Em
busca do tempo perdido
Em
cinco anos, 900 000 criançaslivraram-se do
trabalho pesado para freqüentar a escola

Monica
Weinberg
Uma
das maiores vergonhas nacionais está menor do que era
no começo da década passada. Em apenas cinco
anos, entre 1993 e 1998, o número de crianças
que trabalham caiu de cerca de 20% para 15% da população
infantil. São 900.000 meninos e meninas entre 10 e
14 anos que abandonaram os riscos de mutilação
em máquinas de tear, de doenças de pulmão
em carvoarias e da violência das ruas das metrópoles.
Para onde eles foram? Para as salas de aula. Graças,
principalmente, aos programas oficiais que pagam prêmios
às famílias pobres com filhos matriculados,
uma população equivalente à de uma capital
como Goiânia migrou para as escolas em busca do tempo
perdido. Nesses cinco anos, a taxa de crianças não
matriculadas caiu pela metade e o analfabetismo infantil despencou
em mais de 30%. A transformação de pequenos
cortadores de cana-de-açúcar e empregadas domésticas
mirins em alunos de escolas públicas está ocorrendo
numa velocidade nunca vista no país, mas ainda há
muito que fazer. Boa parte dos programas de erradicação
do trabalho infantil depende da vontade pessoal do prefeito
ou do governador de plantão, e ainda restam trabalhando
2,5 milhões de crianças entre 10 e 14 anos que
deveriam estar apenas estudando. Mas é um grande
começo.
A
mudança na vida de Mário Sérgio Oliveira
da Silva, de 11 anos, é exemplar. Ele começou
a trabalhar aos 5 anos na zona rural de Retirolândia,
no sertão baiano, acompanhando o pai e os dois irmãos
mais velhos, cortando, colhendo e secando o sisal, a planta
da qual se extraem as fibras para a produção
de corda, barbante e tapete. O trabalho com sisal é extenuante
até mesmo para um adulto. A planta é espinhosa
e os feixes levados para secar nos pátios têm
dezenas de quilos. São comuns acidentes em que as máquinas
de moer a fibra acabam levando junto o dedo ou a mão
de um trabalhador. Mário Sérgio sofria dores
na coluna por carregar tanto peso, tinha feridas de espinho
pelo corpo e as mãos calejadas como as de um adulto.
Labutava nove horas por dia e, no final do mês, recebia
12 reais. Quando o menino chegou aos 8 anos, sua família
recebeu um bode e seis cabras de um programa da Organização
Internacional do Trabalho, OIT. É o suficiente
para conseguir 5 litros de leite diários e ganhar um
dinheirinho com a venda dos filhotes. Em troca, Mário
Sérgio e os irmãos retornaram à escola.
Desde 1997, a família Silva ganhou novo apoio: uma
bolsa mensal de 25 reais para que o garoto permanecesse na
sala de aula e longe do trabalho. Outras 30.000 crianças
da região sisaleira da Bahia receberam bolsas no mesmo
projeto. Neste ano serão distribuídas outras
30.000 bolsas na região, o que irá encerrar
o ciclo do trabalho infantil no sisal do sertão baiano.
"Se eu tivesse de voltar para o sisal, nunca mais ia
sair", diz o menino. "Eu não quero ficar
lá, quero ir para a universidade."
Sem
ganhar nada Até pouco tempo atrás,
quase ninguém se surpreendia com histórias como
a de Mário Sérgio. Se os pais mandavam o filho
de 8 anos vender balas na rua para ajudar a pagar as contas
de casa, isso era encarado como uma fatalidade, não
um escândalo. Contribuiu para isso a longa tradição
nacional de que, a princípio, não há
nada errado em começar a trabalhar cedo. E de fato
não há, desde que a criança possa também
estudar e ter tempo para brincar. O importante é que
o trabalho não seja uma tarefa desumana, desproporcional
a suas forças e a sua idade. Grande parte dos adultos
brasileiros começou a trabalhar duro antes dos 14 anos
e se orgulha disso. Era uma maneira de aprender um ofício
e ajudar na renda dos pais. Esse tipo de trabalho infantil
é quase uma tradição nas famílias
de imigrantes italianos, poloneses e alemães do sul
do país, nas quais as crianças começam
a ajudar os pais muito cedo, sem deixar de freqüentar
a escola.
