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REPORTAGEM DE VEJA
O
barão da Bahia beija a lona
Ângelo
Calmon de Sã, o dono do
Econômico, fez o que quis do banco
acabou sob intervenção do BC
Na sexta-feira passada, o senador baiano Antonio Carlos Magalhães
telefonou três vezes para o presidente Fernando Henrique
Cardoso para pedir que o Banco Central não interviesse
no Banco Econômico.
- Isso que vocês vão fazer é muito ruim
para a Bahia - disse o senador.
- O que o senhor acha que eu sinto? Também é
muito ruim para o Brasil intervir num banco. Ainda mais num
banco do tamanho do Econômico.
- Não tem uma solução que mantenha o
banco na Bahia? - insistiu ACM.
- Tudo foi tentado, senador.
No começo da tarde, Fernando Henrique Cardoso chamou
o presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães,
filho de ACM, e contou sobre a intervenção.
Ouviu um apelo final:
- Por favor. certifique-se de que é a última
solução possível.
FHC ligou para o presidente do Banco Central, Gustavo Loyola:
- Gostaria que vocês se reunissem para ver se é
a única saída.
Ordem cumprida, Loyola retornou o telefonema:
- A única solução é uma intervenção
dura, presidente. Se não for assim, vai ficar ruim:
a diretoria do BC sai.
- Então vamos para essa solução: a intervenção
e, se for o caso, a liquidação - ordenou Fernando
Henrique.
Assim foi decretada a intervenção do Banco Central
no oitavo maior banco privado brasileiro, também o
mais antigo, com 161 anos de existência. Na mesma leva
foi anunciada a intervenção em dois outros bancos
menores, o Mercantil de Pernambuco e o Comercial de São
Paulo. "O Ângelo Calmon veio várias vezes
ao Banco Central, foi advertido várias vezes da situação
de seu banco, que era grave, e agora tivemos de tomar essa
decisão porque as outras soluções propostas
eram muito caras para o Erário", disse Loyola,
ao explicar a intervenção. As soluções
"muito caras" eram as alternativas que o banqueiro
Angelo Calmon de Sã estudava para salvar seu negócio
sem desalinhar os cabelos, pintados e implantados. Angelo
Calmon queria 1,2 bilhão de reais, quantia que seria
refinanciada em cinco anos, com juros de caderneta de poupança.
Como, nesse período, o Econômico poderia emprestar
esse dinheiro a juros de mercado, 40% ao ano, em breve a dívida
teria evaporado e seu banco estaria bem de saúde -
por conta do contribuinte.
Com a intervenção, Angelo Calmon ficou proibido
de dar palpites sobre a condução dos negócios
ou vender um alfinete que seja, mesmo que o objeto esteja
em sua casa, na cômoda, ao lado de sua cama. Seus bens,
declarados à Receita em 93 milhões de dólares,
estão indisponíveis. Os dele e os de toda a
diretoria. Isso não quer dizer que ele irá tomar-se
pobre da noite para o dia. Um dos ex-donos do Comind, liquidado
em 1985, Paulo Pompéia Gavião Gonzaga, mora
numa mansão em São Paulo e tem BMW na garagem.
O gaúcho Roberto Maisonnave, ex-dono do banco Maisorinave,
também liquidado em 1985, mora em Porto Alegre, tem
casa de inverno em Gramado e outra de verão em Torres,
a praia mais elegante do litoral gaúcho, e passa parte
das férias com a família em Punta del Este,
no Uruguai.
Bilhões
todo dia - Ângelo Calmon não é mais
banqueiro. O Banco Central já decidiu que, para suas
mãos, o Econômico não volta mais. E se
quiser comprar outro banco, quando reouver seus bens, só
poderá fazê-lo com a permissão do BC.
No lugar do barão da Bahia, ocupará a principal
sala da agência-sede do banco, no 110 andar de um edifício
em Salvador, o contabilista Francisco Flávio Salles
Barbosa, funcionário aposentado do BC. Homem do ramo,
Barbosa foi chefe do departamento responsável pelas
liquidações do Comind e do Auxiliar, em 1985.
