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REPORTAGEM DE VEJA
A chacina
das
crianças da Candelária
Sete
meninos de rua são assassinados
no Rio, o país se revolta, mas muitos
aplaudem o fuzilamento
O nome que se dá ao que aconteceu na noite de quinta
para sexta-feira no centro do Rio de Janeiro é chacina,
coletivo de assassinato frio, brutal, premeditado. O chocante
é que as vítimas foram sete crianças
e jovens de 11 a 22 anos. O inominável é que
todo dia quatro crianças brasileiras são chacinadas
em condições parecidas. Passava da meia-noite
e uns quarenta desses "meninos de rua", que a miséria
privou de um teto, dormiam sob as marquises do generoso pé-direito
de edifícios que margeiam a Igreja da Candelária.
Estavam embrulhados em cobertores puídos no chão
forrado por trapos de carpete. Chegaram dois Chevette, um
claro, que na escuridão foi descrito como bege ou amarelo,
outro café-com-leite, com uma faixa marrom nas laterais,
confundido com um táxi. Do bege saíram quatro
homens; do mais escuro, pouco depois, outros dois. Os homens
foram direto em direção a um garoto de cabelo
oxigenado.
-
Você é o "Russo"?
- Não conheço nenhum Russo. Meu nome é
Marco Antônio - respondeu com os olhos ainda semicerrados.
- Não adianta mentir - berrou o que parecia ser o líder
do bando.
A
gritaria assustou "Caveirinha", mulato franzino
de 17 anos, siamês de cobertor do falso louro, que saiu
correndo. Um dos homens mirou nele, mas o revólver
engasgou duas vezes. Seguiu-se a barulheira de uma fuzilaria.
Marco Antônio Russo e seus vizinhos foram os primeiros
atingidos à queima-roupa, com precisão profissional.
Tiros, quase sempre na cabeça, mataram três na
hora. Um deles, cambaleante, ainda atravessou a rua e emborcou
na grama, em frente à igreja. Russo, que se chama Marco
Antônio da Silva, levou um balaço no olho direito
e outro na coxa direita. Agoniza no CTI do hospital Souza
Aguiar com mínimas chances de sobreviver. O caçula
das vítimas, Paulo Roberto de Oliveira, o "Pimpolho",
que faria 12 anos na próxima semana, também
chegou vivo ao hospital - para morrer seis minutos depois.
DEUS
E O DIABO - A madrugada saturada de horrores não
ficou aí. Não se sabe direito se pouco antes
ou pouco depois do banho de sangue um Chevette amarelo, muito
possivelmente o mesmo da chacina, abordou três rapazes
a 500 metros da Candelária. Enfiados no carro, eles
foram baleados e atirados num canteiro em frente ao Museu
de Arte Moderna, a 3 quilômetros da outra matança.
Dois morreram. Wagner dos Santos, 22 anos, escapou com uma
bala que se alojou na nuca, a milímetros da coluna
cervical.
"Foi
Deus que me trouxe de novo", diz Wagner, com o rosto
deformado de hematomas e voz chorosa. Sua história:
dos quatro homens do carro amarelo, dois desceram, um deles
encapuzado, abriram o porta-malas, pegaram alguma coisa, talvez
armas, e imprensaram Wagner e seus dois colegas, Paulo e "Gambazinho",
que se presume tivessem 14 anos. O encapuzado tirou logo o
capuz. Era um homem alto, com um dente da frente quebrado.
"É a polícia", um deles gritou, antes
de começar a distribuir tapas, socos e chutes. Os meninos
foram enfiados no banco de trás do carro. Um homem
franzino, branco, de nariz afilado, com boné escuro,
sentou na barriga de Wagner e encostou o revólver na
sua cabeça. A última cena que viu foi um dos
homens que estavam no banco da frente, um moreno com cabelo
"baixo, tipo militar", dizer: "Tu se lembra
de mim, Paulo?" Levou um tiro e desmaiou. Acordou em
frente ao museu. A seu lado estava o corpo inerte de Gambazinho.
