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Daniela Perez
Data: 13/1/1993
Edição: 1270
Pág: 60-66
 



REPORTAGEM DE VEJA

O ovo da serpente

Como um ator de peças pornôs, candidato a galã da Globo, junta-se a sua mulher, possessiva e mimada, para tirar a vida da atriz Daniela Perez com estocadas e fúria

Num esforço de raciocínio, vamos pensar, por um minuto, com a cabeça de um homicida comum. Se, por qualquer razão, o ator Guilherme de Pádua quisesse apenas matar a atriz Daniela Perez, sua colega na novela De Corpo e Alma, ele poderia ter desfechado alguns poucos golpes nos locais em que a perfurou, coração e pulmão. Mas, conforme sua própria confissão, armado de uma tesoura, Guilherme acertou doze estocadas no peito da atriz. Oito atingiram o coração, uma delas com 10 centímetros de profundidade. Outras quatro perfuraram o pulmão. A mulher de Guilherme, Paula Thomaz, também não precisaria ter auxiliado. Mas, como ela mesma disse a três policiais, tomou a iniciativa de tentar ferir a atriz com uma chave de fenda e ainda foi buscar a tesoura usada pelo marido. Daniela também levou quatro estocadas no pescoço. Um dos gol­pes alcançou a traquéia da atriz, impedindo-a de respirar. Também por outros motivos, o crime ocorrido na noite de 28 de dezembro, numa rua sem iluminação da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, está longe de ter sido um homicídio comum, igual a tantos outros que, infelizmente, ocorrem todos os dias nas grandes cidades do país.

Não há notícias, em lugar algum no mundo, de outro crime reunindo nos papéis de assassino e vítima dois atores que na ficção de uma novela namoravam e brigavam por ciúmes. Aconteceu com Daniela Perez, no primeiro papel importante de sua carreira, numa novela campeã de audiência da TV Globo, e o ator Guilherme de Pádua, um rapaz que começou a trabalhar em peças grotescas sobre homossexualismo e que começava a deixar o anonimato com o aparecimento na televisão. Pela fama de Daniela, sua morte colocou o país em estado de choque. Comoveu o imenso pú­blico das novelas e ainda empresários, polí­ticos e outros cidadãos ocupados demais para prestar atenção nesse tipo de diversão. Também jogou para as alturas o lbope dos telejornais que anunciavam as novidades sobre o caso. Os brasileiros sempre apren­deram que as novelas buscam inspiração na realidade e, na guerra pela audiência, costumam exagerá-la nos graus de emoção e na sordidez. No assassinato de Daniela, redescobriu-se que a realidade pode ser ainda mais exagerada e mais mórbida que a ficção da TV.

Ciúme doentio - Pela selvageria e pelas relações existentes entre Daniela, Guilher­me e Paula, ocorreu na Barra da Tijuca um crime que atravessa a fronteira da neurose. Por que mataram? Por que mataram com tanta raiva? Por que continuaram matando depois da sétima, da oitava, da nona, da décima estocada? Vieram à luz, também, interrogações sobre a vida familiar e a formação de dois jovens de classe média, como Guilherme de Pádua e sua mulher, Paula. Eles foram educados em bons colé­gios, depois do casamento foram morar num apartamento de três quartos em Copa­cabana e tinham um padrão de vida confor­tável. O casal espera o primeiro filho para maio. O pai de Paula ajudou-os a comprar um apartamento, no mesmo prédio, e até investira 26 milhões de cruzeiros numa reforma para decorá-lo a gosto do genro, que, com um salário de 10 milhões de cruzeiros mensais, não tinha como arcar com todas as despejas.

