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Mais do que
sem terra.
Sem chance
O
modelo de distribuição que o MST
advoga e o governo segue tem tudo
para falhar. Ele corre contra a História
Eles reapareceram na segunda-feira da semana passada tomando prédios
públicos em seis capitais, fazendo manifestações
noutras quatro praças e denunciando o governo por não cumprir
o cronograma de desapropriações, assentamentos e liberações
de verbas combinado anteriormente. No dia seguinte, também ressurgiram
diante da porteira da fazenda do presidente Fernando Henrique Cardoso,
em Buritis, no interior de Minas Gerais, onde se tornariam personagens
da confusão entre o governador Itamar Franco e o Palácio
do Planalto. Depois de chamar a atenção para sua causa de
sempre, foram saindo do noticiário. Mas o problema dos sem-terra
continua exatamente do mesmo tamanho.
O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra diz que há 70 000 famílias
acampadas Brasil afora sob sua liderança, esperando por um lote
com área média de 20 hectares. Mais 30.000 famílias
aguardam lotes em outros acampamentos e, pelo cálculo do economista
José Graziano, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
outras 900.000 se encaixam nos critérios de beneficiáveis
pelo trabalho do Incra. Matematicamente, portanto, considerando o ritmo
de assentamentos promovidos pelo governo Fernando Henrique, seria de esperar
que os sem-terra estivessem desaparecendo lentamente da paisagem, integrando-se
à economia, como aconteceu em todos os países que adotaram
a reforma agrária em algum momento de sua História para
reorganizar a propriedade no campo. Mas sobram indícios de que
o processo de assentamentos veio tarde demais no Brasil e não atende
exatamente quem tem competência para se beneficiar dele.
A reforma agrária brasileira, cujo modelo atual funciona há
mais de vinte anos com velocidade variável de assentamentos (veja
quadro), tem sido usada em grande parte para mandar, ou devolver para
o campo, desempregados urbanos e legiões de excluídos da
atividade rural pelos processos de modernização da agricultura.
Uma pesquisa realizada pelo instituto Vox Populi em 1996 detectou vários
sinais dessa situação. De um lado, encontrou-se entre os
assentados gente com profissões anteriores, como alfaiate, professor
primário, militar, encanador e bancário sem nenhuma
intimidade com a terra. De outro, constatou-se que 67% dos entrevistados
tinham mais de 40 anos de idade, ultrapassando, portanto, aquele limite
que costuma ser considerado um marco perverso da exclusão do emprego
braçal. Por fim, 91% dos assentados pesquisados declararam ter
sido, anteriormente, arrendatários, donos, meeiros ou parceiros
na exploração de atividade agrícola. Ou seja, com
altíssima probabilidade de terem fracassado antes na condução
de empreendimentos rurais.
Há outros sinais concretos de que a reforma agrária brasileira
funciona equivocadamente. Apenas um quinto dos que recebem terra
consegue gerar renda suficiente para se manter no campo, informa
o pesquisador Eliseu Roberto Alves, ex-presidente da Empresa Brasileira
de Pesquisa Agropecuária. Os outros abandonam a terra num
período máximo de dez anos. O fenômeno do esvaziamento
populacional no campo, aliás, é absolutamente natural
e faz parte da História da maioria dos países desenvolvidos
neste século. Nos Estados Unidos, resta apenas 1,5% da população
trabalhando no campo. Na França, há 6%, mas isso custa bastante
em termos de subsídios. No caso do Brasil, a massa que vai sendo
derrotada pela tecnologia ganha o rótulo de excluída e acaba
abastecendo iniciativas que parecem exigir que o planeta gire ao contrário.
Na Campanha da Fraternidade do ano passado, por exemplo, a Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil produziu um documento sugerindo que o Estado
procure criar empregos evitando os recursos tecnológicos que excluam
mão-de-obra e aumentem a produtividade. Em outras palavras, a CNBB
sugere que se evite a modernização do campo em nome da manutenção
de postos de trabalho. Com toda a boa vontade que se possa ter pela santa
intenção dos prelados católicos, esse caminho anacrônico
nunca produziu os resultados esperados. Sempre que surgem inovações
tecnológicas, muitos empregos desaparecem, outros tantos são
criados e o padrão salarial inevitavelmente cresce. O MST, por
seu lado, é ainda mais explícito. Não
adianta querer implantar modelos que funcionam nos EUA e na Europa,
prega o líder do movimento, João Pedro Stedile, argumentando
que o eventual sucesso dos outros países na política agrícola
se baseia num ciclo de exploração internacional. Na prática,
isso significaria condenar os 20% da população brasileira
que ainda vivem no campo ao trabalho para a subsistência. Como a
distribuição dessa gente é desigual no país,
com 52% de população rural no Nordeste e 24% no Sudeste,
outro efeito seria o congelamento da desigualdade regional.
Se há uma vantagem no modelo atual, ela é do MST, que
continua vendo crescer o número de cabeças disponíveis
para seguir discursos inflamados como os do líder José Rainha,
comandante de uma das marchas da semana passada. Se voltarmos dessa
joça sem terra, vamos incendiar os latifúndios, prometia
ele na região paulista chamada de Pontal do Paranapanema. Já
há denúncias também de que o movimento ou alguns
de seus integrantes se beneficiam de algo mais do que discípulos
nesse processo de reforma agrária. Uma auditoria da Secretaria
Federal de Controle, do Ministério da Fazenda, coletou indícios
de que há um pedágio de 3% sendo cobrado de agricultores
que precisam de financiamento em assentamentos administrados pelo MST
no Paraná.
Em contrapartida às dificuldades nos projetos de reforma agrária,
existe no Brasil o sucesso do modelo de cooperativas de pequenos proprietários.
Em alguns casos, as cooperativas respondem por mais de 30% da produção
nacional de determinada cultura (veja quadro). O problema é que,
para ligar uma coisa com a outra, se depende da familiaridade e da aptidão
do assentado para o trabalho na terra, habilidades pouco comuns entre
os integrantes das fileiras do MST.
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