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O segredo do abismo
Numa cratera onde a luz do Sol nunca chega,
cientistas descobrem sinais de água que tornariam
possível a vida na Lua
Laurentino Gomes
A notícia de que uma sonda espacial captou sinais de um lago gelado
na Lua, divulgada por pesquisadores americanos, é dessas novidades
científicas que desafiam o bom senso. Achar água na Lua, um mundo
que se julgava estéril e completamente desidratado desde sua formação,
há bilhões de anos, é tão inacreditável quanto dizer que, na Terra,
foi encontrado um depósito de gelo natural em pleno Deserto do Saara.
Outra surpresa é o local da descoberta. A cratera de Aitkin, no
pólo sul do satélite, é talvez o lugar mais esquisito do sistema
solar. É um buraco escuro e gelado, com 2 500 quilômetros de diâmetro,
maior do que a região amazônica, onde nunca penetrou o mais tênue
raio de luz solar. Essa cratera descomunal tem 12 000 metros de
profundidade, onde desapareceriam de vista, se lá fossem empilhados,
o Monte Everest a maior montanha da Terra e o Pico da Neblina,
o ponto culminante do território brasileiro. Provavelmente toda
a Cordilheira do Himalaia caberia dentro da cratera de Aitkin. No
fundo dela, a temperatura chega a 230 graus negativos. É tanto frio
que a matéria se comporta como um urso polar em estado de hibernação.
Todos os gases se congelam, as moléculas ficam quase inertes e emitem
baixíssima radiação.
Até a semana passada, era difícil imaginar que um lugar desses
pudesse guardar um segredo relevante para a ciência. Em abril de
1994, cientistas da Nasa e do Departamento de Defesa americano decidiram
desafiar todas as evidências ao usar a sonda espacial Clementine
para vasculhar o abismo. Orbitando a Lua a 1 500 quilômetros da
superfície, a nave disparou feixes de radar que ricochetearam no
fundo da cratera e foram captados por antenas na Terra. Processadas
em computador, as 1 500 imagens obtidas nessa operação deixaram
os cientistas boquiabertos. "Percebemos imediatamente que ali havia
algo muito estranho, diferente de tudo observado até então na superfície
lunar", conta Stewart Nozette, um dos pesquisadores.
Espelhos O motivo da surpresa é que, nas demais regiões
da Lua, as rochas se comportam como espelhos para as emissões de
radar, refletindo-as de forma bastante nítida. Na cratera de Aitkin,
os sinais voltavam suavizados, como se lá dentro houvesse papelão,
retendo boa parte da energia. Ao comparar os resultados com experiências
feitas nos pólos gelados da Terra e de outros planetas, como Marte
e Mercúrio, os cientistas concluíram que só poderia haver uma explicação
para o fenômeno: a existência de água congelada nas profundezas
do abismo. Não se trata de uma camada espessa de gelo, como a existente
nos pólos da Terra, mas de um lago do tamanho de quatro campos de
futebol com 10 metros de profundidade. Nele, os cristais de gelo
estão misturados à poeira solar. "É um lago pequeno e muito sujo,
mas o significado dessa novidade para o futuro da exploração espacial
é extraordinário", comemora Paul Spudis, outro membro da equipe
de pesquisadores. "A água é um dos mais valiosos recursos estratégicos
que poderíamos encontrar no sistema solar." A possibilidade de haver
água na Lua era tão desconcertante que o time de pesquisadores manteve
o trabalho em segredo durante mais de dois anos. A pesquisa só foi
divulgada depois que a revista científica Science, uma das mais
sérias e exigentes do mundo, aceitou publicá-la. Antes disso, os
pesquisadores gastaram um ano inteiro analisando os dados da Clementine
e mais outro ano submetendo os resultados à revisão de cientistas
independentes, convidados a fazer o papel de advogado do diabo.
"Queríamos ter a certeza de não haver a mínima margem de erro",
explica o astrônomo Eugene Shoemaker, membro da equipe e também
autor da descoberta do cometa que, dois anos atrás, se chocou com
o planeta Júpiter.
Cautela Ainda assim, muitos cientistas receberam a notícia
com reservas. A exemplo do que aconteceu em agosto passado, quando
a Nasa anunciou ter encontrado sinais de vida bacteriana em Marte
num meteorito coletado na Antártida, eles recomendam cautela em
relação à pesquisa lunar. O problema é que ninguém viu fotos ou
coletou amostras de água na Lua. Tudo que a nave Clementine registrou
foi a assinatura característica do gelo refletida nas ondas de radar.
