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Teatro agrário

Governo e Movimento dos Sem-Terra se reúnem
num encontro de mentirinha em Brasília

Alexandre Secco

Interpretar como um armistício o encontro do governo com os integrantes do Movimento dos Sem- Terra, ocorrido na última segunda, pode ser um erro. Se fosse uma rendição, o MST teria comparecido à reunião com sua seleção de ouro, mas apareceu em Brasília desfalcado de seus principais líderes. O grande mestre, João Pedro Stedile, estava ausente. Seu braço direito, José Rainha Júnior, também. Se se tratasse de uma trégua, o governo não estaria reforçando as auditorias nas cinqüenta cooperativas administradas pelo MST. Elas movimentam cerca de 400 milhões de reais por ano e suspeita-se que parte do dinheiro que deveria estar sendo usado para fazer melhorias nos assentamentos está desviada para financiar ações políticas do MST. Na semana passada, os primeiros relatórios que chegaram ao gabinete do ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, apontavam para indícios de irregularidades pesadas. Outra indicação de que as conversações contêm ingredientes teatrais está contida no pacote de apoio à reforma agrária oferecido ao MST. No governo, ninguém era capaz de explicar exatamente de onde o governo iria tirar os 2,1 bilhões de reais prometidos aos sem-terra. Desse montante, apenas 45% são recursos adicionais para o programa de reforma agrária, isto é, que foram realocados de outros ministérios. O resto dependerá de remanejamentos e operações que ainda não foram detalhadas.

Para desfazer a impressão de que a reunião não tem grande utilidade prática, um assessor do Palácio do Planalto informa que, ao abrir o gabinete aos militantes da organização mais radical do país, o presidente buscava reverter a imagem de intransigência criada em abril deste ano. Naquela ocasião, uma grande onda de invasão provocou a ocupação de 79 fazendas e prédios públicos em quinze capitais. As pesquisas mostram que a opinião pública reprovou a ação do MST, mas também não ficou satisfeita com o governo, que se teria mostrado violento demais durante as desocupações. O encontro também visava agradar à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que sugeriu a reunião. A única exigência do presidente era que a reunião se desse fora de um período de invasões.

A prova final de que a relação entre os dois lados não tende a melhorar foi dada ainda durante a audiência. Um grupo de sem-terra ameaçou invadir a fazenda em Buritis, de propriedade de FHC. O Planalto enviou carros blindados e 320 homens do Exército e da Polícia Federal para proteger a fazenda. Em clima de negociação, Brasília avisou que estava disposta a aumentar os repasses de verbas para as famílias assentadas na região da fazenda em Buritis e prometeu estudar a compra de uma fazenda para assentar 67 famílias acampadas. Os sem-terra acabaram deixando o local. Como saldo final do encontro, fica uma troca de acusações ocorrida entre generais dos dois exércitos. José Rainha declarou que o plano do governo era enganoso, porque Brasília anuncia o dinheiro, mas não faz a liberação dos recursos. O ministro Jungmann contra-atacou: “Eu não tenho ilusão alguma de que eles vão mudar a sua prática. Afinal, eles não reconhecem o Estado como uma instituição a ser respeitada”.

A reunião acabou sendo realizada num momento mais fraco do MST em muitos anos. Embora a cúpula do movimento esteja cheia de projetos (planeja uma manifestação conjunta com a Central Única dos Trabalhadores, no próximo dia 25 de julho), os números mostram que eles podem estar ficando sem gás. Um relatório concluído na semana passada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) lista as invasões ocorridas nos últimos anos. No primeiro semestre deste ano foram invadidas, em média, 28 fazendas por mês. É o menor número de invasões desde 1996, quando passaram a ser registradas oficialmente. Em Brasília, integrantes do governo já apostam que os excessos cometidos pelo movimento, que culminaram nas invasões de abril, quebraram um pouco do encanto da sociedade em relação aos sem-terra.

Com base nesse diagnóstico o governo despejou sobre o movimento uma série de medidas radicais, que estavam guardadas na gaveta. Pelos cálculos do governo, a diminuição no número de invasões se deve à aprovação da lei que suspende por até quatro anos a vistoria para fins de reforma agrária de terras invadidas. Outra medida que está colocando os sem-terra contra a parede é o plano de auditoria nas cooperativas administradas pelo MST. Administrador de uma dessas cooperativas, José Rainha criticou o plano de auditorias e ameaçou colocar milhares de trabalhadores na rua se o governo não interromper as fiscalizações. Só resta saber se, por essa lógica, os empresários e os banqueiros ficam autorizados a fazer o mesmo quando receberem a visita da Receita Federal.


FHC no abismo das pesquisas

Ao fazer uma avaliação sobre o país, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou recentemente que o Brasil está indo de “mal a menos mal”. Já se sabe qual é a nova avaliação que a população está fazendo de seu governo: vai de mal a um pouco pior. É o que revela a última pesquisa conduzida pelo Instituto Vox Populi. Em março, só 16% dos entrevistados avaliaram positivamente o governo FHC. Na última pesquisa, o índice caiu para 13%. Os números são lastimáveis para o governo, mas entre os assessores do Planalto há a convicção estabelecida de que, com o reaquecimento da economia, a imagem do presidente volta a melhorar. Até porque pior dificilmente vai ficar.

O que torna sua situação menos dramática é que as pesquisas são instrumentos de trabalho repletos de nuances. As impressões das pessoas nem sempre coincidem com os dados. No mesmo levantamento, o Vox Populi pediu aos entrevistados que atribuíssem notas de zero a 10 a seis áreas de atuação do governo. O combate à inflação recebeu a segunda pior nota: 3,43. Das frentes de atuação do governo, o controle da inflação é aquela na qual universalmente se concorda que o sucesso foi absoluto. Na semana passada, a Fipe divulgou que São Paulo teve no primeiro semestre a menor taxa de inflação desde 1939.

 

 
 
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