Matador criado

Evangélico, Rambo atirou com a frieza de
quem dispara em uma lata de lixo

Kiko Nogueira

O policial militar Otávio Lourenço Gambra, 38 anos, olhos azuis, 1,80 metro de altura, musculoso, cabelos castanhos com fios grisalhos nas têmporas, é o tipo de homem que muitas famílias gostariam de ver fazendo a ronda do bairro. Pai dedicado, certo dia chegou atrasado ao serviço por ter levado a filha mais nova ao médico. Quando lhe sobrava tempo, comparecia aos cultos de sua igreja evangélica. Ex-carteiro, tem o 2º grau completo e, de vez em quando, até abre um livro, sendo capaz de citar trechos de Paulo Coelho. É um homem corajoso e ousado. Salvou uma criança de 9 dias, tirando-a das mãos do pai ensandecido, que ameaçava estrangulá-la. Em doze anos de carreira, recebeu 39 elogios – a recompensa por ocorrências bem-sucedidas, como a apreensão de um carro roubado ou flagrantes de assalto. O último desses elogios, em 18 de março de 1996, relata que ele "demonstrou lealdade, trabalhou com afinco, atendeu aos anseios da comunidade em bem lhe servir, inclusive com suas horas de folga e abdicação do seio de sua família". Com esse currículo, datilografado nas fichas da 2ª Companhia do 24º Batalhão da Polícia Militar, de Diadema, onde servia, Gambra tinha o apreço e o respeito de seus chefes. "Todo batalhão tem aqueles soldados que são problema. Ele nunca esteve entre eles", diz o coronel Pedro Pereira Matheus, ex-comandante de Gambra, afastado na quarta passada. "Trata-se, em resumo, de um bom soldado", define o capitão José Geraldo Rezende.

Na favela Naval, em Diadema, Gambra era conhecido pelo apelido de "Rambo". Lá, ele era o fortão que gostava de bater em gente indefesa, que se aproveitava da farda para torturar, extorquir, roubar. Rambo era um monstro. Hoje, ele está detido no Presídio Romão Gomes, em Santana, sob a acusação de homicídio e tentativa de homicídio. Ele é o personagem principal das cenas de tortura e assassinato que foram ao ar no Jornal Nacional durante toda a semana passada, em que ele e mais nove PMs foram flagrados aterrorizando os moradores da favela na madrugada dos dias 3, 5 e 7 de março. Rambo é o homem que aparece no vídeo descendo o cassetete sobre as costas do assistente de departamento pessoal Jefferson Sanches Caputi. Mais tarde, naquela mesma noite, ele será o covarde que mata o conferente Mário José Josino. Vê-se Rambo dando dois tiros displicentes, como quem dispara para uma lata de lixo e nem quer saber o que aconteceu depois. Quem mata uma barata com o pé, na cozinha, à noite, mostra mais fibra do que Rambo naquela hora.

Atirador medíocre – Tendo Rambo como protagonista, os outros nove policiais fizeram espetáculo no qual cada um foi capaz de comprovar sua especialidade. Com físico de halterofilista, o soldado Rogério Neri Bonfim mostra seu talento para tapas e murros. O soldado Paulo Rogério Garcia Barreto extorque dinheiro de um morador da favela. O soldado Nelson Soares da Silva Júnior bate nos pés do motorista Jefferson Caputi com o cassetete, enquanto Gambra faz o mesmo, com um porrete também imenso, nas costas. O soldado Maurício Gomes Louzada segue os outros e também o agride. É o mesmo Júnior que espanca uma vítima num beco. O cabo João Batista de Queiroz assiste a tudo impassível. O sargento Reginaldo José dos Santos fura o pneu de um Fusca branco. O cabo Ricardo Luiz Buzeto aparece com uma das mãos no coldre.

A bala que matou Josino foi o tiro impossível de um atirador medíocre. Em sua "ficha de tiro" na PM, Rambo só colecionou maus resultados. Um teste de 1987 mostra que ele, em dezoito disparos de 38, acertou cinco no alvo. Outro teste, bem mais tarde, registra que obteve 7 pontos em uma escala de 22, dessa vez usando uma espingarda. "Ele nunca se destacou em nada, a não ser como atirador: aí, era ruim mesmo", diz o tenente Edmílson Staff, que o conheceu no início da década. Para os padrões da PM, sua lista de infrações é leve. Em 1988, envolveu-se em um acidente de trânsito por negligência e imprudência e foi suspenso. Em 1989, foi detido por chegar com 25 minutos de atraso à companhia. Em 1994, passou sobre uma lombada em alta velocidade na saída do distrito. Ainda em 1994, foi advertido por estar com os cabelos crescidos acima do padrão.

