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REPORTAGEM DE VEJA
O
paquiderme atômico brasileiro
Três
anos depois de sua inauguração, a usina nuclear
Angra I quebra pela 22ª vez
Deitado
em berço esplêndido, numa praia de Angra dos
Reis, a meio caminho entre o Rio de Janeiro e São Paulo,
dormita um paquiderme que os brasileiros não conseguem
decifrar. 0 organismo desse animal, batizado como Angra 1,
feito de concreto e aço e animado por uma pilha atômica,
começou a nascer em 1971, mas até hoje ninguém
é capaz de assegurar que ele esteja realmente vivo.
Angra 1 é um animal caprichoso. Quando se pensa que
dormiu, descobre-se pelo anúncio de autoridades do
governo que ele vai funcionar de novo. Quando se imagina que
Angra 1 está bem-disposto, em pleno funcionamento,
alguém dá o alarme e põe a esfinge para
dormir outra vez.
Em geral, teme-se que as usinas nucleares provoquem desastres
ecológicos. Angra 1, com seu fracasso, é o símbolo
de um desastre administrativo e do regime que concebeu soluções
autoritárias supostamente clarividentes que, com o
tempo, se mostraram como rematadas bobagens. A usina nuclear
Angra 1, que o Brasil comprou da empresa americana Westinghouse
no governo do general Garrastazu Medici, já quebrou
22 vezes, sem contar nesse número defeitos que eventualmente
não tenham chegado ao conhecimento público.
A usina deveria ficar pronta em 1977, mas só foi inaugurada
em 1983, doze anos depois do início das obras. Deveria
ter custado 300 milhões de dólares e já
custou seis vezes mais. Pela sua natureza, teria de produzir
energia elétrica. Não produz. Pelo potencial
de risco envolvido num empreendimento de sua espécie,
precisaria ser segura. Não é. Na semana passada,
dois técnicos trazidos apressadamente dos Estados Unidos
tentavam descobrir a origem do 22º defeito ocorrido em
Angra - uma pane que comprometeu um gerador de emergência
tocado a diesel, já apanhado pelo menos duas outras
vezes em situação de colapso. O 21º problema
ocorreu apenas três semanas antes, quando a água
que resfria as varetas de urânio radioativo da usina
- portanto, água radioativa vazou para dentro de um
tanque de contenção por defeito numa válvula.
Sempre, que acometida por algum enguiço, Angra I é
desligada, mas seus equipamentos enfartam com tal freqüência
que, nos últimos três anos, desde sua inauguração
sob o fogo de rojões, ela funcionou no total por menos
de três meses.
VONTADE
DE DEUS - "A usina não poderá apresentar
defeitos quando estiver em funcionamento, mas teste é
para isso mesmo", dizia na semana passada , o ministro
Aurel Chaves, das Minas e Energia, a quem compete a dura tarefa
de carregar o paquiderme. Com sua interpretação
a respeito de períodos de ensaio, Aureli consagrou
a mais longa fase de testes registrada numa usina nuclear.
"Aborrece-me a dimensão que se dá à
palavra vazamento", reagiu o ex-ministro da Indústria
e do Comércio, João Camilo Penna, hoje presidente
da Furnas Centrais Elétricas, a empresa estatal responsável
construção e funcionamento da usina. "Isso
permite a interpretação de que houve liberação
de radioatividade para o meio ambiente, o que não aconteceu."
Como de outras vezes, Camilo Penna prometeu religar a usina
o mais cedo possível, numa data a ser decidida no céu.
"O futuro a Deus pertence", disse ele semana passada.
"E Angra voltará a operar quando Deus quiser."
Até que seja feita a vontade de Deus, caberá
ao contribuinte pagar a conta.