Morando provisoriamente na casa dos pais de Paula, onde tinha direito a urna linha telefônica exclusiva e à boa vontade geral da família, até a noite de 28 de dezembro Guilherme só precisaria esperar o fim da reforma para mudar-se dali. Na semana passada, Paula dividia uma cela de sete beliches com outras treze presas em Niterói, condenadas por tráfico de drogas e seqüestro. Guilherme estava recolhido a uma delegacia, longe de outros presos, pois coma o risco de ser estuprado e morto. O delegado Cidade de Oliveira, que dirigiu as investigações, está convencido de que ambos mataram Daniela Perez para resolver o ciúme doentio que infernizava sua vida conjugal. Na sexta-feira, ambos foram denunciados por homicídio qualificado.

Diversão Masoquista - “Detalhes importantes do assassinato levam a marca de um caso clássico de anormalidade mental", afirma o psiquiatra Guido Palomba, que em dezenove anos de carreira junto ao Fórum de São Paulo já analisou 6 000 crimes para dar seu parecer sobre a saúde mental dos acusados. "São muito fortes os indícios de que esse casal tinha um desvio de conduta que se agravava, levando-o para os limites da loucura”, acrescenta. “O caso é até simples”, afirma o advogado Clovis Sahyone, um dos mais experimentados criminalistas do Rio de janeiro. “O réu está neuroticamente ligado à mulher. Ambos têm um pacto de fidelidade. Por vaidade, atração ou qualquer outro motivo, ele procura se aproximar de Daniela, que o rejeita. A mulher dele desconfia e então, como prova de fidelidade, decide matar Daniela e leva a mulher a tiracolo. Um crime bárbaro, premeditado."

São interpretações, sujeitas portanto a todo tipo de engano. Mas, desde que se conheceram há três anos, Guilherme e Paula estabeleceram uma convivência de tumultos. Numa das fases de seu namoro, por exemplo, eles resolveram separar-se por alguns meses, passando a chamar-se de “irmãozinhos", e inventaram uma diversão masoquista. Um apresentava parceiros para o outro. "Era uma coisa doentia", conta um ator que conheceu Guilherme de Pádua em sua última aparição teatral, na peça Blue Jeans. “Ele me incentivou a ter um caso com a Paula dizendo que era uma garota fantástica para namorar.”

Tatuagens - Só no começo de 1992 os dois resolveram retomar o relacionamento, mas Guilherme ainda passou um tempo namorando Paula e uma amiga dela simultaneamente. Essa fase terminou com o casamento, quando ocorreu uma guinada completa. Tanto que apenas dez dias antes do crime os dois fizeram um pacto de fidelidade cravado na própria pele. Num gabinete de tatuagem, Paula escreveu o nome do marido em sua virilha e Guilherme o da mulher no pênis. "Em treze anos de serviço eu só havia recebido um pedido parecido com esse", recorda-se Hélio Tattoo, que os atendeu. “Guilherme sentia tanta dor que a Paula o consolava durante todo o meu trabalho."

Falou-se muito em pacto satânico entre Guilherme e Paula como motivo para o crime, mas essa história de magia negra é uma suposição inconsistente. Dramatiza um caso de grande repercussão como esse e por isso recebe tanto reforço nos telejornais. Mas Guilherme e Paula tinham um relacionamento emocionalmente excitado e parece que o rapaz era a razão principal da dramatização. O primeiro encontro foi em 1989, na promiscuidade da Galeria Alaska, conhecido ponto de prostituição homossexual de Copacabana. Ali, Guilherme apresentava-se no espetáculo A Noite dos Leopardos, um show de conteúdo nenhum, ao longo do qual rapazes musculosos dançam, tiram a roupa e desfilam em nu completo, com o membro ereto. Na cena final, alguns espectadores, homens ou mulheres, são convidados a subir ao palco, podendo beijar e até dar um banho de champanhe no ator de sua preferência. Alguns dos leopardos se prostituem.