Eufemismos – Nada que se compare à ficha de quatro dos envolvidos na violência. Ali, um soldado foi acusado de ato libidinoso – forçando um menino a ato sexual –, resistência seguida de morte e resistência seguida de lesão corporal. Esses termos são eufemismos: o cidadão em questão quis estuprar um menino, e quando se fala em resistência seguida de morte o que se descreve é a cena do policial que prendeu alguém que acabou morto. Outro PM daquela noite coleciona dois homicídios e três "resistências seguidas de morte". Esses eram os amigos de Gambra, não apenas na violência, mas no dia-a-dia. Piadista, costumava pespegar apelidos nos colegas. Depois da morte dos integrantes dos Mamonas Assassinas, mandou fazer um adesivo com os dizeres "Aqui não tem roda gaúcha" e o tascou no vidro de sua velha Brasília amarela. Era uma referência à canção Pelados em Santos: Na Brasília amarela com roda gaúcha ela não quer entrar. Em outubro do ano passado, Rambo foi convidado para o casamento de Rogério Bonfim. Animado com alguns goles, fez piadas de mau gosto, insinuando que Bonfim estaria casando "de fato e de feto", ou "por amor fetal". A esposa de Bonfim estava grávida.

Otávio Lourenço Gambra nasceu em São Paulo e estudou até terminar o 2º grau, o que não é pouco num país onde já é uma proeza exibir o 1º grau completo. Rambo é, em parte, um produto de Diadema, uma das cidades de maior banditismo do Brasil. Ali, o Esquadrão da Morte matou e torturou no final dos anos 60 e início dos 70. Em Diadema, igualmente, Fernando Ramos da Silva, o "Pixote", foi executado covardemente por PMs quando tentava refugiar-se embaixo da cama de seu barraco. Em 1996, houve 297 assassinatos na cidade. Ali, ocorrem 92 homicídios para cada grupo de 100 000 habitantes. É um índice muito maior que o de São Paulo, onde morrem 48 pessoas para cada 100 000, que o do Rio, 66 para 100 000, e mesmo que o de Cali, na Colômbia da cocaína, onde são mortas 87 pessoas para cada 100 000.

Rambo é um soldado experimentado, com doze anos na PM. Antes disso, como carteiro, teve um emprego que a maioria das pessoas associa com cordialidade e mesmo simpatia. Não há nada que chame a atenção nas folhas de seu prontuário, a não ser o fato de que, de três anos para cá, Gambra se tornou um policial da noite. Como é comum na profissão, existem PMs que só trabalham nos turnos do dia, aqueles que ora fazem horários diurnos e depois vão para os noturnos. Também existem os que só estão de serviço à noite – a vantagem é que cumprem turno de doze horas seguidas e folgam 36. A desvantagem, como ensinam os oficiais mais graduados, é que a pessoa passa a viver em outra realidade. "O fato de ele ter passado para a noite pode ter influenciado decisivamente seu comportamento", diz o tenente Staff. Ultimamente, a escala de Gambra era das 19 às 7 horas. Ia para o serviço antes do jantar e voltava para casa quando o café da manhã já fora servido.

O mundo de Rambo, a partir de então, tornou-se outro. O contato com a esposa, Maria José Cavalcante Gambra, uma morena vistosa, e com as filhas adolescentes, Lígia e Kayra Regina, escasseou. Como PM dos serviços diurnos, sua rotina não era apenas a violência cotidiana da profissão. Ele podia ajudar uma criança a ir para a escola, dar o braço à velhinha que atravessa a rua. Passou a viver sob o cotidiano exclusivo de sirenes que doem no ouvido, violência e tiros cegos, bandidos e muito confronto. Foi assim que acabou na favela Naval. Com 2 500 habitantes espalhados por 500 barracos de tijolo e madeira, oito ruas e quinze bares, a Naval é um lugar onde só fica quem ainda não conseguiu mudar-se.

