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Dolly, a revolução dos clones
Ian Wilmut abre uma polêmica sobre ética na pesquisa
científica ao copiar uma ovelha em laboratório
Eurípedes Alcântara, de Nova York
Para "Dolly" nascer foi preciso que um anjo torto, desses que andam
de jaleco branco, a arrancasse inteira de dentro de outro animal.
Como Eva no Velho Testamento, feita com uma das costelas de Adão,
Dolly veio ao mundo como um pedaço de outro ser adulto. Dolly, a
ovelha escocesa de cuja concepção extraordinária o mundo tomou conhecimento
na semana passada, não tem pai nem mãe. Ela tem apenas origem, uma
origem que não é divina. É humana. Dolly é o cordeiro dos homens.
Mais exatamente, é o cordeiro de Ian Wilmut, 52 anos, embriologista
do Instituto Roslin, instituição de pesquisa agropecuária nos arredores
de Edimburgo, capital da Escócia, que até então vivia num tranqüilo
anonimato. Dolly é o que a ciência chama de clone, palavra de origem
grega que significa broto. Clone é a cópia idêntica de outro ser
vivo produzida artificial e assexuadamente. Como teve origem numa
célula da mama de sua mãe, a ovelha recebeu o seu nome em homenagem
a Dolly Parton, a cantora caipira americana de seios enormes. Ela
tem a compleição simpática da sua raça, a finn-dorset: focinho rosado,
dócil e encantadoramente desajeitada. Por trás dessa aparente normalidade
esconde-se uma perturbadora revolução científica.
A ovelha, símbolo religioso da redenção dos homens, inaugurou abruptamente
o século XXI, dando origem à era dos clones, período no qual os
cientistas que brincam de Deus vão começar a colher os frutos de
suas ousadias. O artigo de Wilmut explicando como Dolly foi feita
foi publicado na quinta-feira na revista Nature, a prestigiosa publicação
científica inglesa. A receita para construir um mamífero é assustadoramente
simples. Os cientistas escoceses fundiram um óvulo não fecundado,
de onde haviam retirado o miolo genético, com uma célula doada pela
ovelha que queriam copiar. Depois implantaram o resultado da fusão
no útero de uma terceira ovelha, onde Dolly foi gestada (veja quadro
na pág. 94). Depois dos clones de ovelhas, virão os de outros animais
tão ou mais úteis à humanidade, como as vacas e galinhas. Em seguida,
serão copiados bichos ameaçados de extinção. Até o dia em que a
inocência perdida com o anúncio da existência de Dolly deságüe no
indizível, no impensável, na suprema arrogância dos mortais: a cópia
de um ser humano em laboratório. "Não duvido que a clonagem de um
ser humano não esteja sendo tentada em um canto escuro de alguma
universidade desconhecida", diz o americano Bruce Hilton, pesquisador
do Centro Nacional de Bioética.
Ian Wilmut, barbudo, meio careca, com jeito de cientista de filme
de Hollywood, quebrou uma barreira ética. "Pela primeira vez a humanidade
está sendo colocada na posição de gerente principal da evolução
animal e humana: podemos dizer, sem exagero, que seremos em breve
senhores únicos de nosso destino biológico", diz Ronald Munson,
médico especialista em ética da Universidade do Missouri. Estamos
preparados para tanta responsabilidade? Numa gloriosa viagem evolutiva
de 8 milhões de anos, o mamífero de cérebro avantajado e mãos hábeis
domou o planeta. Agora, Dolly coloca a espécie humana num novo patamar
dessa formidável jornada natural: ele pode, teórica e praticamente,
recriar a si mesmo, e aparentemente não existe força, terrestre
ou divina, capaz de frear os cientistas e evitar a repetição da
experiência de Dolly com um ser humano.
Os poderosos reagiram como quem vê seu poder lhe escapando das
mãos. Bill Clinton, presidente dos Estados Unidos, criou uma comissão
de sábios para, no prazo de três meses, instruí-lo sobre como agir
para impedir a clonagem de pessoas. O Observatório Romano, jornal
oficial da Santa Sé católica, circulou na quarta-feira com um apelo
dramático: "Não há mais tempo. Os governos precisam anunciar imediatamente
o banimento legal e completo de quaisquer tentativas de clonagem
humana". Tanto Clinton como o papa João Paulo II sabem que, a partir
de agora, tal clonagem não é cara nem complexa. Tanto que Dolly
foi produzida numa instituição de prestígio, mas bastante parecida
com dezenas de outros laboratórios genéticos espalhados pelo mundo.
