Parecia o fim do mundo

Em menos de dois segundos, um estrondo, uma lufada violenta de ar, o chão se levanta, os vidros quebram, paredes caem. Gritos e sangue. São 39 mortos

Arlete Salvador e Valéria França

Era uma paisagem escolar. Muito tênis, calça jeans, moletom, mochila nas costas. Era meio-dia, de um dia de sol, até aquela hora. O sol entrava pelas enormes clarabóias. As 150 mesas da praça da alimentação estavam cheias de gente. Burburinho de shopping, cheiro de comida no ar, grupinhos conversando e rindo. O piano estava fechado, mas no sistema de som tocava música de rádio. Havia 2 000 pessoas por ali. Gente ia e vinha, naquele compasso de passeio, de folga de meio-dia, andando pelo amplo corredor que serve para encurtar caminho entre duas ruas. Era 11 de junho, véspera do Dia dos Namorados, lojas cheias, vitrines com promoções. Débora da Graça, 20 anos, auxiliar de escritório, olhava as vitrines depois de esvaziar a marmita junto com uma amiga. A dona de casa Dionice Fonseca e o marido, ambos de 52 anos, tomavam cafezinho depois de dar uma passada no banco. O comerciante Herber Pulcinelli, 24 anos, encostado na porta de sua loja de sapatos, olhava o movimento.

Então houve o estrondo. Eram 12 horas e 15 minutos. Um estouro mais forte que um tiro de canhão. Um trovão curto, concentrado, de romper tímpanos. De desorientar e desesperar. O chão tremeu e levantou-se num ponto, em seguida, em outro, depois num terceiro ponto. Vigas de ferro, colunas de concreto saíram do chão, apontando para cima. Uma lufada de ar, fortíssima, numa velocidade aproximada de 340 metros por segundo, capaz de destelhar uma casa, expulsou tudo à sua volta. As pessoas voaram para trás, para cima, paredes desabaram. O teto ruiu. Caíam pedaços de madeira, pedras, ferro retorcido. Os vidros, das clarabóias, das vitrines, explodiram. Choviam estilhaços. Tudo ficou escuro, a luz se foi. Pingava água do teto. Uma nuvem de pó branco tomou conta de tudo. Não houve gritos nem correria. Só houve tempo para puxar o ar num suspiro de espanto e, no momento de sair o grito, já tudo era pó, ruína e sangue. Silêncio por um segundo. Silêncio por dois segundos. E começam os gritos.

- Me ajuda, pelo amor de Deus.
- Não dá para respirar...
- Maria José, onde você está?
- Mariana...? Mariaaaaaaanaa?

O horror do Osasco Plaza Shopping deixou 39 mortos _ quinze mulheres, sete homens, quinze adolescentes, uma criança de 11 anos e outra, Jessika Francine Silva, de apenas 3. Feriu 472 pessoas, das quais 79 permaneciam hospitalizadas na madrugada de sábado. A tragédia veio do acúmulo de gás sob o piso do shopping (veja reportagem à pág. 40). Misturado com o ar e em contato com uma faísca, o gás explodiu e rompeu o chão. Vazando pelas crateras, a explosão deslocou o ar, jogando pessoas e objetos para longe, e foi até o teto, derrubando forro e estilhaçando vidros. O shopping, bem no centro comercial da cidade, recebia 50 000 pessoas por dia. Não era o mais luxuoso da cidade, mas era um dos mais freqüentados. Sua construção recuperou o centro comercial. Deu vida ao local, iluminação nova e um calçadão. Um presente para Osasco, cidade que já foi industrial, já foi palco de um movimento sindical nervoso, fez a primeira greve de vulto no regime militar e hoje serve, em grande parte, de cidade-dormitório de São Paulo. É terra de operários, comerciários e domésticas que vivem num mar imenso de casas e quase nenhum edifício.

- Mariaaaaaaanaa?