Paula, que tinha apenas 16 anos na época, era conhecida pela presença freqüente nesses espetáculos. “Tem gente que vê o show e depois faz propostas de programa aos rapazes”, admite o travesti Eloína, empresário do grupo de dançarinos. “Paula deve ter sido um desses casos.” O namoro com uma moça como Paula, filha única e mimada de um jornalista e de uma funcionária pública aposentada, que teve direito a uma babá até completar 13 anos de idade e ganhou um carro zero-quilômetro quando fez 18, veio resolver diversas inconveniências na vida de Guilherme. Desde que saíra de Belo Horizonte para tentar a sorte no Rio, sua carreira ia de mal a pior. Em sua cidade natal, chegara a receber um prêmio de ator revelação pela atuação em Pasolini, Vida e Morte.

No Rio, começou a se apresentando em Querelle, ao lado do travesti Rogéria. O espetáculo era um zero artístico, mas o trabalho seguinte foi ainda mais grotesco. Uma ponta num filme pornográfico de exportação chamado Via Appia, exibido nas salas especializadas em filmes gays de Berlim e Nova York. Quando conheceu a mulher, Guilherme não havia se tomado, apenas, um especialista no papel de homossexuais - talento que, em si mesmo, pode ser tão defensável como o do ator cômico ou daquele que representa policiais truculentos. Achava-se no fundo do poço. Sem renda fixa, tinha dificuldades até para pagar o aluguel. Chegou a morar numa vaga de pensão e em duas ocasiões hospedou-se, por longos períodos, na casa de homossexuais do meio artístico do Rio de Janeiro.

Seduzir as Pessoas -"Mesmo sem dinheiro, ele gostava de se vestir bem e freqüentar a noite", recorda-se Dalmo Cordeiro, parceiro em espetáculos que, para levantar uns trocados no fim do mês, Guilherme apresentava em festinhas infantis, fantasiado de coelho. Nascido numa família de situação financeira bastante sólida, em Belo Horizonte, filho do engenheiro José Antônio Thomaz e da dona de casa Leda Maria, de uma família de joalheiros, Guilherme, o mais novo de quatro filhos, teve uma infância sossegada e uma passagem opaca num tradicional colégio jesuíta de classe média alta, o Loyola, freqüentado por diversos mineiros ilustres, entre eles o neto de Tancredo Neves. Fumou maconha com a moderação da maioria dos adolescentes de sua época e, por onde quer que andasse, sempre chamou a atenção por dois traços de comportamento. A vaidade e uma ambição inversamente proporcional a seus escrúpulos.

“Ele vivia se queixando da beleza de seu irmão mais velho, parecia até um complexo", conta Dalmo Cordeiro. Na olimpíada de vaidades da Globo, Guilherme polia sua aparência com alguns cuidados excessivos. Até mesmo seus colegas de profissão estranhavam o zelo que dedicava às sobrancelhas, que considerava grossas demais e vivia a desbastar. Também chamava a atenção pelos cuidados com a maquilagem. "Eu disse a ele uma vez que era jovem, sem rugas, e podia maquilar-se menos”, contou à polícia o ator Victor Fasano, colega do elenco em De Corpo e Alma. Aos 18 anos, com o seu modesto sucesso em Pasolini, Guilherme acreditava ter encontrado a fórmula que garantiria seu futuro. "Você tem que seduzir as pessoas", ele recomendou na época ao colega de elenco Carlos Nunes. "Esse jogo faz parte do sucesso!”

Escondido no Telhado - Se Guilherme deixou uma marca em sua curta existência como ator, essa característica foi a de bajular ou envolver-se amorosamente com quem pudesse ajudá-lo. "Nas reuniões de trabalho, ele procurava sobressair-se, mostrar-se melhor que os outros", recorda a modelo mineira Rejane Araújo. “Ele sempre foi obstinado, ambicioso, determinado e puxa-saco!”, lembra o diretor teatral Wolf Maia, que lhe deu uma participação menor em Blue Jeans e depois o promoveu a um dos papéis principais com a saída do ator Alexandre Frota do elenco. Pelo meio que freqüentava e pelos métodos que usou, Guilherme deixou dúvidas sobre sua sexualidade. Nunca moveu uma palha para desfazê-las, pois eram convenientes a seus projetos.

