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O golpe do balanço fraudado
Durante dez anos o banco dos Magalhães Pinto
falsificou
números para esconder que estava quebrado
Desde novembro, mês em que o Nacional foi vendido ao Unibanco,
quinze técnicos do Banco Central estão devassando as contas do banco
que foi da família Magalhães Pinto. Está vindo à luz uma história
escabrosa. O banco dos Magalhães Pinto, para espanto até dos técnicos
do BC, não quebrou em novembro do ano passado. Está quebrado desde
1986. Sobreviveu nestes últimos dez anos, como um banco bom e rentável,
porque sua diretoria e seus controladores, os irmãos Marcos e Eduardo
Magalhães Pinto, mentiram para o BC, para os acionistas minoritários,
para os clientes e para os outros bancos que lhes davam socorro
de vez em quando. Todos os balanços do Banco Nacional da última
década foram escandalosamente fraudados para encobrir uma instituição
arruinada, que não tinha dinheiro para pagar suas dívidas. É possível
que tenha sido a maior e a mais duradoura farsa da história financeira
do país.
As fraudes cometidas no Banco Nacional já custaram 4,6 bilhões
de reais em empréstimos do BC. Como a investigação está só no começo,
e há a expectativa de que mais fraudes apareçam, o BC já sabe que
terá de injetar mais dinheiro no Nacional. Mais alguns bilhões.
Funcionários do Banco Central calculam também que, mesmo que expropriem
os bens dos Magalhães Pinto, o seu patrimônio dificilmente cobrirá
o rombo que os dirigentes causaram com o seu banco estourado. Nesse
caso, a conta será socializada entre todos os contribuintes. Má
notícia.
O atual chefe da família, Marcos, ex-presidente do ex-Nacional,
filho de 61 anos do fundador do banco, José de Magalhães Pinto,
ficou deprimido com a venda do Nacional. Mas, segundo amigos próximos,
consolava-se em voz alta: "Ninguém pode nos chamar de ladrões. Graças
a Deus, não precisamos ficar escondidos." Isso pode mudar. Se ficar
provado que Marcos e seu irmão Eduardo, que até novembro presidiu
o conselho de administração, sabiam das fraudes e silenciaram sobre
elas, terão de responder à Justiça criminal. Cinco funcionários
do Banco Central, ouvidos por VEJA na semana passada, disseram ser
praticamente impossível que os dois irmãos Magalhães Pinto, pela
função que ocupavam, não estivessem com a mão inteira enfiada dentro
da massa. E o pescoço também. Mas a devassa no banco ainda demorará
mais algumas semanas, e só então o BC enviará _ ou não _ um relatório
à promotoria pública. Poderá iniciar-se depois um processo na Justiça.
Há sinais de que vários crimes foram cometidos pela cúpula do Nacional,
mas não existem ainda indícios concretos para formalizar uma acusação
criminal. Não será nenhuma surpresa se esses indícios aparecerem
aos borbotões.
A farsa do Nacional é muito interessante pela criatividade e inacreditável
pela cara-de-pau de quem a perpetrou. Segundo dois altos executivos
que pertenceram ao banco até sua venda, o Nacional estava quebrado
em 1986, por má administração, empréstimos com finalidade política
e compra de bancos ruins. Afinal, o seu dono era José de Magalhães
Pinto, político que governou Minas Gerais, foi chefe civil da revolução
de 1964, ocupou o posto de chanceler da República e cumpriu vários
mandatos parlamentares. Confundia o banco com sua carreira política.
O patrimônio do Nacional, em 1986, quando o velho Magalhães Pinto
acabara de sofrer dois derrames cerebrais, já estava em frangalhos.
Só cobria a metade dos débitos do banco. Quando isso ocorre, o BC
liquida o banco e vende os bens de seus donos e administradores
para pagar os credores. A família, segundo esses executivos, ocultou
a quebra do BC, para não ceder seus prédios, fazendas, carros de
luxo, empresas e o próprio Banco Nacional. Para manter a fortuna
intacta, resolveu enganar o país. As fraudes começaram nesse momento.
Os irmãos Marcos e Eduardo Magalhães Pinto trouxeram um gerente
do Nacional no interior mineiro, da agência de Patos de Minas, para
cuidar da parte técnica da tarefa.