"Doutores por doutores, instrumento por instrumento, recurso por
recurso, iguais ao laboratório de Roslin existem muitos outros em
dezenas de países", diz o pesquisador americano Steven Jones.
Suspeitas Dadas as mesmas condições técnicas, a clonagem
fica por conta da ousadia dos cientistas, ou do ambiente acadêmico
em que atuem. Ninguém esperava, por exemplo, que o primeiro transplante
de coração fosse feito no Groote Schuur Hospital, na África do Sul.
Mas foi ali que, em 1967, o cirurgião Christian Barnard implantou
um coração novo no peito de Louis Washkansky, que sobreviveu alguns
dias. Barnard não era melhor que seus colegas de Boston, Cleveland
ou Londres. Ele apenas contou com um ambiente eticamente mais liberal.
Sua audácia não foi contida por regulamentos ou leis severas como
as que existiam na Europa e nos Estados Unidos. "Se proibirmos experiências
de clonagem humana aqui, elas serão feitas em outros países, não
tenho dúvida disso", diz Steven Jones. Pode parecer absurdo falar
em clonagem de seres humanos quando tudo que a ciência apresentou
até agora foi uma inocente ovelha de laboratório. Os envolvidos
na experiência escocesa foram os primeiros a querer enfatizar que
uma ovelha é apenas uma ovelha. "Levamos vinte anos para planejar
e executar a criação de Dolly, e só acertamos na 277ª tentativa",
diz Wilmut. "Se quiséssemos fazer a mesma coisa com um ser humano,
o que absolutamente não é o caso, as dificuldades seriam abismalmente
grandes." Mas, mesmo se tivesse dito que é impossível fabricar um
clone humano, Wilmut não teria conseguido desanuviar as suspeitas.
O consenso entre os cientistas especializados no assunto é que a
clonagem humana pode ser obtida com os mesmos procedimentos utilizados
para trazer Dolly ao mundo natural. O exagero está em pensar que
isso ocorrerá em questão de meses ou de um par de anos _ ou que
exércitos de clones humanos estarão, aos milhões, muito em breve
se misturando aos demais mortais nas ruas.
Tabu Novidades tecnológicas de implicações profundas
sempre geram expectativas exageradas. A barreira do som foi quebrada,
em 1947, pelo piloto Chuck Yeager, e hoje, meio século depois, pouquíssima
gente se beneficiou desse avanço: o Concorde, único avião supersônico
de passageiros em operação no planeta, faz alguns poucos vôos semanais
entre Europa e Estados Unidos. Quando o russo Yuri Gagarin entrou
em órbita, em abril de 1961, se acreditou que a humanidade estava
prestes a sair da Terra e colonizar a Via Láctea _ mas, 36 anos
depois, apenas três centenas de mortais podem contar que já voaram
ao espaço. Dezenove anos depois de dominada a técnica dos bebês
de proveta, existem pouco mais de 10 000 crianças nascidas por esse
método em todo o mundo. O mesmo se passa com as grandes cirurgias
do coração, os transplantes, as fabulosas drogas e os tratamentos
da medicina de ponta. É nesse contexto que se deve entender a experiência
escocesa e a possibilidade que ela abriu de fabricar clones humanos.
Ainda assim, a questão ética é real, premente e explosiva. Clonar
um ser humano é um poderoso tabu. Há quatro anos, cientistas da
Universidade George Washington, nos Estados Unidos, clonaram embriões
humanos. Eles fizeram dezenas de cópias genéticas idênticas de um
único embrião e, antes que o batalhão de gêmeos começasse a se desenvolver,
suas sementes foram destruídas. Bastou o anúncio da experiência
para que, em menos de uma semana, o governo americano colocasse
na ilegalidade toda e qualquer experiência envolvendo embriões humanos.
"Em vez de aplausos, provocamos uma onda de repulsa", lembra Robert
Stillman, o embriologista pai da experiência da George Washington.
"Na época, trabalhamos com um punhado de células microscópicas,
copiando outras células de um ser de proveta que nunca nasceu. Não
consigo sequer imaginar a reação popular e das autoridades quando
e se alguém copiar um ser adulto, uma pessoa com nome, sobrenome,
família, rosto, amigos, gostos e idéias."
Exasperado Mas há gente que, por um motivo ou outro,
acha a clonagem de um ser humano, se não desejável, pelo menos defensável.
