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REPORTAGEM DE VEJA
Vida
no meio do caos
Com
prisões escabrosas e excesso de 73 000 presos, o pais
não debate a serio o sistema carcerário e ignora
o que fazer com seus criminosos
O
episódio da Casa de Detenção, em São
Paulo, pertence a uma categoria de tragédias cotidianas
que só chamam a atenção em circunstâncias
especiais. Ocorrem mortes diariamente nas prisões do
país. Algumas vezes há matanças com cinco,
sete vítimas. Ninguém nota. Se tivessem morrido
doze, treze presos na Casa de Detenção do Carandiru,
é provável que tudo passasse mais ou menos despercebido.
Unia revolta de detentos? Ora, sempre morrem alguns, é
natural. A ocorrência de uma semana atrás chocou
a opinião publica não porque seres humanos foram
assassinados com perversidade. Chocou pelo número assustador
das vítimas, pelo peso de mais de unia centena de cadáveres,
pelo espetáculo indecente de uma multidão de
corpos enfileirados dentro de caixões toscos, prontos
para o sepulta-mento. Cadeia é assim mesmo: só
desperta a sensibilidade dos cidadãos honestos quan-do
a animalidade que nela existe ganha uma dimensão formidável.
Falta
tudo nas cadeias brasileiras, a começar por vagas.
As delegacias de polícia e as 210 prisões do
país têm capacidade para abrigar 51000 presos,
mas nelas amontoam-se 124 000, num excesso de 73 000 pessoas.
Quase metade da massa carcerária, 59 000 detentos,
está alojada nos xadrezes dos distritos policiais,
que foram feitos para recebê-los por pouco tempo, enquanto
aguardam transferência para um presídio. A situação
é pior ainda para os 65 000 detentos que cumprem pena
nas prisões. Ali, eles convivem com quadrilhas, com
o tráfico e o consumo de droga e com a corrupção
de agentes penitenciários.
A
superlotação é a face visível
da situação escabrosa. No Recife, a penitenciária
Anibal Bruno tem capacidade para 470 detentos, mas abriga
1.000. Há celas com até cinqüenta presos
onde deveriam ficar apenas dez. Em Porto Alegre, o Presídio
Central tem 700 vagas, mas vivem ali 1700 presos. Numa antiga
cela para dez pessoas, fincou-se um segundo andar para dar
lugar a oito cubículos para dezesseis presos. "Às
vezes choro na cela. Fico pensando quanto tempo estou perdendo",
diz o presidiário Luis Femando Amaral, detido há
oito meses à espera de julgamento por homicídio.
"Isso aqui é um lugar de horror." A superlotação
não é só uma crueldade. Também
é um incentivo à ma-tança. Em 1985, em
Belo Horizonte, 300 presos dividiam onze celas nas quais só
havia espaço para quarenta e resolveram o problema
com um ritual de eliminação. Com um sorteio,
escolhiam um companheiro para morrer. De um saco plástico,
retirava-se o nome da vítima. À noite, quando
o escolhido estivesse dormindo, um colega saltava de um pequeno
muro próximo ao banheiro da cela sobre seu estômago.
Depois, enforcavam-no com uma camisa cheia de nós -
a fatal "teresa", segundo a gíria das penitenciárias.
Dias depois, morria ou-tro e mais outro. Assim, quinze presos
foram assassinados na loteria macabra.
Luta Ideológica - A miséria do sistema
penitenciário é universal, porque não
há cadeia feliz, mas a situação em países
civilizados é incomparavelmente melhor do que a brasileira.
Mesmo assim, não se tem notícia de um debate
sério no Brasil, em busca de soluções
responsáveis. Com presos em excesso, carência
de vagas e gente vivendo em condições subumanas,
deixou-se que o sistema penal brasileiro permanecesse na mesma
situação - na verdade, piorou muito com a explosão
populacional e o próprio aumento da criminalidade.
São
freqüentes os estudos sobre o assunto na França,
na Inglaterra, na Suécia e nos Estados Unidos. No Brasil,
o debate quando existe costuma se enroscar numa luta ideológica.
Há o partido dos que militam radicalmente pela cartilha
dos direitos humanos, para os quais a polícia é
ruim e os presos são apenas vítimas da sociedade.
Essa é a ala que atribui o crime unicamente ao desnivelamento
de rendas observado entre as várias camadas da população.
Por essa interpretação, o criminoso está
isento de culpa individual - e a sociedade deveria quase envergonhar-se
por enjaulá-lo.