Ainda chutou o pé do companheiro para conferir se estava
vivo. "Ele não acordou, eu saí andando
e fui parar num posto de gasolina."
"Já
vi o diabo aqui, mas um caso assim, nunca", conta Paulo
César Afonso Ferreira, 57 anos, diretor do hospital
Souza Aguiar. Se lá onde desfilam diariamente os horrores
da violência o caso pareceu escabroso, imagine-se o
choque que não foi para Yvonne Lofgren Bezerra de Mello,
46 anos, artista plástica, casada com álvaro
Bezerra de Mello, um dos sócios da cadeia Othon de
hotéis. Essa senhora elegante, que dedica boa parte
de seu tempo a cuidar de meninos de rua, foi acordada por
volta da 1 da manhã com um telefonema. "Tia, aconteceu
uma coisa horrível, uma chacina", dizia do outro
lado da linha um menino apavorado. Em menos de vinte minutos
estava no cenário horripilante da Candelária.
VENDETA
- Depois que o rabecão levou os mortos, às 3h30,
Yvonne ficou sozinha com aquele bando de meninos e meninas
que entretém e ajuda a alfabetizar. Como não
apareceu ninguém, fez várias viagens em sua
Quantum levando cada vez grupos de oito crianças para
a delegacia mais próxima, onde elas acabaram passando
o restinho de noite. Enquanto estava de joelhos na calçada,
Yvonne chorou toda a água do corpo ouvindo depoimentos
como o de um menino que só não morreu porque
estava embaixo de um dos baleados. Depois se controlou, foi
para casa, mas às 8 da manhã os meninos telefonaram
de novo pedindo para ela voltar. Só com sua presença
dariam depoimento à polícia. às 10 da
manhã, tudo terminado, foi correr uma hora na praia,
"para não tomar um Lexotan" (tranqüilizante).
à tarde, sempre com a corda da emoção
esticada, faria desabafos: "O que este país está
fazendo com a sua infância?"
Está
abandonando e matando. No ano passado, só no Rio, foram
mortos 424. Neste ano, só no primeiro semestre, mais
320. Dos males genéricos, mas verdadeiros, Yvonne citou
a "omissão das elites" e a indiferença
à pobreza. Mesmo longe da cidade, em Barra do Piraí,
onde repousa por causa de uma estafa, o sociólogo Herbert
de Souza, o Betinho, avança mais. "Existe na sociedade
brasileira uma parcela significativa de pessoas que defendem
o extermínio de crianças", afirma. "E
existem também nas corporações policiais
pessoas dispostas a cumprir essa terrível tarefa."
Levanta-se
no caso da Candelária a hipótese de uma vendeta
policial. Na quinta-feira à tarde, um rapaz conhecido
como Neilton, 19 anos, foi preso na Candelária vendendo
três latas de cola de sapateiro, que entorpece o cotidiano
sem horizontes de crianças que vivem nas ruas. Houve
confusão. Os meninos jogaram pedras contra um carro
da Polícia Militar, quebrando o vidro lateral traseiro
e ferindo no rosto um soldado. Os PMs levaram Neilton e, no
trajeto até a delegacia, um deles ameaçou: "Se
você quiser continuar vivo, passa a noite fora daqui
que o couro vai comer". Neilton tinha notas fiscais da
compra da cola e foi solto. Voltou à Candelária
e contou a Russo, o líder dos meninos da Candelária,
a ameaça que ouviu.
Russo
não deu muita bola. Era só mais uma das muitas
ameaças que já ouvira. Na quinta-feira, menos
de doze horas antes de ser baleado, declarou a uma repórter
do jornal O Dia que estava ameaçado de morte por policiais.
"Existe um grupo de extermínio de menores aqui
no centro", denunciou. Nem um pingo de paranóia.
Com outras palavras o secretário de Polícia
Civil e Justiça, Nilo Batista, diz exatamente a mesma
coisa: "Sabemos que existem pessoas nas redondezas da
Candelária que se sentem incomodadas por esses meninos".