Para azar dos que esperavam uma solução baiana,
Barbosa é paulista. A intervenção no
Econômico, que o mercado aposta ser o prenúncio
da liquidação, deve durar seis meses, prorrogáveis
por mais seis. A partir desta segunda-feira, suas 279 agências
amanhecem lacradas e assim devem ficar pelas próximas
duas ou três semanas. Só depois disso os 800
000 correntistas poderão sacar de suas contas correntes
e cadernetas de poupança quantias de até 5 000
reais. Valores mais altos terão de esperar.
Para o pequeno poupador, esperar mais de quinze dias para
sacar o dinheiro é um horror. Já os grandes
investidores, que mexem com dinheiro gordo e informação
quente, não foram apanhados de surpresa. Parte dos
grandes clientes vinha saltando fora há tempos. Só
neste ano, o Econômico perdeu 880 milhões de
reais em depósitos. O Bradesco tirou os 50 milhões
de reais que mantinha ali aplicados. O mesmo fizeram o Real,
o Lloyds e o Banco do Brasil. "Quando vimos que podíamos
perder dinheiro, sacamos tudo", diz um operador do 1313.
Até o Banespa, que também está sob intervenção
do BC, sacou os 247 milhões de reais que tinha investidos
no Econômico. Dos grandes fundos de pensão, dez
sacaram 160 milhões só neste ano. O campeão
foi o Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, que
tirou 87 milhões de reais.
Mede-se a saúde de um banco comparando o dinheiro que
entra. pela captação. com aquele que sai, pelos
resgates. 0 banco está bem quando recebe mais do que
entrega. Está mal quando ocorre o inverso. Durante
o ano de 1995, todo o dinheiro que o Econômico captava
era menor do que aquilo que os clientes retiravam de suas
agências. Resultado: todos os dias. no final do expediente
bancário, o banco ficava no vermelho. Para fechar o
caixa no azul, obrigação de todo banco, precisava
tomar emprestados cerca de 2 bilhões de reais. Seu
descrédito na praça era tamanho que, junto à
banca privada, não conseguia mais de 80 milhões.
A diferença, o Econômico conseguia em Brasília.
Uma parte obtinha junto à Caixa Econômica Federal,
obrigada pelo Banco Central a comparecer quase todo dia. A
Caixa emprestou mais de 1 bilhão de reais nos piores
dias. Num dos dias mais tranqüilos, 2 de maio, colocou
570 milhões. 0 resto do dinheiro, o Econômico
buscava na linha de redesconto do Banco Central, onde batia
diariamente havia nove meses. Na quinta-feira passada, o Econômico
precisou de 3 bilhões de reais e, só para o
Banco Central, pediu quase 2 bilhões. Era demais. Foi
o sinal de alarme que decidiu a intervenção,
anunciada no dia seguinte.
Operação
Uruguai - A partir de agora, uma equipe de funcionários
do Banco Central dará um mergulho em profundidade na
contabilidade do Econômico. Vai verificar documentos,
empréstimos e toda sorte de operação.
Com carta branca para trabalhar, o interventor pode demitir
funcionários, cobrar devedores e vender participações
acionárias do Econômico em outras empresas sem
consultar ninguém. Desde fevereiro que o departamento
de fiscalização do Banco Central acompanha os
números do Econômico de perto, produzindo relatórios
mensais. VEJA teve acesso a um desses relatórios, referente
ao mês de julho. No capítulo dos empréstimos
feitos pelo banco. há casos notáveis. 0 maior
devedor do Econômico é a construtora baiana Concic,
que tem um papagaio de 203 milhões de reais e fatura
150. Diz o relatório que a Concic ofereceu como parte
do pagamento créditos de 20 milhões que tem
a receber do governo federal - mico que ninguém sabe
quando e se será pago. Entre outros empréstimos,
encontram-se 14 milhões de reais devidos pela Casa
Mayrink Veiga, cuja matriarca já vendeu até
um Rolis-Royce em leilão para pagar credores mais aflitos.
Nas quinze páginas do relatório, há ainda
um caso estranhíssimo. No dia 25 de agosto de 1993,
o Econômico realizou duas operações de
empréstimos, ambas de 20,6 milhões de dólares.