O
outro partido é formado pelos que promovem a subcultura
de que preso deve sofrer o inferno para expiar sua culpa.
Além da separação da sociedade por grades,
segundo esse grupo, o detento merece o castigo de viver numa
pocilga, onde impere a mais grossa animalidade. Não
é muito numerosa a faixa das pessoas sensatas que aceitam
o presídio como solução ruim mas necessária
- e consideram que o preso deve ser tratado com dignidade,
porque a privação da liberdade é punição
suficiente.
A solução do problema carcerário requer
uma discussão racional. Cada penitenciária construída
no Brasil, para 500 presos, custa em média 15 milhões
de dólares. Como existem 124 000 presos, e 175 000
mandados de prisão para serem cumpridos, o país
precisaria de 500 novos presídios para abrigar todo
mundo. Pelas contas do Conselho de Polícia Criminal
e Penitenciária, do Ministério da Justiça,
essa e empreitada custaria aos cofres públicos a soma
astronômica de 7,5 bilhões de dólares.
Para completar, o Erário gastaria 600 milhões
de dólares por ano para manter as prisões funcionando,
ao custo de três a quatro salários mínimos
mensais por preso. É uma fortuna exageradamente alta
para o Erário, e é muito fácil imaginar
que jamais será aplicada no sistema carcerário,
enquanto 32 milhões de crianças e adolescentes
viverem em condições de miséria. É
exatamente esse ambiente adverso que torna mais necessária
uma discussão séria em tomo do assunto.
Corrupção - Nenhum país saneou
seu sistema penitenciário com medidas ideais. Há
dificuldades mesmo nas nações do Primeiro Mundo.
Na Itália, há vagas para 40 000 presos e existem
47 000. Nos Estados Unidos, a superlotação é
tão grave que só seria aliviada com o investimento
de 10 bilhões de dólares, o que é muito
dinheiro. A vantagem dos EUA sobre o Brasil é que,
diante das fortunas exigidas para solucionar a questão,
travou-se lá um debate para buscar alternativas. Alguns
Estados ameri-canos optam pelo caminho da privatização
das prisões. No Estado do Texas, a Wackenhut Corrections
Corporation, que administra prisões, gasta uma média
de 37 dólares por dia para cada criminoso. Para o Estado,
o mesmo preso custava 42 dólares. Ainda assim, a privatização
é polêmica. Boa pare da população
americana entende que a assistência aos presos é
responsabilidade do Estado e não aprova a idéia
de ver empresas privadas lucrando com presidiário.
No Brasil, pensa-se na "terceirização".
Ou seja: alguns serviços, como a cozinha ou a lavanderia
de unia prisão, seriam explorados pela iniciativa privada.
A idéia ainda está acanhada e tem circulação
restrita. Está sendo debatida pela Secretaria de Segurança
Pública do Estado de São Paulo, mas nunca foi
testada na prática.
Para
quem acha que o debate sobre o sistema penitenciário
é algo que só interessa aos presos, há
um equívoco a ser desfeito. A precária situação
das prisões também contamina o Estado e, por
extensão, a própria sociedade. A corrupção
começa nas celas mas sempre passa pelo portão
dos pavilhões, chega à sala dos agentes peniten-ciários
e às delegacias de polícia. 'Tudo aqui dentro
é corrupção. Com dinheiro e cigarro,
você consegue quase tudo o que quer, principalmente
comida", conta Sérgio Harriamoto, 22 anos, que
cumpre pena de dez anos por estelionato na Casa de Deten-ção.
Ali, num espaço construído para 3 300 presos,
vivem 7 000. Entre os seus muros, a maconha circula quase
livremente, e é comprada por agentes penitenciários,
que mantêm contato com traficantes. O dinheiro, que
gira na forma de maços de cigarro, compra regalias
como uma cela menos cheia, um pavilhão menos perigoso
ou um encontro amoroso num local mais discreto do presídio.
No Rio de Janeiro, a penitenciária de Bangú
1, que já foi um inferno parecido com a Casa de Detenção,
adotou um controle rigoroso para evitar o excesso de presos.
Resultado: virou uma prisão melhor e menos corrupta
que a Casa de Detenção.
