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REPORTAGEM DE VEJA
O
horror, o horror
Em meia hora, a Polícia Militar mata
111 presos da Casa de Detenção de São
Paulo, no maior massacre penitenciário dos últimos
vinte anos
Milton
Abrucio Jr. e Mônica Bergamo
O
"Barba" tinha vendido uma porção de
maconha ao "Coelho" na semana anterior e queria
receber seus 15 000 cruzeiros - ou três maços
de cigarros, na moeda da Casa de Detenção, parte
do complexo presidiário do Carandiru. "Você
é um pilantra", reclamou Barba. "Não
serve para estar aqui", berrou antes de subir o lance
de escadas entre o 2º e o 3º andares. Arrumou um
pedaço de pau e voltou. Coelho já o esperava,
de estilete em punho. Na confusão, o sarrafo mudou
de mãos. Barba levou uma paulada e Coelho foi espancado
pelos outros presos. A briga chamou a atenção
das facções que reproduzem no Carandiru as áreas
de atuação dos bandidos em São Paulo.
O pernambucano Barba, Antônio Luiz Nascimento, 36 anos,
condenado a 21 anos e quatro meses por latrocínio,
agia na Zona Oeste de São Paulo. Coelho, Luis Tavares
de Azevedo, 23 anos, também pernambucano, está
cumprindo onze anos e sete meses por assalto a banco. Integra
a falange da Zona Leste. Em poucos minutos, havia cinqüenta
presos de cada lado.
Trocavam
socos, pauladas e estiletadas. Era 1 e meia da tarde da sexta-feira
2 de outubro. Começava ali, na disputa por três
maços de cigarros, a morte de 111 homens, a maior carnificina
presidiária de que se tem notícia nos últimos
vinte anos. Começava ali o sórdido jogo de acobertamento
protagonizado pelo governador Luiz Antonio Fleury Filho. Explodia
ali, a toda, a miséria do sistema penitenciário
brasileiro.
No
bairro paulistano do Carandiru, Zona Norte da cidade, 300
detentos do Pavilhão 9 da Casa de Detenção
acompanhavam um jogo de bola no pátio quando a briga
começou. Os outros perambulam pelas 453 celas do prédio
de cinco andares. O pavilhão é o mais abarrotado
do maior presídio do país. Projetada para 3
300 presos, a Detenção hospedava 7 119 naquele
dia. No Pavilhão 9 cabem 1 000 detentos. Todos pararam
para ver ou participar do confronto. Só dez carcereiro
tinham ido trabalhar. Deviam ser dezoito. Isso é da
rotina de férias, faltas e licenças. Funcionários
dos outros seis pavilhões saíram em socorro
do chefe de vigilância do prédio, João
Almir. Meia centena de agentes tentou trancar as celas do
2º andar e a porta que separa os dois pavimentos. Os
detentos quebraram os cadeados. A briga recomeçou.
"O Alarme" - "Isso aqui é briga
de ladrão, funcionário não tem nada que
se meter", avisou um detento. Cercados pelos dois grupos,
os carcereiros bateram em retirada. Donos do prédio,
os presos acertavam desavenças antigas a pauladas e
destruíram as instalações. Quebraram
as dependências da administração, a sala
dos carcereiros e a da chefia da segurança, no térreo.
Sobraram intactos o templo de Umbanda e o salão da
barbearia. "Soa o alarme aí", gritou o vigilante
Carlito Siqueira para os policiais militares que vigiam a
Detenção do alto das muralhas. As 14h30, por
alguns instantes o apito da sirene encobriu a balbúrdia
no Pavilhão 9. Os carcereiros tranca-ram o portão
principal. Por um telefone direto, o policial da guarita mais
próxima acionou o 12 Batalhão de Polícia
e Guarda, instalado atrás do presídio. Em menos
de meia hora, 341 policiais enfileiravam-se do lado de fora.
O
tenente-coronel Antônio Chiari alinhou seus 51 homens
do 1º Batalhão de Choque, Rota. Seu colega Édson
Faroro, do 2º Batalhão, comandava 125 soldados.