A central nuclear Angra I pode ser e encarada como um empreendimento
excepcional mesmo no vasto universo das usinas movidas a urânio,
entre as quais bateu recordes memoráveis. Não
se tem notícia de uma central nuclear, entre as 375
espalhadas pelo mundo, que tenha torrado tanto dinheiro como
seu principal combustível e haja fu vasto universo das usinas movidas a urânio,
entre as quais bateu recordes memoráveis. Não
se tem notícia de uma central nuclear, entre as 375
espalhadas pelo mundo, que tenha torrado tanto dinheiro como
seu principal combustível e haja furado prazos de maneira
tão descarada quanto Angra 1. Furnas deve tamanha bolada
no exterior em decorrência de empréstimos tomados
para pagar a primeira usina nuclear do país que, só
de juros, gasta milhão de dólares por dia. É
o quanto se dos cofres públicos para sustentar uma
fábrica de quilowatts que não os emite e , a
exemplo dos vagalumes, acende e sem iluminar coisa alguma.
Para se ter idéia do que representa essa sangria, meio
milhão de dólares daria para abastecer de carne
uma capital do porte de Belo Horizonte ou Porto Alegre.
CASO
SIMLES - Pode-se definir Angra I como o mais acabado exemplo
de dissipação de recursos públicos e
de incompetência gerencial dentro da multidão
de casos exibidos no país. Nos anos 50 e 60 criticou-se
incessantemente o presidente Juscelino Kubitschek pela construção
de uma capital sertão, mas Brasília, com seu
núcleo básico em funcionamento e Jânio
Quadros na Presidência, não custou mais do que
uma Angra 1. A Rodovia Transamazônica, outro alvo de
críticas nesse terreno, ficou quinze vezes mais barata
do que a usina de Angra dos Reis. A diferença é
que Brasília funciona a plena carga e tornou-se uma
cidade auto-sustentável, como previa seu idealizador,
e a Transamazônica permanece em atividade nos 365 dias
do ano. A Tranzamazônica, além disso, não
incomoda mais os ecologistas, que se esqueceram dela para
concentrar-se em objetivos mais alarmantes, como a própria
Angra 1. Só com a explosão na central soviética
de Chernobyl, os responsáveis pela condução
da usina brasileira lembraram-se de montar um plano de evacuação
da população que vive nas circunvizinhanças,
para o caso de um acidente. Esse plano, em si, daria outra
medalha de ouro a Angra 1 na disputa com centrais de outros
países. Previu-se, por exemplo, que ônibus da
CMTC do Rio de Janeiro, a 130 quilômetros de distância,
entrariam numa eventual operação de salvamento.
Os ecologistas, de cabelos em pé, não poderiam
ter melhor prato. Na semana passada um grupo carregava uma
faixa antinuclear nas areias da praia de Ipanema. Protesto
inútil. Uma central desligada nunca poderia explodir.
O que assusta no caso Angra I é sua extrema simplicidade.
Fez-se um péssimo negócio, em primeiro lugar
devido ao contrato de compra da usina - trata-se de um desses
contratos muito bons para quem vende e muito ruins para quem
compra. "Pelo tempo que passei na Eletrobrás,
considero a Westinghouse a responsável exclusiva pelos
problemas existentes", golpeia o ministro Antônio
Carlos Magalhães, das Comunicações, que
presidiu a empresa durante o governo Geisel e é um
homem que não costuma buscar no céu as razões
para o bom ou mau desempenho de uma instalação
industrial qualquer. "Além de ter apresentado
um contrato desvantajoso para o Brasil, a Westinghouse exigiu
por mais de uma vez, em várias administrações,
aditamentos para funcionar - e até hoje não
funciona", diz Antônio Carlos. Adiantamento pode
ser traduzido por mais dinheiro e mais prazo.
TROCA
DE CADEIRAS - Em todo bom negócio, porém,
há sempre um esperto e um tolo - e esse segundo personagem
deve ser procurado no Brasil entre os funcionários
de alguma forma envolvidos na discussão do contrato
ou em suas renegociações. Em tomo da questão
Angra 1, curiosamente, há uma ciranda de nomes - sempre
os mesmos - que por longo tempo trocaram de cadeiras entre
si. Começa-se pelo engenheiro Mário Bliering,
que presidia a Eletrobrás; no governo Medici, quando
o contrato com a Westinghouse foi assinado sob seu aplauso
e com sua participação, e hoje está de
volta à mesma cadeira como um inesperado crítico
de Angra I. Camilo Penna, ex-ministro da Indústria
e do Comércio, é agora presidente de Furnas,
onde Bliering atuou, enquanto Aureliano Chaves, atual ministro
das Minas e Energia e um entusiasta do programa nuclear brasileiro,
ocupou a presidência da Comissão de Energia da
Câmara dos Deputados e a chefia da Comissão de
Energia do governo Figueiredo. César Cals, ex-ministro
das Minas e Energia, passou antes pela Eletrobrás,
quanto Licínio Seabra, que comandou Furnas, está
hoje à frente da Nucleobrás.
