O circo na TV

No vale-tudo da audiência, emissoras brasileiras
apelam e ultrapassam os limites do bom gosto

Ricardo Valladares, Marcelo Camacho e Neuza Sanches Com reportagem de Marcos Paulo Gusmão, de Fortaleza, Andréa Barros e João Gabriel de Lima, de São Paulo, Eurípedes Alcântara, de Nova York, e Mitsuhito Saito, de Tóquio

O capixaba Rafael Pereira dos Santos, 15 anos, sofre de uma doença rara chamada síndrome de Seckel. Mede 87 centímetros, pesa 8 quilos e tem o corpo fino como um boneco de brinquedo. A síndrome de Seckel é pior do que o nanismo. Além de atrofia no crescimento, tem como característica a microencefalia (cabeça pequena), que pode gerar problemas no cérebro. Rafael tem a idade mental de 3 anos e, abandonado pelos pais, vive num orfanato. É um mal transmitido hereditariamente. Os irmãos Fajardo, do México, sofrem de outra doença rara, a hipertricose, que faz crescer pêlos por todo o corpo, do rosto aos pés, dando ao portador uma aparência de lobisomem. Trata-se de uma mutação genética. Já o cearense Carlos Augusto Torres é aparentemente normal, mas, segundo sua família, tem problemas mentais. Aos 33 anos, porta-se como uma criança de 10. Ganha a vida nas ruas de Fortaleza fazendo estripulias como colocar uma dúzia de limões na boca, uma caverna escura de tamanho desmedido onde Carlos Augusto, o "Bocão", consegue também enfiar 120 canetas Bic de uma só vez. Ainda pequeno, quando fez um exame do cérebro, constatou que sofria também de epilepsia.

Pessoas como Carlos Augusto, Rafael e os irmãos Fajardo seriam casos típicos de literatura médica. Em vez disso, nas últimas semanas foram disputados a tapa por emissoras de televisão para ser exibidos em programas de variedades. Motivo: são grandes chamarizes de audiência. Ligar a televisão no domingo, nesses momentos, dá a impressão de um passeio a circos de antigamente, em que havia atrações grotescas como a mulher barbada, o homem-elefante e a mula de duas cabeças. Os circos de hoje, no entanto, progrediram, têm cuidados com a sua imagem. "Não exibimos anões há 22 anos", informa Rolando Garcia, proprietário do circo que leva seu nome. Já a televisão brasileira regrediu.

Na bacia – Em seu programa de domingo dia 8, na Rede Globo, o apresentador Fausto Silva colocou em cena o garoto Rafael, da altura do seu joelho. Logo que o peso-pena pisou no programa, Faustão tentou entrevistá-lo. O menino, com sua idade mental de criança que acabou de deixar a fralda, não entendia as perguntas. Respondia uma ou outra, com uma voz que parecia um balbucio. Houve então sessões de piada tendo o garoto como tema. Numa delas, Fausto Silva, que mede 1,89 metro, sentou o garoto numa perna e o músico Caçulinha, que mede 1,60, na outra. Disse: "A Xuxa que me perdoe, mas agora quem apresenta o show dos baixinhos sou eu". Rafael ficou no ar por longos 37 minutos, enquanto a máquina que registra a audiência instantaneamente mostrava que o programa estava ganhando mais público. Houve uma apresentação do cantor Latino, de quem Rafael fez uma imitação desajeitada, vestido em roupa preta, sapatos bicolores e um bigodinho pintado a lápis em cima da boca. Espantoso, chocante, mas sem nenhuma sombra de graça.

Logo depois, entraram em cena os humoristas do programa de rádio paulistano Café com Bobagem, especialistas em imitações. Um deles, com a voz de Lula: "Isso sim é um grande homem. Menor que você, só o salário mínimo". Outro, imitando Gugu Liberato: "Vou chamar você para entrar na minha banheira. Ou melhor, na minha bacia". Um terceiro, caracterizado como o falecido trapalhão Mussum: "Vou dar a ele uma cachaça, para ver se fica um pouco alto". Por último, ouve-se a voz afetada, imitando a do costureiro Clodovil: "Para fazer uma roupa para ele, bastava um retalho". O menino com síndrome de Seckel não entendia direito as piadas, mas ria de vez em quando. Na sexta-feira, o Juizado de Menores do Rio de Janeiro e o Ministério Público resolveram investigar a participação de Rafael no Domingão. A Globo teria infringido o artigo 258 do Estatuto da Criança ao colocar na TV um menor sem alvará.