"Ainda não acredito que o achado é conclusivo", disse a VEJA o astrofísico
americano Wendell Mendel, do Centro Espacial Johnson, da Nasa, e
um dos especialistas convidados a fazer a revisão da pesquisa. "Acredito
que a interpretação de meus colegas é possível, mas acho que há
outras alternativas que merecem ser consideradas."
O problema, segundo Mendel, é que a uma temperatura tão baixa,
além da água, outros elementos voláteis, como amônia, metano e gás
carbônico, solidificam-se. Invisíveis na escuridão da cratera, eles
poderiam ter enganado os sinais de radar da Clementine. Para esclarecer
as dúvidas, a Nasa lançará, em setembro do ano que vem, uma outra
nave em direção à Lua, a Lunar Prospector. Ela vai sobrevoar a mesma
cratera, levando um equipamento chamado de espectrômetro de nêutrons,
capaz de identificar moléculas de hidrogênio, um dos compostos da
água. "Será a prova definitiva", acredita Mendel.
Apesar das dúvidas, a maioria dos especialistas, mesmo os mais
céticos, fala em 90% de chances de que a pesquisa americana esteja
correta uma probabilidade muito alta para ser ignorada. "O achado
ainda não está totalmente confirmado, mas é muito plausível", diz
o escritor Arthur C. Clarke. Autor de diversas obras de ficção científica,
entre elas o filme 2001, uma Odisséia no Espaço, Clarke escreveu
um artigo em 1954 quinze anos antes da chegada do primeiro homem
à Lua em que levantava a possibilidade de haver lagos de gelo
nas crateras mais frias do satélite. "Cientificamente, o fenômeno
foi previsto pela primeira vez no final dos anos 50", lembrou a
VEJA o cientista americano Carl Sagan, autor da série Cosmos e do
livro Pálido Ponto Azul, um dos best-sellers deste ano no Brasil.
"A novidade é que nunca antes alguém havia conseguido nem ao menos
chegar perto da comprovação." Um dos primeiros a levantar essa hipótese
foi um colega de Sagan, o americano Bruce Murray, do Instituto Tecnológico
da Califórnia, autor de um documento chamado "Gelo na Lua", publicado
em 1961. "O princípio é simples, mas na época ninguém me levou muito
a sério", disse Murray a VEJA. "A água, quando congelada, transforma-se
num componente muito instável. Num local tão frio quanto o pólo
sul da Lua, pode permanecer lá por bilhões de anos sem evaporar.
Essa teoria se confirmou em descobertas recentes de depósitos de
gelo num dos pólos de Mercúrio."
Feliz acaso A notícia de que há água na Lua quebrou o
tabu científico de que o satélite seria totalmente desértico. Sendo
que praticamente ninguém acreditava em gelo por lá para mandar uma
nave comprovar a suspeita, a descoberta só poderia ter sido feita
por acaso. A missão original da Clementine não era mapear a Lua
ou encontrar água nela. Sua tarefa era puramente militar. Lançada
em janeiro de 1994, ela fazia parte de um projeto conhecido como
Guerra nas Estrelas um escudo de satélites e armas a laser que,
colocado em órbita da Terra, seria capaz de detectar o lançamento
de mísseis balísticos inimigos em qualquer ponto do planeta e destruí-los
antes que atingissem os Estados Unidos. Concebido no governo Ronald
Reagan, ainda no tempo da Guerra Fria, o projeto foi parcialmente
desativado com o fim da antiga União Soviética. A sonda Clementine,
que deveria testar a tecnologia de detecção de mísseis, tornou-se
temporariamente um objeto obsoleto e, para não perder o dinheiro
investido nela cerca de 75 milhões de dólares , o Departamento
de Defesa americano decidiu emprestá-la para pesquisas civis. A
grande surpresa veio daí.
Tão surpreendente quanto a existência de água na Lua é a hipótese
levantada pelos cientistas para explicar sua origem. Ao contrário
de Marte, onde se imagina que um dia houve rios e oceanos que hoje
estariam congelados no subsolo do planeta vermelho, na Lua nunca
houve água natural. Amostras de solo trazidas pelos astronautas
do Projeto Apollo revelaram que as rochas lunares são do tipo anidro,
nas quais não há uma única molécula de água. A Lua não tem atmosfera
nem gravidade suficiente para reter depósitos de água. Como não
poderia brotar do chão, a água da cratera de Aitkin só pode ter
vindo do espaço, na opinião dos cientistas.