A explosão durou 1 milésimo de segundo, como um piscar de olhos. O som, mais rápido, chegou primeiro às pessoas e era um barulho maior que 140 decibéis, o limite máximo suportável pelo ouvido humano. Muitas vítimas tiveram hemorragia de ouvido e tímpanos rompidos. Depois do barulho, vieram os escombros, voando. Mas é uma diferença de milésimos de segundo. Na prática, veio tudo junto _ barulho ensurdecedor e destroços pelos ares. "Parecia o fim do mundo", afirma Dionice, que tomava cafezinho e teve fraturas expostas nos dois pés, cortes no rosto, na cabeça e nas mãos. "Achei que era um terremoto. Agora sei o que as pessoas sentem num terremoto", observa Débora, a da marmita, que levou um corte profundo na cabeça e quebrou o tornozelo direito. "Aquele barulho, aquelas coisas saindo do piso, a fumaça branca em cima. Parecia um vulcão entrando em erupção", diz a caixa de supermercado Adriana Queiroz, 21 anos, que machucou o braço direito. "Eu me lembrei da bomba de Hiroshima", afirma o músico Cliff Portugal, 33 anos, que está internado com a bacia quebrada. Numa situação de pânico e terror, ninguém sabe o que está acontecendo. A consciência se dispersa, a lógica se esvai, a razão se esfarela, porque o ser humano não tem registro de algo parecido na sua memória. Claudenir Pedroso, 33 anos, subgerente de uma loja de calçados, tinha certeza de que estava morto. Foi jogado para baixo de uma escada e uma viga de concreto caiu-lhe nas pernas. "No começo, achei que tinha morrido. Fiquei quieto. Só vi que estava vivo quando as pessoas do meu lado começaram a gritar", lembra. Arremessada pela explosão, Débora desmaiou. Quando acordou, olhou para o lado e teve a impressão de estar deitada sobre um travesseiro branco. "Só depois percebi que era um pedaço de pedra." Dona Dionice, assim que abriu os olhos, viu o céu. "Pensei que eu estivesse na rua, deitada na calçada." As vítimas também perderam a noção do tempo. Claudenir acha que ficou preso às ferragens por uma hora. Na realidade, ficou bem menos.

- Mariaaanaaaaa?

Entre os presos pelos escombros, havia gritos, pedidos de socorro, dor e sangue. Os que puderam sair correram em direção a uma porta de emergência. Era uma massa em pânico, desesperada em abandonar o lugar. "Eu estava no 2º andar da loja, senti um tremor, tudo caiu e olhei pelo vidro", lembra a vendedora Regina de Matos, 20 anos. "Havia uma multidão correndo. O desespero era tanto que pessoas caíam e eram pisoteadas pelos de trás." O vendedor Elivaldo de Oliveira, 21 anos, chora ao lembrar da tragédia. Na hora da explosão, ele atendia uma mulher acompanhada do filho de 4 anos, que ia comprar um tênis. Quando se virou para ir ao estoque pegar o calçado, tudo ruiu. Ficou preso entre fios, pedaços de vidro e madeira. Ouvia os gritos do menino, que chorava e chamava pela mãe. Viu um feixe de luz e se arrastou para a esquerda. O menino lhe puxou uma das pernas. Elivaldo passou e bateu a cabeça numa massa de concreto. Voltou, de novo o menino lhe puxou a barra da calça. Elivaldo viu outro clarão à direita e seguiu. "Eu não tinha como salvar o garotinho. Eu não tinha como salvar o garotinho", repete ele, aos prantos. Nas horas de perigo, a carga que o organismo descarrega de adrenalina é tamanha que gera um desequilíbrio químico e altera o processo neurológico. É quando se dão as reações mais surpreendentes. Há os que lutam, os que fogem e os que ficam inteiramente paralisados.

O comerciante Herber Pulcinelli fugiu. "Eu não podia suportar aquilo. Saí correndo, pisava em coisas fofas que não sei se eram corpos ou se eram roupas", diz ele. Rosana Aparecida da Silva, 16 anos, lutou. Grávida de sete meses, passeava pelo shopping com o namorado quando tudo explodiu. Ela se encolheu, protegeu a barriga. Uma viga sobre sua cabeça a protegeu das pedras e tijolos que caíam. Saiu rastejando, com a perna quebrada, salvou uma menina que estava presa aos ferros e começou a gritar pelo namorado. "Pensei que ele tinha morrido. Ele não respondia. Até que o reconheci pela alça do macacão." Seu namorado, Aguinaldo, 16 anos, estava parado, num outro tipo de reação. Na hora da explosão, agachou-se no chão, colocou as mãos na cabeça e nada mais. Encontrado por Rosana, estava sentado sobre os escombros, em estado de choque. Rosana sofreu vários cortes e uma fratura na perna. Aguinaldo também quebrou uma perna. Mas não se lembra de nada do que aconteceu. "Eu simplesmente não sei", diz ele. Mesmo assim, sem memória, quando toca no assunto chora convulsivamente.

"Eu estava com mais seis amigas olhando uma vitrine quando o teto caiu", lembra a estudante Juliana Guimarães Toledo, 17 anos. "Eu fiquei soterrada, coberta de pedras, pedaços de cimento, ferro e madeira." Juliana tinha dificuldades para respirar, a perna esquerda presa aos destroços. "Eu pedia para as pessoas ficarem calmas, porque sentia que ia afundando cada vez mais." Estava desesperada, sem noção de quanto mais podia afundar. Gritou o nome das amigas, mas só teve resposta de duas. Achou que as outras haviam morrido. Mas não. O impacto foi tão violento que lançou as outras para muito longe. Todas sobreviveram. "Foi um horror, um desespero, eu estava me sufocando e achava que ia morrer." Adriana foi salva no resgate. A balconista Telma Rossetti, 16 anos, estava atendendo uma mulher quando voou 1 metro e meio para o alto. Na queda, em vez do metro e meio que subira, caiu 3 metros. "Quando voltei para o chão, não tinha chão. Estava dentro de um buraco. A loja onde eu trabalhava tinha sido sugada pela terra", afirma. Telma caiu no buraco, em seguida caiu o balcão e em cima do balcão caiu sua cliente. "Pelas frestas, vi a blusa vermelha que ela usava." A cliente a salvou.