Bolas de sinuca – A apresentação do bizarro na televisão é um recurso que dá resultado, sempre deu. O bizarro atrai a atenção do ser humano quase que por instinto, sem que ele raciocine. "Todas as imagens comuns estão registradas pela memória", diz o neurocirurgião Roth Vargas, professor da Universidade de Campinas. "Quando a pessoa vê algo incomum, um anão, por exemplo, a informação é recebida pelo tálamo, uma espécie de porta de entrada do cérebro que registra que a informação é diferente do habitual, e isso faz com que a pessoa continue olhando. É o mecanismo da curiosidade." Se os telespectadores ficam olhando curiosos, o ibope do programa sobe e isso significa sucesso comercial, mais anúncios, mais faturamento.

Qual é a fronteira, qual a linha divisória entre o que se pode levar ao ar para atrair mais telespectadores? "É tênue a linha que divide o que é curioso e o que transforma a curiosidade em algo que ridiculariza uma pessoa", arrisca o empresário Silvio Santos, dono do SBT, uma emissora que não raro transpõe essa linha. Não é uma linha muito clara, mas nas últimas semanas os telespectadores sentiram claramente que ela foi ultrapassada em várias oportunidades. Houve exagero há uma semana, por exemplo, quando a nonagenária Dercy Gonçalves se apresentou no programa Sai de Baixo, domingo à noite, na Globo. Dercy chamou suas partes baixas por nomes chulos, simulou flatulência, levantou a roupa para mostrar seus seios ao Brasil inteiro, como se a idade avançada lhe permitisse qualquer coisa. Se é para levar o critério do bizarro ao limite, por que então não apresentar logo um strip-tease do oxigenado Falabella? Homem pelado não dá ibope? Então quem sabe da atriz Marisa Orth, o novo símbolo sexual da TV. Dercy Gonçalves pode tirar a roupa toda, se quiser, em seus shows no teatro, recomenda o bom senso. Vai quem quer. E quem lá aparece sabe o que ouvirá e verá. Nada errado com isso. Na tela da Globo, domingo à noite, pareceu demais. Não apenas a Dercy. O número do Faustão também. E chocou não apenas os telespectadores.

O vice-presidente de mídia eletrônica da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, assistiu ao programa do Faustão em casa e no próprio domingo, a mão, escreveu um memorando para avisar que aquilo não deveria repetir-se. "Achei a apresentação do Rafael uma agressão estética. Como ele não sabia cantar, dançar nem fazer imitações, ele estava lá apenas porque é pequeno, e isso é uma agressão", explica Boni. "Um menino, ou um anão, como é o caso do Nelson Ned, pode ter uma boa voz, cantar bem ou ser engraçado, e aí vale colocá-lo no ar. Mas não era esse o caso. Achei a coisa tão chocante, tão agressiva que, para extravasar, escrevi o memorando em casa mesmo." Na segunda-feira, depois de digitar o memorando, a secretária de Boni comentou com o chefe: "O senhor está irritado, mas nem viu a Dercy Gonçalves no Sai de Baixo." Só então Boni foi assistir ao programa. Ficou irritado outra vez e escreveu um segundo memorando, desta vez dirigido à equipe responsável pelo Sai de Baixo. Segundo Boni, houve no caso da Dercy dois erros. "Primeiro, ela deve ser protegida. É um abuso colocar uma mulher da idade dela naquela situação. E, em segundo lugar, não é necessário: o Sai de Baixo é líder absoluto no horário, não precisa apelar."

O velho recurso de apresentar coisas curiosas no vídeo ganhou impulso em agosto, quando o programa de Fausto Silva foi antecipado para o horário das 15h30 e passou a concorrer diretamente com o de Gugu Liberato, no SBT. Nesse momento, o demônio do ibope cochichou alguma coisa no ouvido de Gugu. Para bater Faustão, o campeão de audiência dos domingos, Gugu colocou no ar, no dia 25 de agosto, os irmãos mexicanos Fajardo, que em sua terra natal são conhecidos como "Los Peludos". A audiência começou a subir, foi de uma média de 13 para 16 e chegou a picos de 21 pontos. Pela primeira vez em sete anos, Fausto Silva foi batido. Diante do risco da derrota no ibope, Carlos Manga, diretor do núcleo do Faustão, reagiu imediatamente. No outro domingo, Faustão colocou em cena o cearense Carlos Augusto Torres, o "Bocão", trazido por um conterrâneo seu, o humorista Tom Cavalcante. Bocão deu um show. Primeiro, colocou na boca sete bolas de pingue-pongue. Depois, alternadamente, quatro de sinuca, quatro ovos (sem quebrar), cinco limões, um copo de suco, quatro copos de cachaça. E entre uma coisa e outra arregaçava sua boca diante da câmara. Com o cearense Bocão e o garoto Rafael, Fausto Silva, que possui uma média de 24 pontos, chegou aos 30.

