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REPORTAGEM DE VEJA
O
ovo da serpente
Como
um ator de peças pornôs, candidato a galã da Globo, junta-se
a sua mulher, possessiva e mimada, para tirar a vida da atriz
Daniela Perez com estocadas e fúria
Num
esforço de raciocínio, vamos pensar, por um
minuto, com a cabeça de um homicida comum. Se, por
qualquer razão, o ator Guilherme de Pádua quisesse
apenas matar a atriz Daniela Perez, sua colega na novela De
Corpo e Alma, ele poderia ter desfechado alguns poucos golpes
nos locais em que a perfurou, coração e pulmão.
Mas, conforme sua própria confissão, armado
de uma tesoura, Guilherme acertou doze estocadas no peito
da atriz. Oito atingiram o coração, uma delas
com 10 centímetros de profundidade. Outras quatro perfuraram
o pulmão. A mulher de Guilherme, Paula Thomaz, também
não precisaria ter auxiliado. Mas, como ela mesma disse
a três policiais, tomou a iniciativa de tentar ferir
a atriz com uma chave de fenda e ainda foi buscar a tesoura
usada pelo marido. Daniela também levou quatro estocadas
no pescoço. Um dos golpes alcançou a traquéia
da atriz, impedindo-a de respirar. Também por outros
motivos, o crime ocorrido na noite de 28 de dezembro, numa
rua sem iluminação da Barra da Tijuca, no Rio
de Janeiro, está longe de ter sido um homicídio
comum, igual a tantos outros que, infelizmente, ocorrem todos
os dias nas grandes cidades do país.
Não
há notícias, em lugar algum no mundo, de outro
crime reunindo nos papéis de assassino e vítima
dois atores que na ficção de uma novela namoravam
e brigavam por ciúmes. Aconteceu com Daniela Perez,
no primeiro papel importante de sua carreira, numa novela
campeã de audiência da TV Globo, e o ator Guilherme
de Pádua, um rapaz que começou a trabalhar em
peças grotescas sobre homossexualismo e que começava
a deixar o anonimato com o aparecimento na televisão.
Pela fama de Daniela, sua morte colocou o país em estado
de choque. Comoveu o imenso público das novelas
e ainda empresários, políticos e outros
cidadãos ocupados demais para prestar atenção
nesse tipo de diversão. Também jogou para as
alturas o lbope dos telejornais que anunciavam as novidades
sobre o caso. Os brasileiros sempre aprenderam que as
novelas buscam inspiração na realidade e, na
guerra pela audiência, costumam exagerá-la nos
graus de emoção e na sordidez. No assassinato
de Daniela, redescobriu-se que a realidade pode ser ainda
mais exagerada e mais mórbida que a ficção
da TV.
Ciúme
doentio - Pela selvageria e pelas relações
existentes entre Daniela, Guilherme e Paula, ocorreu
na Barra da Tijuca um crime que atravessa a fronteira da neurose.
Por que mataram? Por que mataram com tanta raiva? Por que
continuaram matando depois da sétima, da oitava, da
nona, da décima estocada? Vieram à luz, também,
interrogações sobre a vida familiar e a formação
de dois jovens de classe média, como Guilherme de Pádua
e sua mulher, Paula. Eles foram educados em bons colégios,
depois do casamento foram morar num apartamento de três
quartos em Copacabana e tinham um padrão de vida
confortável. O casal espera o primeiro filho para
maio. O pai de Paula ajudou-os a comprar um apartamento, no
mesmo prédio, e até investira 26 milhões
de cruzeiros numa reforma para decorá-lo a gosto do
genro, que, com um salário de 10 milhões de
cruzeiros mensais, não tinha como arcar com todas as
despejas.
Morando provisoriamente na casa dos pais de Paula, onde tinha
direito a urna linha telefônica exclusiva e à
boa vontade geral da família, até a noite de
28 de dezembro Guilherme só precisaria esperar o fim
da reforma para mudar-se dali. Na semana passada, Paula dividia
uma cela de sete beliches com outras treze presas em Niterói,
condenadas por tráfico de drogas e seqüestro.