Uma
situação diferente é a que afeta
milhares e milhares de famílias paupérrimas,
em especial das regiões Norte e Nordeste, onde as crianças
começam a trabalhar pesado sem nunca ter a chance de
freqüentar os bancos escolares. São meninos e
meninas que exercem atividades penosas, por salários
irrisórios, em carvoarias, plantações
de cana-de-açúcar, de laranja, olarias e pedreiras.
Ali, o trabalho infantil nunca teve o papel pedagógico
que o caracterizou nas comunidades de imigrantes do sul. Ao
contrário, sempre foi a mais pura e simples exploração
de crianças desprovidas da oportunidade de estudar
e obrigadas a ajudar no sustento da família como se
já fossem adultas. A ignorância e o estado de
penúria dessas famílias se somaram ao descaso
das autoridades para transformar o problema num escândalo
nacional.
O
resultado desse descaso pode ser visto num estudo inédito
concluído pelo Unicef, o órgão das Nações
Unidas para a infância e a adolescência (veja
quadro ao lado). Nele, descobre-se que as crianças
só arranjam ocupação porque se submetem
a condições de trabalho aviltantes, que normalmente
um adulto recusaria. Elas ganham em média 27 reais
por mês, isso quando recebem alguma coisa. Quase 60%
não têm salário. São casos como
o de Júlio César Peçanha, 11 anos, que
largou os estudos para ajudar a mãe no corte da cana-de-açúcar
em Campos dos Goitacazes, no Estado do Rio de Janeiro. O trabalho
começava às 5 e se estendia até as
15 ou 16 horas. Era tão cansativo que a mãe
e o menino se revezavam. Enquanto um trabalhava, o outro descansava.
Júlio César manuseava o facão feito gente
grande, um perigo para alguém de sua idade. Era uma
das 10.000 crianças que trabalhavam nas plantações
de cana-de-açúcar na região. Hoje está
entre as 2.614 que passaram a freqüentar a escola depois
de receber uma bolsa-escola. Júlio César voltou
à sala de aula na parte da manhã, pratica capoeira
à tarde e sonha com um futuro longe do bairro pobre
onde mora. "Acho que esse negócio de escola é bom
porque ajuda a subir na vida", diz. Os pais de Júlio
César não tiveram a mesma sorte. Eles engrossam
as estatísticas reveladas na pesquisa do Unicef: sete
em cada dez pais de crianças que trabalham têm
menos de quatro anos de estudo. Têm conseqüentemente
salários mais baixos e acabam empurrando os filhos
para o mercado de trabalho como forma de completar a renda
mensal.
Feridas
e sarna A história de Mário Sérgio
e a de Júlio César mostram como alguns dos grandes
problemas nacionais podem ser resolvidos com pouco dinheiro.
Dar bodes e cabras a uma família ou depositar uma bolsa
mensal de 25 reais são soluções tão
baratas e simples que é de espantar que não
tenham sido tomadas antes. No ano passado, o governo federal
distribuiu 145.000 bolsas para crianças entre 7 e 14
anos em 235 municípios. Gastou 82 milhões de
reais, o que corresponde a uma média de 47 reais mensais
por criança. Estima-se que com 1,4 bilhão de
reais o trabalho infantil na faixa de 10 a 14 anos seria eliminado
em um ano em todo o país. É bastante dinheiro
equivalente a 0,1% do PIB nacional , mas até o
momento as iniciativas justificam o que foi gasto. Se for
investido agora, daqui a alguns anos esse dinheiro retornará
na forma de uma geração inteira de brasileiros
mais educada e preparada para os desafios do mercado de trabalho.
Isso faz uma diferença enorme no futuro de um país.
No
programa do governo federal, além da bolsa, as crianças
freqüentam um turno de atividades extraclasse (esporte,
música, dança) e as famílias são
acompanhadas de perto. Nesses moldes há outros programas
no país patrocinados pelos governos estaduais e municipais
por políticos que vão do PFL ao PT. Em Olinda,
Pernambuco, o projeto do governo do Estado está financiando
as famílias de 165 crianças e jovens que viviam
de catar latas de alumínio e papelão. "Eu
passava o dia inteiro revirando o lixo para ganhar 6 reais
por semana", lembra Angélica do Nascimento Silva,
de 10 anos. "Não gosto nem de lembrar do lixão.
Eu ficava cheia de sarna e feridas." O mais conhecido
desses programas, entretanto, está ameaçado.