"Ele sabia que muitos intelectuais e formadores de opinião são homossexuais e deixava as coisas no ar para conquistar essas pessoas”, diz o diretor Júlio Mackenzie, de Mandrágora, a última peça que o ator fez em Belo Horizonte. É possível que a junção de sexo, dinheiro e amores interesseiros tenha sido inaugurada quando Guilherme buscava patrocínio para Pasolini. Parte da verba saiu dos cofres da empresa do pai de sua namorada da época, Jucira Araújo. Seis anos mais velha que Guilherme, ela mantinha com o candidato ao estrelato uma convivência em alta temperatura. Numa cena de ciúmes, Jucira correu atrás do namorado para estapeá-lo. Para não apanhar, Guilherme acabou se refugiando num telhado.

Na sua experiência como ator, Guilherme sempre chamou a atenção pelo comportamento descontrolado. Na Globo, deixou hematomas nos braços da atriz Carla Daniel. Numa gravação em que precisava segurá-la pelo braço, apertou-a com tanta força que terminou por machucá-la. Na época de Blue Jeans, Guilherme unha de encenar uma briga com um canivete. Na segunda apresentação cortou o queixo do ator que contracenava com ele - foi a única vez que ocorreu um acidente desse tipo nos dois anos em que a peça ficou em cartaz. Durante um ensaio, começou a ridicularizar o ator Alexandre Frota, que pratica jiu-jitsu, alegando que o judô é uma arte superior. Desafiado para um treino, topou a parada, acabou imobilizado por Frota e depois ameaçou agredi-lo com um caco de espelho preso a um pedaço de pau. "Sou um cara corajoso”, definiu-se Guilherme à revista Contigo dias antes de matar Daniela. Era, com certeza, um exibicionista. Em junho de 1991, ao sofrer um assalto acompanhado do ator paulista Maurício Ferrazza, ambos terminaram envolvidos por um tiroteio entre a polícia e os bandidos. Saíram feridos a bala, pelos policiais. Tempos depois, enquanto Ferrazza ainda estava traumatizado pelo episódio, Guilherme, que tomou um tiro no ombro, contava e recontava a aventura.

Na noite de 28 de dezembro, as personalidades de Guilherme e Paula se encontraram com Daniela Perez. Segundo o laudo da polícia técnica, Daniela Perez estava desacordada quando o assassino desferiu os golpes que a mataram. Pelas evidências reunidas até o final da semana passada, a hipótese mais plausível para o crime encontra-se num depoimento de Paula Thomaz. Sua história foi narrada aos detetives Newton Moreira, Valdir Andrade e Nélson dos Santos quando eles foram ouvi-la em casa, horas depois de prender seu marido. Havia suspeita da participação da moça no assassinato desde a manhã daquele dia, quando, sem saber que estava sob escuta, Guilherme ligou para casa, da delegacia, instruindo a mulher a entregar à polícia as roupas que ele usara na noite anterior. "Mas a roupa não está lavando", respondeu-lhe a mulher do outro lado da linha telefônica, ouvida na extensão por um policial. A polícia descobriria, depois de receber um pacote de roupas molhadas, que o hábito da casa era ligar a máquina de lavar à tarde e que fora Paula quem instruíra a empregada a mudar o procedimento, depois do telefonema do marido.

