Dolly, a revolução dos clones

Ian Wilmut abre uma polêmica sobre ética na pesquisa científica ao copiar uma ovelha em laboratório

Eurípedes Alcântara, de Nova York

Para "Dolly" nascer foi preciso que um anjo torto, desses que andam de jaleco branco, a arrancasse inteira de dentro de outro animal. Como Eva no Velho Testamento, feita com uma das costelas de Adão, Dolly veio ao mundo como um pedaço de outro ser adulto. Dolly, a ovelha escocesa de cuja concepção extraordinária o mundo tomou conhecimento na semana passada, não tem pai nem mãe. Ela tem apenas origem, uma origem que não é divina. É humana. Dolly é o cordeiro dos homens. Mais exatamente, é o cordeiro de Ian Wilmut, 52 anos, embriologista do Instituto Roslin, instituição de pesquisa agropecuária nos arredores de Edimburgo, capital da Escócia, que até então vivia num tranqüilo anonimato. Dolly é o que a ciência chama de clone, palavra de origem grega que significa broto. Clone é a cópia idêntica de outro ser vivo produzida artificial e assexuadamente. Como teve origem numa célula da mama de sua mãe, a ovelha recebeu o seu nome em homenagem a Dolly Parton, a cantora caipira americana de seios enormes. Ela tem a compleição simpática da sua raça, a finn-dorset: focinho rosado, dócil e encantadoramente desajeitada. Por trás dessa aparente normalidade esconde-se uma perturbadora revolução científica.

A ovelha, símbolo religioso da redenção dos homens, inaugurou abruptamente o século XXI, dando origem à era dos clones, período no qual os cientistas que brincam de Deus vão começar a colher os frutos de suas ousadias. O artigo de Wilmut explicando como Dolly foi feita foi publicado na quinta-feira na revista Nature, a prestigiosa publicação científica inglesa. A receita para construir um mamífero é assustadoramente simples. Os cientistas escoceses fundiram um óvulo não fecundado, de onde haviam retirado o miolo genético, com uma célula doada pela ovelha que queriam copiar. Depois implantaram o resultado da fusão no útero de uma terceira ovelha, onde Dolly foi gestada (veja quadro na pág. 94). Depois dos clones de ovelhas, virão os de outros animais tão ou mais úteis à humanidade, como as vacas e galinhas. Em seguida, serão copiados bichos ameaçados de extinção. Até o dia em que a inocência perdida com o anúncio da existência de Dolly deságüe no indizível, no impensável, na suprema arrogância dos mortais: a cópia de um ser humano em laboratório. "Não duvido que a clonagem de um ser humano não esteja sendo tentada em um canto escuro de alguma universidade desconhecida", diz o americano Bruce Hilton, pesquisador do Centro Nacional de Bioética.

Ian Wilmut, barbudo, meio careca, com jeito de cientista de filme de Hollywood, quebrou uma barreira ética. "Pela primeira vez a humanidade está sendo colocada na posição de gerente principal da evolução animal e humana: podemos dizer, sem exagero, que seremos em breve senhores únicos de nosso destino biológico", diz Ronald Munson, médico especialista em ética da Universidade do Missouri. Estamos preparados para tanta responsabilidade? Numa gloriosa viagem evolutiva de 8 milhões de anos, o mamífero de cérebro avantajado e mãos hábeis domou o planeta. Agora, Dolly coloca a espécie humana num novo patamar dessa formidável jornada natural: ele pode, teórica e praticamente, recriar a si mesmo, e aparentemente não existe força, terrestre ou divina, capaz de frear os cientistas e evitar a repetição da experiência de Dolly com um ser humano.

Os poderosos reagiram como quem vê seu poder lhe escapando das mãos. Bill Clinton, presidente dos Estados Unidos, criou uma comissão de sábios para, no prazo de três meses, instruí-lo sobre como agir para impedir a clonagem de pessoas. O Observatório Romano, jornal oficial da Santa Sé católica, circulou na quarta-feira com um apelo dramático: "Não há mais tempo. Os governos precisam anunciar imediatamente o banimento legal e completo de quaisquer tentativas de clonagem humana". Tanto Clinton como o papa João Paulo II sabem que, a partir de agora, tal clonagem não é cara nem complexa. Tanto que Dolly foi produzida numa instituição de prestígio, mas bastante parecida com dezenas de outros laboratórios genéticos espalhados pelo mundo. "Doutores por doutores, instrumento por instrumento, recurso por recurso, iguais ao laboratório de Roslin existem muitos outros em dezenas de países", diz o pesquisador americano Steven Jones.