Guilherme estava recolhido a uma delegacia, longe de outros
presos, pois coma o risco de ser estuprado e morto. O delegado
Cidade de Oliveira, que dirigiu as investigações,
está convencido de que ambos mataram Daniela Perez
para resolver o ciúme doentio que infernizava sua vida
conjugal. Na sexta-feira, ambos foram denunciados por homicídio
qualificado.
Diversão
Masoquista - Detalhes importantes do assassinato
levam a marca de um caso clássico de anormalidade mental",
afirma o psiquiatra Guido Palomba, que em dezenove anos de
carreira junto ao Fórum de São Paulo já
analisou 6 000 crimes para dar seu parecer sobre a saúde
mental dos acusados. "São muito fortes os indícios
de que esse casal tinha um desvio de conduta que se agravava,
levando-o para os limites da loucura, acrescenta. O
caso é até simples, afirma o advogado
Clovis Sahyone, um dos mais experimentados criminalistas do
Rio de janeiro. O réu está neuroticamente
ligado à mulher. Ambos têm um pacto de fidelidade.
Por vaidade, atração ou qualquer outro motivo,
ele procura se aproximar de Daniela, que o rejeita. A mulher
dele desconfia e então, como prova de fidelidade, decide
matar Daniela e leva a mulher a tiracolo. Um crime bárbaro,
premeditado."
São
interpretações, sujeitas portanto a todo tipo
de engano. Mas, desde que se conheceram há três
anos, Guilherme e Paula estabeleceram uma convivência
de tumultos. Numa das fases de seu namoro, por exemplo, eles
resolveram separar-se por alguns meses, passando a chamar-se
de irmãozinhos", e inventaram uma diversão
masoquista. Um apresentava parceiros para o outro. "Era
uma coisa doentia", conta um ator que conheceu Guilherme
de Pádua em sua última aparição
teatral, na peça Blue Jeans. Ele me incentivou
a ter um caso com a Paula dizendo que era uma garota fantástica
para namorar.
Tatuagens
- Só no começo de 1992 os dois resolveram retomar
o relacionamento, mas Guilherme ainda passou um tempo namorando
Paula e uma amiga dela simultaneamente. Essa fase terminou
com o casamento, quando ocorreu uma guinada completa. Tanto
que apenas dez dias antes do crime os dois fizeram um pacto
de fidelidade cravado na própria pele. Num gabinete
de tatuagem, Paula escreveu o nome do marido em sua virilha
e Guilherme o da mulher no pênis. "Em treze anos
de serviço eu só havia recebido um pedido parecido
com esse", recorda-se Hélio Tattoo, que os atendeu.
Guilherme sentia tanta dor que a Paula o consolava durante
todo o meu trabalho."
Falou-se
muito em pacto satânico entre Guilherme e Paula como
motivo para o crime, mas essa história de magia negra
é uma suposição inconsistente. Dramatiza
um caso de grande repercussão como esse e por isso
recebe tanto reforço nos telejornais. Mas Guilherme
e Paula tinham um relacionamento emocionalmente excitado e
parece que o rapaz era a razão principal da dramatização.
O primeiro encontro foi em 1989, na promiscuidade da Galeria
Alaska, conhecido ponto de prostituição homossexual
de Copacabana. Ali, Guilherme apresentava-se no espetáculo
A Noite dos Leopardos, um show de conteúdo nenhum,
ao longo do qual rapazes musculosos dançam, tiram a
roupa e desfilam em nu completo, com o membro ereto. Na cena
final, alguns espectadores, homens ou mulheres, são
convidados a subir ao palco, podendo beijar e até dar
um banho de champanhe no ator de sua preferência. Alguns
dos leopardos se prostituem.
Paula,
que tinha apenas 16 anos na época, era conhecida pela
presença freqüente nesses espetáculos.