O esquisito é que as duas empresas tornadoras, a Moviplan
Projetos e Incorporações Ltda. e a Personal
Empreendimentos Ltda. dão como endereço um mesmo
lugar no Rio de Janeiro e têm os mesmos sócios.
Um deles, Raimundo César Menezes, assinou o pedido
de dinheiro nas duas vezes sem declarar profissão,
atividade. bens ou mesmo sua filiação. O outro,
Sérgio Ricardo Torres de Mello. teve o cuidado de preencher
os campos. Disse ser secretário, estenógrafo,
datilógrafo e recepcionista. E. segundo disse, é
dono apenas de um Chevette 83. Entre as garantias dos dois
empréstimos, a dupla apresentou o aval de uma empresa
com sede no Uruguai. Naquele mesmo dia, o Econômico
autorizou um terceiro empréstimo, também de
20,6 milhões de reais. para uma empresa chamada Loulouah
Participações e Empreendimentos SIC Ltda. Como
garantia do empréstimo, a Loulouah também apresentou
o aval de uma empresa no Uruguai, sediada no mesmo endereço
da que garantiu os dois empréstimos daquele dima empresa chamada Loulouah
Participações e Empreendimentos SIC Ltda. Como
garantia do empréstimo, a Loulouah também apresentou
o aval de uma empresa no Uruguai, sediada no mesmo endereço
da que garantiu os dois empréstimos daquele dia.
"Quando
decidir" - Um último relatório foi
fechado na terça-feira passada, entregue por Gustavo
Loyola ao ministro Pedro Malan. da Fazenda. Segundo o documento,
nas duas últimas semanas, o volume de depósitos
em caderneta de poupança caiu à metade e o total
em contas correntes ficou um terço menor. Os estouros
estão em toda parte. Segundo o relatório, se
vender tudo o que possui, o Econômico ainda ficara devendo.
A dívida é 16% superior ao patrimônio
líquido. Repleto de anexos técnicos, o relatório
contém uma conclusão curta e grossa, aprovada
pela diretoria do BC. Era preciso liquidar o banco imediatamente
ou fazer a intervenção a portas fechadas, com
possibilidade de liquidação, "Com uma intervenção,
podemos entrar profundamente nas contas do Econômico",
disse Loyola a Malan. "Se em trinta dias, no máximo
em sessenta, não conseguirmos chegar a uma solução,
o jeito é liquidar", completou. Malan repassou
o resultado a Fernando Henrique no mesmo dia. "Quando
vamos ter de decidir isto?", quis saber o presidente.
"Até o final da semana", respondeu o ministro.
O presidente concordou.
Dono de 33% das ações (incluindo seus parentes),
mas controlador de 61 % através de sociedade com outros
acionistas numa holding, Ângelo Calmon sempre viveu
às turras com outro grande acionista do banco, Paulo
Sérgio Tourinho.
Para sua felicidade, no final de 1993, Tourinho anunciou que
pretendia vender sua parte no banco. Como não tinha
recursos próprios para adquiri-la, Ângelo Calmon
saiu atrás do dinheiro alheio. Iniciou os primeiros
contatos com um banco português estatal, o Banco Português
do Atlântico, BPA. Em março do ano passado, o
Econômico chegou a assinar um protocolo de acordo com
o BPA, mas o negócio desandou quando o BPA foi privatizado.
Com a chegada do Plano Real, que lhe tirou o dinheiro fácil
da inflação, começou a faltar dinheiro
para fechar o caixa. Em dezembro, o Econômico colocou
o pé pela primeira vez no redesconto do Banco Central.
Para se capitalizar, planejou lançar 750 milhões
de reais em papéis no exterior - sonho desfeito com
a quebra do México. No início do ano, a captação
do Econômico começou a despencar e suas idas
ao redesconto tornaram-se habituais, em valores crescentes.
Na gestão Persio Arida, Ângelo Calmon foi a Brasília
pedir tempo para resolver o problema do banco e, como se estivesse
num comício sindical, jurou que não estava preocupado
com seus próprios interesses, mas com o emprego de
seus 9 500 funcionários. O apelo não comoveu
e, a partir de então, a saída, segundo um banqueiro
carioca que examinou a fundo a documentação
do banco, foi esconder a feiúra da realidade em balanços
embelezados. "Examinei as contas do Econômico três
vezes", diz esse banqueiro. "O balanço está
todo maquilado."