A
prisão de Bangú 1 não é apenas
melhor para os presos. É melhor para o Rio de Janeiro
e seus habitantes. Um presídio onde condenados vivem
com dignidade facilita sua reeducação, ou ao
menos não estimula uma degradação ainda
maior. Em Brasília, a prisão da Papuda é
considerada boa. "Ali se tem um situação
bem razoável", afirma o advogado Antônio
Carlos de Almeida Castro, da Comissão de Direitos Humanos
da OAB local. A Papuda tem celas individuais e coletivas,
com até seis presos, a comida é feita por uma
empresa privada e entregue em marmita quente três vezes
ao dia. A última reivindicação dos 1636
presos foi a ampliação do tempo de visita íntima,
um momento em que podem ter encontros a sós com suas
mulheres e namoradas, de quinze para trinta minutos. Com um
tratamento digno para os presos, os municípios do Distrito
Federal saíram ganhando. De 1990 para cá foram
libertados 462 presos. Desses, apenas dezenove retornaram
à Papuda. Pode-se supor que boa parte conseguiu voltar
a uma vida longe da delinqüência.
Direção Contrária - A decência
de um presídio também faz bem aos cofres públicos.
Nos Estados Unidos, já se comprovou ser mais barato
manter uma prisão com aparência de hotel cinco
estrelas, onde não há muros nem um forte aparato
de segurança, do que manter um presídio de segurança,
máxima. Na prisão de Daribury Camp, próxima
a Nova York, onde o ex-banqueiro Antonio Gebauer cumpriu pena,
há celas de 9 metros quadrados para dois presos, lanchonetes
e salões de jogos e ginástica. Ali, um preso
custa entre 13 e 20 dólares por dia. Nos presídios
de alta segurança, o custo sobe a 70 dólares
diários. No Estado de São Paulo, caminha-se
na direção contrária. Em dois governos,
o anterior e o atual, foram construídas 22 prisões,
todas de segurança máxima, onde o preso fica
24 horas por dia com direito apenas a banhos de sol. Seria
até mais barato, e talvez mais eficaz, construir prisões-albergues,
onde os presos passam a noite e têm direito a trabalhar
fora durante o dia. "Esse sistema aberto só funciona
em cidades pequenas, onde é possível conhecer
os presos bem e fiscalizar o cumprimento da pena", afirma
o juiz Antonio Filardi Luíz, cotado para assumir a
nova Secretaria para Assuntos Penitenciários de São
Paulo, prestes a ser criada pelo Palácio dos Bandeirantes.
"Do contrário, começa a gerar impunidade",
diz Filardí.
O
juiz João Baptista Herkenhoff, do Espírito Santo,
tem opinião diversa. Ele examinou os processos criminais
que passaram pela 1ª Vara Criminal de Vila Velha, na
Grande Vitória, entre 1970 e 1980. Comparou os indiciados,
acusados e réus que foram solos das prisões
com os que ficaram em prisão fechada. No grupo dos
noventa que se beneficiam de medidas liberais, sete voltaram
a responder a processo. No grupo dos 116 que permaneceram
na prisão, 25 sofreram novo processo. O resultado de
sua pesquisa foi convertido no livro Crime - Tratamento sem
prisão. "Creio que as prisões têm
sido um dos principais fatores no aumento da criminalidade",
escreveu Hèrkenhoff. O sociólogo Sérgio
Adorno, do Núcleo de Estudos da Violência, da
USP, chegou a conclusão parecida. Comprovou, com dados
estatísticos que as prisões funcionam como fábrica
de criminosos. Adorno examinou as fichas dos detentos da Penitenciária
do Estado entre 1974 e 1985, e descobriu que a taxa de reincidência
mantinha relação o tratamento recebido na prisão.
Voltaram os que tinham recebido o maior número punições,
como advertências e prisão temporária
em cela forte. Outro dado d levantamento: 81% dos reincidentes
da Casa de Detenção paulista, onde a sabidamente
infernal.
Como
o sistema penitenciário do não passa por uma
análise séria, não se sabe o que se terá
no futuro. Prisões menores ou maiores? Abertas ou fechadas?
Urbanas ou rurais? Com simples reclusão ou com exigência
de trabalho por preso? Há que se debater até
a utilidade Código Penal escrito, em 1940, época
em que o Brasil era um país totalmente diferente do
que é hoje. Na semana passada, no calor do massacre
na Casa de Detenção, o advogado Antônio
Mariz de Oliveira defendeu uma revisão nesse sistema
de penas. "A pena privativa da liberdade não é
o instrumento adequado para recuperação do delinqüente
e a defesa da sociedade", escreveu ele, em artigo publicado
no jornal O Estado de S. Paulo. "Cadeia apenas para os
de comprovada periculosidade , concluiu Mariz, que já
foi presidente da OAB paulista e secretário de Justiça
e Segurança do Estado.