Tem gente que vê o show e depois faz propostas
de programa aos rapazes, admite o travesti Eloína,
empresário do grupo de dançarinos. Paula
deve ter sido um desses casos. O namoro com uma moça
como Paula, filha única e mimada de um jornalista e
de uma funcionária pública aposentada, que teve
direito a uma babá até completar 13 anos de
idade e ganhou um carro zero-quilômetro quando fez 18,
veio resolver diversas inconveniências na vida de Guilherme.
Desde que saíra de Belo Horizonte para tentar a sorte
no Rio, sua carreira ia de mal a pior. Em sua cidade natal,
chegara a receber um prêmio de ator revelação
pela atuação em Pasolini, Vida e Morte.
No
Rio, começou a se apresentando em Querelle, ao lado
do travesti Rogéria. O espetáculo era um zero
artístico, mas o trabalho seguinte foi ainda mais grotesco.
Uma ponta num filme pornográfico de exportação
chamado Via Appia, exibido nas salas especializadas em filmes
gays de Berlim e Nova York. Quando conheceu a mulher, Guilherme
não havia se tomado, apenas, um especialista no papel
de homossexuais - talento que, em si mesmo, pode ser tão
defensável como o do ator cômico ou daquele que
representa policiais truculentos. Achava-se no fundo do poço.
Sem renda fixa, tinha dificuldades até para pagar o
aluguel. Chegou a morar numa vaga de pensão e em duas
ocasiões hospedou-se, por longos períodos, na
casa de homossexuais do meio artístico do Rio de Janeiro.
Seduzir
as Pessoas -"Mesmo sem dinheiro, ele gostava de se
vestir bem e freqüentar a noite", recorda-se Dalmo
Cordeiro, parceiro em espetáculos que, para levantar
uns trocados no fim do mês, Guilherme apresentava em
festinhas infantis, fantasiado de coelho. Nascido numa família
de situação financeira bastante sólida,
em Belo Horizonte, filho do engenheiro José Antônio
Thomaz e da dona de casa Leda Maria, de uma família
de joalheiros, Guilherme, o mais novo de quatro filhos, teve
uma infância sossegada e uma passagem opaca num tradicional
colégio jesuíta de classe média alta,
o Loyola, freqüentado por diversos mineiros ilustres,
entre eles o neto de Tancredo Neves. Fumou maconha com a moderação
da maioria dos adolescentes de sua época e, por onde
quer que andasse, sempre chamou a atenção por
dois traços de comportamento. A vaidade e uma ambição
inversamente proporcional a seus escrúpulos.
Ele vivia se queixando da beleza de seu irmão
mais velho, parecia até um complexo", conta Dalmo
Cordeiro. Na olimpíada de vaidades da Globo, Guilherme
polia sua aparência com alguns cuidados excessivos.
Até mesmo seus colegas de profissão estranhavam
o zelo que dedicava às sobrancelhas, que considerava
grossas demais e vivia a desbastar. Também chamava
a atenção pelos cuidados com a maquilagem. "Eu
disse a ele uma vez que era jovem, sem rugas, e podia maquilar-se
menos, contou à polícia o ator Victor
Fasano, colega do elenco em De Corpo e Alma. Aos 18 anos,
com o seu modesto sucesso em Pasolini, Guilherme acreditava
ter encontrado a fórmula que garantiria seu futuro.
"Você tem que seduzir as pessoas", ele recomendou
na época ao colega de elenco Carlos Nunes. "Esse
jogo faz parte do sucesso!
Escondido
no Telhado - Se Guilherme deixou uma marca em sua curta
existência como ator, essa característica foi
a de bajular ou envolver-se amorosamente com quem pudesse
ajudá-lo. "Nas reuniões de trabalho, ele
procurava sobressair-se, mostrar-se melhor que os outros",
recorda a modelo mineira Rejane Araújo. Ele sempre
foi obstinado, ambicioso, determinado e puxa-saco!,
lembra o diretor teatral Wolf Maia, que lhe deu uma participação
menor em Blue Jeans e depois o promoveu a um dos papéis
principais com a saída do ator Alexandre Frota do elenco.