Hecatombe Eles acreditam que, cerca de 3,5 bilhões de
anos atrás, um cometa se chocou com o pólo sul da Lua, no que teria
sido uma das maiores hecatombes do sistema solar. Cometas são corpos
errantes do universo. Giram em torno do Sol, mas suas órbitas são
de tal forma elípticas que eles viajam até os confins do sistema
solar, muito além da órbita do último planeta, Plutão, antes de
voltar aos espaços mais próximos do Sol. Nesse percurso longuíssimo,
em que uma elipse completa pode durar décadas, séculos, eles exercem
o papel de lixeiros cósmicos, recolhendo poeira interestelar, gases
e moléculas de água por onde passam. A cada volta fazem uma órbita
um pouco diferente.
Acredita-se que o cometa que colidiu com a Lua trazia um mar de
gelo em sua cauda. A trombada provocou um dilúvio no hemisfério
sul da Lua, mas a maior parte da água evaporou imediatamente. Só
uma minúscula porção ficou presa nas profundezas da cratera gelada.
O local da hecatombe é hoje o maior abismo conhecido do sistema
solar. É uma depressão tão profunda que os raios do Sol passam direto
sobre suas bordas, sem jamais atingir o fundo. O resultado é que
a temperatura lá dentro está poucos graus acima do zero absoluto.
O estágio em que os átomos se congelam e deixa de haver qualquer
interação química ou física entre os elementos da matéria.
O anúncio da semana passada é mais uma amostra de como se tem caminhado
a passos largos na exploração do universo. Durante milhares de anos,
o conhecimento astronômico da humanidade evoluiu muito pouco. Restringia-se
às fases da Lua, para marcar a época do plantio e das colheitas,
e à posição das estrelas no céu, para servir de referência em viagens
pelo deserto ou pelos mares. A invenção do telescópio por Galileu
Galilei, no século XVII, foi um salto tremendo. Levou à descoberta
de novos planetas e luas e a uma compreensão muito maior do funcionamento
do cosmo. Ainda assim, os últimos 300 anos parecem brincadeira perto
do que ocorreu na última década, em que foram lançados naves de
exploração interplanetária e telescópios como o Hubble, que funciona
em órbita da Terra, longe da interferência da atmosfera.
Planetas e quasares Só neste ano, os cientistas têm mais
a comemorar do que em todos os seis milênios de ciência astronômica
que o precederam. Além dos primeiros indícios de que pode haver
alguma forma de vida em Marte, colecionaram fotos estonteantes feitas
pelo Hubble. Elas flagraram galáxias em formação nos confins do
universo, comprovaram pela primeira vez a existência de planetas
fora do sistema solar e mostraram com uma nitidez nunca antes imaginada
como funcionam fenômenos como os buracos negros e os quasares. Além
disso, imagens enviadas pela sonda Galileu revelaram detalhes impressionantes
das luas de Júpiter e Saturno.
Como em toda descoberta dessa natureza, a da semana passada veio
acompanhada de especulações a respeito da viabilidade de exploração
da água lunar. Um ex-astronauta da Nasa, Philip Chapman, chegou
ao exagero de calcular em 9 trilhões de dólares o valor econômico
da jazida de gelo. Para chegar a esse número, levou em conta as
múltiplas utilidades dessa água. Descongelada, em estado natural,
ela serviria para beber e irrigar lavouras experimentais na Lua.
Além disso, decomposta em moléculas de oxigênio e hidrogênio, por
um processo químico conhecido como eletrólise, poderia fornecer
ar puro aos moradores de uma futura colônia espacial e combustível
para foguetes.
Em teoria, tudo isso é possível. Na prática, é bem diferente. "Um
depósito de gelo na Lua é um tesouro científico tão inestimável
que pensar na sua exploração econômica seria banalizá-lo demais",
diz o professor Amâncio Friaça, do Instituto Astronômico e Geofísico
da Universidade de São Paulo, USP. "Esse não é um gelo qualquer.
É um depósito de bilhões de anos, no qual estão impressos os registros
da formação do sistema solar. Não passaria pela cabeça de um cientista
sério utilizá-lo para irrigar plantações de batatas."