- Marianaaaaaaa?

Quase não se ouvia o grito por Mariana, tantos eram os gritos. Mas quem tanto chamava era sua mãe, Mara Luanda Auada, de 20 anos. Mariana é um bebê de 1 ano e dois meses. Na hora da explosão, Mara estava com a filha nos braços, o chão levantou-se e a menina voou. Caída, Mara tentou levantar-se, mas tinha uma fratura exposta no fêmur da perna direita. Desesperada, olhava para os lados. Não via Mariana, mas escutava um choro de criança e tinha certeza de que era sua filha. Não via o marido nem a outra filha, de 2 anos. "As pessoas passavam por cima de mim tentando achar a saída e eu segurava as pernas. Segurei muita gente. Segurei todo mundo que passava", lembra. De repente, viu saindo do meio de uns escombros a mão do seu marido. A mão pedia ajuda. Gesticulava. Mara via e não podia ir até lá. Olhava para os lados, pedia socorro, voltava a olhar a mão do marido. Marcos Alfredo da Silva, torneiro mecânico de 22 anos, morreu na mesma noite no hospital. Essa imagem Mara não consegue apagar da memória. "A mão do meu marido me pedindo socorro...", diz ela, chorando. Sua filha de 2 anos teve traumatismo craniano e está no hospital. E seu consolo é a pequena Mariana. Ela levou pontos na cabeça, mas já está em casa. Com o corpinho cheio de hematomas, sente dores até quando lhe fazem um carinho. Mas foi salva na operação de resgate. A mãe não sabe quem a salvou. "Seja quem for, foi um anjo", diz ela.

 

"Eu ia comer um sanduíche na praça da alimentação, mas mudei de idéia no meio do caminho e me virei para o corredor. Ouvi um estrondo bem na minha frente e vi umas farpas enormes saindo do chão, rasgando tudo. O piso levantou. O tempo ficou nublado. Parecia um vulcão. Fui jogada para o ar e caí deitada em cima de umas pedras. Parecia coisa de astronauta ou de filme em câmara lenta. O meu corpo caindo, caindo. Um policial me ajudou a levantar e eu fui para o hospital. Consegui salvar a jaqueta amarela e preta que tinha acabado de comprar para o meu namorado "
Adriana Rodrigues Queiroz, 21 anos, caixa de supermercado, bateu a cabeça e machucou o braço

"Ouvi um barulhão e pensei: meu Deus do céu, o que é isso? O teto caiu em cima de mim e me jogou de bruços no chão. Bati a cabeça, mas tive sorte, porque caí embaixo de uma escada de aço. Fiquei ali parado, quieto. Achei que tinha morrido. Só descobri que ainda estava vivo, quando as pessoas do meu lado começaram a gritar"
Claudenir Mariano Pedroso, 33 anos, subgerente de uma loja de calçados, recebeu sete pontos no supercílio e fraturou as duas pernas

"Abri a caixa registradora e a loja foi pelos ares. Voei 1 metro e meio de altura. Quando voltei a colocar os pés no chão, estava dentro de um grande buraco. A loja tinha sido sugada pela terra mais de 1 metro. Debaixo dos escombros, não conseguia entender nada. Achei que chovia, mas eram os vidros da vitrine que caíam sobre mim"
Telma Cristina Rossetti, 16 anos, vendedora, não se machucou

"Eu estava olhando uma vitrine quando o teto caiu em cima de mim. Eu fiquei soterrada na hora. Estava tudo escuro, a minha perna estava presa, mas eu conseguia ouvir as pessoas gritando por socorro. Gritei também, procurando minhas amigas. Era difícil respirar. Eu pedia para as pessoas em cima de mim não se mexerem, porque parecia que, cada vez, eu afundava mais"
Juliana Guimarães Toledo, 17 anos, estudante, teve vários ferimentos pelo corpo e fratura na perna esquerda

"Para cada lado que tentava fugir acontecia uma nova explosão. Até que fui atingido. Pensei na bomba de Hiroshima. O horror só estava começando. A poucos metros de mim, uma criança com um ferro no peito pedia ajuda. Não conseguia me mexer. Estava debaixo de blocos de concreto. Escutava gemidos por todos os lados. Então chegaram os saqueadores para roubar as vítimas"
Cliff Portugal, 33 anos, músico e pintor, fraturou a bacia