Pelo meio que freqüentava e pelos métodos que
usou, Guilherme deixou dúvidas sobre sua sexualidade.
Nunca moveu uma palha para desfazê-las, pois eram convenientes
a seus projetos.
"Ele
sabia que muitos intelectuais e formadores de opinião
são homossexuais e deixava as coisas no ar para conquistar
essas pessoas, diz o diretor Júlio Mackenzie,
de Mandrágora, a última peça que o ator
fez em Belo Horizonte. É possível que a junção
de sexo, dinheiro e amores interesseiros tenha sido inaugurada
quando Guilherme buscava patrocínio para Pasolini.
Parte da verba saiu dos cofres da empresa do pai de sua namorada
da época, Jucira Araújo. Seis anos mais velha
que Guilherme, ela mantinha com o candidato ao estrelato uma
convivência em alta temperatura. Numa cena de ciúmes,
Jucira correu atrás do namorado para estapeá-lo.
Para não apanhar, Guilherme acabou se refugiando num
telhado.
Na
sua experiência como ator, Guilherme sempre chamou a
atenção pelo comportamento descontrolado. Na
Globo, deixou hematomas nos braços da atriz Carla Daniel.
Numa gravação em que precisava segurá-la
pelo braço, apertou-a com tanta força que terminou
por machucá-la. Na época de Blue Jeans, Guilherme
unha de encenar uma briga com um canivete. Na segunda apresentação
cortou o queixo do ator que contracenava com ele - foi a única
vez que ocorreu um acidente desse tipo nos dois anos em que
a peça ficou em cartaz. Durante um ensaio, começou
a ridicularizar o ator Alexandre Frota, que pratica jiu-jitsu,
alegando que o judô é uma arte superior. Desafiado
para um treino, topou a parada, acabou imobilizado por Frota
e depois ameaçou agredi-lo com um caco de espelho preso
a um pedaço de pau. "Sou um cara corajoso,
definiu-se Guilherme à revista Contigo dias antes de
matar Daniela. Era, com certeza, um exibicionista. Em junho
de 1991, ao sofrer um assalto acompanhado do ator paulista
Maurício Ferrazza, ambos terminaram envolvidos por
um tiroteio entre a polícia e os bandidos. Saíram
feridos a bala, pelos policiais. Tempos depois, enquanto Ferrazza
ainda estava traumatizado pelo episódio, Guilherme,
que tomou um tiro no ombro, contava e recontava a aventura.
Na
noite de 28 de dezembro, as personalidades de Guilherme e
Paula se encontraram com Daniela Perez. Segundo o laudo da
polícia técnica, Daniela Perez estava desacordada
quando o assassino desferiu os golpes que a mataram. Pelas
evidências reunidas até o final da semana passada,
a hipótese mais plausível para o crime encontra-se
num depoimento de Paula Thomaz. Sua história foi narrada
aos detetives Newton Moreira, Valdir Andrade e Nélson
dos Santos quando eles foram ouvi-la em casa, horas depois
de prender seu marido. Havia suspeita da participação
da moça no assassinato desde a manhã daquele
dia, quando, sem saber que estava sob escuta, Guilherme ligou
para casa, da delegacia, instruindo a mulher a entregar à
polícia as roupas que ele usara na noite anterior.
"Mas a roupa não está lavando", respondeu-lhe
a mulher do outro lado da linha telefônica, ouvida na
extensão por um policial. A polícia descobriria,
depois de receber um pacote de roupas molhadas, que o hábito
da casa era ligar a máquina de lavar à tarde
e que fora Paula quem instruíra a empregada a mudar
o procedimento, depois do telefonema do marido.
Vagabunda
- À primeira insinuação do detetive Waldir
sobre sua participação no crime, Paula começou
a chorar, em seu quarto, confirmando que estava no local.
Em outro depoimento, ela narrou o episódio em detalhes
para o inspetor Nélio Machado. Contou que estava escondida
embaixo de um lençol no banco de trás do Santana
dirigido por Guilherme quando ele saiu da produtora Tycoon
depois de combinar um encontro secreto com Daniela Perez.
