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O horror no Carandiru
DATA: 14/10/92
EDIÇÃO: 1257
PÁG.: 20-27
 

REPORTAGEM DE VEJA

O horror, o horror

Em meia hora, a Polícia Militar mata 111 presos da Casa de Detenção de São Paulo, no maior massacre penitenciário dos últimos vinte anos

Milton Abrucio Jr. e Mônica Bergamo

O "Barba" tinha vendido uma porção de maconha ao "Coelho" na semana anterior e queria receber seus 15 000 cruzeiros - ou três maços de cigarros, na moeda da Casa de Detenção, parte do complexo presidiário do Carandiru. "Você é um pilantra", reclamou Barba. "Não serve para estar aqui", berrou antes de subir o lance de escadas entre o 2º e o 3º andares. Arrumou um pedaço de pau e voltou. Coelho já o esperava, de estilete em punho. Na confusão, o sarrafo mudou de mãos. Barba levou uma paulada e Coelho foi espancado pelos outros presos. A briga chamou a atenção das facções que reproduzem no Carandiru as áreas de atuação dos bandidos em São Paulo. O pernambucano Barba, Antônio Luiz Nascimento, 36 anos, condenado a 21 anos e quatro meses por latrocínio, agia na Zona Oeste de São Paulo. Coelho, Luis Tavares de Azevedo, 23 anos, também pernambucano, está cumprindo onze anos e sete meses por assalto a banco. Integra a falange da Zona Leste. Em poucos minutos, havia cinqüenta presos de cada lado.

Trocavam socos, pauladas e estiletadas. Era 1 e meia da tarde da sexta-feira 2 de outubro. Começava ali, na disputa por três maços de cigarros, a morte de 111 homens, a maior carnificina presidiária de que se tem notícia nos últimos vinte anos. Começava ali o sórdido jogo de acobertamento protagonizado pelo governador Luiz Antonio Fleury Filho. Explodia ali, a toda, a miséria do sistema penitenciário brasileiro.

No bairro paulistano do Carandiru, Zona Norte da cidade, 300 detentos do Pavilhão 9 da Casa de Detenção acompanhavam um jogo de bola no pátio quando a briga começou. Os outros perambulam pelas 453 celas do prédio de cinco andares. O pavilhão é o mais abarrotado do maior presídio do país. Projetada para 3 300 presos, a Detenção hospedava 7 119 naquele dia. No Pavilhão 9 cabem 1 000 detentos. Todos pararam para ver ou participar do confronto. Só dez carcereiro tinham ido trabalhar. Deviam ser dezoito. Isso é da rotina de férias, faltas e licenças. Funcionários dos outros seis pavilhões saíram em socorro do chefe de vigilância do prédio, João Almir. Meia centena de agentes tentou trancar as celas do 2º andar e a porta que separa os dois pavimentos. Os detentos quebraram os cadeados. A briga recomeçou.


"O Alarme" - "Isso aqui é briga de ladrão, funcionário não tem nada que se meter", avisou um detento. Cercados pelos dois grupos, os carcereiros bateram em retirada. Donos do prédio, os presos acertavam desavenças antigas a pauladas e destruíram as instalações. Quebraram as dependências da administração, a sala dos carcereiros e a da chefia da segurança, no térreo. Sobraram intactos o templo de Umbanda e o salão da barbearia. "Soa o alarme aí", gritou o vigilante Carlito Siqueira para os policiais militares que vigiam a Detenção do alto das muralhas. As 14h30, por alguns instantes o apito da sirene encobriu a balbúrdia no Pavilhão 9. Os carcereiros tranca-ram o portão principal. Por um telefone direto, o policial da guarita mais próxima acionou o 12 Batalhão de Polícia e Guarda, instalado atrás do presídio. Em menos de meia hora, 341 policiais enfileiravam-se do lado de fora.