Suspeitas – Dadas as mesmas condições técnicas, a clonagem fica por conta da ousadia dos cientistas, ou do ambiente acadêmico em que atuem. Ninguém esperava, por exemplo, que o primeiro transplante de coração fosse feito no Groote Schuur Hospital, na África do Sul. Mas foi ali que, em 1967, o cirurgião Christian Barnard implantou um coração novo no peito de Louis Washkansky, que sobreviveu alguns dias. Barnard não era melhor que seus colegas de Boston, Cleveland ou Londres. Ele apenas contou com um ambiente eticamente mais liberal. Sua audácia não foi contida por regulamentos ou leis severas como as que existiam na Europa e nos Estados Unidos. "Se proibirmos experiências de clonagem humana aqui, elas serão feitas em outros países, não tenho dúvida disso", diz Steven Jones. Pode parecer absurdo falar em clonagem de seres humanos quando tudo que a ciência apresentou até agora foi uma inocente ovelha de laboratório. Os envolvidos na experiência escocesa foram os primeiros a querer enfatizar que uma ovelha é apenas uma ovelha. "Levamos vinte anos para planejar e executar a criação de Dolly, e só acertamos na 277ª tentativa", diz Wilmut. "Se quiséssemos fazer a mesma coisa com um ser humano, o que absolutamente não é o caso, as dificuldades seriam abismalmente grandes." Mas, mesmo se tivesse dito que é impossível fabricar um clone humano, Wilmut não teria conseguido desanuviar as suspeitas. O consenso entre os cientistas especializados no assunto é que a clonagem humana pode ser obtida com os mesmos procedimentos utilizados para trazer Dolly ao mundo natural. O exagero está em pensar que isso ocorrerá em questão de meses ou de um par de anos _ ou que exércitos de clones humanos estarão, aos milhões, muito em breve se misturando aos demais mortais nas ruas.

Tabu – Novidades tecnológicas de implicações profundas sempre geram expectativas exageradas. A barreira do som foi quebrada, em 1947, pelo piloto Chuck Yeager, e hoje, meio século depois, pouquíssima gente se beneficiou desse avanço: o Concorde, único avião supersônico de passageiros em operação no planeta, faz alguns poucos vôos semanais entre Europa e Estados Unidos. Quando o russo Yuri Gagarin entrou em órbita, em abril de 1961, se acreditou que a humanidade estava prestes a sair da Terra e colonizar a Via Láctea _ mas, 36 anos depois, apenas três centenas de mortais podem contar que já voaram ao espaço. Dezenove anos depois de dominada a técnica dos bebês de proveta, existem pouco mais de 10 000 crianças nascidas por esse método em todo o mundo. O mesmo se passa com as grandes cirurgias do coração, os transplantes, as fabulosas drogas e os tratamentos da medicina de ponta. É nesse contexto que se deve entender a experiência escocesa e a possibilidade que ela abriu de fabricar clones humanos. Ainda assim, a questão ética é real, premente e explosiva. Clonar um ser humano é um poderoso tabu. Há quatro anos, cientistas da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, clonaram embriões humanos. Eles fizeram dezenas de cópias genéticas idênticas de um único embrião e, antes que o batalhão de gêmeos começasse a se desenvolver, suas sementes foram destruídas. Bastou o anúncio da experiência para que, em menos de uma semana, o governo americano colocasse na ilegalidade toda e qualquer experiência envolvendo embriões humanos. "Em vez de aplausos, provocamos uma onda de repulsa", lembra Robert Stillman, o embriologista pai da experiência da George Washington. "Na época, trabalhamos com um punhado de células microscópicas, copiando outras células de um ser de proveta que nunca nasceu. Não consigo sequer imaginar a reação popular e das autoridades quando e se alguém copiar um ser adulto, uma pessoa com nome, sobrenome, família, rosto, amigos, gostos e idéias."