"COISA DE LADRÃO" Esse gerente, Clarimundo Sant'Anna,
era um mago na arte de manipular números e cifras. Ele escolheu
um grupo de 642 contas correntes que pertenciam a pequenos clientes
que haviam tomado empréstimos do Nacional e nunca pagaram. Em vez
de cobrá-los, Clarimundo juntou as fichas cadastrais dessa gente
e passou a dar-lhes empréstimos milionários. Não havia dinheiro
na transação e o dono da conta não ficava sabendo. Os empréstimos
eram só no lápis e papel. Nos balanços do Nacional, no entanto,
esses números passaram a mostrar ao público que o banco tinha créditos
bons e em grande volume a receber. Esses créditos começaram com
uma soma de cerca de 600 milhões de dólares há dez anos e, à medida
que a mágica de Clarimundo continuou funcionando, porque o rombo
só aumentava, os créditos fraudados chegaram a 4,6 bilhões de reais
nos últimos tempos. Alinhados na coluna do patrimônio, davam a falsa
impressão de que o Nacional era uma instituição rica e sólida. "Isso
é como falsificar dinheiro. Se eles montaram mesmo esse esquema,
a situação é gravíssima. É coisa de ladrão", diz Tupy Caldas, diretor
de fiscalização do Banco Central que ocupou o cargo até 1990.
Essa falsificação metódica não está mais no plano da suspeita de
inquisidores do BC ou de ex-executivos do Nacional. Ela foi contada
à comissão de inquérito do BC, com detalhes, pelo gênio do balanço
falso, o próprio Clarimundo Sant'Anna. O depoimento, de caráter
informal, foi dado na segunda semana de janeiro no 3º andar do prédio
sede do Nacional, no Rio de Janeiro. A conversa durou quatro horas,
e Clarimundo falou mais sobre a fraude do que os técnicos do BC
esperavam.
Agora, os técnicos estão averiguando as responsabilidades pelo
golpe que lesou milhares de acionistas minoritários. Esses acionistas
compraram ações do banco confiando em seu balanço maravilhoso e,
com a quebra da instituição, suas ações viraram nada, coisa alguma,
zero. Também há a se verificar a questão das responsabilidades por
uma ação fraudulenta que pode lesar toda a população em alguns bilhões
de reais e colocou em risco a credibilidade do sistema financeiro
do país. No caso do Nacional, os culpados poderão responder por
quatro crimes previstos na Lei n º 7492 de 1986, a lei do colarinho-branco.
É crime divulgar informações falsas (de dois a seis anos de reclusão),
gerir temerariamente instituição financeira (de dois a oito anos),
induzir a erro acionistas e o Banco Central (dois a seis anos),
falsificar demonstrações contábeis (um a cinco anos).
"CONVERSAS SECRETAS" Quanto à responsabilidade do contador
Clarimundo, o presidente do banco fantasma das 642 contas e dos
bilhões de reais fictícios, parece não haver muita dúvida. O BC,
ainda em caráter extra-oficial, através do depoimento de alguns
de seus funcionários em contato com a falcatrua, lista outros suspeitos.
A começar pelos controladores do banco, Marcos e Eduardo Magalhães
Pinto. Os outros são Arnoldo de Oliveira, vice-presidente de operações,
e Nagib Antônio, que cuidava das áreas de crédito e auditoria. Marcos
e Eduardo, de acordo com ex-executivos do banco, sabiam exatamente
o que estava acontecendo e despachavam diretamente com Clarimundo
e Nagib Antônio. "Eles formavam um outro banco dentro do banco e
suas conversas eram secretas", conta um alto funcionário do Nacional
que participava das reuniões de diretoria.
Há um indício de que a ligação dos dois diretores e dos dois Magalhães
era muito forte. Clarimundo era conhecido no interior do Nacional,
até pelos gerentes, como "o contador dos Magalhães Pinto". Era como
se fosse um funcionário particular. Dos onze diretores do Nacional,
nove perderam o emprego em novembro ou foram contratados pelo Unibanco.