Não diz quem. Semanas antes da Conferência sobre
Meio Ambiente, promovida no Rio pela ONU em 1992, os meninos
que dormiam nas calçadas perto da Candelária
foram varridos dali. Sumiram. Yvonne, por exemplo, nunca mais
os viu.
Funcionários
da prefeitura ouviram a versão de que tudo foi obra
de comerciantes da região que não queriam os
meninos por ali. Eles teriam espalhado ameaças que
afugentaram as crianças. Tudo sem dúvida muito
vago, mas ao mesmo tempo muito próximo das suspeitas
do próprio Nilo Batista. Só que há dois
meses, aos poucos, outros meninos foram ocupando o lugar.
E o incidente da quinta-feira à tarde pode ter sido
a gota d'água para os que se aborrecem tanto com a
presença deles. Yvonne admite que os meninos vivem
de praticar pequenos furtos para sobreviver e aos sábados
levar dinheiro para as mães ou as avós. "Não
sei se ele mexia com drogas, se ele roubava, não sei
de nada", dizia, desolada, Ana Maria de Oliveira, mãe
de Pimpolho, ao deixar liquefeita em lágrimas a sala
do Instituto Médico-Legal, onde reconheceu o corpo
de um de seus cinco filhos. O que havia de concreto, até
a manhã de sábado, era o retrato falado de um
dos assassinos.
Ana
Maria estava desarvorada demais para ouvir comentários
esparsos de passantes na calçada em frente ao IML.
Um deles repetia para quem quisesse ouvir: "Tem que matar
mesmo". A sexta-feira não foi feita só
de espanto e indignação. Trouxe à tona
a patologia da violência. A partir das 17h15, o governo
do Estado veiculou em rádios e emissoras de televisão
um apelo para que quem soubesse de algum fato que contribuísse
para a elucidação da chacina ligasse para o
telefone 220-6442. Na primeira hora ligaram 25 pessoas, duas
com denúncias sobre a matança. Mas o dobro delas
telefonou para festejar a brutalidade. Diziam coisas do tipo:
"Deviam ter matado todos", "Esses pivetes têm
que morrer", "Ainda foi pouco, deviam arrancar a
cabeça deles".
ANJOS
E DEMÔNIOS - Que não se tomem essas manifestações
como passatempo de alucinados que não têm mais
o que fazer. Durante as três horas do programa Show
de Notícias, apresentado pela jornalista Liliana Rodriguez
na Rádio CBN, 23 pessoas ligaram para falar sobre a
fuzilaria. Todas apoiaram a chacina. Liliana leu em tom indignado
uma espécie de editorial, com uma metáfora infelicíssima.
"As crianças geralmente dormem com os anjos. No
caso das que estavam na Candelária, elas acordaram
com os anjos." Uma ouvinte ligou para protestar: "Você
confundiu anjo com demônio". Muito mais revelador
sobre os sentimentos despertados com a aspereza do dia-a-dia
foi o telefonema de uma senhora da Tijuca, Zona Norte da cidade.
Seu único filho, contou, foi assaltado e morto na Praça
Saens Peña, supostamente por meninos de rua. "Eles
tiraram a única coisa que me restava na vida",
disse. "Mereciam a morte."
Falava
dos que mataram seu filho como se fossem os mesmos que dormiam
e foram fuzilados na Candelária. Generalizava um sentimento
que o coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, secretário
de Polícia Militar, também capta nas ruas. "Tem
muita gente feliz com isso, achando que é isso mesmo."
Na verdade, na chuvarada de declarações da sexta-feira
apareceu muito mais vezes a palavra "barbárie"
do que "bem feito". "Estou horrorizado",
disse em nota o presidente Itamar Franco. Em sua sinuosa retórica,
o governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, não
deixou de aproveitar o ensejo para atirar a culpa em seu desafeto
predileto, Roberto Marinho, e na Rede Globo. Mas também
disse: "Há como nunca se viu uma vigorosa reação
de repúdio e indignação da opinião
pública frente a esse crime brutal".