Exasperado – Mas há gente que, por um motivo ou outro, acha a clonagem de um ser humano, se não desejável, pelo menos defensável. "Na prática, a clonagem significa que as mulheres no futuro poderão ter filhos sem a participação dos homens", diz a bióloga canadense Ursula Goodenough, feminista radical. Conhecido animador cultural no campo das ousadias científicas, o americano James Watson, co-autor com Francis Crick e Maurice Wilkins da descoberta da forma da molécula de DNA, que lhe valeu o Prêmio Nobel, aproveitou a deixa para defender seus colegas. "O cientista de ponta não pode pensar muito em custos sociais ou aspectos éticos, pois, se ele refletir muito, não avança", disse o lendário cientista. Outro ganhador do Nobel, o francês François Jacob, um homem mais reflexivo e filosófico, se disse "exasperado" pela experiência de clonagem da ovelha. "Há um bom tempo temos tentado obter prazer sexual sem gerar filhos. Com os bebês de proveta conseguimos filhos sem prazer. E, agora, estamos prestes a ter filhos sem prazer e sem espermatozóide", diz Jacob. "Evidentemente, a estrutura familiar num mundo de clones nunca mais será a mesma."

Um dos fascínios que a clonagem humana provoca é o de possibilitar a aferição de quanto uma pessoa é produto da genética ou do meio ambiente. Que tipos de pessoas se tornariam seres geneticamente idênticos, submetidos a condições distintas? Como se sairia um clone de Lula se tivesse sido criado na família de Fernando Henrique Cardoso? Um clone de Pelé criado nos Estados Unidos teria-se tornado um super-atleta do basquete ou do futebol americano? Como seria uma luta de boxe entre dois clones de Muhammad Ali? Na ausência de clones, os melhores estudos sobre essa questão são feitos com gêmeos univitelinos, idênticos, separados ao nascer.

A Universidade de Minnesota lidera as pesquisas nessa área no mundo. Há vinte anos, os pesquisadores acompanham cerca de três centenas de gêmeos idênticos separados da família pelas mais diversas razões e criados em ambientes díspares nos Estados Unidos. Além de conclusões óbvias como as de que a habilidade atlética é 100% definida pela herança genética, o estudo sobre os gêmeos de Minnesota ofereceu algumas surpresas. A pesquisa sugere que certos comportamentos que se julga aprendidos ao longo da vida são fortemente influenciados pela genética. O conservadorismo político, por exemplo, é um traço que, segundo o estudo dos gêmeos idênticos, é uma tendência que se traz do berço. Os pesquisadores sugeriram também que pelo menos 70% das variações nos testes de QI podem ser atribuídas à genética. Ou seja, a inteligência seria, em grande parte, herdada.

Melhoria genética – A discussão sobre a ética de copiar seres humanos acabou obscurecendo a avaliação dos benefícios que o nascimento de Dolly vai trazer. Modificar a natureza está se tornando um negócio multimilionário. Mais de 700 empresas de biotecnologia européias competem com 1 300 empresas americanas numa corrida para colocar animais e plantas tradicionais a serviço da medicina e da agropecuária. Cerca de 2,5 milhões de hectares de solo em todo o mundo já são ocupados com plantas modificadas em laboratórios. Calcula-se que, até o ano 2000, os produtos de animais e plantas transgênicas devem estar gerando negócios de 20 bilhões de dólares.

A clonagem é uma das áreas mais quentes da pesquisa agropecuária. Empresas como a PPL Therapeutics, que pagou a experiência de Ian Wilmut na Escócia e tem direitos totais sobre os rendimentos que ela gerar, apostam que em breve estarão produzindo em massa ovelhas e vacas dezenas de vezes mais produtivas do que os animais das fazendas atuais. Nos Estados Unidos, a Alexion está alterando a estrutura genética de porcos de modo que eles produzam coração, rins e fígado compatíveis com os órgaos humanos. Dentro de três anos, a primeira batelada de órgãos transgênicos produzidos pela Alexion estará pronta para transplante em seres humanos. Outras duas empresas, a Nextran Inc, de Nova Jersey, e a Novartis, da Suíça, também estão no negócio de produzir animais transgênicos produtores de órgãos implantáveis. Não faltarão candidatos. Você pode ser um deles. Segundo cálculo do cardiologista americano John Wallwork, até o ano 2010, pelo menos 450 000 transplantes cardíacos serão realizados em todo o mundo.