Clarimundo e Nagib, os únicos fora dessa lista de nove, hoje trabalham
na holding Cebepê, pertencente aos Magalhães. Foram mantidos por
perto. Banqueiros e auditores de São Paulo ouvidos por VEJA confirmam
a impressão de técnicos do Banco Central de que é praticamente impossível
que os irmãos não soubessem das fraudes, ou que tenham sido enganados
nessa questão. "Em certo momento, até nós, que não tínhamos acesso
a nenhuma informação interna do Nacional, ficamos impressionados
pelo crescimento rápido dos créditos do banco. Era inexplicável,
esquisito", afirma um banqueiro.
Um ex-presidente do Banco Central vai além. Acha que toda a diretoria
do Nacional, sem exceção, devia saber do que estava acontecendo.
"Os diretores conhecem a realidade do banco e não engolem um balanço
fictício", diz. Arnoldo de Oliveira era o executivo mais importante
do Nacional. A amigos que lhe cobraram mais tarde pelo estouro do
Nacional, Arnoldo disse que tinha sido enganado pelos Magalhães
ao ser contratado. Os irmãos lhe teriam mostrado apenas um pedaço
do rombo, que seria perfeitamente administrável, e contaram que
esse pedaço estava sendo maquilado no balanço. Ficou sabendo do
rombo inteiro há um ano. "Eu não sabia de tudo", disse Arnoldo a
VEJA.
Ao conhecer o volume da mentira, Arnoldo quis pedir demissão. Procurou
Marcos Magalhães e disse que era necessário vender o banco. "Não
vou mais me mexer para recuperar o Nacional. Esse rombo é impagável,
é impossível resolver o problema", disse. Marcos Magalhães insistiu
que ele ficasse. "Se você for embora, o banco quebra." Até aquele
momento, apesar de o Nacional já estar enfrentando problemas de
liquidez, o mercado ainda confiava no banco, por ser administrado
por Arnoldo, um profissional formado no Citibank (era o segundo
homem do Citi no Brasil) e considerado um dos melhores do país.
Arnoldo ficou, não revelou o que sabia às autoridades, mas perdeu
o entusiasmo. O próprio Arnoldo, nessas conversas confirmadas por
vários de seus colaboradores, é uma indicação suplementar de que
os irmãos Magalhães sabiam, sim, e em toda a extensão, da farsa
que estava sendo feita. Na conversa com Marcos Magalhães, Arnoldo
exigiu, como condição para a sua permanência, que o presidente do
Nacional fosse a Brasília e revelasse o rombo do banco ao BC. Marcos
foi, falou dos 4,6 bilhões de reais do buraco e pediu ajuda. Isso
aconteceu no final de 1994. No começo de 1995, já havia boatos na
praça dando conta de que o Nacional estava mal das pernas.
VÍTIMAS Em certos círculos muito próximos a Marcos e
Eduardo Magalhães Pinto, admite-se a existência das centenas de
operações de crédito fraudulentas para acobertar o rombo do banco.
Admite-se também, candidamente, que os dois Magalhães Pinto tinham
conhecimento do trabalho encantado do seu diretor Clarimundo, sem
contudo entendê-lo muito bem. Segundo essa versão, que deixa transparecer
elementos de defesa dos dois ex-banqueiros, Marcos e Eduardo não
teriam capacidade técnica nem intelectual suficiente para avaliar
a gravidade da confusão em que se estavam metendo. "Nesses assuntos
bancários, os dois são completos idiotas", diz uma pessoa próxima
aos dois irmãos. "Eles garantem que não sabiam que o problema era
tão grande."
Para o seu círculo de conhecidos, os Magalhães contam que foram
vítimas de um complô de executivos traidores. Dizem que não conheciam
o que se passava e que seus diretores autorizavam as operações de
crédito para garantir seus prêmios e bonificações. Quanto mais negócios
creditícios um executivo assina, mais dinheiro ele ganha no fim
do ano. Pode ser verdade. A turma toda estufava os salários com
os lucros fictícios do Nacional, e é possível que vários soubessem
da fraude, mas silenciaram por causa dos prêmios gordos no fim do
ano. Desse complô, na visão dos ex-banqueiros, faria parte a KPMG,
uma empresa de auditoria independente que há vinte anos assina os
balanços do Nacional, dando-os como peças reais e perfeitas. "A
KPMG nunca informou aos controladores do banco o que estava realmente
acontecendo na área de crédito. Marcos está absolutamente surpreso
com o que acontecia no Nacional", conta um advogado de banqueiros
do Rio de Janeiro.