Não se sabia até a última sexta-feira
por que razão Daniela aceitou essa conversa num local
tão estranho, quase baldio. Havia apenas hipóteses
para isso. Na versão que Paula deu à polícia,
seu marido pretendia provar-lhe que a atriz o estava assediando
com propostas amorosas. Quando o Santana parou, num local
escuro, ele desceu do carro e começou a conversar com
Daniela, cujo Escort estava parado logo à frente. Paula.
levantou a cabeça, para ouvir melhor o diálogo,
e foi percebida por Daniela. "Você trouxe esta
vagabunda para cá, foi a reação
da atriz, segundo disse a mulher do ator. Seguiu-se uma briga,
Guilherme aplicou uma gravata na atriz, Paula, pegou uma chave
de fenda no porta-luvas do Santana e tentou ferir a suposta
rival. "Mas a chave de fenda não entrava,
ela contou. Por isso, voltou para o carro e retomou armada
com uma tesoura.
Durante
a luta, Daniela desmaiou. Guilherme perguntou à mulher
se a tinha fendo com a tesoura. Ela não sabia. 'Tudo
escureceu", afirmou para os policiais. "Só
me lembro de Guilherme arrastando o corpo para o mato e dando
tesouradas na Daniela." Mais tarde, Paula desmentiu,
enfaticamente, que tivesse feito a confissão. Numa
entrevista ao repórter Nelio Bilate, da Rádio
Tupi, disse que não sabia de nada. Quanto à
culpa de seu marido, ela lavou as mãos. Se ele
fez, não sei. Eu não estava com ele." Existem
fatos e testemunhas para atestar que Paula falou a verdade
no depoimento aos policiais. Pode ter se arrependido mais
tarde, optando pela mentira.
O
primeiro fato é que Guilherme e Paula saíram
juntos de casa na tarde do crime, com um lençol e um
travesseiro, e retomaram às 2 horas da madrugada seguinte,
com o carro ainda molhado, segundo o depoimento do garagista
Cesarmo Manoel do Nascimento. Isso pode indicar que o tenham
lavado para apagar vestígios pudessem comprometê-los.
Quando deixou o estúdio da Tycoon, naquela noite, o
auxiliar de câmara Gilmar Lima Marinho viu um volume
grande no banco traseiro do Santana, coberto por um lençol
de cor clara. Paula também foi reconhecida pelo advogado
do Hugo da Silveira, que lembra ter visto um homem e uma mulher
de rosto redondo dentro do Santana, ao passar pela terceira
vez ao lado dos carros de Guilherme e Daniela, desconfiado
de que podia ocorrendo um assalto.
A
fatalidade levou a novelista Perez a escrever diálogos
para sua filha trocar com o algoz. Como num jogo de cartas
marcadas, Guilherme foi escolhido para o papel de Bira e para
contracenar com Yasmin na novela por demonstrar, numa curta
fita de vídeo, que era capaz de representar sua própria
personalidade. Roberto Talina, o diretor da produção,
escolheu-o a partir de um teste de vídeo arquivado
na Globo. Era a figura ideal para viver o truculento motorista
de ônibus apaixonado e dispensado por Yasmin após
um rápido romance. Tão bom para o papel que
Talma não ligou para as advertências de Wolf
Maia e alguns atores, avisando-o de que se tratava de um mau-caráter.
Numa confusão entre suas ambições pessoais
e o papel que representava, Guilherme agia do mesmo modo quando
falava do futuro de Bira na novela. "Daria tudo para
ficar com Yasmin", ele afirmou pouco antes de gravar
as cenas em que a sensual personagem de Daniela dava-lhe o
fora. Depois de gravar a cena, o ator esmurrou o cenário
e caiu no choro.
Menos
de um ano depois do casamento com Paula, a carreira de Guilherme
ameaçava saltar mais alguns degraus no universo da
fama, e o que fora conveniente antes da novela não
se ajustava à nova situação. Paula não
tinha o que dizer nas raras ocasiões em que encontrava
os colegas do marido. Na festa de aniversário de Glória
Perez, em setembro do ano passado, entrou muda e saiu calada.