Entre os que participaram da negociação da usina,
Mário Bhering dos que reconhecem o malfeito. "O
Brasil está correndo atrás dos prejuízos
e brigando muito com a Westinghouse", diz Bhering. "Ela
foi a principal responsável pelo retardamento da usina
e não pagou multa pelo atraso", afirma ele. Não
pagou multa alguma simplesmente porque o contrato não
previa essa possibilidade, da mes ma forma que não
dá garantia de que equipamento vendido vai funcionar
corretamente - uma garantia presente em vendas de coisas mais
simples, como automóveis ou máquinas de lavar
roupa. "A questão do contrato deve ser explicada
pelos brasileiros", afirmava na semana passada, com muita
propriedade, Henderson, porta-voz da Westinghouse nos Estados
Unidos.
"NINGUÉM
SABIA" - Testemunhas das negociações
entre americanos e funcionários brasileiros para a
compra da usina contam que os vendedores, bem preparados e
experientes, exigiam tudo, enquanto os compradores, animados
candidatos à antesala do clube atômico, cediam
sem parar com surpreendente falta de noção a
respeito daquilo que estavam tratando. "Essas grandes
empresas estrangeiras são muito competentes na hora
de fazer bons contratos para elas", diz o físico
José Goldemberg, expresidente da Centrais Elétricas
de São Paulo, ela mesma uma grande empresa, e atual
reitor da Universidade de São Paulo. "Os funcionários
que contrataram Angra eram inexperientes nesse assunto - e
muita gente não lê os calhamaços dos contratos
com a atenção necessária", avalia
Goldemberg. Com elegância, o físico paulista
levanta a segunda ponta do véu: além de não
saberem o que estavam comprando, os negociadores não
sabiam como estavam comprando.
A ignorância a respeito do artigo encomendado é
tão espantosa quanto a sua admissão. "Acho
que ninguém sabia naquela época que o modelo
da usina estava ultrapassado", explica Bhering. Ele se
colocou na posição de negociador, como vários
outros técnicos brasileiros, aparentemente seguro do
que estava fazendo. Hoje, é o primeiro a cassar as
credenciais daqueles que trataram do negócio com os
homens da Westinghouse, mas encara a falha com a naturalidade
de quem estivesse lamentando a compra de um televisor errado.
A lamentação atual de Bhering contrasta vivamente
com seu otimismo, em 1970, quando sentado na mesma cadeira
de presidente da Eletrobrás saudava a central nuclear
ainda por construir. "Será uma usina do tipo provado
e de confiabilidade assegurada, não sendo considerados
para a concorrência reatores obsoletos", afirmava
ele naquela época.
SITUAÇÕES
DE EMERGÊNCIA - Um terceiro elemento que compõe
o desastre de Angra I, além dos termos desvantajosos
do contrato e o erro na escolha de um modelo ultrapassado
de usina, é a fragilidade ou inadequação
de suas peças para agüentar as exigências
de uma central nuclear. Em Angra 1, como em algumas usinas
semelhantes a ela (veja o quadro à pág. 107),
quase tudo já quebrou, com exceção do
próprio coração do reator, as varetas
de urânio enriquecido. O gerador de vapor da central
já enguiçou, o eixo da turbina sofreu desnivelamento,
os tubos do condensador da mesma turbina apresentaram sinais
de corrosão - e assim por diante, até a ocorrência
dos dois defeitos das últimas semanas. A pane que há
dez dias comprometeu o gerador de eletricidade a diesel abateu-se
sobre uma peça já flagrada em colapso em pelo
menos duas oportunidades anteriores.