Visão ingênua A idéia de que a Lua pode ser facilmente
habitada é herança de uma visão ingênua a respeito da conquista
do universo que predominou até meados da década de 70. Na época,
imaginava-se que, depois da primeira viagem à Lua, a colonização
dos outros planetas era apenas questão de tempo. Em algumas décadas,
segundo os visionários daquela época, haveria seres humanos cavando
minério na Lua, cultivando lavouras em Marte e fazendo viagens de
turismo a outras regiões do sistema solar. Hoje, sabe-se que viagens
desse tipo são muito mais complicadas do que se imaginava, além
de custar rios de dinheiro. Em duas décadas de Projeto Apollo, os
americanos enterraram cerca de 40 bilhões de dólares na Lua, sem
obter em troca quase nada além da liderança na corrida espacial
contra os soviéticos. Fizeram o papel de maiorais da Terra, mas
na Lua deram uns passinhos e pronto. Um passo enorme em termos de
conquista simbólica. Um passo pequeno em matéria de ganhos práticos.
O que se lucrou verdadeiramente com os vôos ao espaço foram as aplicações
da tecnologia espacial a outros setores industriais.
Por essa razão, excetuando-se o valor científico da descoberta,
um depósito lunar de gelo não serve para nada por enquanto. A Lua
é um ambiente tão hostil a qualquer forma de vida que haver água
e oxigênio lá não basta para abrigar uma colônia humana. Comparada
ao pólo sul da Lua, a Antártida é uma ilha ensolarada do Caribe.
Ainda assim, até hoje não existe uma comunidade humana regular no
pólo antártico da Terra. Só bases científicas, esporadicamente visitadas
por aventureiros. Se até hoje não se encontrou uma forma cômoda
e economicamente viável de viver em lugares como o Pólo Sul e o
Saara, imagine-se na Lua.
Explosão atômica Nas regiões próximas do equador lunar, a variação
de temperatura é brutal de cerca de 130 graus positivos durante
o dia a 129 graus negativos à noite. Outro perigo é a radiação solar.
Sem a proteção da atmosfera e do cinturão magnético que existem
na Terra, a Lua fica exposta ao ataque do Sol, que é um astro em
constante explosão atômica. As explosões do Sol emitem ondas letais
de partículas. Uma pessoa que ficasse desprotegida na superfície
da Lua, num lugar onde batesse Sol diretamente, sofreria um bombardeio
radioativo tão intenso quanto se estivesse nas imediações da usina
russa de Chernobyl no momento do acidente que matou 31 pessoas,
em 1986. Situada a uma distância média de 380 000 quilômetros da
Terra, a Lua tem apenas um quarto do diâmetro terrestre e uma superfície
que lembra um queijo suíço. Nela estão gravados os registros de
4 bilhões de anos de violência cósmica, na forma de milhares de
caldeirões e crateras gerados por colisões de cometas e asteróides.
A própria Lua, segundo a teoria mais aceita, teria surgido de uma
megatrombada entre a Terra e um objeto do tamanho aproximado de
Marte, na época da formação do sistema solar.
Durante milênios, a Lua foi um desafio à imaginação de viajantes
e aventureiros. Curiosamente, desde que o astronauta Neil Armstrong
pôs o pé lá, em julho de 1969, perdeu-se quase todo o interesse
por ela. Para os astrônomos, a Lua tornou-se quase um empecilho,
um enorme holofote ofuscando a visão do que eles realmente queriam
enxergar os confins do universo. Nas imediações da Terra, Marte
tinha-se tornado o alvo preferencial de sondas e robôs (veja quadro
na pág. 54). O laguinho sujo e gelado da cratera de Aitkin pode
mudar esse quadro. Graças a ele, é possível que bilhões de dólares
hoje aplicados nos programas espaciais em diversos países ganhem
outro destino.
Embora não seja um ambiente tão exótico quanto Marte, a Lua oferece
vantagens para a exploração espacial. A principal delas é que, sendo
mais próxima da Terra, permite viagens muito mais em conta. É uma
plataforma natural para se lançar a outros pontos do sistema solar.
"A Lua é um lugar maravilhoso para fazer pesquisas", diz Douglas
Blanchard, chefe de exploração do sistema solar da Nasa, em Houston.
"De lá, tanto é possível monitorar a Terra como enxergar melhor
as galáxias." Blanchard explica que, na ausência das ondas de rádio
que inundam a atmosfera terrestre, é possível captar com nitidez
inimaginável as emissões de estrelas distantes, em busca de sinais
de vida inteligente. Os telescópios ópticos também funcionariam
bem na Lua porque não existem nuvens nem poluição do ar. "Nunca
se teve um argumento tão forte para fazer viagens à Lua como agora",
disse a VEJA o cientista americano Eric Jones, historiador da Nasa,
responsável pela memória do Projeto Apollo. "Acho que voltaremos
logo e, desta vez, será para sempre."