Mais 74 PMs e treze cães do 3º Batalhão,
sob a chefia do tenente-coronel, Luiz Nakaharada, completavam
a tropa de choque. No reforço, o capitão Wanderley
Mascarenhas che-fiava os 25 integrantes do Grupo de Ações
Táticas Especiais, Gate. O Comando de Operações
Especiais, COE, tinha dezesseis policiais no local - Outros
45 PMs davam cobertura. Na chefia do total de 341 homens postou-se
o coronel Ubiratan Guimarães, do Comando de Policiamento
Metropolitano, CPM. Ele foi avisado da revolta por telefone,
pelo diretor da Casa de Detenção, José
Ismael Pedrosa. "A coisa está feia", disse-lhe
Pedrosa pouco depois do alarme. Ubiratan saiu imediatamente
do gabinete. "Quero comandar isso pessoalmente",
avisou ao chefe do Estado-Maior do CPM, Hermes Bittencourt
Cruz.
As Barricadas - A briga já durava uma hora e
meia. Repórteres e câmaras de TV já estavam
na frente da Casa de Detenção. Com a movimentação
dos policiais, os presos do Pavilhão 9 trocaram a briga
entre eles pela preparação de um combate contra
os policiais. "Vimos a tropa de choque na televisão
e escrevemos faixas pedindo negociação",
diz o preso Antônio Pereira da Silva. "Como não
aconteceu nada, empilhamos os colchões e colocamos
fogo para preparar a defesa." Também jogaram óleo
de cozinha nas escadas, para dificultar o acesso dos policiais.
Apagaram as luzes com um curto-circuito na casa de força.
Estouraram os encanamentos de água. Armaram uma barricada
na entrada do pavilhão e passaram cadeados nos portões.
Pelas grades das janelas, os detentos do Pavilhão 8,
que reúne 1 194 reincidentes, acompanhavam a movimentação.
Ofereceram-se para ajudar. "Pedimos que o diretor escolhesse
uma comissão de negociação", diz
Ary da Silva, 29 anos, condenado a dois anos por assalto.
"Ninguém nos levou a sério."
Às
15h30 o coronel Ubiratan recebeu a ordem para entrar no Pavilhão
9. Quem lhe deu a ordem foi o secretário da Segurança
Pedro Franco de Campos, pelo telefone. "Vocês têm
autorização do governador Fleury para entrar",
explicou o secretário, conforme contou depois a outros
comandantes. "Esta situação pode complicar
as eleições de amanhã", encerrou
Pedro Franco. Da sala da diretoria até a muralha do
pavilhão rebeleda, o coronel Ubiratan, o diretor e
o juiz Fernando Antônio Torres Garcia, um dos três
que foram acompanhar a ação, passaram por seis
portões. O sétimo estava fechado a cadeado e
bloqueado por uma barricada de pedras, tijolos e ferros. Cinco
soldados do Corpo de Bombeiros, chamdao para debelar os focos
de incêndio, derrubaram o portão com uma alavanca.
Protegido por um pelotão de soldados que o envolviam
com escudos, o diretor tentou negociar.
O Anúncio - "Todos devem se recolher a
suas celas", berrou o diretor. Choveram pedras e telhas.
Choveu até um vaso sanitário. "Percebemos
que seria necessária uma ação enérgica",
recorda o capitão Arivaldo Sérgio Salgado, comandante
do COE. O diretor recuou e a ação enérgica
foi iniciada. Com um grande alicate, homens do Gate e do COE
cortaram os fechos da porta. Dividida em pelotões de
vinte homens, s tropa de choque ocupou o térreo. Duas
dezenas de presos renderam-se imediatamente. Policiais com
escudos e coletes à prova de bala foram mandados para
o andar de cima. Atrás deles, o coronel Ubiratan não
avançou muito. Subia a escada quando um tubo de televisão
explodiu poucos centímetros à sua frente. Quase
desmaiou. Foi retirado do pavilhão pelo coronel Wilton
Parreira Filho. Os chefes dos batalhões de choque assumi-ram
o comando dentro do prédio. Nenhum agente penitenciário,
nenhum juiz nem o assessor especial da Secretaria de Segurança,
Antônio Filardi, enviado ao local por Pedro Franco,
lembram-se de ter ouvido tiros até o momento da invasão
pela polícia.
Eram 4 horas da tarde. Começam os trinta minutos decisivos,
a meia hora de horror. Há pouca luz e muita fumaça
no corredor de pouco mais de 2 metros de largura. A PM tem
lanternas. Os presos correm entre as celas. Xingam os policiais.