A
reação, de fato, foi imediata. No início
da tarde de sexta-feira, pessoas ligadas a organizações
de defesa dos direitos humanos, em geral, e dos meninos de
rua, em particular, foram para a calçada ainda coberta
de enormes manchas de sangue. Lá colocaram dois grandes
caixões, cinco pratos de alumínio com cartuchos
de balas e fincaram no gramado da Praça Pio X, em frente
da Igreja da Candelária, uma cruz de madeira coberta
por um pano preto. O grupo de manifestantes velava por meninos
que mal têm nome e sobrenome e vivem desgarrados da
família. A mãe de Pimpolho não via seu
filho havia um mês. "Ele saiu de casa dizendo que
ia comprar pão e sumiu", conta Ana Maria. Não
era a primeira vez. Seu filho revoltado e fujão já
havia aprontado outras vezes. O segundo de seus cinco filhos,
Fábio, de 10 anos, também vive nas ruas e ela
não vê o menino há tempos. E o pai dos
meninos? "Acho que o nome é Rogério Menezes
de... o resto eu não me lembro".
"Essas
crianças foram excluídas da categoria de seres
humanos, são animais perigosos que colocam em risco
os adultos, e por isso querem eliminá-las", opina
Betinho. Não se pode confundir o que aconteceu com
a violência que vandaliza a rotina numa cidade como
o Rio de Janeiro. Valério Polido, o frentista do posto
de gasolina Maquiné que atendeu Wagner dos Santos,
um dos dois sobreviventes, não se diz assustado por
recolher um "morto-vivo". "Eu moro na Baixada
Fluminense. Quem vive lá não pode se assustar
com pouca coisa. Lá matam logo meia dúzia."
Valério está enganado. O que aconteceu na Candelária
foi uma afronta proposital. "Fizeram isso para chocar",
diz Betinho. "E chocaram."
O anjo da guarda
dos mortos
Rica
e bonita, a escultora
cuida dos abandonados
Desde
maio, a artista plástica Yvonne Bezerra de Mello, 46
anos, é o anjo da guarda dos 45 meninos e meninas de
rua que viviam na Candelária. Rica e bonita, poderia
passar as tardes jogando tênis no Country Club. Não
consegue. Há seis anos, Yvonne cuida de quinze meninos
que vivem no Posto 6, em Copacabana, e acolhe em seu ateliê
no Santo Cristo, na zona portuária, vinte crianças
das redondezas. Sua lógica é simples. "Se
todo mundo cuidasse dos menores abandonados que estão
na sua porta, a situação da infância brasileira
seria bem diferente", prega. "Os governantes têm
culpa, mas nós, as elites, também".
Todos
os dias, escoltada por um motorista, Yvonne sai de seu luxuoso
apartamento na Gávea, na Zona Sul, levando a bordo
de um Santana Quantum farto carregamento de pão, mortadela
e suco de laranja para seus protegidos. Mas não é
só. Leva carinho também. Rolex no pulso, faz
curativos, ensina a desenhar e escrever, lê reportagens
sobre violência e preconceito racial em voz alta e debate
noções de cidadania. "Eu sou o elo deles
com o mundo bonito", acredita essa ex-estudante de Letras
que, aos 18 anos, militando no Projeto Rondon, foi apresentada
à miséria no sertão do Ceará.
Um dia, viu um bebê agonizando no chão de um
casebre, o corpo coberto de picadas de formiga. "Se ele
não for morrer, a senhora diz logo porque eu apago
a vela", ouviu da mãe. "É a última
que eu tenho." O bebê morreu. "Decidi ali
que jamais ficaria de braços cruzados diante do sofrimento
de uma criança", diz Yvonne.