Esse gerador existe para situações de emergência,
nas quais o fornecimento de eletricidade às máquinas
da usina é interrompido por algum problema na rede
convencional. Nesse caso, é transferida a esse gerador
a tarefa de manter em funcionamento o sistema de refrigeração
dos bastões de urânio radioativo da usina. Deixar
uma central nuclear ligada com falha na rede elétrica
e ao mesmo tempo no gerador de emergência eqüivale
a pilotar um carro sem freio. Durante a manutenção
preventiva dos filtros do gerador diesel, técnicos
da usina descobriram que partículas metálicas
haviam sido capturadas pelo equipamento, uma ocorrência
anormal. Se havia partículas, elas obrigatoriamente
teriam de se ter desprendido em algum lugar e esse ponto estava
em perigo. "É uma indicação de degradação
de matéria" , explica Pedro Figueiredo, chefe
da usina.
A limalha recolhida foi enviada para exame nos Estados Unidos,
onde se tentará descobrir de que tipo de peça
escapou. "Ainda não sabemos", diz Pedro Figueiredo,
que considera o incidente perto de banal. Segundo os primeiros
indícios, os exames poderão indicar que houve
um destes problemas: lubrificação deficiente,
sobrecarga do equipamento, fadiga do material e falha de fabricação.
0 vazamento de água radioativa, ocorrido há
um mês, também cria uma repetição
no terreno: trata-se do décimo vazamento nos últimos
sete anos. "É impossível ter zero de vazamento",
explica Figueiredo, um funcionário que se expressa
num dialeto de uso corrente em Angra 1. " O vazamento
foi apenas um evento não usual", afirma ele.
Em Angra já aconteceu um grande incêndio e até
o chão já enguiçou. Nesses casos, porém,
não se pode falar em falhas de material. Nessas duas
ocorrências, falharam as pessoas. No primeiro caso,
suspeita-se de um incêndio criminoso, provocado deliberadamente
para queimar estoques e pistas de desvio de dinheiro. "Eles
compraram muito mais ou muito menos e queriam evitar a descoberta
fato", acusa um alto executivo de uma das empresas fornecedoras
de Angra 1. O enguiço do chão decorreu da construção
de outra Angra II, bem ao lado de Angra I. Com essa interferência,
o terreno cedeu e um dos prédios de máquinas
de Angra I adernou como navio antes do naufrágio.
CULPA
DO PEÃO - Em pelo menos quatro relatórios
preparados por Furnas, aponta-se ainda um outro culpado pelos
males da usina - a mão-de-obra sem habilitação
na construção da central nuclear. Chegou-se
assim à perfeição caça aos responsáveis
pelo desastre da usina. De um lado está Deus, com sua
capacidade de interferir no cotidiano do reator. De outro,
o humilde peão que bateu à porta de Furnas para
pedir emprego na obra de Angra. Como sempre, tais situações
fabricam-se culpados inatingíveis, enquanto aqueles
personagens com nome e sobrenome - e com atuação
visível em cada um dos tropeços da usina - nem
sequer são incomodados com um pedido de explicação.
Assinou-se um contrato para a compra de um equipamento caro
e complexo e não se exigiu garantias formais do vendedor.
Adquiriu-se uma usina obsoleta e com ela, uma multidão
de peças com uma incrível capacidade de quebrar.
Jogou-se dinheiro pela janela com uma facilidade assustadora
- e tudo isso é encarado como se fosse produto de alguma
fatalidade. "As condições da época
não permitiam visualizar um programa mais ambicioso
e Angra I foi um passo inicial necessário para o Brasil
ingressar na tecnologia nuclear", defende Licínio
Seabra, o presidente da Nuclebrás, que também
já presidiu Furnas Centrais Elétricas. Enfim,
ultrapassou-se a perfeição. Depois de culpar
Deus e os operários, joga-se a responsabilidade na
época.
O Brasil é hoje obrigado a embalar o sono de Angra
I porque o regime militar se deixou embalar pelo sonho do
programa nuclear. Para o projeto do Brasil pacífico,
os militares criaram a repressão, que resvalou à
tortura e gerou os DOI-CODI. Para o projeto do Brasil grande,
eles entraram com o sonho nuclear e, encapuzada dentro dele,
a idéia de chegar à bomba. Como se faz uma bomba
atômica? A maneira mais prática é montar
uma usina nuclear e uma fornecedora de combustível
para ela. A central nuclear é apenas uma portentosa
máquina de fazer calor, usado para girar turbinas que
produzem a eletricidade - um mecanismo que seria simples como
a caldeira da locomotiva se, em vez da lenha, não usasse
urânio enriquecido. O urânio queimado numa usina,
porém, pode ser reaproveitado, desde que passe por
uma central de reprocessamento - e aí começa
a nascer uma eventual bomba atômica. Ocorre que a cinza
do reator contém ainda muito urânio e um pouco
de plutônio - a matéria-prima utilizada na fabricação
de armas atômicas.