"Aqui é o choque", anunciam os soldados no
2º pavimento. 'Chegou a morte", gritam, raivosos
e ameaçadores. São alvejados por sacos de urina
e fezes. Os presos brandem estiletes sujos de sangue. "Vocês
vão morrer de Aids", desafiam os detentos. Uma
saraivada de tiros ecoa pelo prédio. "O japonês
entrou atirando para o alto e depois saiu metralhan-do dentro
das celas", conta José Nonato da Silva, 29 anos,
condenado a seis por assalto a mão armada. "Vi
ele matar o 'Japão', o 'Kico', o 'Nenê', o Cláudio,
o Paulo e o 'Bahia' ", completa Jair Osério, 28
anos, quinze de pena por latrocínio. O "japonês"
é o coronel Nakaharada. Ele tem nas mãos uma
metralhadora Beretta 9 milímetros, uma maravilha bélica
capaz de cuspir dez balas por segundo. Entre sargentos e ofi-ciais,
há 43 pessoas na Detenção autorizadas
a portar Berettas. Entram também 43 que levam facas
na cintura. Cabos e soldados portam revólveres calibre
38 (tambor de seis tiros) e escopetas calibre 12, arma que
pode abrir um rombo de 15 centímetros de diâ-metro
no peito de um preso.
O Fuzilamento - Pelo que ouvem no andar de baixo,
os presos do 3º pavimento preparam-se para a rendição.
"Como a polí-cia mandava bala lá embaixo,
tiramos a roupa para provar que não atacaríamos",
recorda Antônio Pereira da Silva, da cela 9303-1, que
tem três ocupantes. "Eu fiquei atrás da
porta, o 'Zebu' estava atrás da privada e o Zé
Carlos ficou na cama." Os policiais dão ordem
para sair e deitar no chão, mas um deles manda deter
Zé Carlos. "Esse aí. não".
ordena aos colegas. "Encosta ele na parede", determina.
E atira. "Virei para ver o que aconteceu", narra
Antônio. O PM enfiou a faca no meu pé e tentou
me acertar o olho. Me defendi com a mão. Um corte profundo
na mão direita avaliza seu depoimento. Na cela 9307-E.
oito presos espremiam-se no banheiro. Um permanece sentado
na cama. Entra um policial atirando. "Estamos desarmados",
grita Díonísio Paíva Filho, o "Didi",
29 anos, cinco anos e quatro meses de condenação
por assalto a mão armada. De nada adianta. 0 policial
dispara contra o preso que está na cama e sai.
Folha Imagem
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| Rastros
da violência praticada pelos policiais: o preso
nu assassinado peloas costas |
Passam-se
alguns minutos. Aparecem na mesma cela outros três soldados,
também atirando. No banheiro, apontam para quatro detentos
que estão no chão, encolhidos. Dois dos detentos
são os cariocas João Rodrigues Vasquez e Antonio
Márcio dos Santos Fraga. Foram presos em Tatuí,
no interior paulista, por receptação de carro
roubado, e esperam desde o mês passado a remoção
para o Rio de Janeiro. "O guarda chamou um carioca e
encostou o revólver na cabeça dele", relata
Dioníso. "Perguntou-se ele estava assustado, e
ele respondeu pedindo pelo amor de Deus para não morrer."
O PM atira três vezes. Dionísio sobreviveu. "Eu
fiquei embaixo do 'Zé' e do Antônio", ele
lembra. No meio da fuzilaria, Dionísio ouve a voz de
um dos amigos. "Didi, eu estou morrendo", diz um
dos homens sob o qual se esconde. "Me socorre, me ajuda",
implora. Didi responde num sussurro. "Não posso.
Se eu levantar os homens me matam". Não há
mais resistência na Casa de Detenção.
Só fuzilamentos.
Os Zés- "Quer morrer de faca ou de revólver",
pergunta um policial apontando a arma para a cabeça
de um detento. "Ele não respondeu e morreu de
tiro", lembra Edrialdo Pereira, 25 anos, da cela 9343-1,
condenado a três anos e quatro meses por tentativa de
roubo. "Viva o choque", gritam os soldados diante
da cela 9339-E. Enfiam o cano da metralhadora pela abertura
da porta e massacram oito prisioneiros. "Quase morri
de medo", diz Reinaldo Aparecido Rodrigues, 35 anos,
que assistiu à execução. "Eu e outro
preso ficamos embaixo dos oito que eles mataram na nossa cela",
narra Davi Ferreira de Lima, 26 anos, ocupante da 9402-E.
Ambos saem feridos. "As balas atravessaram os corpos
deles e acertaram na gente". Um andar acima. Luís
Carlos dos Santos Silva, 24 anos, refugia-se na cela 9512-E
junto com doze companheiros. Leva cinco tiros, pelas costas.