O
telefonema que recebeu de um sobrevivente da chacina na madrugada
de sexta-feira foi o segundo em poucos dias. Segunda-feira,
Yvonne tinha sido acordada para socorrer Jaqueline de Souza
da Silva, 13 anos, também da Candelária, que
teve um ataque epiléptico por cheirar cola. Na calçada
que ainda ficaria encharcada com o sangue de seus companheiros,
Jaqueline, instigada por Yvonne, tinha escrito uma redação
falando em futuro: "Quando eu cresce eu quero ser uma
boa menina e trabalhar em loja ou ser uma professora para
eu ganhar um bom dinheiro e ajudar minha mãe e minha
vó e meus irmões e toda minha família".
Yvonne luta para que esse futuro tão improvável
não deixe de ser possível. É um trabalho
árduo. "É como se tivessem matado meus
filhos", diz Yvonne.
A morte como rotina
A
matança da Candelária é
apenas o símbolo de um crime
diário num país anestesiado
A
reação surgiu primeiro fora do Brasil. Anestesiado
diante do tratamento que se dá à infância
pobre em suas metrópoles, o país vem se tornando
objeto de espanto em fóruns internacionais. No seu
relatório anual, divulgado há apenas duas semanas,
a Anistia Internacional, mais respeitada organização
de defesa dos direitos humanos do mundo, parecia estar fazendo
uma premonição. A Anistia denunciou a matança
de crianças no Brasil e citou a polícia e "os
esquadrões da morte" como responsáveis
por muitos desses crimes. "Em muitos casos, nenhum inquérito
policial é concluído ou encaminhado ao Poder
Judiciário", informa o relatório. O Fundo
das Nações Unidas para a Infância, Unicef,
também destacou o Brasil no seu último documento
a respeito da situação em que se encontram as
crianças no mundo.
Eis
uma fama merecida. A chacina das crianças na Candelária,
na sexta-feira passada, está longe de ser um acontecimento
solitário na crônica criminal brasileira. Foi
apenas o que mais chocou a opinião pública.
No ano passado foram executados, em média, 4,2 menores
por dia no Brasil. Nem na Bósnia estão morrendo
tantas crianças assassinadas. Na véspera do
Natal de 1990, três meninos foram mortos na Cinelândia
em circunstâncias semelhantes às do ataque da
Candelária. O fato causou pouca comoção.
Em São Paulo, sete menores de rua jurados de morte
apareceram mortos numa praça ao lado do Palácio
dos Bandeirantes, sede do governo estadual, dois anos atrás.
Comoção mínima outra vez. Foi preciso
que sete garotos fossem mortos num mesmo ataque bem no centro
do Rio de Janeiro, na vizinhança das autoridades e
da classe média, para que a brutalidade ganhasse o
efeito dramático que a dizimação de menores
sempre reclama.
"Não
é possível que todos fiquem chocados diante
da chacina do Rio de Janeiro, como se isso fosse uma novidade.
O luto deve ser diário, porque esses meninos são
mortos todos os dias", diz Ivanisa Martins, presidente
da Fundação Centro Brasileiro para a Infância
e Adolescência, ligada ao Ministério do Bem-Estar
Social. O extermínio físico é o lado
mais visível da tragédia em que vivem as crianças
miseráveis do país. Filhas de famílias
abatidas pela pobreza extrema, elas nascem mal, em favelas
ou cortiços, comem mal, educam-se muito mal. Nos piores
casos, acabam desgarradas da família, numa situação
de esgarçamento social e marginalidade, em convivência
com bandos de delinqüentes.
ANJOS
DA MORTE - Não há um cálculo muito
confiável sobre o número de crianças
de rua no Brasil, mas todos os números existentes apontam
para alguma coisa como 1 milhão de garotos e garotas,
talvez mais. Vivem na rua, alguns apenas durante o dia, outros
também à noite, como os meninos mortos na sexta-feira
na Candelária. Incomodam os vizinhos bem-postos pela
própria presença, às vezes porque se
transformam realmente numa ameaça. O que espanta é
a solução que alguns misteriosos anjos da morte
arranjam para tratar o problema. E também a resposta
que as autoridades conseguem dar para o desafio. Uns matam.