Tentei enturmá-la, mas ela não correspondia
ao papo, lembra a atriz Maria Regina. O pior para Guilherme
é que era extremamente possessiva. Mandou trocar o
número do telefone do casal, para evitar o assédio
das fãs. Nas gravações, em compensação,
Guilherme contracenava com a filha da autora. Tinha dois horizontes
para melhorar de vida. No primeiro, aproximando-se de Daniela,
podia dar sobrevida a seu personagem, cujo destino dependia
de uma escolha de Yasmin ou de Glória Perez, na vida
real. Numa tacada ainda mais ousada, a sorte podia premiá-lo
ainda mais, se Daniela se apaixonasse por ele.
Pessoa
Boníssima - No esforço para se aproximar
de Daniela no curso das gravações ele fazia
confidências clássicas de um homem casado em
busca de um romance paralelo. "Ele contava para ela que
tinha problemas em casa, que a mulher era muito possessiva",
lembra o viúvo de Daniela, o ator Raul Gazolla. "Nunca
vi nada demais, diz Gazolla. Apesar da fama de inconveniente
que Guilherme angariou nos estúdios, Daniela dava-lhe
ouvidos. Lembra um ex-namorado da atriz, Duda de Oliveira:
Quando ela me perguntou a respeito do sujeito que ia
contracenar com ela, conversei com umas pessoas e alertei
a Dani de que ele tinha má fama. Tempos depois, ela
veio me dizer que eu estava enganado e que o Guilherme era
uma pessoa boníssima. Estabelecida essa situação,
pelo menos de amizade entre os dois atores, fica difícil
provar que Daniela não foi espontaneamente até
o local do crime. Gazolla e a sogra sustentam que Daniela
morria de medo de assaltos e naquele dia levava 6 000 dólares
na bolsa, parte do pagamento de um carro importado, um Suzuki
Virara, que estava comprando. Ela já havia demonstrado,
no entanto, que não via motivo nenhum para temer Guilherme
de Pádua.
Nove
horas depois, Guilherme estava preso. Entre um momento e outro,
a sorte fez uma parte e o bom senso fez a outra, depois que
a tragédia estava consumada. Por sorte, havia naquela
noite um delegado e dois detetives disponíveis para
ir ao local na hora em que o crime foi registrado. Numa decisão
correta, os policiais logo apreenderam a lista de carros que
tinham saído da Tycoori naquela noite. Numa conjunção
das duas coisas, tiveram a preocupação de procurar
outras testemunhas e a sorte de encontrar o advogado Hugo
da Silveira, que havia visto dois carros naquele lugar e anotara
as placas. Aí foi só conferir seus números
com as placas relacionadas no controle da Tycoon para chegar
a Guilherme de Pádua. Ele foi levado à delegacia
às 7h30 do dia 29, atraído pela conversa fiada
de que outros artistas estavam depondo para ajudar na investigação.
Durante uma hora, contou a mesma mentira. Disse que tinha
ido do estúdio BarraShopping buscar Paula. Guilherme
foi dobrado aos poucos.
Chega!
Vou Contar - Primeiro, complicou-se ao explicar
escoriações num braço e na testa - a
prova de que Daniela lutou antes de morrer. Disse que tinha
se machucado na obra de reforma de seu apartamento, não
convenceu, então sugeriu que tivesse sido arranhado
por um grupo de fãs mais exaltadas. Depois, tentou
sustentar que estivera no estúdio até 21 horas
e não que saíra e voltara mais tarde para esperar
Daniela. Complicou-se definitivamente ao alegar que não
tinha o tíquete do estacionamento do shopping porque
chegara perto do horário de fechamento e avisara que
só ia apanhar uma pessoa. Não sabia que o estacionamento
funciona 24 horas, registra todas as entradas e saídas
e nunca cobra a primeira meia hora justamente para resolver
situações como a que tinha inventado.