O tenente-coronel Antônio Chiari alinhou seus 51 homens do 1º Batalhão de Choque, Rota. Seu colega Édson Faroro, do 2º Batalhão, comandava 125 soldados. Mais 74 PMs e treze cães do 3º Batalhão, sob a chefia do tenente-coronel, Luiz Nakaharada, completavam a tropa de choque. No reforço, o capitão Wanderley Mascarenhas che-fiava os 25 integrantes do Grupo de Ações Táticas Especiais, Gate. O Comando de Operações Especiais, COE, tinha dezesseis policiais no local - Outros 45 PMs davam cobertura. Na chefia do total de 341 homens postou-se o coronel Ubiratan Guimarães, do Comando de Policiamento Metropolitano, CPM. Ele foi avisado da revolta por telefone, pelo diretor da Casa de Detenção, José Ismael Pedrosa. "A coisa está feia", disse-lhe Pedrosa pouco depois do alarme. Ubiratan saiu imediatamente do gabinete. "Quero comandar isso pessoalmente", avisou ao chefe do Estado-Maior do CPM, Hermes Bittencourt Cruz.


As Barricadas - A briga já durava uma hora e meia. Repórteres e câmaras de TV já estavam na frente da Casa de Detenção. Com a movimentação dos policiais, os presos do Pavilhão 9 trocaram a briga entre eles pela preparação de um combate contra os policiais. "Vimos a tropa de choque na televisão e escrevemos faixas pedindo negociação", diz o preso Antônio Pereira da Silva. "Como não aconteceu nada, empilhamos os colchões e colocamos fogo para preparar a defesa." Também jogaram óleo de cozinha nas escadas, para dificultar o acesso dos policiais. Apagaram as luzes com um curto-circuito na casa de força. Estouraram os encanamentos de água. Armaram uma barricada na entrada do pavilhão e passaram cadeados nos portões. Pelas grades das janelas, os detentos do Pavilhão 8, que reúne 1 194 reincidentes, acompanhavam a movimentação. Ofereceram-se para ajudar. "Pedimos que o diretor escolhesse uma comissão de negociação", diz Ary da Silva, 29 anos, condenado a dois anos por assalto. "Ninguém nos levou a sério."

Às 15h30 o coronel Ubiratan recebeu a ordem para entrar no Pavilhão 9. Quem lhe deu a ordem foi o secretário da Segurança Pedro Franco de Campos, pelo telefone. "Vocês têm autorização do governador Fleury para entrar", explicou o secretário, conforme contou depois a outros comandantes. "Esta situação pode complicar as eleições de amanhã", encerrou Pedro Franco. Da sala da diretoria até a muralha do pavilhão rebeleda, o coronel Ubiratan, o diretor e o juiz Fernando Antônio Torres Garcia, um dos três que foram acompanhar a ação, passaram por seis portões. O sétimo estava fechado a cadeado e bloqueado por uma barricada de pedras, tijolos e ferros. Cinco soldados do Corpo de Bombeiros, chamdao para debelar os focos de incêndio, derrubaram o portão com uma alavanca. Protegido por um pelotão de soldados que o envolviam com escudos, o diretor tentou negociar.


O Anúncio - "Todos devem se recolher a suas celas", berrou o diretor. Choveram pedras e telhas. Choveu até um vaso sanitário. "Percebemos que seria necessária uma ação enérgica", recorda o capitão Arivaldo Sérgio Salgado, comandante do COE. O diretor recuou e a ação enérgica foi iniciada. Com um grande alicate, homens do Gate e do COE cortaram os fechos da porta. Dividida em pelotões de vinte homens, s tropa de choque ocupou o térreo. Duas dezenas de presos renderam-se imediatamente. Policiais com escudos e coletes à prova de bala foram mandados para o andar de cima. Atrás deles, o coronel Ubiratan não avançou muito. Subia a escada quando um tubo de televisão explodiu poucos centímetros à sua frente. Quase desmaiou. Foi retirado do pavilhão pelo coronel Wilton Parreira Filho. Os chefes dos batalhões de choque assumi-ram o comando dentro do prédio. Nenhum agente penitenciário, nenhum juiz nem o assessor especial da Secretaria de Segurança, Antônio Filardi, enviado ao local por Pedro Franco, lembram-se de ter ouvido tiros até o momento da invasão pela polícia.