“Vagabunda” - À primeira insinuação do detetive Waldir sobre sua participação no crime, Paula começou a chorar, em seu quarto, confirmando que estava no local. Em outro depoimento, ela narrou o episódio em detalhes para o inspetor Nélio Machado. Contou que estava escondida embaixo de um lençol no banco de trás do Santana dirigido por Guilherme quando ele saiu da produtora Tycoon depois de combinar um encontro secreto com Daniela Perez. Não se sabia até a última sexta-feira por que razão Daniela aceitou essa conversa num local tão estranho, quase baldio. Havia apenas hipóteses para isso. Na versão que Paula deu à polícia, seu marido pretendia provar-lhe que a atriz o estava assediando com propostas amorosas. Quando o Santana parou, num local escuro, ele desceu do carro e começou a conversar com Daniela, cujo Escort estava parado logo à frente. Paula. levantou a cabeça, para ouvir melhor o diálogo, e foi percebida por Daniela. "Você trouxe esta vagabunda para cá”, foi a reação da atriz, segundo disse a mulher do ator. Seguiu-se uma briga, Guilherme aplicou uma gravata na atriz, Paula, pegou uma chave de fenda no porta-luvas do Santana e tentou ferir a suposta rival. "Mas a chave de fenda não entrava”, ela contou. Por isso, voltou para o carro e retomou armada com uma tesoura.

Durante a luta, Daniela desmaiou. Guilherme perguntou à mulher se a tinha fendo com a tesoura. Ela não sabia. 'Tudo escureceu", afirmou para os policiais. "Só me lembro de Guilherme arrastando o corpo para o mato e dando tesouradas na Daniela." Mais tarde, Paula desmentiu, enfaticamente, que tivesse feito a confissão. Numa entrevista ao repórter Nelio Bilate, da Rádio Tupi, disse que não sabia de nada. Quanto à culpa de seu marido, ela lavou as mãos. “Se ele fez, não sei. Eu não estava com ele." Existem fatos e testemunhas para atestar que Paula falou a verdade no depoimento aos policiais. Pode ter se arrependido mais tarde, optando pela mentira.

O primeiro fato é que Guilherme e Paula saíram juntos de casa na tarde do crime, com um lençol e um travesseiro, e retomaram às 2 horas da madrugada seguinte, com o carro ainda molhado, segundo o depoimento do garagista Cesarmo Manoel do Nascimento. Isso pode indicar que o tenham lavado para apagar vestígios pudessem comprometê-los. Quando deixou o estúdio da Tycoon, naquela noite, o auxiliar de câmara Gilmar Lima Marinho viu um volume grande no banco traseiro do Santana, coberto por um lençol de cor clara. Paula também foi reconhecida pelo advogado do Hugo da Silveira, que lembra ter visto um homem e uma mulher de rosto redondo dentro do Santana, ao passar pela terceira vez ao lado dos carros de Guilherme e Daniela, desconfiado de que podia ocorrendo um assalto.

A fatalidade levou a novelista Perez a escrever diálogos para sua filha trocar com o algoz. Como num jogo de cartas marcadas, Guilherme foi escolhido para o papel de Bira e para contracenar com Yasmin na novela por demonstrar, numa curta fita de vídeo, que era capaz de representar sua própria personalidade. Roberto Talina, o diretor da produção, escolheu-o a partir de um teste de vídeo arquivado na Globo. Era a figura ideal para viver o truculento motorista de ônibus apaixonado e dispensado por Yasmin após um rápido romance. Tão bom para o papel que Talma não ligou para as advertências de Wolf Maia e alguns atores, avisando-o de que se tratava de um mau-caráter. Numa confusão entre suas ambições pessoais e o papel que representava, Guilherme agia do mesmo modo quando falava do futuro de Bira na novela. "Daria tudo para ficar com Yasmin", ele afirmou pouco antes de gravar as cenas em que a sensual personagem de Daniela dava-lhe o fora. Depois de gravar a cena, o ator esmurrou o cenário e caiu no choro.