Marca divisória – Essa é a briga atual. Suas raízes estão lá atrás, na história de décadas da TV brasileira. Em 1992, para citar um caso mais recente, a emissora paranaense CNT exibiu, às 11 horas da noite, o filme Calígula, em que cenas de sexo explícito deixaram os telespectadores perplexos e provocaram uma discussão sobre os limites a ser respeitados pela televisão. Aconteceu de novo em 1993, quando o programa Aqui Agora, do SBT, exibiu, ao vivo e em rede nacional, o suicídio de uma garota, que se jogou de um prédio. Quando Calígula foi exibido, já havia uma onda de filmes de sexo velado na televisão. Da mesma forma, o suicídio exibido pelo Aqui Agora vinha numa onda de violência na TV. Mas foram esses dois programas, respectivamente, que pareceram ultrapassar a marca divisória entre aquilo que é aceitável e o que não é. Assim como a exibição do garoto Rafael no Faustão, na semana passada, estourou a cota do bizarro.

Dentro da Globo também houve uma onda de choque. Na mesma segunda-feira em que Boni distribuiu seus memorandos, Faustão declarou-se constrangido e disse que havia sido "pressionado" a apresentar o garoto. Rafael foi indicado para a produção do programa pelos cantores Zezé di Camargo e Luciano. Mas, segundo Faustão, quando a equipe de produção viu o menino, houve dúvida se ele seria ou não colocado no ar. "Meia hora antes do programa, a gente percebeu que a situação era delicada", diz o apresentador. A palavra final coube ao diretor Carlos Manga. Como Faustão falou em "constrangimento", Boni resolveu divulgar seus memorandos, esclarecendo que a direção da emissora não constrangera ninguém a apelar para a baixaria. "Num mesmo domingo foram levadas ao ar duas seqüências apelativas, a do Rafael e a da Dercy", diz Boni. "Essas coisas acontecem, é a Lei de Murphy, e nos cabe reconhecer os erros e corrigi-los. Foi o que fizemos. Mas é uma tolice pegar dois deslizes isolados e querer transformá-los numa filosofia de programação, ou numa crise. A família Marinho, eu e toda a direção da Globo somos contra o mundo cão."

Um obstáculo nesses casos é que as emissoras precisam se auto-regular e fica difícil resistir à tentação de ir um pouquinho mais longe, na expectativa de receber as palmas do Ibope. O único critério formalizado é o que está previsto no Código de Ética da Radiodifusão Brasileira, um documento publicado em 1991 pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, Abert. O código, curiosamente, não fala nada sobre a exibição de deficientes físicos como Rafael ou os irmãos peludos do México. Mas tem artigos que condenariam grande parte da programação exibida hoje pelas emissoras. "Os programas transmitidos não terão cunho obsceno e não advogarão a promiscuidade ou qualquer forma de perversão sexual", diz o artigo 8 do código. Recomenda o artigo 11 que a violência e o crime jamais sejam apresentados inconseqüentemente. Na semana que vem, numa reunião no Recife, a Abert estará rediscutindo esse código.

Caixa de sapatos – Além de vago, o código de ética da Abert não tem nenhuma eficácia em melhorar o padrão das emissoras. "A punição mais utilizada é uma advertência sigilosa, o que é praticamente igual a nada", afirma Carlos Alberto di Franco, professor de ética e representante no Brasil da Faculdade de Ciência da Informação da Universidade de Navarra. Há um mês, houve uma reunião entre integrantes da Abert – entidade que é formada por representantes de todas as emissoras – e o ministro da Justiça, Nelson Jobim. Desse encontro saiu a idéia de criar um instituto formado por psicólogos, sociólogos, educadores e outros profissionais para classificar os programas de acordo com horário e faixa etária. Esse projeto, no entanto, ainda não saiu do papel. Além disso, não se aplicaria a casos como o de Faustão e o de Gugu. "Programas desse tipo não poderão ser analisados por esse instituto simplesmente porque são ao vivo", observa Luis Eduardo Borghetti, vice-presidente executivo da entidade. Ficariam, assim, a cargo do bom senso dos apresentadores.