Eram 4 horas da tarde. Começam os trinta minutos decisivos, a meia hora de horror. Há pouca luz e muita fumaça no corredor de pouco mais de 2 metros de largura. A PM tem lanternas. Os presos correm entre as celas. Xingam os policiais. "Aqui é o choque", anunciam os soldados no 2º pavimento. 'Chegou a morte", gritam, raivosos e ameaçadores. São alvejados por sacos de urina e fezes. Os presos brandem estiletes sujos de sangue. "Vocês vão morrer de Aids", desafiam os detentos. Uma saraivada de tiros ecoa pelo prédio. "O japonês entrou atirando para o alto e depois saiu metralhan-do dentro das celas", conta José Nonato da Silva, 29 anos, condenado a seis por assalto a mão armada. "Vi ele matar o 'Japão', o 'Kico', o 'Nenê', o Cláudio, o Paulo e o 'Bahia' ", completa Jair Osério, 28 anos, quinze de pena por latrocínio. O "japonês" é o coronel Nakaharada. Ele tem nas mãos uma metralhadora Beretta 9 milímetros, uma maravilha bélica capaz de cuspir dez balas por segundo. Entre sargentos e ofi-ciais, há 43 pessoas na Detenção autorizadas a portar Berettas. Entram também 43 que levam facas na cintura. Cabos e soldados portam revólveres calibre 38 (tambor de seis tiros) e escopetas calibre 12, arma que pode abrir um rombo de 15 centímetros de diâ-metro no peito de um preso.


O Fuzilamento - Pelo que ouvem no andar de baixo, os presos do 3º pavimento preparam-se para a rendição. "Como a polí-cia mandava bala lá embaixo, tiramos a roupa para provar que não atacaríamos", recorda Antônio Pereira da Silva, da cela 9303-1, que tem três ocupantes. "Eu fiquei atrás da porta, o 'Zebu' estava atrás da privada e o Zé Carlos ficou na cama." Os policiais dão ordem para sair e deitar no chão, mas um deles manda deter Zé Carlos. "Esse aí. não". ordena aos colegas. "Encosta ele na parede", determina. E atira. "Virei para ver o que aconteceu", narra Antônio. O PM enfiou a faca no meu pé e tentou me acertar o olho. Me defendi com a mão. Um corte profundo na mão direita avaliza seu depoimento. Na cela 9307-E. oito presos espremiam-se no banheiro. Um permanece sentado na cama. Entra um policial atirando. "Estamos desarmados", grita Díonísio Paíva Filho, o "Didi", 29 anos, cinco anos e quatro meses de condenação por assalto a mão armada. De nada adianta. 0 policial dispara contra o preso que está na cama e sai.

Folha Imagem
Rastros da violência praticada pelos policiais: o preso nu assassinado peloas costas

Passam-se alguns minutos. Aparecem na mesma cela outros três soldados, também atirando. No banheiro, apontam para quatro detentos que estão no chão, encolhidos. Dois dos detentos são os cariocas João Rodrigues Vasquez e Antonio Márcio dos Santos Fraga. Foram presos em Tatuí, no interior paulista, por receptação de carro roubado, e esperam desde o mês passado a remoção para o Rio de Janeiro. "O guarda chamou um carioca e encostou o revólver na cabeça dele", relata Dioníso. "Perguntou-se ele estava assustado, e ele respondeu pedindo pelo amor de Deus para não morrer." O PM atira três vezes. Dionísio sobreviveu. "Eu fiquei embaixo do 'Zé' e do Antônio", ele lembra. No meio da fuzilaria, Dionísio ouve a voz de um dos amigos. "Didi, eu estou morrendo", diz um dos homens sob o qual se esconde. "Me socorre, me ajuda", implora. Didi responde num sussurro. "Não posso. Se eu levantar os homens me matam". Não há mais resistência na Casa de Detenção. Só fuzilamentos.


Os Zés- "Quer morrer de faca ou de revólver", pergunta um policial apontando a arma para a cabeça de um detento. "Ele não respondeu e morreu de tiro", lembra Edrialdo Pereira, 25 anos, da cela 9343-1, condenado a três anos e quatro meses por tentativa de roubo. "Viva o choque", gritam os soldados diante da cela 9339-E. Enfiam o cano da metralhadora pela abertura da porta e massacram oito prisioneiros. "Quase morri de medo", diz Reinaldo Aparecido Rodrigues, 35 anos, que assistiu à execução. "Eu e outro preso ficamos embaixo dos oito que eles mataram na nossa cela", narra Davi Ferreira de Lima, 26 anos, ocupante da 9402-E. Ambos saem feridos. "As balas atravessaram os corpos deles e acertaram na gente". Um andar acima. Luís Carlos dos Santos Silva, 24 anos, refugia-se na cela 9512-E junto com doze companheiros. Leva cinco tiros, pelas costas. "Quando apareceram, deitamos de bruços, bem no cantinho da ceia", ele recorda. 'Vieram rajadas de metralhadora e mandaram levantar." Só quatro sobrevivem para obede-cer. Todos os presos são "Zé" para os PMs. "Vem aqui, 'Zé', chamam. "Grita Rota aí, 'Zé"' ordenam. -Morre aí, 'Zé'." Morrem todos os doze '26" da cela 9345-E, os onze da 9375-E, os cinco da 9385-E e os três da 9252-1, entre outras.