Outros olham para o outro lado.
Em
julho do ano passado, aconteceu outro crime de grosso calibre
no Estado do Rio, que demorou muito a ter repercussão.
Onze menores foram seqüestrados num sítio na cidade
de Magé. Nunca mais foram vistos. A história
teve um desdobramento dramático: as mães das
vítimas reuniram-se num grupo que ficou conhecido como
Mães de Acari, para brigar por justiça, receber
denúncias e apontar os criminosos. As Mães de
Acari ganharam manchetes no exterior, mas a investigação
sobre o sumiço das crianças não avançou.
A dona de casa Edméia da Silva Eusébio, 47 anos,
líder do grupo e mãe de um dos garotos desaparecidos,
foi assassinada no centro do Rio no dia 15 de janeiro deste
ano, num crime também sem solução.
O
caso das Mães de Acari é um símbolo da
tragédia dos meninos de rua. Nesse caso, como em outros,
a impunidade realimenta os assassinatos de crianças.
Poucos autores desses crimes são identificados. Quando
há identificação, pouquíssimos
são condenados. O Centro de Articulação
das Populações Marginalizadas, uma organização
civil carioca, contabilizou 424 garotos mortos no Rio em 1992.
Nos seis primeiros meses deste ano, morreram 320 meninos e
rapazes na cidade, que é hoje a capital federal da
violência contra os menores.
SEM
ANTECEDENTES - Atribui-se a maioria desses crimes a grupos
de extermínio formados por policiais militares e bancados
por comerciantes, empresários da hotelaria e do turismo
que se ressentem da delinqüência praticada por
muitos menores de rua. Ninguém duvida de que uma parte
deles vive na criminalidade, mas há um problema estatístico
nesse argumento. Os menores do Rio não cometeram mais
de dez assassinatos neste ano. E 320 deles foram mortos. Estudos
feitos pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais
e Econômicas e pelo Núcleo de Estudos da Violência
da Universidade de São Paulo indicam que a maioria
das crianças mortas não tinha antecedentes criminais
nem envolvimento comprovado com drogas. "Os grupos de
extermínio estão vinculados à falta de
atendimento social à população carente.
Quando o Estado se omite, surgem instituições
paralelas para cuidar da segurança. Só que esses
grupos matam todos que atrapalham seu trabalho", diz
o deputado estadual Paulo Mello, que presidiu uma CPI sobre
o extermínio de menores na Assembléia Legislativa
do Rio. Detalhe: Mello é um ex-menino de rua.
Eliminem-se
os grupos de extermínio e o que acontecerá?
Outros surgirão, provavelmente. Há um segundo
elemento de violência menos denunciado pelos grupos
de defesa dos direitos humanos. Ele se origina no tráfico
de drogas. Os traficantes que controlam os morros do Rio de
Janeiro são responsáveis por boa fatia dos crimes.
Um dos casos mais brutais de justiça feita pelas mãos
dos traficantes aconteceu em novembro do ano passado no morro
do Borel, na Tijuca: dezessete rapazes foram baleados numa
ou nas duas mãos pelo chefe do tráfico na favela,
Nelson da Silva, o "Bill". Ele foi preso em maio
deste ano. Ninguém se iluda: já há outro
líder em seu lugar.
O
que empurra os meninos para a alça de mira dos revólveres
é, mais do que qualquer outro fator, a situação
de miséria de suas famílias. Segundo o IBGE,
existem no país cerca de 60 milhões de pessoas
com menos de 17 anos. Desse total, cerca de 18 milhões
de crianças e jovens vivem em famílias com renda
per capita de no máximo um quarto do salário
mínimo. Com esse dinheiro não se compra 1 litro
de leite por dia. É nesse grupo que se registram os
maiores índices de desnutrição, analfabetismo
e abandono de crianças. Vem desse extrato social mais
miserável a maioria das crianças que chegam
às ruas numa idade em que deveriam estar freqüentando
as aulas.