"Na prática, a clonagem significa que as mulheres no futuro poderão
ter filhos sem a participação dos homens", diz a bióloga canadense
Ursula Goodenough, feminista radical. Conhecido animador cultural
no campo das ousadias científicas, o americano James Watson, co-autor
com Francis Crick e Maurice Wilkins da descoberta da forma da molécula
de DNA, que lhe valeu o Prêmio Nobel, aproveitou a deixa para defender
seus colegas. "O cientista de ponta não pode pensar muito em custos
sociais ou aspectos éticos, pois, se ele refletir muito, não avança",
disse o lendário cientista. Outro ganhador do Nobel, o francês François
Jacob, um homem mais reflexivo e filosófico, se disse "exasperado"
pela experiência de clonagem da ovelha. "Há um bom tempo temos tentado
obter prazer sexual sem gerar filhos. Com os bebês de proveta conseguimos
filhos sem prazer. E, agora, estamos prestes a ter filhos sem prazer
e sem espermatozóide", diz Jacob. "Evidentemente, a estrutura familiar
num mundo de clones nunca mais será a mesma."
Um dos fascínios que a clonagem humana provoca é o de possibilitar
a aferição de quanto uma pessoa é produto da genética ou do meio
ambiente. Que tipos de pessoas se tornariam seres geneticamente
idênticos, submetidos a condições distintas? Como se sairia um clone
de Lula se tivesse sido criado na família de Fernando Henrique Cardoso?
Um clone de Pelé criado nos Estados Unidos teria-se tornado um super-atleta
do basquete ou do futebol americano? Como seria uma luta de boxe
entre dois clones de Muhammad Ali? Na ausência de clones, os melhores
estudos sobre essa questão são feitos com gêmeos univitelinos, idênticos,
separados ao nascer.
A Universidade de Minnesota lidera as pesquisas nessa área no mundo.
Há vinte anos, os pesquisadores acompanham cerca de três centenas
de gêmeos idênticos separados da família pelas mais diversas razões
e criados em ambientes díspares nos Estados Unidos. Além de conclusões
óbvias como as de que a habilidade atlética é 100% definida pela
herança genética, o estudo sobre os gêmeos de Minnesota ofereceu
algumas surpresas. A pesquisa sugere que certos comportamentos que
se julga aprendidos ao longo da vida são fortemente influenciados
pela genética. O conservadorismo político, por exemplo, é um traço
que, segundo o estudo dos gêmeos idênticos, é uma tendência que
se traz do berço. Os pesquisadores sugeriram também que pelo menos
70% das variações nos testes de QI podem ser atribuídas à genética.
Ou seja, a inteligência seria, em grande parte, herdada.
Melhoria genética A discussão sobre a ética de copiar
seres humanos acabou obscurecendo a avaliação dos benefícios que
o nascimento de Dolly vai trazer. Modificar a natureza está se tornando
um negócio multimilionário. Mais de 700 empresas de biotecnologia
européias competem com 1 300 empresas americanas numa corrida para
colocar animais e plantas tradicionais a serviço da medicina e da
agropecuária. Cerca de 2,5 milhões de hectares de solo em todo o
mundo já são ocupados com plantas modificadas em laboratórios. Calcula-se
que, até o ano 2000, os produtos de animais e plantas transgênicas
devem estar gerando negócios de 20 bilhões de dólares.
A clonagem é uma das áreas mais quentes da pesquisa agropecuária.
Empresas como a PPL Therapeutics, que pagou a experiência de Ian
Wilmut na Escócia e tem direitos totais sobre os rendimentos que
ela gerar, apostam que em breve estarão produzindo em massa ovelhas
e vacas dezenas de vezes mais produtivas do que os animais das fazendas
atuais. Nos Estados Unidos, a Alexion está alterando a estrutura
genética de porcos de modo que eles produzam coração, rins e fígado
compatíveis com os órgaos humanos. Dentro de três anos, a primeira
batelada de órgãos transgênicos produzidos pela Alexion estará pronta
para transplante em seres humanos. Outras duas empresas, a Nextran
Inc, de Nova Jersey, e a Novartis, da Suíça, também estão no negócio
de produzir animais transgênicos produtores de órgãos implantáveis.
Não faltarão candidatos. Você pode ser um deles. Segundo cálculo
do cardiologista americano John Wallwork, até o ano 2010, pelo menos
450 000 transplantes cardíacos serão realizados em todo o mundo.