Menos de um ano depois do casamento com Paula, a carreira de Guilherme ameaçava saltar mais alguns degraus no universo da fama, e o que fora conveniente antes da novela não se ajustava à nova situação. Paula não tinha o que dizer nas raras ocasiões em que encontrava os colegas do marido. Na festa de aniversário de Glória Perez, em setembro do ano passado, entrou muda e saiu calada. “Tentei enturmá-la, mas ela não correspondia ao papo”, lembra a atriz Maria Regina. O pior para Guilherme é que era extremamente possessiva. Mandou trocar o número do telefone do casal, para evitar o assédio das fãs. Nas gravações, em compensação, Guilherme contracenava com a filha da autora. Tinha dois horizontes para melhorar de vida. No primeiro, aproximando-se de Daniela, podia dar sobrevida a seu personagem, cujo destino dependia de uma escolha de Yasmin ou de Glória Perez, na vida real. Numa tacada ainda mais ousada, a sorte podia premiá-lo ainda mais, se Daniela se apaixonasse por ele.

“Pessoa Boníssima” - No esforço para se aproximar de Daniela no curso das grava­ções ele fazia confidências clássicas de um homem casado em busca de um romance paralelo. "Ele contava para ela que tinha problemas em casa, que a mulher era muito possessiva", lembra o viúvo de Daniela, o ator Raul Gazolla. "Nunca vi nada demais”, diz Gazolla. Apesar da fama de inconveniente que Guilherme angariou nos estúdios, Daniela dava-lhe ouvidos. Lembra um ex-namorado da atriz, Duda de Oliveira: “Quando ela me perguntou a respeito do sujeito que ia contracenar com ela, conversei com umas pessoas e alertei a Dani de que ele tinha má fama. Tempos depois, ela veio me dizer que eu estava enganado e que o Guilherme era uma pessoa boníssima”. Estabelecida essa situação, pelo menos de amizade entre os dois atores, fica difícil provar que Daniela não foi espontaneamente até o local do crime. Gazolla e a sogra sustentam que Daniela morria de medo de assaltos e naquele dia levava 6 000 dólares na bolsa, parte do pagamento de um carro importado, um Suzuki Virara, que estava comprando. Ela já havia demonstrado, no entanto, que não via motivo nenhum para temer Guilherme de Pádua.

Nove horas depois, Guilherme estava preso. Entre um momento e outro, a sorte fez uma parte e o bom senso fez a outra, depois que a tragédia estava consumada. Por sorte, havia naquela noite um delegado e dois detetives disponíveis para ir ao local na hora em que o crime foi registrado. Numa decisão correta, os policiais logo apreenderam a lista de carros que tinham saído da Tycoori naquela noite. Numa conjunção das duas coisas, tiveram a preocupação de procurar outras testemunhas e a sorte de encontrar o advogado Hugo da Silveira, que havia visto dois carros naquele lugar e anotara as placas. Aí foi só conferir seus números com as placas relacionadas no controle da Tycoon para chegar a Guilherme de Pádua. Ele foi levado à delegacia às 7h30 do dia 29, atraído pela conversa fiada de que outros artistas estavam depondo para ajudar na investigação. Durante uma hora, contou a mesma mentira. Disse que tinha ido do estúdio BarraShopping buscar Paula. Guilherme foi dobrado aos poucos.

“Chega! Vou Contar” - Primeiro, complicou-se ao explicar escoriações num braço e na testa - a prova de que Daniela lutou antes de morrer. Disse que tinha se machucado na obra de reforma de seu apartamento, não convenceu, então sugeriu que tivesse sido arranhado por um grupo de fãs mais exaltadas. Depois, tentou sustentar que estivera no estúdio até 21 horas e não que saíra e voltara mais tarde para esperar Daniela. Complicou-se definitivamente ao alegar que não tinha o tíquete do estacionamento do shopping porque chegara perto do horário de fechamento e avisara que só ia apanhar uma pessoa. Não sabia que o estacionamento funciona 24 horas, registra todas as entradas e saídas e nunca cobra a primeira meia hora justamente para resolver situações como a que tinha inventado.