Durante o governo Figueiredo, o interesse pela bomba fica
claro até mesmo em algumas reuniões das 9 no
Palácio do Planalto - aquelas que o presidente tinha
diariamente com seus auxiliares mais chegados, os chamados
ministros da casa. Nessas reuniões, decidiu-se isentar
a importação de peças para uma usina
de reprocessamento de combustível e examinou-se um
oferecimento de combustível enriquecido feito pela
China. Anos antes, Cyrus Vance, secretário de Estado
do governo americano, chegou a oferecer ao Brasil uma usina
de reprocessamento a ser compartilhada com a Argentina, em
território brasileiro. A idéia dos americanos
era estimular esse empreendimento, que, por sua natureza binacional,
ficaria mais facilmente exposto à fiscalização
internacional. A Argentina aceitou a idéia. O Brasil,
com um olho posto na experiência de Israel, que fabricara
a bomba a partir do plutônio retirado de uma usina comum,
rejeitou a oferta de Vance.
PATRIMÔNIO
ADEQUADO - Comparada com outras usinas, Angra I revela-se
um fiasco quase incompreensível. A hidrelétrica
de Itumbiara, na divisa de Minas Gerais com Goiás,
começou a ser construída na mesma época
que ela, ficou pronta em apenas quatro anos e meio, custou
duas vezes e meia menos e produz 2,1 milhões de quilowatts
- três vezes mais do que a central nuclear deveria produzir
com sua carga de 51 toneladas de urânio. Muda-se o parâmetro
para algo mais adequado - outra central nuclear - e a defasagem
persiste. Na Alemanha Ocidental, existe o que se poderia chamar
de "usina de referência" para as futuras centrais
nucleares brasileiras, Angra II e Angra III, em construção
ao lado de Angra I. É a usina de Grafenrheifeld, instalada
no sul do país e muito parecida com as duas que a Alemanha
vendeu ao Brasil através do acordo que os dois países
assinaram em 1975. Inaugurada em 1983, no ano em que Angra
1 foi ligada, essa usina parou uma única vez - e apenas
por um dia do ano.
Angra I é a única face visível do uso
comercial do átomo no país - e essa face amarga.
Não se pode dizer com segurança que um dia ela
vá funcionar a contento - e, nesse caso, suprir 1%
das necessidades energéticas do país, conforme
permite seu potencial. Será pouco para o que custou
mas ainda assim valerá a pena fazê-la entrar
nos eixos de vez. "Já que chegamos a esse ponto,
é melhor tê-la produzindo do que parada",
diz o físico José Zatz, da Agência para
Aplicação de Energia do Estado de São
Paulo e um crítico das centrais nucleares. "Mas
isso desde que o cumprimento normas de segurança seja
inspecionado por gente que não trabalhe em nenhuma
das entidades que controlam e operam a usina", afirma
o físico. Zatz é mais um dos muito desconfiados
com o pessoal responsável pela existência e pelo
funcionamento do paquiderme.
CONGELAMENTO
- A face ainda invisível. do uso comercial do átomo
está embrulhada no acordo com a Alemanha Ocidental,
através do qual o Brasil encomendou oito usinas que
ficariam pronta até 1990. De concepção
diferente de Angra I, essas centrais foram sendo abatidas
uma atrás da outra a partir da constatação,
pelo governo Figueiredo, de que o país, àquela
época no declive de uma grave crise econômica,
não tinha dinheiro para bancar a encomenda nem necessidade
de toda a energia elétrica que as novas usinas produziriam.
Limitou-se, então, o projeto ao início das obras
de Angra II e III. As demais usinas encontram-se congeladas
no papel e ali ficarão por tempo indeterminado.