Se a inflação baixa foi um baque, a alta dos
juros foi outro estrago. Ainda assim, Ângelo Calmon
custou a se render. Continuou buscando um parceiro salva-vidas
mesmo depois que o Banco Central já concluira que,
com sua saída do comando, a liquidação
seria inevitável. Em abril, o banqueiro Pedro Henrique
Mariani, do Banco da Bahia e de outras catorze empresas que,
juntas, faturam 250 milhões de reais, ofereceu-se como
candidato a parceiro. Mas Ângelo Calmon o achava pequeno
demais. "Ele queria empresários mais fortes e
convidou Emílio Odebrecht para conversar", conta
um executivo do Econômico.
Elevador
exclusivo - Nascia ali a rodada de conversas que seria
ampliada com a participação de Paulo Cunha,
presidente do grupo Ultra, e Max Feffer, presidente do grupo
Suzano. Econômico, Odebrecht, Suzano, Ultra e Mariani
são sócios na Companhia Petroquímica
do Nordeste, a Copene, que fatura 1,2 bilhão de reais
por ano. O negócio não vingou porque era uma
conversa na qual ninguém falava a mesma língua.
Angelo Calmon queria falar sobre seus projetos para o Econômico,
mas seus parceiros só estavam interessados nas empresas
petroquímicas, a começar pela Copene. "Foi
uma decepção para o Angelo", diz um amigo
seu. "Ele percebeu que só queriam falar sobre
a Copene, e ficaram desanimados quando viram que tinham também
de entrar o banco."
O primeiro a pular fora foi o primeiro que entrou, Mariani.
Eleito coordenador conversas do grupo, até porque era
o que entendia do sistema financeiro, Mariani esteve na quinta-feira
3 em Brasília para falar com Loyola. Foi contar que
não participaria da operação-hospital.
Mariani estava com receio. Assim que o mercado soube de sua
aproximação com uma empresa apodrecida, foi
o próprio prestígio de suas empresas que começou
a cair na praça. Na mesma quinta-feira. Emílio
Odebrecht foi visitar o governador Paulo Sou to, da Bahia.
E mandou que um diretor seu, José Mascarenhas, procuras
se o governo paulista. A proposta de Odebrecht: o governo
da Bahia os 170 milhões de reais que o Estado deve
à empresa por obras públicas realiza das na
gestão Nilo Coelho, e todo o dinheiro seria aplicado
no Econômico. O mesmo discurso seria repetido em São
Paulo por Mascarenhas. Não colou. e Emílio Odebrecht
ficou ainda mais convencido de que não entende de banco.
No sábado 5, Victor Gradim, diretor da Odebrecht, procurou
o Econômico para dizer que a empresa estava fora. Na
terça-feira passada, numa conversa reservada, Emílio
Odebrecht, chefe de um grupo que fatura 3,4 bilhões
de reais por ano, revelou suas razões para fugir do
negócio. "Eu tenho grandes amigos no sistema financeiro
que sempre nos ajudaram. Não quero briga com eles.
E também não entendo de banco", disse a
um amigo.
Cunha e Feiter, que só compareciam às reuniões
por boa educação, agradeceram. "Você
acha que o Max Feffer, do grupo Suzano, que amealhou um patrimônio
de 1,5 bilhão de dólares, vai arriscar tudo
isso para salvar o pescoço do Ângelo?",
pergunta um banqueiro próximo das negociações.
Como última esperança para o Econômico,
Antonio Carlos Magalhães chamou o economista Daniel
Dantas. na esperança de que ele conseguisse armar uma
fórmula para salvar o banco. "Na Bahia, Daniel
Dantas faz o que eu mando", explica o senador. A intervenção
de Daniel Dantas fracassou, mas isso não fez dele um
perdedor.