O grande pivô de toda essa discussão, o menino Rafael Pereira dos Santos, não chega a ser personagem do Livro Guinness de Recordes com seus 87 centímetros. O menor homem do mundo é o indiano Gul Mohammed, que aos 39 anos mede apenas 57 centímetros, 30 a menos que Rafael. Mas o menino do Espírito Santo passa uma impressão enorme de fragilidade. Por isso, chocou tanto vê-lo ao lado do gigante Faustão. Talvez não acontecesse nada se fosse um anão de tronco largo. Rafael nasceu em Colatina com apenas 18 centímetros e 450 gramas de peso. Foi abandonado pela mãe, que não queria o filho, pois não era casada. O pai quis criá-lo, mas não pôde. Ao descobrir que sua esposa legítima – que não era a mãe de Rafael – o traía, ele a matou com dezessete tesouradas e foi preso. Quem passou a cuidar de Rafael foi uma vizinha, Eneldina Nardi, hoje com 66 anos. Ela se tornou mãe adotiva do garoto. Nunca mais se soube da mãe verdadeira nem do pai. Rafael vive num barraco de uma pequena favela no bairro Vila Amélia, em Colatina. No mesmo casebre azul de dois cômodos, dormem além dele e da mãe adotiva, Eneldina, um filho e uma irmã dela. Até hoje, Rafael freqüenta o Lar Irmã Scheilla, uma entidade espírita de Colatina que funciona como orfanato, creche e abrigo para idosos, onde brinca com outras crianças, todas normais. Volta para casa de noite. "Se ele está com fome, come meio biscoito recheado e já está satisfeito", diz uma funcionária do lar.

Namorada – Rafael não tem problemas graves de saúde. Só resfriados o pegam de vez em quando. Nesses casos, toma comprimidos não muito fortes – a mesma coisa que uma criança de 5 anos. No Domingão do Faustão, ele disse que tem uma namorada. Trata-se de uma brincadeira que alimenta e que ninguém se preocupa em coibir. Sua "namorada", no caso, é uma moça de 20 anos, chamada Anandra, que também cresceu no orfanato do Lar Irmã Scheilla e hoje trabalha lá. Quem anda com ele de um lado para o outro, em Colatina, é o enfermeiro Sídnei Cardoso, de 22 anos. Foi ele que acompanhou o garoto até o Domingão do Faustão. "O Rafael adorou participar do programa", diz Sídnei. Não recebeu nenhum cachê por isso. Apenas as despesas com transporte e hospedagem teriam sido pagas pela Globo, mais uma ajuda de custo de 100 reais. Ao contrário do que foi divulgado na semana passada pela produção do programa de Faustão, Rafael não faz shows para faturar uns trocados.

Já o cearense Carlos Augusto, o Bocão, ganha a vida com sua estranha habilidade. Recebeu 1 000 reais para participar do programa de Faustão. Bocão tem mãe, dona Terezinha Torres de Almeida, 61 anos, e ela não se empolgou nem um pouco com a súbita fama do filho. "Não gosto que façam isso. Ele é doente", diz. Com todas as reclamações da mãe, a elasticidade da boca de Carlinhos é que garante o sustento da família. Com suas exibições, ganha 30 reais por dia. Cobra 100 para se apresentar em festas. Na casa de cinco cômodos, no bairro de Jurema, um dos mais pobres de Fortaleza, Bocão mora com os pais, mais seis irmãos, dois cunhados e duas sobrinhas. Apenas o irmão Sebastião, 20 anos, tem emprego fixo. Ele é soldado do Exército. Bocão, que aos 33 anos tem idade mental de 12, só teve uma namorada até hoje – que terminou o relacionamento depois de um mês.

Não é apenas a exibição de deficientes físicos e pessoas com problemas mentais que caracteriza a atual onda do bizarro na televisão brasileira, e nem sempre apelações desse tipo são sinônimo de audiência. No mesmo domingo em que Fausto Silva colocou Rafael no ar, o programa Sai de Baixo, com a participação especial da comediante Dercy Gonçalves, caiu de uma média de audiência de 38 pontos para 34. Daniel Filho, diretor do núcleo responsável pelo programa, também foi chamado às falas por Boni. Outro caso recente de apelação foi protagonizado pelo apresentador Goulart de Andrade, que mostrou, na televisão, cenas da autópsia de Paulo César Farias, realizada pelo legista Fortunato Badan Palhares.