Começou a aventura marciana
Um risco luminoso no céu da Flórida marcou, na madrugada
da última quarta-feira, uma nova etapa na exploração dos planetas
vizinhos da Terra. Impulsionada por um foguete Delta II, a
nave americana Mars Pathfinder iniciou uma viagem de 500 milhões
de quilômetros que a levará até Marte. Se tudo der certo,
ela vai pousar na superfície do planeta daqui a sete meses.
Será a primeira de dez sondas e robôs que integram a flotilha
terrestre escalada para ir ao planeta vermelho nos próximos
nove anos. Antes da Pathfinder, outras duas naves foram lançadas
neste ano. A primeira, a americana Mars Global Surveyor, saiu
no dia 7 de novembro, mas, devido à diferença no alinhamento
dos planetas, só chegará à Marte em setembro de 1997, dois
meses depois da Pathfinder. A terceira nave, a russa Mars
96, foi um fiasco. Lançada do cosmódromo de Baikonur no final
de novembro, perdeu o rumo antes de deixar a atmosfera e mergulhou
no Oceano Pacífico.
A sonda despachada na semana passada custou 196 milhões de
dólares e é a mais promissora até agora na busca de eventuais
traços de vida em Marte. Pela previsão da Nasa, ela deve penetrar
na atmosfera marciana no dia 4 de julho, usando para amortecer
a queda um conjunto de pára-quedas e bolsas de ar semelhantes
ao air bag usado nos automóveis. O equipamento fará com que
em apenas cinco minutos a velocidade seja reduzida de 43 500
para 48 quilômetros por hora. Dentro da nave viaja uma pequena
maravilha da tecnologia moderna, o robô Sojourner _ nome escolhido
em homenagem a Sojourner Truth, uma negra militante da abolição
da escravatura durante a Guerra de Secessão americana.
O veículo, do tamanho de um triciclo infantil, tem seis rodas
que se adaptam às ondulações do terreno. Movido a energia
solar, vai passear durante uma semana (terrestre) pela superfície
de Marte recolhendo e analisando amostras de solo e rochas.
Os resultados serão enviados instantaneamente à Terra. Com
esses recursos, os cientistas esperam esclarecer as dúvidas
que cercam a pesquisa envolvendo um meteorito marciano que
há 13 000 anos caiu na Antártida. Em agosto, uma equipe da
Nasa anunciou ter encontrado nele sinais de atividade bacteriana
de bilhões de anos _ um resultado que até hoje não foi aceito
por muitos cientistas. A Pathfinder também fará medições sobre
densidade, temperatura e pressão da atmosfera marciana.
Rios secos _ A perda da nave russa Mars 96, em novembro,
foi um duro golpe para o programa de exploração marciana.
Das três naves previstas para este ano, era a única equipada
com perfuradores capazes de descobrir se existem depósitos
de água congelada no subsolo do planeta, como suspeitam os
cientistas. Além disso, ela levava aparelhos que serviriam
para auxiliar nas pesquisas que serão feitas pelas duas naves
americanas. "Foi uma perda muito grande porque as três missões
eram complementares", lamentou Douglas Isbell, da Nasa. "Nenhuma
de nossas naves poderá realizar sozinha as análises previstas
inicialmente no programa de cooperação com os russos."
O local escolhido para o pouso da Mars Pathfinder é uma planície
rochosa chamada Vale de Ares, 850 quilômetros a sudeste de
onde pousou, vinte anos atrás, a nave americana Viking 1.
Observado da Terra por meio de telescópio, o lugar lembra
a confluência de dois rios secos. Os cientistas acham que
ali existe um terreno sedimentar, do tipo aluvião, onde seriam
grandes as chances de encontrar traços de matéria orgânica
capazes de confirmar se algum dia houve vida em Marte. Se
isso acontecer, será uma das descobertas científicas mais
importantes de toda a História. Mesmo que os traços sejam
antigos, de bilhões de anos atrás, seria a prova de que a
vida não é um privilégio apenas da Terra.
Enquanto a Pathfinder estiver fazendo suas pesquisas no solo,
a outra nave americana, a Global Mars Surveyor, permanecerá
em órbita do planeta. Com sensores que conseguem registrar
imagens de um objeto do tamanho do automóvel, ela fará um
levantamento completo da superfície e da atmosfera marcianas.
"Depois dessa missão, teremos mapas detalhados dos recursos
minerais, da topografia e das condições climáticas de Marte",
explica Glenn Cunningham, gerente do projeto. "Esse tipo de
informação será vital no futuro, quando enviarmos para lá
astronautas em vez de um robô."
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