Infância
perdida
Milhares
de meninas são traficadas todos
os anos para prostíbulos na Índia
Encravado entre a Índia e a China, o Nepal é um
país mito para os estrangeiros. Abriga o Monte Everest
e Lumbini, a cidade onde nasceu Buda. Multidões de
alpinistas, místicos e mochileiros deslumbram-se
com as altitudes nepalesas. Beleza e espiritualidade, contudo,
estão em falta na vida de muitas crianças
do Nepal. Milhares vivem nas ruas ou trabalham desde cedo
na tradicional indústria de tapetes. A situação
das meninas nepalesas, em particular, não poderia
ser pior. Todos os anos, de 5.000 a 7.000 garotas, na maioria
adolescentes, mas às vezes ainda na infância,
são levadas a se prostituir na Índia. Iludidas
por falsas promessas de trabalho e casamento, ou simplesmente
vendidas pela própria família, elas caem nas
redes de tráfico. A sordidez quase indescritível
da vida nos bordéis indianos na maior parte dos casos
destrói para sempre qualquer perspectiva de futuro.
Como de hábito, a miséria compõe o
cenário desse destino trágico. O Nepal tem
renda per capita de 200 dólares por ano (menor que
a de Angola, com sua interminável guerra civil) e
índice de analfabetismo de 72,5%. Sob os rigores
de formas arcaicas do hinduísmo, a religião
majoritária, as mulheres nepalesas não têm
direito a herança e são obrigadas, quando
muito, a contentar-se com casamentos arranjados. Na Índia,
desfrutam uma perversa valorização: suas belas
feições mongólicas fazem delas mercadoria
atraente para os freqüentadores de prostíbulos.
A pouca idade também contribui nesses tempos de Aids.
Como não há controle de passaporte na longa
fronteira entre os dois países, as garotas são
escravizadas facilmente, passando-se por mulheres ou irmãs
de seus algozes. As tentativas de resistência são
silenciadas com torturas e ameaças de morte. As leis
do Nepal prevêem até vinte anos de cadeia
para os exploradores do comércio sexual, mas são
raras as condenações. A maioria das garotas
só consegue escapar da prostituição
quando envelhece ou adoece, principalmente de Aids, que
afeta 65% das prostitutas de Bombaim, a maior cidade indiana.
O pouco apoio recebido vem de alguns abnegados. No ano passado,
em visita ao país, o príncipe Charles chamou
a atenção para a causa ao doar 120 000 dólares
à Maiti Nepal (Família Nepal, em tradução
livre), uma das organizações dedicadas ao
acolhimento das vítimas da exploração
sexual e à prevenção ao tráfico.
Sua diretora, Anuradha Koirala, conhece de perto a sina
das mulheres nepalesas. Casou-se com um membro de uma casta
superior à sua, mas acabou rejeitada pela família
do marido e abandonada com um filho pequeno. Seu trabalho
começou com o atendimento médico e psicológico
a prostitutas na periferia de Katmandu. Hoje, a Maiti Nepal
atua também na fronteira, tentando interceptar o
tráfico humano, além de assistir as meninas
na identificação dos criminosos. É pouco
mas tudo com que as garotas nepalesas podem contar.