"Nosso clone abre uma fronteira na melhoria genética das raças
animais", diz Wilmut. "Estamos no mercado de agropecuária, não no
de filmes de terror." Wilmut amanheceu uma celebridade na Escócia.
O jornal The Scotsman, de Edimburgo, estampou-o na primeira página,
vestido com o tradicional impermeável inglês Barbour, segurando
um copo de boca larga com dois dedos de uísque puro malte The Balvenie,
sua marca predileta. "Meu passatempo é o laboratório", informa Wilmut,
um pesquisador obsessivo, capaz de passar nove horas entretido com
suas experiências e ainda levar trabalho para casa. Há 23 anos ele
cumpre a mesma rotina de sair de casa e enfurnar-se no velho prédio
do Instituto Roslin, onde fica seu laboratório. Wilmut tem três
filhos, Helen, de 28 anos, Naomi, 26, e Dean, 24, e é casado com
Vivian, que conheceu quando ainda morava na Inglaterra. Ele ganha
5 000 dólares por mês e, fora a fama, não vai faturar com sua ovelha
clonada. Os lucros pertencem à empresa PPL.
Almas sensíveis "Sempre me fascinou a idéia de transformar
os animais em usinas de produção de hormônios e proteínas úteis
para os seres humanos", diz Wilmut. Há uma ironia em ter inscrito
seu nome na história da ciência com uma pesquisa prática. Cientistas
desse tipo costumam não ser valorizados, em benefício de outros
dedicados a resolver os grandes enigmas da natureza. Com seus experimentos,
Wilmut não quis responder a nenhuma questão transcendental. Ele
pretendeu apenas refinar uma técnica para fazer uma cópia perfeita
de uma ovelha. Conseguiu. "O trabalho final dele é absolutamente
técnico. É um manual minucioso de como clonar uma ovelha", diz o
americano Lee Silver, professor de biologia da Universidade Princeton.
As almas mais sensíveis se chocarão ainda muito com a ousadia dos
anjos tortos de jaleco branco e suas criaturas aberrantes. A chamada
quarta revolução, a da engenharia genética, está apenas desabrochando.
Sigmund Freud dizia que a psicanálise era a terceira grande reviravolta
na maneira de pensar da humanidade, depois do darwinisno, que tirou
o homem da esfera divina e o colocou ao lado dos animais, e do sistema
de Nicolau Copérnico, revelador da verdade de que a Terra não era
o centro do universo. A quarta revolução, a revolução de Ian Wilmut,
põe a humanidade cara a cara com uma outra dolorida verdade, o indivíduo
não é mais sequer único. A ciência poderá em breve produzir dezenas
de cópias mesmo do mais egocêntrico dos homens. As três revoluções
anteriores cumpriram um ciclo bastante preciso. Causaram repulsa
e revolta num primeiro momento. Em seguida, ajudaram a libertar
o homem, como só a verdade pode fazer.
A novidade que põe fim a um dogma
Se algum dia o pesquisador britânico Ian Wilmut for lembrado
para o Prêmio Nobel, a honraria será outorgada por ele ter
destruído um dogma da ciência. Nos anos 70, grupos de embriologistas
clonaram sapos adultos a partir de uma única célula. Ninguém
se interessou pelo procedimento porque na maioria dos anfíbios
a regeneração completa dos tecidos é uma característica natural.
Corta-se o rabo de uma salamandra, por exemplo, e ele voêta
a crescer. A cópia de um mamífero adulto pelo mesmo processo,
no entanto, era um feito considerado impossível. Wilmut ostrou
que essa irença estava errada e que, teoricamente, todas as
células do corpo contêm as informações necessárias para produzir
um organismo inteiro.
O que o escocês fez foi pegar uma célula especializada, no
caso uma célula retirada da glândula mamária áe uma ovelha
de - anos de idade, e e transformá-la numa semente biológica,
a partir da qual se pode construir um animal completo. Wilmut
fundiu a célula mamária com uma célula reprodutiva cujo miolo
genético, o DNA, fora extraído. Dessa maneira, a célula reprodutiva
cresceu normalmente _ com a diferença que o DNA da célula
da ovelha doadora comandou o processo. O que virá agora? De
agora em diante, times de pesquisadores de todo o mundo buscarão
a prova de que Wilmut clonou mesmo a ovelha. Como a mãe genética
de Dolly, a ovelha doadora da célula mamária que originou
o experimento, morreu depois, não se pode comparar seus códigos
genéticos para provar que são idênticos. Se a ovelha-mãe estivesse
viva, Wilmut teria como exibir a prova definitiva: dois seres
geneticamente idênticos, gêmeos, portanto, só que um deles
com 7 meses e o outro com 7 anos de idade. Mesmo que a mãe
de Dolly estivesse viva, os cientistas tentariam reproduzir
o experimento com suas próprias ovelhas. Caso ninguém consiga,
Wilmut ficará sob suspeita. É assim que a ciência caminha.
