andar acima, no 11º, com funcionarias e assessores para uso exclusivo.

"Passar uma rasteira" - Ângelo Calmon dava tanto empréstimo para clientes duvidosos que era freqüente o mal-estar nas discussões dos comitês de crédito do banco. Nessa tarefa, tinha o auxílio de seu irmão Francisco de Sá Júnior, o Frank, que vive no Rio e abriu os cofres para clientes mais que duvidosos, mas charmosos, como Adolpho Bloch, da Rede Manchete, e a família Mayrink Veiga. "A Bahia tinha de ter se levantado, depositado grandes quantias no banco para salvá-lo", diz um ex-executivo que até hoje morre de amores pelo Econômico. "Mas talvez Angelo esteja colhendo o preço das poucas amizades."

Herdeiro de uma família que lhe rendeu mais nobreza no nome do que dinheiro no bolso, Ângelo Calmon cresceu com o justo sonho de um dia tomar-se milionário. Engenheiro, estreou no batente como apontador de obras da Odebrecht, foi duas vezes secretário de Estado até que, em 1971, sentiu o vento do destino. Foi convidado para salvar de uma crise o Banco Econômico, do qual era um acionista inexpressivo. Na época, ele fazia um curso de liderança nos Estados Unidos, voltou para o Brasil e sentou-se na cadeira de presidente. Trabalhava, como fez até a semana passada, com um fôlego de leão, capaz de cumprir jornadas extenuantes. De acionista chinfrim, puxava o talão de cheques para adquirir ações com uma velocidade tal que surpreendia até os diretores.

Ângelo Calmon enriqueceu como um executivo assalariado de um banco que, quando assumiu, era o 43º do ranking, e foi destronado quando se encontrava em 8º lugar dos bancos privados. Para chegar lá, jogava pesado em qualquer disputa, grande ou pequena. Certa vez, foi a um leilão de gado, em Cruz das Almas, no interior baiano, e inflacionou tanto o preço que os fazendeiros ficaram irritados. A certa altura, três animais foram a leilão e um amigo, de patrimônio modesto e interessado em comprar uma cabeça, pediu que não fizesse lance, e ficou tão impressionado com a resposta que relatou o caso a um amigo: "Não vai dar", disse Angelo Calmon. "Só arrematei fêmeas até agora. Preciso de macho." Em 1973, com dois anos de comando do Econômico, Ângelo Calmon tentou comprar de forma sorrateira o Banco da Bahia, aplicando um golpe no velho Clemente Mariani, dono do banco e figura célebre no Estado. "O pior é que chamava o velho de tio, mas vacilou na hora de passar uma rasteira", diz um empresário baiano que acompanhou a história de perto.

Banqueiros esfolados - Foi uma guerra com lances dramáticos, cravejada de traições e golpes baixos, e acabou com dois derrotados. Mariani percebeu que Ângelo Calmon estava comprando ações na surdina e contra-atacou. O rival não recuou, cobriu a aposta e blefou pagando mais. O valor das ações foi à estratosfera, fez a festa dos pequenos acionistas, que eram cercados até nas rim de Salvador, mas deixou os dois banqueiros esfolados. Mariani manteve o controle do Banco da Bahia, mas acabou tendo de vendê-lo para Amador Aguiar, dono do Bradesco. Ângelo Calmon só escapou da falência com a ajuda do então governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, que levou o governo de Medici a convencer Amador Aguiar a comprar todas as ações nas mãos de Ângelo Calmon, livrando-o do rombo.

Gentil, bem-educado, o ex-banqueiro daria um excelente relações públicas. Centralizador, exigia que todas as decisões passassem pelo seu crivo. Mas, como também adora aparecer em público, na eterna esperança de eleger-se governador da Bahia, era um presidente ausente. Adorava solenidades, mesmo as mais tolas. Em 1979, por exemplo, esteve em Pernambuco para lançar a caderneta de poupança do Econômico e entregou a primeira a Marco Maciel. "Os diretores decidiam, mas levavam uma bronca. Até que pararam de decidir. Coisas meio banais às vezes levavam uma semana para ter uma decisão", relembra um ex-executivo do banco. Com atitudes assim, Ângelo Calmon de Sá transformou-se. Na primeira fase, de 1971 a 1974, antes de ir para o governo Geisel, ele era respeitado e querido pelos funcionários. Na segunda, de 1979 até hoje, seu carisma foi sumindo aos poucos. "Quem vai gostar de um sujeito que não leva você num jatinho e ainda não gosta de dividir o mesmo elevador?", indaga um ex-diretor do banco. Foi assim que, na sexta-feira passada, um barão da Bahia caiu de seu trono.

O que é a intervenção

A intervenção é a versão bancária das concordatas. Para um banco, pior que isso só existe a liquidação, o equivalente à falência. Uma instituição vai à lona quando o Banco Central descobre que foram cometidas irregularidades ou que a gerência incompetente está colocando em risco o dinheiro dos depositantes. Foi esse o motivo da intervenção no Econômico, que poderá ficar de seis meses a um ano nas mãos do BC. Durante, o processo, o governo continuará procurando compradores para o banco. Os administradores serão afastados dos cargos. Os interventores terão 120 dias para avaliar a situação. Primeiro deverão saber se os créditos do banco são suficientes para quitar suas dívidas. Depois, mostrar por que o Econômico chegou à situação atual, quais foram os eventuais culpados e como pode voltar à iniciativa privada. Se os administradores concluírem pela existência de culpados, eles serão processados pelo Ministério Público.

Quem ocupou o cargo na direção do Econômico nos últimos doze meses ficará com os bens indisponíveis. Poderão ser vendidos em leilão para pagar o rombo do banco. O BC pode propor que também gerentes, conselheiros fiscais e outros funcionários tenham seus bens vendidos. O seqüestro pode atingir parentes em segundo grau dos ex-administradores, até que o prejuízo tenha sido coberto. O partir desta segunda-feira, o banco irá passar de duas a três semanas com as portas fechadas. Depois, honrará saques em cadernetas de poupança e contas correntes de até 5 000 reais por cliente. A partir daí, o banco só receberá dinheiro e não fará nenhum pagamento. os funcionários continuarão trabalho e recebendo seus salários.

A devolução dos depósitos e aplicações dependerá do final da intervenção. Se alguém comprar o banco, as dívidas serão pagas integralmente. Caso não seja vendido, o BC deverá liquidá-lo e repartir o que ganhar com o leilão dos créditos e do patrimônio do banco entre os credores. Primeiro, pagam-se os funcionários do banco. Depois, vem o Fisco. Finalmente, os outros credores rateiam as sobras. Em 1985 quando o sistema financeiro balançou com a liquidação dos bancos Comind, Auxiliar e Maisonave, o Econômico sentiu indiretamente o tranco. Teve de passar um longo período no redesconto do BC. Desta vez, o banco baiano não conseguiu ficar à superfície.

Veja também
O chefe da UTI bancária

 

 
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