A idiotice tem vários graus, é verdade, mas é difícil engolir a
história de que os dois chefes daquilo que foi um dos maiores bancos
do país estejam nos degraus mais baixos dessa escala. Seria admitir
a possibilidade de que Marcos e Eduardo, por cujas mesas passavam
as operações de crédito mais complexas do banco, não soubessem que
não se pode mentir às autoridades, que é ilegal falsificar documentos
públicos, que é crime enganar outros acionistas. Pessoas com esse
grau de inocência são qualificadas pela lei brasileira como "inimputáveis",
quer dizer, não podem ser responsabilizadas pelos seus atos. Estão
nessa categoria os silvícolas, as crianças e os loucos de todo gênero.
Quando Marcos foi a Brasília pedir ajuda para o seu banco quebrado,
no final de 1994, apenas um grupo pequeno de pessoas sabia do rombo.
Assim que o BC começou a estudar uma fórmula de socorro o grupo
se ampliou e, segundo se comenta em todo o mercado financeiro, a
informação vazou para alguns. O banco Garantia, de acordo com uma
versão nunca confirmada, teria sido um dos privilegiados. No início
de 1995, segundo acusação do Nacional, funcionários do Garantia
começaram a espalhar boatos sobre a saúde do banco dos Magalhães
Pinto _ e o posto bancário do Nacional foi descredenciado para funcionar
nas Lojas Americanas, controladas pelo Garantia. Segundo uma história
da época, o Nacional teria feito uma queixa formal e sigilosa ao
BC e o Garantia ouviu uma censura informal _ e também sigilosa do
BC.
Entre março e abril de 1995, a fragilidade do Nacional já era conhecida
de todos os banqueiros, que passaram a lhe negar empréstimos interbancários.
O Nacional teve de usar as linhas de socorro do Banco Central. Nessa
época, grandes empresas passaram a sacar seu dinheiro do Nacional.
Depois, foi a vez das pequenas e, enfim, perto de novembro, até
trabalhadores com pequenas contas ou cadernetas de poupança correram
para tirar suas economias do guichê Magalhães Pinto. Não queriam
terminar como os desafortunados que confiaram no Banco Econômico,
no qual o BC interveio meses antes.
Quando a onda de desconfiança ainda estava no início, vários executivos
do Nacional começaram a achar que havia problemas no balanço do
banco. "Nós nos perguntamos: se o balanço estava bom, o que é que
causava a desconfiança?", conta um deles. Esses funcionários comandavam
áreas estanques do banco, como a de cartões de crédito, atendimento
a pessoas físicas ou produtos especiais. No final do ano, passavam
os resultados de suas áreas para Clarimundo, o contador dos Magalhães,
e Clarimundo juntava esses números reais aos números fantasmas de
suas 642 contas secretas. Dessa maneira, dizem esses executivos,
eles não conseguiam distinguir o disparate do balanço.
"FURIBUNDOS" Em junho de 1995, fizeram uma reunião sem
o conhecimento dos chefes, e cada um contou aos outros os resultados
de sua área. Somaram tudo e perceberam que o balanço oficial do
banco não estava correto. Depois dessa reunião, espionaram papéis
e computadores durante semanas, até que toparam com o banco paralelo
de Clarimundo. Na primeira reunião do comitê executivo, após a descoberta,
em julho, pressionaram Marcos e Arnoldo para que explicassem os
lançamentos falsos no balanço. Os dois admitiram que o Nacional
tinha problemas e Marcos pediu que a turma esperasse, com calma
e confiança, porque ele iria resolver tudo rapidamente.
Nos meses seguintes, Marcos Magalhães ainda sonhava com a idéia
de fundir o Nacional a um grande banco, de maneira a não perder
sua condição de banqueiro. Até que a empresa de auditagem KPMG,
que durante dez anos engoliu a farsa, soltou um documento apontando
problemas sérios de liquidez no banco. Marcos e Eduardo, conforme
recorda um diretor da KPMG, ficaram furiosos. "Foi uma briga danada.
Eles ficaram furibundos com o resultado do exame porque era o tiro
final em sua credibilidade." A partir desse momento, o Nacional
perdeu qualquer condição de ser negociado ou vendido sem o auxílio
direto do Banco Central. O resto da história é conhecido. O BC precisou
criar uma linha de crédito especial para possibilitar a compra do
Nacional. Também precisou engolir todo o pedaço podre do banco e
entregar a parte boa ao Unibanco, como agências e contas correntes.