Na semana passada, no entanto, nenhum cientista desconfiava
seriamente que ele pudesse ter falsificado dados e que Dolly
fosse uma fraude. "O procedimento descrito por Wilmut é tão
brilhante e convincente que, no fundo, nem precisaríamos da
existência de Dolly para saber que ele fez a coisa certa",
diz Curtis Young, professor de ciências animais da Universidade
de Iowa, um dos centros de excelência da embriologia experimental
dos Estados Unidos. Desconhecido do grande público, Wilmut
é há muito uma das maiores estrelas de sua especialidade.
Os geneticistas que analisaram o artigo de Wilmut publicado
pela revista Nature, e que colocaram Dolly na capa da edição
da semana passada, consideram a abordagem dele genial. Talvez
seja a mais engenhosa intervenção humana no processo de reprodução
do DNA. O DNA é uma molécula orgânica capaz de duplicar a
si mesma produzindo cópias idênticas de seus componentes.
O que abriu caminho para o sucesso da experiência foi o fato
de Wilmut ter descoberto qual a fase correta em que o DNA
deve ser enxertado na célula. "Se você enxerta o DNA na fase
errada, ele mata a célula ou gera um monstro", explica Wilmut.
"O que consegui foi acertar meu relógio com o da natureza."
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Quando a ciência assusta
Descobertas científicas sempre provocam
discussões de natureza ética e moral
1799 - Primeira gravidez por inseminação artificial
1866 - Invenção da dinamite, por Alfred Nobel
1928 - Primeiros testes genéticos com insetos
1944 - Primeira tentativa de fertilização in vitro
1945 - Explosão da primeira bomba atômica
1952 - Clonagem de rãs a partir de células de girinos
1953 - Esperma humano é congelado para inseminação
artificial
1954 - Comprovação da eficácia da pílula contraceptiva
1967 - Christian Barnard faz o primeiro transplante
de coração
1978 - Nasce Louise Brown, o primeiro bebê de proveta
1982 - Franceses anunciam a pílula do aborto
1983 - Nasce o primeiro bebê de mãe de aluguel
1987 - Sul-africana gera óvulos fecundados de sua filha
1993 - Americanos fazem clonagem de embriões humanos
1995 - Cientistas implantam orelha humana em um rato
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Para rir e chorar
A clonagem é o terreno comum de cientistas sérios, utopistas
desvairados e autores de ficção. Cientistas sugeriram na semana
passada que seria uma boa idéia clonar os gênios da humanidade
ainda vivos. O jornal Chicago Tribune lembrou que podem
existir ainda vestígios do sangue de Jesus Cristo no que restou
da cruz em que foi martirizado e sugeriu que poderia ser uma
boa idéia tentar clonar o filho de Deus. Outros candidatos
indicados aqui e ali para o Oscar da ciência, a clonagem:
Mozart, Albert Einstein, Elvis Presley e o ídolo do basquete
Michael Jordan. No vôo alto da imaginação, esquece-se de que
tudo que se tem em mãos é uma graciosa ovelhinha.
Os autores clássicos de ficção desbravaram essa selva mais
cedo. Eles produziram alguns momentos de alta tensão num mundo
em que homens e mulheres não precisam do sexo para se reproduzir.
As melhores obras, como o pioneiro Admirável Mundo Novo,
escrito por Aldous Huxley há 65 anos, usam o absurdo da clonagem
para demonstrar que o humanismo, e não acrobacias de laboratório,
é ainda nossa melhor aposta. No filme e no romance Os Meninos
do Brazil, de 1976, Ira Levin cria neonazistas enlouquecidos
que clonam uma ninhada de novos Hitler. Na confusão mais comum
em obras desse tipo, esquece-se de que se pode clonar os genes
de uma pessoa, mas não sua história pessoal ou o ambiente
político, social e familiar que lhe moldou a personalidade.
Os noventa Hitler criados pelos neonazistas no livro de Levin
poderiam tornar-se cidadãos pacatos, enfermeiros, bons garçons
e maus pintores. Talvez alguns se tornassem filantropos.