"Nosso clone abre uma fronteira na melhoria genética das raças animais", diz Wilmut. "Estamos no mercado de agropecuária, não no de filmes de terror." Wilmut amanheceu uma celebridade na Escócia. O jornal The Scotsman, de Edimburgo, estampou-o na primeira página, vestido com o tradicional impermeável inglês Barbour, segurando um copo de boca larga com dois dedos de uísque puro malte The Balvenie, sua marca predileta. "Meu passatempo é o laboratório", informa Wilmut, um pesquisador obsessivo, capaz de passar nove horas entretido com suas experiências e ainda levar trabalho para casa. Há 23 anos ele cumpre a mesma rotina de sair de casa e enfurnar-se no velho prédio do Instituto Roslin, onde fica seu laboratório. Wilmut tem três filhos, Helen, de 28 anos, Naomi, 26, e Dean, 24, e é casado com Vivian, que conheceu quando ainda morava na Inglaterra. Ele ganha 5 000 dólares por mês e, fora a fama, não vai faturar com sua ovelha clonada. Os lucros pertencem à empresa PPL.

Almas sensíveis – "Sempre me fascinou a idéia de transformar os animais em usinas de produção de hormônios e proteínas úteis para os seres humanos", diz Wilmut. Há uma ironia em ter inscrito seu nome na história da ciência com uma pesquisa prática. Cientistas desse tipo costumam não ser valorizados, em benefício de outros dedicados a resolver os grandes enigmas da natureza. Com seus experimentos, Wilmut não quis responder a nenhuma questão transcendental. Ele pretendeu apenas refinar uma técnica para fazer uma cópia perfeita de uma ovelha. Conseguiu. "O trabalho final dele é absolutamente técnico. É um manual minucioso de como clonar uma ovelha", diz o americano Lee Silver, professor de biologia da Universidade Princeton.

As almas mais sensíveis se chocarão ainda muito com a ousadia dos anjos tortos de jaleco branco e suas criaturas aberrantes. A chamada quarta revolução, a da engenharia genética, está apenas desabrochando. Sigmund Freud dizia que a psicanálise era a terceira grande reviravolta na maneira de pensar da humanidade, depois do darwinisno, que tirou o homem da esfera divina e o colocou ao lado dos animais, e do sistema de Nicolau Copérnico, revelador da verdade de que a Terra não era o centro do universo. A quarta revolução, a revolução de Ian Wilmut, põe a humanidade cara a cara com uma outra dolorida verdade, o indivíduo não é mais sequer único. A ciência poderá em breve produzir dezenas de cópias mesmo do mais egocêntrico dos homens. As três revoluções anteriores cumpriram um ciclo bastante preciso. Causaram repulsa e revolta num primeiro momento. Em seguida, ajudaram a libertar o homem, como só a verdade pode fazer.

A novidade que põe fim a um dogma

Se algum dia o pesquisador britânico Ian Wilmut for lembrado para o Prêmio Nobel, a honraria será outorgada por ele ter destruído um dogma da ciência. Nos anos 70, grupos de embriologistas clonaram sapos adultos a partir de uma única célula. Ninguém se interessou pelo procedimento porque na maioria dos anfíbios a regeneração completa dos tecidos é uma característica natural. Corta-se o rabo de uma salamandra, por exemplo, e ele voêta a crescer. A cópia de um mamífero adulto pelo mesmo processo, no entanto, era um feito considerado impossível. Wilmut ostrou que essa irença estava errada e que, teoricamente, todas as células do corpo contêm as informações necessárias para produzir um organismo inteiro.

O que o escocês fez foi pegar uma célula especializada, no caso uma célula retirada da glândula mamária áe uma ovelha de - anos de idade, e e transformá-la numa semente biológica, a partir da qual se pode construir um animal completo. Wilmut fundiu a célula mamária com uma célula reprodutiva cujo miolo genético, o DNA, fora extraído. Dessa maneira, a célula reprodutiva cresceu normalmente _ com a diferença que o DNA da célula da ovelha doadora comandou o processo. O que virá agora? De agora em diante, times de pesquisadores de todo o mundo buscarão a prova de que Wilmut clonou mesmo a ovelha. Como a mãe genética de Dolly, a ovelha doadora da célula mamária que originou o experimento, morreu depois, não se pode comparar seus códigos genéticos para provar que são idênticos. Se a ovelha-mãe estivesse viva, Wilmut teria como exibir a prova definitiva: dois seres geneticamente idênticos, gêmeos, portanto, só que um deles com 7 meses e o outro com 7 anos de idade. Mesmo que a mãe de Dolly estivesse viva, os cientistas tentariam reproduzir o experimento com suas próprias ovelhas. Caso ninguém consiga, Wilmut ficará sob suspeita. É assim que a ciência caminha.