A conclusão diante do que se tem descoberto ultimamente nos bancos
é que na praça financeira existe gente com padrões éticos muito
discutíveis e, o que é pior, não existe controle sobre eles. No
caso do Econômico, a falta de controle por parte das autoridades
levou 800 000 correntistas a ficar com seu dinheiro preso num banco
quebrado de uma hora para outra. No episódio do Nacional, mais de
190 000 acionistas minoritários, que confiaram em balanços falsos,
perderam dinheiro. Nas duas situações, os correntistas e acionistas
acabaram lesados também por falha daqueles que deveriam zelar pelo
bom comportamento na área bancária. São eles o Banco Central, a
Comissão de Valores Mobiliários, CVM, a Federação dos Bancos, Febraban,
e os escritórios de auditoria, firmas particulares contratadas pelos
próprios bancos para atestar a veracidade dos balanços que publicam.
Entre os co-responsáveis pela farsa na instituição dos Magalhães
Pinto, o BC é o que tem mais culpa. O BC foi enganado durante dez
anos porque faz uma fiscalização preguiçosa nos bancos que deveria
vigiar. Seus técnicos prestam mais atenção ao cumprimento de procedimentos
bancários e normas de menor importância. Faz uma fiscalização formalista,
burocrática. Se os documentos e os carimbos estão certos, então
o banco está em ordem. Em termos de proteção aos clientes e acionistas
o BC é inútil. Não se trata de má vontade. É uma tradição do BC
ser burocrático. Afinal, não passa de uma repartição de funcionários
públicos que não têm idéia precisa do funcionamento do mercado financeiro.
Esses funcionários são bem treinadinhos _ para verificar carimbos,
essa é a verdade. "Houve falha de fiscalização do BC no Nacional.
Erramos bastante", diz Cláudio Mauch, diretor de normas e fiscalização
do Banco Central. Acrescente-se: houve falha na fiscalização do
Banespa e do Econômico também.
A barbeiragem mais visível, no caso do Nacional, é da KPMG, que
aprovou os balanços falsos. A KPMG está entre as seis maiores empresas
de auditoria do mundo, atua em 130 países e tem 100 anos de tradição
no ramo. Os profissionais da KPMG auditam o Nacional há vinte anos,
por isso conhecem suas contas na intimidade. É espantoso que nunca
tenham topado com 4,6 bilhões de reais inexistentes. "Nunca vimos
indício de fraude no Nacional", diz Marco Aurélio Maciel, sócio-diretor
da KPMG no Rio de Janeiro e responsável pela auditagem no banco
dos Magalhães Pinto. A impressão que fica é que, se os técnicos
da auditoria não foram coniventes, eram pelo menos tão despreparados
que não deveriam ter diploma nem para fiscalizar um parque infantil.
O Conselho Regional de Contabilidade do Rio de Janeiro abriu uma
sindicância administrativa para checar se a turma da KPMG trabalhou
direito.
A CVM, cuja tarefa é zelar pela qualidade das informações divulgadas
pelas empresas que têm ações junto ao público, também deixou a fraude
passar pelo meio das pernas. Houve ainda desinteresse da Febraban,
que tem o seu comitê de ética. Aparentemente, esse comitê nem se
reúne. Entre os banqueiros mais sérios, existe preocupação em relação
ao esgarçamento ético de seus colegas, com a falta de fiscalização
e com os escândalos que estão acontecendo. Quando um banco lesa
seus clientes, prejudica também as instituições que seguem o manual.
"Muita gente tirou dinheiro do meu banco por causa da quebra do
Econômico e do Nacional", diz um banqueiro de São Paulo. "O erro
de um afeta todo o sistema."
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A fraude passou por baixo das pernas
destes nove cavalheiros
Durante os dez anos em que o Banco Nacional mascarou os seus
balanços, o Banco Central teve nove presidentes. Alguns deles
são considerados papas do mercado financeiro. De Fernando
Milliet, em 1987, a Gustavo Loyola, o atual presidente, ninguém
percebeu que o Nacional estava quebrado. O BC faz uma fiscalização
burocrática e inútil.