Guilherme
não se rendeu nem à evidência de que seu
carro tinha sido visto no local do crime. "Acompanhei
Daniela porque ela queria fumar maconha num local escondido,
mas depois deixei-a por lá, afirmou. Perto do
meio-dia, embaralhado com suas próprias versões,
o ator levou as duas mãos à cabeça e
capitulou. Chega, disse. Vou contar o que
aconteceu. Pediu para ficar sozinho com o delegado Mauro
Magalhães e negociou uma versão para seu depoimento.
Passava das 2 da tarde quando Guilherme, já assistido
por dois advogados, assinou seu depoimento acusando Daniela
de assediá-lo com propostas amorosas. Afirmou que a
atriz ameaçava destruir seu casamento e tentou agredi-lo
com a tesoura usada no homicídio. Fui pegar lenço
de papel no porta-luvas, ele inventou. Ela viu
a tesoura, pegou e veio para cima de mim. Não sei como
acabei matando. Na quinta-feira passada, seus advogados
perderam interesse pelo caso e, inconformados de que não
teriam como receber honorários considerados à
altura - 100 000 dólares -, abandonaram o cliente.
Guilherme de Pádua, o jovem de 23 anos que queria confundir-se
com a constelação da TV, era só um estreante
no vídeo. Não ganhava mais de 800 dólares
por mês. Como vivia dizendo aos poucos amigos, as coisas
acontecem bem depressa na sua vida.
Os
Leopardos de Copacabana
O strip-tease da carreira de Guilherme
Um
dos empregos de Guilherme de Pádua antes de entrar
na TV Globo foi o de stripper no show A Noite dos Leopardos,
na Galeria Alaska, em tradicional ponto de prostituição
de Copacabana. Em setembro de 1989, ele participou de um quadro
em que doze rapazes nus exibem seus corpos musculosos para
a platéia. São jovens de classe média
baixa saídos de academias de musculação
do subúrbio. Metade da assistência é de
gays, que vão ali para ver homens nus e, em alguns
casos, sair para um programa com algum deles. A outra metade
é de curiosos. Já apareceram para ver os leopardos
celebridades como o vice-presidente de Operações
da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho,
a socialite carioca Claude Amaral Peixoto e a própria
Glória Perez, mãe de Daniela Perez.
Em
geral as celebridades são chamadas ao palco para coroar
seu modelo preferido, que às vezes são também
beijados, acariciados e banhados com champanhe em todas as
partes (nuas) do corpo. As visitas do cantor Caetano Veloso
fora apoteóticas. Em uma delas, Caetano lavou o corpo
de um stripper com champanhe enquanto 700 pessoas o aplaudiam
de pé.
O
show dos Leopardos foi criado pelos travestis
Eloína e Rogéria em 1988, inspirado em espetáculos
dos Estados Unidos. Pioneiro no país, o strip-tease
masculino da Galeria Alaska se transformou em coqueluche.
Todos os dias, pelo menos três rapazes pedem a Eloína
para entrar no elenco. Os candidatos submetem-se a um constrangedor
teste. Eles devem provar a capacidade de ter ereção
na frente de outras pessoas. É necessário
um bom físico. Não precisa ter talento,
esclarece Eloína.
A idéia de que o show funciona como trampolim para
uma carreira promissora é enganosa. Dos 300 rapazes
que já passaram por ali, apenas Guilherme conseguiu
projeção. Outro leopardo, Maurício
Gimenez, faz uma ponta na novela De Corpo e Alma. Ele interpreta
o que é na vida real, o stripper de uma boate. Em geral,
os rapazes trabalham alguns meses no show até encontrar
alguém que lhes ofereça uma vida melhor ou faça
convite para apresentações no interior do país.
Até que isso aconteça, muitos se prostituem.
O show excita as pessoas e eu aceito o convite quando
me interessa, diz o ex-auxiliar de enfermagem Sérgio
Teixeira, 24 anos, o Max do espetáculo. Como os outros,
Sérgio quer mudar de vida. Seu sonho é ser artista
e trabalhar na Rede Globo.
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