A varredura acaba quando a tropa alcança a última cela do 5º pavimento. Mas as sessões de sadismo ainda vão continuar. E o momento de levar os sobreviventes para o pátio. Para alcançar as escadas, os presos têm de passar por um corredor polonês, de cabeça baixa, entre chutes, coronhadas e ataques dos cães. "Tinha óleo no chão e eles mandavam a gente correr", conta Milton Abraflão, 29 anos. "Se o cara caísse, morria." As narrativas coincidem. "Deram uma facada no sujeito bem do meu lado', diz Renato Barbosa, 20 anos. "Depois me mandaram carregar o cara junto com outro companheiro." Ainda há execuções. "Passei por cima de gente morta e vi que eles levavam feridos para a sala de esportes", recorda Jair Osório. A sala de esportes fica no 2º pavimento. Ela guarda aparelhos de alterofilismo, flâmulas e troféus das equipes esportivas dos detentos. "Eles foram fuzilados lá dentro", denuncia Osório. No pátio, Osório vê atiçarem cães sobre presos reunidos na barbearia.


Os Corpos - Há sangue por toda parte. E fezes. E urina. E óleo. Às 17 horas, treze detentos são retirados da Casa de Detenção e levados ao Pronto Socorro de Santana. Desses, oito estão mortos. Muito mais tarde, ou-tros sete são encaminhados ao Hospital Mandaqui e dezenas recebem atendimento na enfermaria da prisão. Não há feridos graves para morrer durante a semana. O empilhamento dos mortos prossegue. Uma parte fica estocada no corredor do 2º andar, outro tanto na barbearia, mais alguns na sala de esportes e uns poucos espalhados pelo presídio. Alguns dos vi-vos são escolhidos para a faxina. O Gate e os batalhões de choque começam a retirada às 17h20. Nos dias seguintes alguns deles voltam à Casa de Detenção. Dessa vez para atiçar seus cães contra os parentes das vítimas que protestavam na frente do presídio. "Assassinos", gritam os parentes dos mortos.

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A faxina depois do massacre: os presos retiram os companheiros mortos

"Vimos a reprodução das cenas de um campo de extermínio nazista", diz o sociólogo Paulo Sérgio Pinheiro. Essa é parte da anatomia da maior matança num único presídio de que se tem notícia nos últimos vinte anos, como atesta um fax, da Fundação Penitenciária Internacional enviado da Suíça na quinta-feira ao ministro Maurício Corréa, da Justiça. Em 1971, no presídio de Attica, no Estado americano de Nova York, a ação de 1000 policiais contra 2 200 detentos, que controlavam a prisão há cinco dias, produziu quarenta mortos, entre eles dez reféns. Para exterminar cerca de 290 prisioneiros do Sendero Luminoso em três presídios, em 1976, o Exército peruano travou batalhas de até vinte horas. "Meu irmão morreu lá", conta o peruano Emesto Manilia Ortega, 31 anos, preso no Pavilhão 9 da Casa de Detenção. "Tive medo de morrer como ele", diz Ortega, cujo irmão não pertencia ao Sendero. Em dezenove anos de pesquisas, o historiador paulista Hemâni Donato catalogou 3 010 batalhas na História do Brasil. "Se fosse catalogada, esta estaria entre as raras que só tiveram baixas fatais de um dos lados", diz o historiador. Na batalha do Carandiru, a PM fez em meia hora um quarto do total de vítimas que o país acumulou em sua participação na II Guerra Mundial.

É noite de sexta-feira. Boa parte dos PMs já voltou para o aconchego do lar. São casas modestas na periferia, já que ganham pouco mais de 1 milhão de cruzeiros por mês. Encaram os filhos, as esposas, os vizinhos. Acabaram uma longa e fatigante jornada de trabalho. Mataram 111 pessoas. Agora podem dormir. E sonhar.

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