Por rixa política, o governador do Distrito Federal,
Joaquim Roriz, está reduzindo o alcance do programa
de seu antecessor, Cristovam Buarque.
Na
marra O mundo todo está preocupado com a
questão do trabalho infantil. E não só
no Brasil. Na iminência de não conseguir mais
exportar tapetes, devido às denúncias de exploração
da mão-de-obra infantil, a Índia criou um selo
que atesta que nenhuma criança se envolveu na produção.
Há cerca de dois anos, a Nike recebeu denúncias
de que alguns de seus fornecedores utilizavam mão-de-obra
infantil na produção dos sapatos. As ações
da companhia despencaram até a metade do valor.
Houve boicote dos consumidores. O problema só se resolveu
quando a própria Nike decidiu investir pesado na fiscalização
dos fornecedores. A empresa americana Wal-Mart tem uma cláusula
que impede a compra de qualquer produto confeccionado por
crianças. No Brasil, a Fundação Abrinq
pelos Direitos da Criança passou a certificar com um
selinho as empresas que baniram de sua linha de produção
a participação de mão-de-obra infantil.
Em três anos, distribuiu cerca de 1.500 selos. As grandes
empresas automobilísticas incluíram uma cláusula
que veta a compra de carvão vegetal extraído
com a ajuda de crianças. Como medida preventiva, os
produtores de suco de laranja do interior de São Paulo
ergueram escolas para 1.300 crianças e adolescentes.
O
caso mais emblemático no Brasil da relação
das empresas com seus trabalhadores mirins está se
passando em Franca, no Estado de São Paulo. Em 1993,
uma pesquisa colocou a cidade em evidência como exploradora
de mão-de-obra infantil. As exportações
de calçados passaram a sofrer ameaças de embargo
dos Estados Unidos. Se o trabalho infantil não fosse
eliminado de todas as fases da produção, Franca
ficaria fora do mercado. A ameaça fez com que os empresários
investissem na erradicação do trabalho infantil
criando um instituto, o Pró-Criança. A entidade
certifica com um selo cada par de sapatos não confeccionado
por crianças. Hoje, cerca de 70% dos calçados
produzidos em Franca têm o selo. Temendo ser varrida
da linha de produção da fábrica para
a qual presta serviço, Vera Lúcia Pessoni retirou
os filhos da linha de montagem de sua oficina caseira. Wallace,
de 12 anos, e Wesley, de 15, ajudavam na produção
dos calçados. A caçula, Walquíria, de
11 anos, estava prestes a somar forças à confecção.
Agora, a menina estuda sapateado, Wallace ingressou em um
curso de inglês e Wesley está concorrendo a uma
vaga no curso de violão, todos conseguidos com a ajuda
do Pró-Criança.
A
noção de que a infância é uma
fase peculiar da vida, com necessidades, ritmo e tolerância
diferentes, é uma descoberta recente. Até o
século XIX, as crianças trabalhavam ao lado
dos pais em indústrias e lavouras. Isso era comum mesmo
em países mais desenvolvidos. A conscientização
de que o lugar da criança é na escola é coisa
que só chegou para os pobres dos Estados Unidos ou
da Europa nos primeiros anos do século XX. No Brasil,
o ensino obrigatório até os 14 anos só
entrou na Constituição em 1937 e demorou décadas
até alcançar as regiões mais pobres.
Leis contra o trabalho infantil são ainda mais recentes.
A prática passou a ser denunciada e combatida nos últimos
anos depois de uma conclusão óbvia: os pais
só irão recolocar os filhos na escola se isso
não ameaçar seu sustento. Com o incentivo de
um salário mínimo, que impede que ela e os irmãos
voltem a trabalhar, Flávia Reis dos Santos, de 12 anos,
parou de vender balas nas ruas de Belo Horizonte. Enquanto
trabalhava e estudava, a menina repetiu a 1a série
e cochilava ao fazer os deveres. Sem a carga do trabalho,
nunca mais tirou nota vermelha. Mais do que o tempo livre
para estudar, Flávia ganhou uma oportunidade que nunca
teria começando a trabalhar tão cedo. A de ter
um futuro.
"Esse
negócio de escola é bom porque ajuda a
subir na vida"
Júlio
César Peçanha, 11 anos
Com
reportagem de Leonardo Coutinho, de Belo Horizonte
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