Aos 59 anos, quatro filhos, casado com Atina Maria, cuja beleza
lhe rendeu o título de míss Bahia, Angelo Calmon
de Sá é um homem vaidoso. Bebe vinhos finos,
fala com sotaque baiano, adora uma conversa e, depois de ser
presidente do Banco do Brasil e ministro da Indústria
e Comércio no Governo de Emesto Geisel, adquiriu apego
às pompas do poder. Na matriz do banco há seis
elevadores. Cinco são para diretores e funcionários.
O sexto serve apenas ao presidente. "Uma vez um diretor
com vinte anos de casa entrou no elevador e, mais tarde, foi
repreendido", conta um ex-colega de Econômico.
No jatinho do banco, Angelo Calmon só viaja sozinho.
Mesmo que diretores estejam indo para a mesma cidade, o presidente
vai no jatinho e os outros. de avião de carreira -
o que pode ser uma medida de segurança, para o caso
de acidente, mas sempre foi visto como esnobismo. Quando reassumiu
a presidência do Econômico, depois de uma curta
passagem pelo ministério de Fernando Collor, o ex-banqueiro
não topou dividir uma sala de 600 metros quadrados
com os demais diretores, sem divisórias e com um coletivo
de secretárias. Reinstalou-se no gabinete um andar
acima, no 11º, com funcionarias e assessores para uso
exclusivo.
"Passar
uma rasteira" - Ângelo Calmon dava tanto empréstimo
para clientes duvidosos que era freqüente o mal-estar
nas discussões dos comitês de crédito
do banco. Nessa tarefa, tinha o auxílio de seu irmão
Francisco de Sá Júnior, o Frank, que vive no
Rio e abriu os cofres para clientes mais que duvidosos, mas
charmosos, como Adolpho Bloch, da Rede Manchete, e a família
Mayrink Veiga. "A Bahia tinha de ter se levantado, depositado
grandes quantias no banco para salvá-lo", diz
um ex-executivo que até hoje morre de amores pelo Econômico.
"Mas talvez Angelo esteja colhendo o preço das
poucas amizades."
Herdeiro de uma família que lhe rendeu mais nobreza
no nome do que dinheiro no bolso, Ângelo Calmon cresceu
com o justo sonho de um dia tomar-se milionário. Engenheiro,
estreou no batente como apontador de obras da Odebrecht, foi
duas vezes secretário de Estado até que, em
1971, sentiu o vento do destino. Foi convidado para salvar
de uma crise o Banco Econômico, do qual era um acionista
inexpressivo. Na época, ele fazia um curso de liderança
nos Estados Unidos, voltou para o Brasil e sentou-se na cadeira
de presidente. Trabalhava, como fez até a semana passada,
com um fôlego de leão, capaz de cumprir jornadas
extenuantes. De acionista chinfrim, puxava o talão
de cheques para adquirir ações com uma velocidade
tal que surpreendia até os diretores.
Ângelo Calmon enriqueceu como um executivo assalariado
de um banco que, quando assumiu, era o 43º do ranking,
e foi destronado quando se encontrava em 8º lugar dos
bancos privados. Para chegar lá, jogava pesado em qualquer
disputa, grande ou pequena. Certa vez, foi a um leilão
de gado, em Cruz das Almas, no interior baiano, e inflacionou
tanto o preço que os fazendeiros ficaram irritados.
A certa altura, três animais foram a leilão e
um amigo, de patrimônio modesto e interessado em comprar
uma cabeça, pediu que não fizesse lance, e ficou
tão impressionado com a resposta que relatou o caso
a um amigo: "Não vai dar", disse Angelo Calmon.
"Só arrematei fêmeas até agora. Preciso
de macho." Em 1973, com dois anos de comando do Econômico,
Ângelo Calmon tentou comprar de forma sorrateira o Banco
da Bahia, aplicando um golpe no velho Clemente Mariani, dono
do banco e figura célebre no Estado. "O pior é
que chamava o velho de tio, mas vacilou na hora de passar
uma rasteira", diz um empresário baiano que acompanhou
a história de perto.
Banqueiros
esfolados - Foi uma guerra com lances dramáticos,
cravejada de traições e golpes baixos, e acabou
com dois derrotados. Mariani percebeu que Ângelo Calmon
estava comprando ações na surdina e contra-atacou.