Sua rua principal, chamada de Rua Naval, concentra a única atividade econômica regular do lugar – o tráfico de drogas, especialmente cocaína e crack. Os comerciantes de Diadema falam mal da favela, contam que ali funciona um ninho de traficantes que dão festas, distribuem churrasco à população e disparam revólveres para o alto. Mas não há como pensar que eles sejam gente poderosa, com chefes lendários, armas e carros importados. É um comércio miserável como o lugar, feito de madrugada, numa pracinha que todo mundo conhece – ali, tarde da noite, quem vende cocaína mantém a droga escondida pelos entulhos, quem quer comprar só precisa prestar atenção aos gestos dos presentes para fazer sua oferta e ir embora. Como ponto econômico, a Naval pode ser definida assim: um lugar pobre demais para quem quer ser bandido e ainda mais pobre para quem vai roubar de bandido. De manhãzinha, quando as operações terminavam, o pelotão de Rambo ia entregar suas apreensões na delegacia ao lado do quartel. "Muitas vezes, eles não traziam nada", conta um oficial pouco graduado. "Às vezes, só duas ou três pedras de crack."

Casado, com as filhas educadas em escola privada, com seu salário de 550 reais, Rambo tinha evidentes problemas com a falta de dinheiro, mas nunca se interessou em prestar concurso para cabo (620 reais) e depois para sargento (800 reais). Como é padrão entre alguns soldados da corporação, preferia usar as tardes disponíveis para fazer bicos e ganhar mais, e mais depressa. Eram empregos duros, humildes. Foi assim que, em 1990, ganhou alguns trocados como segurança do açougue Piranga, em Diadema. "Ele era um cara muito simpático, educado, alegre", diz o dono do açougue, Hélio Onório Novaes Júnior. "Precisava de uma força na hora de fechar. Não acreditei quando o vi na televisão fazendo aquelas barbaridades."

Pelos bicos, Gambra faturava o que seriam, hoje, 400 reais. Pegava às 14 horas, largava pouco antes de ir para o quartel. Ficou ali cerca de um ano. Era uma pessoa que se dava ao respeito. O dono do açougue conta que nunca pediu nenhuma carne de graça, nem sequer um presunto. Há quatro anos, prestou seus serviços para o Auto Posto Latino, na Avenida Piraporinha. "Era gente boa, um sujeito bacana mesmo", atesta o gerente, Isaías Tavares de Melo. "Ele me chamava de `Bahia', dava tapinhas nas costas, esse tipo de coisa." Até o início do mês passado, Rambo estava montando guarda para uma pequena borracharia ao lado da Rodovia dos Imigrantes.

Anarquia disciplinar – Mas só essa ajuda não lhe bastava. Tanto que na favela Naval ele não era conhecido apenas pela agressividade. Também era visto como um PM dado a achacar, como o protagonista de roubos menores, para levar 50 reais de uma vítima, às vezes menos do que isso. Um grupo de moradores revelou a VEJA traços do perfil desse PM dedicado a pequenos crimes. "Ele chegava muitas vezes sozinho, fora de serviço, encostava num poste de braços cruzados e ficava sacando quem subia e quem descia", diz um dos moradores. "Aí, abordava qualquer um, tomava dinheiro, relógio, o que o cara tivesse." Numa amostra da anarquia disciplinar em que se encontra a PM onde atuava, Rambo era a patente mais baixa nas operações, mas não esperava determinação superior para entrar em ação. Passava por cima das patentes, dava ordens, servia como exemplo. "Ele falava e os outros obedeciam", desabafa um morador. Um adolescente conta que, certa vez, Gambra, que é um fumante moderado, apagou um cigarro em sua cabeça. Outra testemunha garante ter visto Rambo-Gambra investir contra um morador, já de idade avançada, para atacá-lo com coronhadas de revólver. "Além do 38, ele usava uma pistola 9 milímetros", revela um rapaz que assistia às exibições do valentão sentado à mesa de um bar nas proximidades. "Cheguei a vê-lo roubar dois jogos de panela italiana," conta outro morador.

Estilo sóbrio – Os comerciantes de Diadema, que nunca negaram auxílio para o esquadrão da morte, tinham Rambo e sua turma como uma proteção contra os marginais. Por isso lhe davam empregos. Mas ele teve uma idéia clara do quanto passou a ser odiado, na quarta-feira passada, quando foi prestar depoimento no 2º Distrito Policial de Diadema. Enquanto a população se aboletava do lado de fora xingando-o, ameaçando invadir o lugar, ele tentava se manter impassível. Saiu do camburão com a cabeça descoberta, algemado. Vestia camisa cinza-claro, de mangas curtas, calça jeans azul-escuro e sapatos marrons (leia reportagem sobre o inquérito na pág. 33). A mulher que serve o café no distrito arregalou os olhos: "Nossa, como ele é bonitão!" Diferia dos outros policiais pelo estilo sóbrio com que se apresentara – seus colegas vestiam aqueles casacos coloridos usados por cantores de rap. Rambo passou por três horas de tensão. "Quando me viu, ele perguntou: `Doutor, o senhor tem alguma bronca de mim?'", afirma o promotor José Carlos Blat.