Na semana passada, no entanto, nenhum cientista desconfiava seriamente que ele pudesse ter falsificado dados e que Dolly fosse uma fraude. "O procedimento descrito por Wilmut é tão brilhante e convincente que, no fundo, nem precisaríamos da existência de Dolly para saber que ele fez a coisa certa", diz Curtis Young, professor de ciências animais da Universidade de Iowa, um dos centros de excelência da embriologia experimental dos Estados Unidos. Desconhecido do grande público, Wilmut é há muito uma das maiores estrelas de sua especialidade. Os geneticistas que analisaram o artigo de Wilmut publicado pela revista Nature, e que colocaram Dolly na capa da edição da semana passada, consideram a abordagem dele genial. Talvez seja a mais engenhosa intervenção humana no processo de reprodução do DNA. O DNA é uma molécula orgânica capaz de duplicar a si mesma produzindo cópias idênticas de seus componentes. O que abriu caminho para o sucesso da experiência foi o fato de Wilmut ter descoberto qual a fase correta em que o DNA deve ser enxertado na célula. "Se você enxerta o DNA na fase errada, ele mata a célula ou gera um monstro", explica Wilmut. "O que consegui foi acertar meu relógio com o da natureza."


Quando a ciência assusta

Descobertas científicas sempre provocam
discussões de natureza ética e moral

1799 - Primeira gravidez por inseminação artificial
1866 - Invenção da dinamite, por Alfred Nobel
1928 - Primeiros testes genéticos com insetos
1944 - Primeira tentativa de fertilização in vitro
1945 - Explosão da primeira bomba atômica
1952 - Clonagem de rãs a partir de células de girinos
1953 - Esperma humano é congelado para inseminação artificial
1954 - Comprovação da eficácia da pílula contraceptiva
1967 - Christian Barnard faz o primeiro transplante de coração
1978 - Nasce Louise Brown, o primeiro bebê de proveta
1982 - Franceses anunciam a pílula do aborto
1983 - Nasce o primeiro bebê de mãe de aluguel
1987 - Sul-africana gera óvulos fecundados de sua filha
1993 - Americanos fazem clonagem de embriões humanos
1995 - Cientistas implantam orelha humana em um rato


Para rir e chorar

A clonagem é o terreno comum de cientistas sérios, utopistas desvairados e autores de ficção. Cientistas sugeriram na semana passada que seria uma boa idéia clonar os gênios da humanidade ainda vivos. O jornal Chicago Tribune lembrou que podem existir ainda vestígios do sangue de Jesus Cristo no que restou da cruz em que foi martirizado e sugeriu que poderia ser uma boa idéia tentar clonar o filho de Deus. Outros candidatos indicados aqui e ali para o Oscar da ciência, a clonagem: Mozart, Albert Einstein, Elvis Presley e o ídolo do basquete Michael Jordan. No vôo alto da imaginação, esquece-se de que tudo que se tem em mãos é uma graciosa ovelhinha.

Os autores clássicos de ficção desbravaram essa selva mais cedo. Eles produziram alguns momentos de alta tensão num mundo em que homens e mulheres não precisam do sexo para se reproduzir. As melhores obras, como o pioneiro Admirável Mundo Novo, escrito por Aldous Huxley há 65 anos, usam o absurdo da clonagem para demonstrar que o humanismo, e não acrobacias de laboratório, é ainda nossa melhor aposta. No filme e no romance Os Meninos do Brazil, de 1976, Ira Levin cria neonazistas enlouquecidos que clonam uma ninhada de novos Hitler. Na confusão mais comum em obras desse tipo, esquece-se de que se pode clonar os genes de uma pessoa, mas não sua história pessoal ou o ambiente político, social e familiar que lhe moldou a personalidade. Os noventa Hitler criados pelos neonazistas no livro de Levin poderiam tornar-se cidadãos pacatos, enfermeiros, bons garçons e maus pintores. Talvez alguns se tornassem filantropos.