O rival não recuou, cobriu a aposta e blefou pagando
mais. O valor das ações foi à estratosfera,
fez a festa dos pequenos acionistas, que eram cercados até
nas rim de Salvador, mas deixou os dois banqueiros esfolados.
Mariani manteve o controle do Banco da Bahia, mas acabou tendo
de vendê-lo para Amador Aguiar, dono do Bradesco. Ângelo
Calmon só escapou da falência com a ajuda do
então governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães,
que levou o governo de Medici a convencer Amador Aguiar a
comprar todas as ações nas mãos de Ângelo
Calmon, livrando-o do rombo.
Gentil, bem-educado, o ex-banqueiro daria um excelente relações
públicas. Centralizador, exigia que todas as decisões
passassem pelo seu crivo. Mas, como também adora aparecer
em público, na eterna esperança de eleger-se
governador da Bahia, era um presidente ausente. Adorava solenidades,
mesmo as mais tolas. Em 1979, por exemplo, esteve em Pernambuco
para lançar a caderneta de poupança do Econômico
e entregou a primeira a Marco Maciel. "Os diretores decidiam,
mas levavam uma bronca. Até que pararam de decidir.
Coisas meio banais às vezes levavam uma semana para
ter uma decisão", relembra um ex-executivo do
banco. Com atitudes assim, Ângelo Calmon de Sá
transformou-se. Na primeira fase, de 1971 a 1974, antes de
ir para o governo Geisel, ele era respeitado e querido pelos
funcionários. Na segunda, de 1979 até hoje,
seu carisma foi sumindo aos poucos. "Quem vai gostar
de um sujeito que não leva você num jatinho e
ainda não gosta de dividir o mesmo elevador?",
indaga um ex-diretor do banco. Foi assim que, na sexta-feira
passada, um barão da Bahia caiu de seu trono.
O
que é a intervenção
A intervenção é a versão bancária
das concordatas. Para um banco, pior que isso só existe
a liquidação, o equivalente à falência.
Uma instituição vai à lona quando o Banco
Central descobre que foram cometidas irregularidades ou que
a gerência incompetente está colocando em risco
o dinheiro dos depositantes. Foi esse o motivo da intervenção
no Econômico, que poderá ficar de seis meses
a um ano nas mãos do BC. Durante, o processo, o governo
continuará procurando compradores para o banco. Os
administradores serão afastados dos cargos. Os interventores
terão 120 dias para avaliar a situação.
Primeiro deverão saber se os créditos do banco
são suficientes para quitar suas dívidas. Depois,
mostrar por que o Econômico chegou à situação
atual, quais foram os eventuais culpados e como pode voltar
à iniciativa privada. Se os administradores concluírem
pela existência de culpados, eles serão processados
pelo Ministério Público.
Quem ocupou o cargo na direção do Econômico
nos últimos doze meses ficará com os bens indisponíveis.
Poderão ser vendidos em leilão para pagar o
rombo do banco. O BC pode propor que também gerentes,
conselheiros fiscais e outros funcionários tenham seus
bens vendidos. O seqüestro pode atingir parentes em segundo
grau dos ex-administradores, até que o prejuízo
tenha sido coberto. O partir desta segunda-feira, o banco
irá passar de duas a três semanas com as portas
fechadas. Depois, honrará saques em cadernetas de poupança
e contas correntes de até 5 000 reais por cliente.
A partir daí, o banco só receberá dinheiro
e não fará nenhum pagamento. os funcionários
continuarão trabalho e recebendo seus salários.
A devolução dos depósitos e aplicações
dependerá do final da intervenção. Se
alguém comprar o banco, as dívidas serão
pagas integralmente. Caso não seja vendido, o BC deverá
liquidá-lo e repartir o que ganhar com o leilão
dos créditos e do patrimônio do banco entre os
credores. Primeiro, pagam-se os funcionários do banco.
Depois, vem o Fisco. Finalmente, os outros credores rateiam
as sobras. Em 1985 quando o sistema financeiro balançou
com a liquidação dos bancos Comind, Auxiliar
e Maisonave, o Econômico sentiu indiretamente o tranco.
Teve de passar um longo período no redesconto do BC.
Desta vez, o banco baiano não conseguiu ficar à
superfície.

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