"Quando apareceram, deitamos de bruços, bem no
cantinho da ceia", ele recorda. 'Vieram rajadas de metralhadora
e mandaram levantar." Só quatro sobrevivem para
obede-cer. Todos os presos são "Zé"
para os PMs. "Vem aqui, 'Zé', chamam. "Grita
Rota aí, 'Zé"' ordenam. -Morre aí,
'Zé'." Morrem todos os doze '26" da cela
9345-E, os onze da 9375-E, os cinco da 9385-E e os três
da 9252-1, entre outras.
A
varredura acaba quando a tropa alcança a última
cela do 5º pavimento. Mas as sessões de sadismo
ainda vão continuar. E o momento de levar os sobreviventes
para o pátio. Para alcançar as escadas, os presos
têm de passar por um corredor polonês, de cabeça
baixa, entre chutes, coronhadas e ataques dos cães.
"Tinha óleo no chão e eles mandavam a gente
correr", conta Milton Abraflão, 29 anos. "Se
o cara caísse, morria." As narrativas coincidem.
"Deram uma facada no sujeito bem do meu lado', diz Renato
Barbosa, 20 anos. "Depois me mandaram carregar o cara
junto com outro companheiro." Ainda há execuções.
"Passei por cima de gente morta e vi que eles levavam
feridos para a sala de esportes", recorda Jair Osório.
A sala de esportes fica no 2º pavimento. Ela guarda aparelhos
de alterofilismo, flâmulas e troféus das equipes
esportivas dos detentos. "Eles foram fuzilados lá
dentro", denuncia Osório. No pátio, Osório
vê atiçarem cães sobre presos reunidos
na barbearia.
Os Corpos - Há sangue por toda parte. E fezes.
E urina. E óleo. Às 17 horas, treze detentos
são retirados da Casa de Detenção e levados
ao Pronto Socorro de Santana. Desses, oito estão mortos.
Muito mais tarde, ou-tros sete são encaminhados ao
Hospital Mandaqui e dezenas recebem atendimento na enfermaria
da prisão. Não há feridos graves para
morrer durante a semana. O empilhamento dos mortos prossegue.
Uma parte fica estocada no corredor do 2º andar, outro
tanto na barbearia, mais alguns na sala de esportes e uns
poucos espalhados pelo presídio. Alguns dos vi-vos
são escolhidos para a faxina. O Gate e os batalhões
de choque começam a retirada às 17h20. Nos dias
seguintes alguns deles voltam à Casa de Detenção.
Dessa vez para atiçar seus cães contra os parentes
das vítimas que protestavam na frente do presídio.
"Assassinos", gritam os parentes dos mortos.
Folha Imagem
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| A
faxina depois do massacre: os presos retiram os companheiros
mortos |
"Vimos
a reprodução das cenas de um campo de extermínio
nazista", diz o sociólogo Paulo Sérgio
Pinheiro. Essa é parte da anatomia da maior matança
num único presídio de que se tem notícia
nos últimos vinte anos, como atesta um fax, da Fundação
Penitenciária Internacional enviado da Suíça
na quinta-feira ao ministro Maurício Corréa,
da Justiça. Em 1971, no presídio de Attica,
no Estado americano de Nova York, a ação de
1000 policiais contra 2 200 detentos, que controlavam a prisão
há cinco dias, produziu quarenta mortos, entre eles
dez reféns. Para exterminar cerca de 290 prisioneiros
do Sendero Luminoso em três presídios, em 1976,
o Exército peruano travou batalhas de até vinte
horas. "Meu irmão morreu lá", conta
o peruano Emesto Manilia Ortega, 31 anos, preso no Pavilhão
9 da Casa de Detenção. "Tive medo de morrer
como ele", diz Ortega, cujo irmão não pertencia
ao Sendero. Em dezenove anos de pesquisas, o historiador paulista
Hemâni Donato catalogou 3 010 batalhas na História
do Brasil. "Se fosse catalogada, esta estaria entre as
raras que só tiveram baixas fatais de um dos lados",
diz o historiador. Na batalha do Carandiru, a PM fez em meia
hora um quarto do total de vítimas que o país
acumulou em sua participação na II Guerra Mundial.
É
noite de sexta-feira. Boa parte dos PMs já voltou para
o aconchego do lar. São casas modestas na periferia,
já que ganham pouco mais de 1 milhão de cruzeiros
por mês. Encaram os filhos, as esposas, os vizinhos.
Acabaram uma longa e fatigante jornada de trabalho. Mataram
111 pessoas. Agora podem dormir. E sonhar.

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