A ficção freqüentemente atropela a ciência. Em Parque dos Dinossauros, de 1993, de Steven Spielberg, os clones são feitos a partir do DNA de bichos extintos encontrados na barriga de mosquitos. Uma experiência desse tipo é teoricamente viável, mas os cientistas calculam que ela demorará pelo menos meio século para ser tentada. Parque dos Dinossauros é rocha sólida quando comparado ao pântano lisérgico de Starman _ O Homem das Estrelas, filme em que o ator Jeff Bridges vive um terráqueo clonado por um alienígena. Os clones na ficção se saem melhor quando fazem rir. É o caso de O Dorminhoco, de 1973, em que Woody Allen seqüestra o nariz preservado de um ditador morto antes que se façam novos clones do opressor. Em Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias (1996), o ator Michael Keaton tenta salvar seu casamento com a ajuda de um professor aloprado que produz diversas cópias dele.


Bastante provável

Rebanhos selecionados
Milhares de vacas capazes de produzir 60 litros de leite por dia, vinte vezes a média brasileira, podem se tornar realidade dentro de alguns anos. Já é possível modificar genes de vacas para que produzam leite de alta qualidade, com proteínas puríssimas e quase sem gordura.
Problema: Num rebanho com vacas geneticamente idênticas, um determinado vírus passa automaticamente de um animal para outro. O risco de dizimação é maior que num rebanho natural.

Animais transgênicos
Já se tornou corriqueira a produção de certos medicamentos, como a insulina, por bactérias modificadas com o implante de genes humanos. O próximo passo é a implantação de porções de DNA humano em grandes mamíferos, para produção de compostos sanguíneos úteis. Ovelhas modificadas já produzem experimentalmente o fator de coagulação humano, usado para tratar hemofílicos.
Problema: Como o DNA não é uma molécula estável, teme-se sua contaminação por genes animais.

Salvar animais em extinção
Bichos cujos habitats foram destruídos pela ocupação humana ou desastres naturais devem ser clonados e perpetuados artificialmente em menos de cinco anos. Os primeiros candidatos à experiência são o tigre da Malásia, peixes que existiram no Lago Vitória, na África, e o rinoceronte branco. O zoológico de Londres já cedeu seus espécimes para a experiência.
Problema: Caso a duplicação artificial de animais raros em cativeiro se torne corriqueira, o valor dos habitats decresce. Teme-se que isso estimule a depredação de florestas.

Provável

Animais doadores
Cientistas acham teoricamente possível alterar embriões de porcos, ovelhas e macacos para produzir órgãos idênticos aos de humanos. Dessa forma, haveria um estoque inesgotável de órgãos para transplante. Uma experiência desse tipo será tentada nos próximos cinco anos.
Problema: Incompatibilidade de proteínas de um órgão desse tipo parece aos olhos da ciência de hoje problema quase insuperável.

Diagnóstico pré-implante
Será possível diagnosticar defeitos genéticos num embrião humano quando ele ainda tiver apenas oito células, após a concepção. Muitas doenças e deficiências físicas poderão ser detectadas nesse estágio.
Problema: O procedimento foi condenado recentemente por líderes religiosos católicos, judeus e muçulmanos.

Pouco provável

Clones humanos
A duplicação de um ser humano adulto é teoricamente possível, usando-se o mesmo processo adotado na Escócia para clonar "Dolly". Mesmo assim, será quase impossível que algum grupo de cientistas assuma publicamente um projeto desse tipo.
Problema: Existem milhares de cientistas e laboratórios espalhados pelo mundo habilitados a tentar copiar artificialmente um ser humano, sem nenhum controle.

Improvável

Clones sem cérebro
Robert Edwards, médico inglês pioneiro dos bebês de proveta, sugere que um dos usos prováveis da clonagem humana no futuro será a produção de um irmão gêmeo de cada pessoa ao nascer. Esse gêmeo seria um clone, com DNA modificado, de modo que ele não desenvolva o cérebro. O clone seria mantido num estado vegetativo e serviria apenas de repositor de órgãos para eventuais transplantes no irmão normal.
Problema: A idéia parece loucura agora e vai parecer assim por muito tempo. Mesmo sem cérebro, o clone teria de ser alimentado e crescer até por volta dos 15 anos para que seus órgãos tivessem serventia.