Tendo
a calçada como escola e alguns bicos humilhantes como
meio de vida, essas crianças adquirem muito cedo uma
carga de experiências quase inimaginável para
quem cresceu à sombra de uma educação
convencional. Um levantamento feito pelo Unicef mostra que
há em todo o país meio milhão de meninas
menores que trabalham como prostitutas. Essa situação
leva a criança a um quadro geral de degradação.
É pela porta da miséria que muitas crianças
de rua se acabam transformando em pivetes, trombadinhas e
assassinos.
A
Polícia Militar de São Paulo também tem
estatísticas a respeito da situação da
infância das ruas, mas encara o problema por um ângulo
diferente. Segundo os números mais recentes divulgados
pela PM, em dezembro passado os menores infratores da cidade
de São Paulo praticaram nove assassinatos, 24 assaltos
a mão armada e 150 furtos de pequenos objetos. Roubaram
21 carros, treze estabelecimentos comerciais e catorze casas
de família. No período foram detidos 485 menores
e 29 deles carregavam revólveres.
INVIOLABILIDADE
- Nos últimos anos, o passo mais ousado do governo
na tentativa de enfrentar o problema do menor foi a elaboração
do Estatuto da Criança e do Adolescente, um documento
assinado pelo ex-presidente Fernando Collor em dezembro de
1990. São 267 artigos (quase o tamanho da Constituição
brasileira) que conferem centenas de direitos às crianças.
São direitos apenas retóricos. Entre eles, figura
o direito à inviolabilidade da integridade física,
psíquica e moral da criança e do adolescente,
conforme a definição pomposa apresentada pelo
estatuto. Pior ainda é o discurso derramado em que
os autores do documento explicam a abrangência desse
direito. Ele engloba, segundo o estatuto, "a preservação
da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias
e crenças, dos espaços e objetos pessoais".
Diante dos corpos dos sete meninos e jovens chacinados na
sexta-feira no Rio ou mesmo frente à massa de miseráveis
brasileiros que nem consegue comer, essa grandiloqüência
parece um deboche.
EFEITO
PRÁTICO - O Estatuto da Criança tem efeito
idêntico ao artigo da Constituição que
garante o direito à assistência médica
a todos os brasileiros. O artigo não menciona apenas
o número de leitos disponíveis nos hospitais
e o nome dos médicos, públicos e privados, dispostos
a dispensar um minuto do seu tempo com os deserdados. A Fundação
Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência,
ligada ao Ministério do Bem-Estar Social, ajuda com
verbas 880 agências ligadas aos governos estaduais e
às prefeituras, além de 1.400 entidades assistenciais
privadas. Segundo os cálculos oficiais, no ano passado
meio milhão de crianças carentes foi atendida
nos albergues, abrigos e casas que têm convênio
com a fundação. Para avaliar o efeito prático
desses serviços, basta observar o que acontece com
a infância desgarrada do país.
Algumas
iniciativas bem-sucedidas ajudam a evitar a catástrofe
absoluta. O governo de Minas Gerais ganhou neste ano um prêmio
do Unicef pelo projeto Curumim, programa que se destina a
evitar que os filhos das famílias mais pobres sejam
atraídos para a rua. O projeto já atende 6.000
crianças em Minas Gerais. Elas são estimuladas
a praticar esportes e só podem participar se estiverem
freqüentando a escola. Em Salvador, o italiano Cesare
de Florio La Rocca já tirou mais de 1.800 meninos da
rua com o seu Projeto Axé. É uma iniciativa
barata, tocada por La Rocca com donativos e ajuda oficial.
Cada criança atendida custa 37 dólares por mês,
ganha casa e um lugar para dormir, estudar e aprender uma
profissão. A esse custo, menos de 450.000 dólares
por mês seriam suficientes para tirar todas as crianças
das ruas de Salvador. Essas experiências mostram que
a vontade e a criatividade valem mais do que a burocracia,
o discurso e o estatuto na hora de enfrentar um dos mais graves
problemas nacionais.
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