"O governo pretende acabar Angra II, que está
quase pronta, mas não tomou ainda uma decisão
a respeito de Angra III", garante Henri Philippe Reichstuil,
secretário-geral da Secretaria do Planejamento. No
primeiro caso, não há praticamente como discordar
da decisão. O governo já gastou mais de 2 bilhões
de dólares na usina, que tem 75% de seus equipamentos
já importados e guardados em três depósitos.
"Não podemos jogar fora o que já foi investido",
diz Reichstul. Mesmo assim, as obras da segunda usina em Angra
dos Reis estão praticamente paralisadas.
Do ambicioso programa nuclear brasileiro, montado nos anos
70, resta assim bem pouco e o que ficou tem a aparência
de algo salvado do incêndio. A Nuclebrás é
hoje um órgão de 5 500 funcionários,
cuja principal função é a de olhar uns
para os outros, conforme descobriu a malícia da própria
comunidade envolvida nesse flerte. O namoro sai caro. Com
base em dados do orçamento deste ano, as seis empresas
que se abrigam sob o guarda-chuva da Nuclebrás deverão
gastar 329 milhões de cruzados com sua folha de pagamento.
Uma dessas crias da Nuclebrás, a Nuclep, uma indústria
que deveria produzir uma central nuclear por ano segundo a
fantasia de seus criadores, está ociosa em Itaguaí,
a 80 quilômetros do Rio, depois de devorar 350 milhões
de dólares. Da mesma forma, uma usina para enriquecimento
de urânio, construída em Resende, também
no Estado do Rio, vaga no sonambulismo.
FICHA
CONTRA - Tem razão, portanto, o cidadão
que olha intrigado para o projeto nuclear do governo brasileiro
posto em circulação nos anos 70. Angra I é
um caso típico de coisa intratável pelo prisma
da racionalidade. Ao comprá-la, os responsáveis
pela transação ficaram na mesma posição
de uma pessoa que adquirisse um apartamento de 1,5 milhão
de cruzados para entrega em um ano e acabasse pagando 9 milhões
de cruzados pelo imóvel com um prazo de entrega esticado
para o dobro do original. Esse comprador, além disso,
entraria num apartamento que só seria habitável
com uma reforma - e a ele competiria arcar corri os custos
dos consertos.
Para gastar 1,8 bilhão de dólares em algo de
má qualidade que lhe fora oferecido por 300 milhões,
o regime militar teve de se proteger dos críticos,
movendo-lhes uma cuidadosa caçada. O próprio
Goldemberg foi indicado para a presidência do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq) pelo ex-ministro Delfim Netto, em 1981, e teve sua
nomeação vetada pelo Serviço Nacional
de Informações. Outro físico, Jaime Tiorrimo,
indicado em 1979 Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas
pelo ex-ministro Mário Henrique Simonsen, acabou igualmente
bombardeado pelo SNI. Em sua ficha no órgão
de informações constava um registro que o dava
como comunista e outro que o definia anticomunista. Na dúvida,
o SNI aconselhou a nomeação de Tiommo, um homem
de idéias políticas moderadas que provavelmente
se colocaria eqüidistante das duas extremidades a que
foi lançado na ficha policial.
CAROÇO
MILITARIZADO - Fenômeno típico da ditadura,
essa perseguição físicos esculpiu um
dos mais claros movimentos ao hábito das decisões
centralizadas. Para um regime que se julgava onipotente, nada
mais natural do que calar os donos de opiniões diferentes.
Se eles tivessem sido chamados para opinar, é possível
que desastres como o de Angra I fossem sem minorados. Alguma
coisa mudou de lá para cá. Os críticos
de ontem podem agora ocupar postos em órgãos
como a Funarte ou o CNPq. Na sua essência, porém,
o programa nuclear mantém um caroço militarizado,
esquivo e inacessível aos adversários de ontem.
Numa conta final, prática e simples, acaba-se por revalidar
a grande lei de Simonsem, formulada em 1981 pelo ex-ministro
Mário Henrique Simonsen. "Em muitos casos, é
melhor pagar a comissão do que fazer a obra",
reza a lei. Se isso tivesse sido aplicado no caso de Angra
I, ninguém hoje teria muita razão para se lamentar.