Diante dos gritos da multidão que se aglomerava do lado de fora, ele foi levado para a sala do delegado. Estava tenso. As mãos estavam crispadas, os pés se mexiam embaixo da mesa. Seu advogado, Camalher Corrêa, comunicou que seu cliente apelaria para o direito de permanecer calado. O escrivão, então, começou o interrogatório de praxe:

– Estado civil?
Rambo balbuciou algo incompreensível.
– O quê? – insistiu o escrivão.
– Casado, você sabe que eu sou casado! – disse ele, nervoso.
Seus olhos marejaram. Perguntou ao advogado se poderia ligar para a esposa. "Os presos não têm direito a um telefonema?", indagou ao delegado. A ligação foi permitida. Do outro lado da linha, sua mulher atendeu. Rambo tentou convencê-la de que é inocente:
– Olha, não fui eu que matei, não, viu? Não fui eu. Dei um tiro para o chão. Tenho certeza de que não pegou nele. Você ouviu, né?
Pausa.
– O tiro foi para o chão. Tchau... Eu também.
E desligou, escondendo o rosto.
Mesmo contando com os eventuais reforços extras ao soldo de 550 reais que recebia, Rambo vivia acima de suas posses. Maria José não trabalhava. "Ela vivia fazendo cursos, alguns deles até bem tarde da noite", diz uma de suas vizinhas. Moravam na Vila Paulicéia, em São Bernardo do Campo. É um bairro de classe média, com ruas de paralelepípedos e lojas de conveniência. Avaliada em 50 .000 reais, a casa de tijolo aparente da família Gambra tem três quartos e um quintal espaçoso. Na garagem, com lugar para dois carros, onde ficava a Brasília, há material de construção para uma reforma interrompida. Encostada em um entulho está uma bicicleta Caloi, dez marchas, com o pneu furado. Desde que Rambo passou a enfrentar a rotina dos plantões noturnos, o casal encarava alguma turbulência. Maria José atribuía as mudanças de atitude do marido a um caso de estupro que ele apurou. A filha mais nova, Kayra Regina, chegou a viver um ano na casa dos avós, por conta de alguns desentendimentos. Desde a manhã de terça passada, a casa está deserta. Maria José e suas filhas fizeram as malas e estão escondidas.

Bando da madrugada

Truculentos diante dos favelados, os nove policiais tremeram na hora de depor na delegacia de Diadema. Algemados e acuados com os gritos da multidão que os esperava do lado de fora, três deles choraram, dois se negaram a falar, sete chamaram a sessão de pancadaria de "operação de rotina"

Sargento Reginaldo José dos Santos, 37 anos. Com dezoito anos de serviço, tem dois homicídios na ficha. Indiciado por formação de quadrilha, caiu no berreiro

Soldado Rogério Neri Bonfim, 26 anos, cinco de PM. Adora dar socos em suas vítimas. Indiciado por duplo homicídio, declarou-se arrependido

Soldado Paulo Rogério Garcia Barreto, 32 anos, quatro na PM. Sua ficha policial é limpa, com poucas punições. Não agride ninguém no vídeo

Cabo Ricardo Luiz Buzeto, 28 anos, sete na PM. Tem um inquérito por agressão arquivado. Ao ver a fita, delatou os colegas e fugiu

Soldado Demontier Carolino de Figueiredo, 28 anos, três anos de PM. Com punições por falta e cabelo comprido, chorou em seu depoimento no 2º DP

Soldado Nélson Soares da Silva Júnior, 26 anos, quatro anos de PM. É quem desce o cassetete nos pés de Jefferson Caputi. "Não vi nada", alegou na delegacia

O soldado Maurício Gomes Louzada, 29 anos, já foi alvo de três inquéritos, um deles por atos libidinosos. Todos arquivados. Nada disse no depoimento

O soldado Adriano Lima de Oliveira é o mais jovem do bando. Aos 21 anos, tinha onze meses de PM. Dia 6 de março foi seu primeiro dia de trabalho na rua e não bateu em ninguém

Cabo João Batista de Queiroz, 36 anos, dez na PM. Não tem acusações de crimes e não agride ninguém na gravação. Revistou uma das vítimas antes da pancadaria