Fernando Milliet - mai/87 a mar/88
Elmo Camões - mar/88 a jun/89
Wadico Bucchi - out/89 a mar/90
Ibrahim Eris - mar/90 a mai/91
Francisco Gros - mai/91 a nov/92
Paulo Ximenes - mar/93 a set/93
Pedro Malan - set/93 a jan/95
Pérsio Arida - jan/95 a jun/95
Gustavo Loyola - jun/95
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A quebradeira, desde dom João VI
O BC já interveio ou fechou quase 600 instituições
Na história dos bancos que se esborracharam no Brasil há
de tudo: banqueiro que deixou seus clientes na mão mas continuou
rico, presidente da República que durante todo o seu governo
protegeu bancos em dificuldade, e muita instituição financeira
recauchutada com dinheiro público. Desde que o Banco Central
foi criado, trinta anos atrás, 598 empresas financeiras já
sofreram algum tipo de intervenção ou foram liquidadas. Dá
uma média de quase vinte bancos, consórcios, corretoras ou
financeiras por ano. Dessas, ainda há 129 num departamento
especial do BC apelidado, internamente, de cemitério. As outras
foram devolvidas a seus donos ou fechadas. Os bancos dão problemas
para o governo desde o tempo de dom João VI. O pioneiro foi
o Banco do Brasil. Além de ter sido o primeiro banco a ser
aberto no país, foi também o primeiro a quebrar, em 1854,
46 anos depois de sua fundação. Nessa época, inaugurou-se
o hábito de o Tesouro quitar o papagaio de bancos quebrados.
Uma das obrigações do Banco Central é proteger o poupador.
O BC intervém numa instituição quando percebe que existe risco
de que sua clientela seja lesada. Às vezes o Banco Central
engole um frango, como nos casos recentes do Econômico e do
Nacional. Outras vezes, ele fica amarrado por decisão superior.
Faz parte do anedotário do BC a decisão do ex-presidente Emílio
Garrastazu Médici, que pagava para não ver banco quebrar.
"No meu governo não quero nenhuma liquidação de banco", teria
dito Médici, numa reunião com seu ministro da Fazenda Delfim
Netto, hoje deputado federal, e o então presidente do BC,
Ernane Galvêas. Naquela reunião discutia-se a necessidade
de uma intervenção no Halles, um grande banco nos anos 70.
FAXINEIRA Segundo se conta no BC, na determinação
de Médici havia também um fator emocional. Sua família e seus
amigos já tinham perdido dinheiro nos anos 60, quando a Cooperativa
de Crédito Mauá, de Bagé, a cidade natal de Médici, quebrou.
O Halles, considerado um campeão das falcatruas em sua época,
acabou sofrendo intervenção no início do governo do ex-presidente
Ernesto Geisel, o sucessor de Médici.
Outro banco protegido por Médici foi o Banco União Comercial,
criado pelo ex-ministro e hoje deputado federal Roberto Campos.
O BC instalou uma UTI financeira para o União Comercial. Dava
dinheiro para que a instituição pudesse continuar operando
e pagava seus empréstimos junto a bancos estrangeiros. Em
1974, decidiu-se adotar uma providência _ que mais tarde foi
copiada, no episódio do Nacional. O governo convocou meia
dúzia de bancos grandes a tomar posse da parte boa do União
Comercial. Quem acabou levando foi o Itaú. A parte ruim do
União Comercial ficou com o BC, que até 1991 pagava a faxineira
que uma vez por semana limpava a casa que serviu para recreio
dos diretores do União Comercial em Campos do Jordão, cidade
turística do interior de São Paulo.
Nos anos 80, a quebradeira atingiu as grandes instituições.
Primeiro foram a financeira Coroa, do grupo Brastel, e a Delfin
Crédito Imobiliário. Em 1985, o Sulbrasileiro foi liquidado
pelo BC e arrastou junto outras casas importantes como o Comind,
o Auxiliar, o Maisonnave e o Brasilinvest. Eles foram liquidados
e apenas o Brasilinvest foi reaberto algum tempo depois e
devolvido ao empresário Mário Garnero. Outro ponto comum entre
as instituições que faliram nos anos 80 é que até hoje tem
ex-cliente que se queixa de ter ficado na mão, enquanto muitos
dos administradores dessas instituições continuaram bem de
vida.
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