Guilherme não se rendeu nem à evidência de que seu carro tinha sido visto no local do crime. "Acompanhei Daniela porque ela queria fumar maconha num local escondido, mas depois deixei-a por lá”, afirmou. Perto do meio-dia, embaralhado com suas próprias versões, o ator levou as duas mãos à cabeça e capitulou. “Chega”, disse. “Vou contar o que aconteceu.” Pediu para ficar sozinho com o delegado Mauro Magalhães e negociou uma versão para seu depoimento. Passava das 2 da tarde quando Guilherme, já assistido por dois advogados, assinou seu depoimento acusando Daniela de assediá-lo com propostas amorosas. Afirmou que a atriz ameaçava destruir seu casamento e tentou agredi-lo com a tesoura usada no homicídio. “Fui pegar lenço de papel no porta-luvas”, ele inventou. “Ela viu a tesoura, pegou e veio para cima de mim. Não sei como acabei matando.” Na quinta-feira passada, seus advogados perderam interesse pelo caso e, inconformados de que não teriam como receber honorários considerados à altura - 100 000 dólares -, abandonaram o cliente. Guilherme de Pádua, o jovem de 23 anos que queria confundir-se com a constelação da TV, era só um estreante no vídeo. Não ganhava mais de 800 dólares por mês. Como vivia dizendo aos poucos amigos, as coisas acontecem bem depressa na sua vida.

Os Leopardos de Copacabana
O strip-tease da carreira de Guilherme

Um dos empregos de Guilherme de Pádua antes de entrar na TV Globo foi o de stripper no show A Noite dos Leopardos, na Galeria Alaska, em tradicional ponto de prostituição de Copacabana. Em setembro de 1989, ele participou de um quadro em que doze rapazes nus exibem seus corpos musculosos para a platéia. São jovens de classe média baixa saídos de academias de musculação do subúrbio. Metade da assistência é de gays, que vão ali para ver homens nus e, em alguns casos, sair para um programa com algum deles. A outra metade é de curiosos. Já apareceram para ver os leopardos celebridades como o vice-presidente de Operações da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, a socialite carioca Claude Amaral Peixoto e a própria Glória Perez, mãe de Daniela Perez.

Em geral as celebridades são chamadas ao palco para coroar seu modelo preferido, que às vezes são também beijados, acariciados e banhados com champanhe em todas as partes (nuas) do corpo. As visitas do cantor Caetano Veloso fora apoteóticas. Em uma delas, Caetano lavou o corpo de um stripper com champanhe enquanto 700 pessoas o aplaudiam de pé.

O show dos “Leopardos” foi criado pelos travestis Eloína e Rogéria em 1988, inspirado em espetáculos dos Estados Unidos. Pioneiro no país, o strip-tease masculino da Galeria Alaska se transformou em coqueluche. Todos os dias, pelo menos três rapazes pedem a Eloína para entrar no elenco. Os candidatos submetem-se a um constrangedor teste. Eles devem provar a capacidade de ter ereção na frente de outras pessoas. “É necessário um bom físico. Não precisa ter talento”, esclarece Eloína.

A idéia de que o show funciona como trampolim para uma carreira promissora é enganosa. Dos 300 rapazes que já passaram por ali, apenas Guilherme conseguiu projeção. Outro “leopardo”, Maurício Gimenez, faz uma ponta na novela De Corpo e Alma. Ele interpreta o que é na vida real, o stripper de uma boate. Em geral, os rapazes trabalham alguns meses no show até encontrar alguém que lhes ofereça uma vida melhor ou faça convite para apresentações no interior do país. Até que isso aconteça, muitos se prostituem. “O show excita as pessoas e eu aceito o convite quando me interessa”, diz o ex-auxiliar de enfermagem Sérgio Teixeira, 24 anos, o Max do espetáculo. Como os outros, Sérgio quer mudar de vida. Seu sonho é ser artista e trabalhar na Rede Globo.

 
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