A ficção freqüentemente atropela a ciência. Em Parque
dos Dinossauros, de 1993, de Steven Spielberg, os clones
são feitos a partir do DNA de bichos extintos encontrados
na barriga de mosquitos. Uma experiência desse tipo é teoricamente
viável, mas os cientistas calculam que ela demorará pelo menos
meio século para ser tentada. Parque dos Dinossauros
é rocha sólida quando comparado ao pântano lisérgico de Starman
_ O Homem das Estrelas, filme em que o ator Jeff Bridges
vive um terráqueo clonado por um alienígena. Os clones na
ficção se saem melhor quando fazem rir. É o caso de O Dorminhoco,
de 1973, em que Woody Allen seqüestra o nariz preservado de
um ditador morto antes que se façam novos clones do opressor.
Em Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias (1996), o ator
Michael Keaton tenta salvar seu casamento com a ajuda de um
professor aloprado que produz diversas cópias dele.
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Bastante provável
Rebanhos selecionados
Milhares de vacas capazes de produzir 60 litros de leite por
dia, vinte vezes a média brasileira, podem se tornar realidade
dentro de alguns anos. Já é possível modificar genes de vacas
para que produzam leite de alta qualidade, com proteínas puríssimas
e quase sem gordura.
Problema: Num rebanho com vacas geneticamente idênticas,
um determinado vírus passa automaticamente de um animal para
outro. O risco de dizimação é maior que num rebanho natural.
Animais transgênicos
Já se tornou corriqueira a produção de certos medicamentos,
como a insulina, por bactérias modificadas com o implante
de genes humanos. O próximo passo é a implantação de porções
de DNA humano em grandes mamíferos, para produção de compostos
sanguíneos úteis. Ovelhas modificadas já produzem experimentalmente
o fator de coagulação humano, usado para tratar hemofílicos.
Problema: Como o DNA não é uma molécula estável, teme-se
sua contaminação por genes animais.
Salvar animais em extinção
Bichos cujos habitats foram destruídos pela ocupação humana
ou desastres naturais devem ser clonados e perpetuados artificialmente
em menos de cinco anos. Os primeiros candidatos à experiência
são o tigre da Malásia, peixes que existiram no Lago Vitória,
na África, e o rinoceronte branco. O zoológico de Londres
já cedeu seus espécimes para a experiência.
Problema: Caso a duplicação artificial de animais
raros em cativeiro se torne corriqueira, o valor dos habitats
decresce. Teme-se que isso estimule a depredação de florestas.
Provável
Animais doadores
Cientistas acham teoricamente possível alterar embriões de
porcos, ovelhas e macacos para produzir órgãos idênticos aos
de humanos. Dessa forma, haveria um estoque inesgotável de
órgãos para transplante. Uma experiência desse tipo será tentada
nos próximos cinco anos.
Problema: Incompatibilidade de proteínas de um órgão
desse tipo parece aos olhos da ciência de hoje problema quase
insuperável.
Diagnóstico pré-implante
Será possível diagnosticar defeitos genéticos num embrião
humano quando ele ainda tiver apenas oito células, após a
concepção. Muitas doenças e deficiências físicas poderão ser
detectadas nesse estágio.
Problema: O procedimento foi condenado recentemente
por líderes religiosos católicos, judeus e muçulmanos.
Pouco provável
Clones humanos
A duplicação de um ser humano adulto é teoricamente possível,
usando-se o mesmo processo adotado na Escócia para clonar
"Dolly". Mesmo assim, será quase impossível que algum grupo
de cientistas assuma publicamente um projeto desse tipo.
Problema: Existem milhares de cientistas e laboratórios
espalhados pelo mundo habilitados a tentar copiar artificialmente
um ser humano, sem nenhum controle.
Improvável
Clones sem cérebro
Robert Edwards, médico inglês pioneiro dos bebês de proveta,
sugere que um dos usos prováveis da clonagem humana no futuro
será a produção de um irmão gêmeo de cada pessoa ao nascer.
Esse gêmeo seria um clone, com DNA modificado, de modo que
ele não desenvolva o cérebro. O clone seria mantido num estado
vegetativo e serviria apenas de repositor de órgãos para eventuais
transplantes no irmão normal.
Problema: A idéia parece loucura agora e vai parecer
assim por muito tempo. Mesmo sem cérebro, o clone teria de
ser alimentado e crescer até por volta dos 15 anos para que
seus órgãos tivessem serventia.
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