Supondo-se uma comissão de 1% sobre o preço
inicial da usina, de 300 milhões de dólares,
todas as pessoas com alguma participação no
a propina teriam levado em conjunto 3 milhões de dólares,
suficientes para a construção de um belíssimo
condomínio na praia de Grumari, em Angra dos Reis.
Assim, pelo menos haveria alguma coisa funcionando no local
e o país teria economizado uma bolada de 1,8 bilhão
de dólares, dinheiro suficiente para reformar toda
a rede ferroviária que serve a região metropolitana
do de Janeiro.
Westinghouse: uma caixa preta e ruim
A Westinghouse, tradicional indústria americana fabricante
de máquinas de lavar roupa, aparelhos de telecomunicação
e medidores elétricos, cujas vendas anuais giram em
tomo de 10 bilhões de dólares, é tida
como uma das empresas mais confiáveis do mundo. No
seu ramo de produção nuclear, responsável
por cerca de 35% do total de investimentos do conglomerado
industrial, paira, contudo, uma sombra de dúvida. Com
71 usinas atômicas espalhadas por doze países,
a Westinghouse nunca registrou um real acidente com escapamento
de vapor radioativo para o meio ambiente ou para dentro do
prédio onde trabalham operários desprotegidos.
Um exame mais cuidadoso revela, porém, que durante
cinco anos, de 1978 a 1982, a empresa produziu e vendeu usinas
com defeito genético, uma marca de nascença
que, se não as tornou arriscadas para o manuseio, as
transformou num tormento para os donos. Nessas usinas, a água
usada no sistema de refrigeração do reator é
bombeada com tal força que as tubulações
se deterioram mais depressa do que a capacidade dos operários
da usina em trocá-las.
A Westinghouse também é acusada, em pelo menos
uma vez, de se ter envolvido num caso de suborno. O governo
da atual presidente das Filipinas, Corazón Aquino,
reuniu evidências de que em 1974 a Westinghouse teria
subornado o ditador Ferdinand Marcos, então presidente
filipino, para vencer uma concorrência que lhe daria
direito de instalar um reator nuclear no país. Jesus
Vergara, ex-presidente da filial de vendas da Westinghouse
nas Filipinas, revelou, durante um interrogatório feito
em abril deste ano por agentes de Aquino, que a empresa americana
teria pago 50 milhões de dólares a autoridades
filipinas, dos quais 30 milhões teriam ido parar nas
mãos de Marcos. "O negócio da Westinghouse
é a transação mais limpa de Marcos",
ironizou Vergara no depoimento. A Westinghouse nega até
hoje tal história.
AUMENTO
DE CUSTO - A usina, que segundo seus engenheiros projetistas
custaria cerca de 650 milhões de dólares, ficou
por 2,2 bilhões de dólares, numa situação
que lembra o fantástico aumento de custo registrado
em relação à usina de Angra I. Além
disso, a usina construída nas Filipinas apresentou
vários defeitos de funcionamento e, hoje, doze anos
após seu início, está parada. Os especialistas
em energia nuclear contestaram a qualidade da construção.
Havia defeitos na parte elétrica, nos postes que sustentavam
os milhares de metros de cabos elétricos e nos canos
que conduziam vapor e água radioativos. Segundo informações
obtidas pelo inquérito aberto por Corazón Aquino,
a Westinghouse ocupou-se de alguns desses problemas simplesmente
reescrevendo as especificações técnicas
depois que a usina já estava construída.
As usinas problemáticas da Westinghouse foram vendidas
a granel. Onze delas estão instaladas nos Estados Unidos,
uma na cidade de Almaraz, na Espanha, e outra em Ringhlas,
na Suécia. Tanto em Ringlilas como em Almaraz o defeito
do reator trouxe problemas sérios. Ringbias nunca conseguiu
passar de 50% de sua potência máxima projetada.
Almaraz chegou a atingir um máximo de 60%, em meio
a uma série de dificuldades sérias, e parou
. A usina de Angra I apresenta problemas semelhantes aos registrados
nessas duas centrais e nas Filipinas. O que falta para que
os casos brasileiro e filipino sejam iguais é a evidência
de que no Brasil houve suborno.
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