Mostra-se a pele de PC sendo cortada e levantada – uma espessa faixa de gordura amarela salta para fora do corpo. Num outro momento, surgem os órgãos que acabam de ser retirados na exumação, o pulmão, a traquéia e o coração. O músculo cardíaco está atravessado por um instrumento de metal, para mostrar a trajetória da bala. A traquéia é lavada com água numa pia de metal, enquanto uma tesoura de aço corta-a no sentido longitudinal. São cenas nojentas, perto das quais o show de Dercy ou a brincadeira com Rafael parecem coisa de televisão suíça. Badan Palhares, que forneceu as imagens e as comentou, e o apresentador Goulart de Andrade demonstraram uma insensibilidade criminosa e uma falta de respeito pela memória do morto inimagináveis num médico e num veterano profissional da comunicação. Pior: no final do programa, Goulart anunciou que uma cópia da fita seria comercializada, a 29,90 reais o exemplar. Na semana passada, pressionado por entidades que defendem a ética médica, Goulart disse que a fita não seria mais lançada. O espectador também mudou de canal – a audiência de Goulart nesse programa indecente caiu de 2 para 1 ponto.

Purgante – Os defensores de que se mostre esse tipo de coisa na TV costumam argumentar que sexo, violência e coisas bizarras já são moeda corrente na televisão brasileira há muito tempo. Não justifica, mas não deixa de ser verdade. Silvio Santos, em 1969, recebeu uma advertência da censura federal por causa de um concurso no qual o vencedor seria aquele que tomasse mais purgante. De Brasília veio o diagnóstico: ofendia a dignidade da pessoa humana. Nos anos 70, Silvio Santos, Chacrinha e Flavio Cavalcanti disputavam a audiência acirradamente, como Gugu e Faustão agora, e caprichavam nas baixarias. Flavio também foi censurado ao entrevistar um homem que, após ficar impotente, havia emprestado a mulher para o vizinho. Depois de se curar, pediu-a de volta.

A TV brasileira também não é a única do mundo que apela para essas coisas. Tanto que o quadro A Banheira do Gugu, o mais assistido do programa dominical do SBT, é inspirado num similar espanhol. O toque brasileiro é que só aqui as modelos aparecem em biquínis sumaríssimos – o que possibilita inclusive excessos, como os cometidos pelos convidados Otávio Mesquita e Pedro de Lara, que passaram a mão nas modelos e foram advertidos pela produção. No Japão, há uma versão ainda pior da banheira. Músicos jovens ou atores de teatro em busca de espaço para divulgar seu trabalho comparecem ao programa dominical de variedades TV Oja-Mammoth. Lá, são convidados a entrar numa banheira de água quente, a 50 graus centígrados. Conseguem agüentar, no máximo, vinte segundos. Ganham depois esse tempo para falar de seu trabalho. À custa de sacrifício físico.

Nos Estados Unidos, a escalada do grotesco recentemente recebeu um freio quando um exagero desencadeou uma morte. Um programa colocou um convidado, Jonathan Schmitz, frente a frente com uma "paixão secreta" – o homossexual Scott Amedure, de 32 anos –, ambos da cidade de Lake Orie, no Estado de Michigan. Durante vinte minutos, a câmara mostrou o crescente desconforto de Schmitz, que é heterossexual. Nos três dias seguintes foi alvo de brincadeiras de todos os parentes, colegas e vizinhos. Sentindo-se humilhado, Schmitz matou Amedure com dois tiros de revólver. De lá para cá, uma grande quantidade de programas sensacionalistas americanos aderiu ao politicamente correto. A TV brasileira vai na direção oposta. Algumas emissoras têm até horário cativo para pornôs-softs, caso da Bandeirantes em Sexta Sexy. Dois anos depois da condenação pública do Aqui Agora com a exibição do suicídio da garota, o número de programas usando a idéia se multiplicou. Na Rota do Crime, da Manchete, e 190 Urgente, do CNT, seguem a mesma fórmula de apresentar cenas violentas e chocantes filmadas por seus cinegrafistas. Como não se pode admitir a censura, os executivos das televisões pregam a concessão de poder punitivo à Abert. Enquanto isso não existe, conta-se com o mecanismo inibitório que resulta de um encontro da opinião pública com o bom senso dos executivos de televisão. Na semana passada, esse mecanismo funcionou.

"Achei a apresentação do Rafael uma agressão estética. Como ele não sabe cantar nem dançar, estava lá apenas porque é pequeno. Mas é tolice pegar dois deslizes isolados e transformá-los numa filosofia de programação, ou numa crise"

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, vice-presidente de mídia eletrônica da TV Globo

"É preciso habilidade para lidar com coisas como essas num programa ao vivo. É tênue a linha que divide o que é curioso e o que transforma a curiosidade em algo que ridiculariza uma pessoa"



Silvio Santos, dono do SBT e apresentador de programa dominical