Uma
reforma no Código Penal no sentido de prever penas
mais liberais traria benefícios imediatos. Em primeiro
lugar, aliviaria a superlotação. Em segundo,
diminuiria os gastos do Estado para manter prisões
gigantes. Por fim, faria um bem à sociedade ao evitar
que um detido pelo furto de três pacotes de cigarros
convivesse na cela com um condenado por dezessete homicídios
e saísse da prisão mais perigoso do que entrou.
Bomba incendiária - É óbvio que
a questão carcerária não é prioridade
no Brasil, mas é um barril de pólvora. Afinal,
o que se pode exigir de alguém que tenha passado dez
anos na penitenciária Barreto Canipelo, em Itamaracá,
no litoral de Pernambuco? Ali, as celas inundam com 20 centímetros
de água quando chove muito e as instalações
sanitárias, entupidas, costumam espalhar pelas celas
fezes e urina que deveriam correr pela rede de esgoto. Há
seis meses, nessas terríveis condições
sanitárias, um surto de cólera atingiu 86 detentos.
Há
uma massa de agentes penitenciários despreparada. para
o ofício de cuidar de um preso e de uma prisão.
Na Casa de Detenção, eles ganham entre 800 000
e 2 milhões de cruzeiros por mês e é uma
rotina a falta ao serviço. 0 despreparo fatal aconteceu
em outubro do ano passado quando trinta presos do presídio
Ary Franco, na Zona Norte do Rio de Janeiro, morreram queimados
com a explosão de uma bomba incendiária na cela,
que elevou a temperatura do local a 1500 graus centígrados,
igual à dos altos-fornos das siderúrgicas. Quem
atirou o artefato foi um agente penitenciáno que queria
conter um tumulto na cela.
O
desleixo é tão grande que mesmo quando se busca
uma alternativa cometem-se absurdos. O ex-ministro da Justiça
Ibrahim Abi-Ackel, por exemplo, autorizou a construção
de um presídio agrícola em Manaus com as portas
das celas de aço inteiriço. Tomou a vida dos
presos insuportável numa cidade onde a temperatura
chega facilmente aos 40 graus centígrados. Na época,
a moda eram os institutos penais agrícolas, onde os
detentos podem traba-lhar na sua própria horta. Foi
outra experiência mal-sucedida. Em São Paulo,
39% dos, detentos, segundo uma pesquisa feita em meados da
década passada, vêm da zona urbana e só
8% de áreas rurais. Portanto, os presos se ocupavam
com um ofício que dificilmente exerceriam ao sair da
prisão. Até a laborterapia, a idéia de
ocupar o preso corri alguma atividade, acabou deformada. A
maioria dos presídios que a aplicam oferece aos presos
atividades como costurar bolas e fazer pregadores de roupa,
ofícios que também não costumam exercer
quando recuperam a liberdade. "A laborterapia, do jeito
que está sendo aplicada, não serve para nada",
afirma o professor Vinícius Caldeira Brandt, da Universidade
Federal de Minas Gerais, que fez uma pesquisa sobre o assunto.
"Funciona apenas como passatempo para as horas de ócio".
Sem
dinheiro e sem uma discussão frutífera, o Brasil
caminha para novas explosões do porão. As autoridades
não sabem o que fazer com os presos e divergem sobre
a melhor maneira de tratá-los. "O fato é
que os bichos do zoológico são mais bem tratados
do que os presos", admite o presidente do Conselho de
Política Criminal e Penitenciária, Edriunido
Oliveira. Então, para que as prisões ascendam
à condição de zoológico é
preciso enfrentar o problema. E soluções para
diminuir a delinqüência e fazer com que os criminosos
de ontem possam ser os cidadãos corretos de amanhã
existem. Em 1770, a Inglaterra descobriu um novo pedaço
de terra para instalar os tentáculos do reino. Dezessete
anos depois, percebeu que suas prisões estavam superlotadas
e resolveu despachar uma multidão de condenados para
o novo território. A colônia tornou-se livre
e o país foi construído pela horda de condenados.
Hoje, é uma grande nação chamada Austrália
e está entre as mais bem-sucedidas do planeta, com
uma população de 17 milhões de pessoas
que vivem muito bem com uma renda per capita de 17 000 dólares.

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