|
Sem
terra e sem lei
Em
sua maior ofensiva, o Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra invade prédios públicos em
quinze
capitais e um militante é morto pela polícia
Eduardo
Oinegue
Com reportagem de Adriana Setti, Alexandre Secco, Rodrigo
Vergara e Daniela Camargos,
de Salvador, Janaína de Graf, de Curitiba, e Sandra
Brasil, de Brasília
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra concretizou
na semana passada sua ação mais espetacular
desde que foi criado, há quinze anos. Numa operação
relâmpago e inédita, cerca de 5.000 sem-terra
ocuparam prédios públicos em catorze capitais.
Outros 25.000 realizaram invasões pelo interior e passeatas.
Em três lugares, foram atacadas sedes regionais do Incra,
o órgão do governo federal encarregado da reforma
agrária. Em onze, o MST escolheu escritórios
do Ministério da Fazenda. Agora vamos pegar o
Malan, disse Gilmar Mauro, líder do movimento,
referindo-se ao ministro da Fazenda. E completou: A
vontade do nosso povo é pegar a foice e descer
o cacete.
A má distribuição de terra no Brasil
tem razões históricas, e a luta pela reforma
agrária envolve aspectos econômicos, políticos
e sociais. A questão fundiária atinge os interesses
de um quarto da população brasileira que tira
seu sustento do campo, entre grandes e pequenos agricultores,
pecuaristas, trabalhadores rurais e os sem-terra. Montar uma
nova estrutura fundiária que seja socialmente justa
e economicamente viável é dos maiores desafios
do Brasil. Na opinião de alguns estudiosos, a questão
agrária está para a República assim como
a escravidão estava para a Monarquia. De certa forma,
o país se libertou quando tornou livre os escravos.
Quando não precisar mais discutir a propriedade da
terra, terá alcançado nova libertação.
A reforma agrária saiu da agenda dos países
há mais de vinte anos. Ou já tinha sido feita,
ou não fazia mais sentido como fator de desenvolvimento.
Até a década de 60, distribuir terras garantia
um aumento na produção agrícola dos países.
Depois, com o aumento da produtividade, garantiu-se o abastecimento
não pela repartição da terra, e sim pelo
uso da tecnologia. A necessidade de mão-de-obra no
setor vem caindo, aumentando diretamente a legião dos
sem-terra. O Brasil tinha mais da metade de sua força
de trabalho no campo até a década de 60.
Hoje tem 23%. A Europa mantém aproximadamente 6% de
sua população trabalhando no meio rural e, nos
Estados Unidos, a porcentagem cai para 2%. De um ponto de
vista estritamente agrícola, portanto, a reforma agrária
não tem mais nenhuma razão de ser. No Brasil,
ela se transformou numa questão diferente: pode evitar
que as metrópoles sejam inchadas por desempregados
do campo e também funciona na esfera da justiça
social ao conceder terra a quem precisa dela para tirar o
sustento da família. Isso na teoria.
Na prática, quem observa a trajetória do MST
verifica que, pouco a pouco, ele modifica sua visão
a respeito desses objetivos. Numa palavra, o MST não
quer mais terra. O movimento quer toda a terra, quer tomar
o poder no país por meio da revolução
e, feito isso, implantar por aqui um socialismo tardio, onze
anos depois da queda do Muro de Berlim, num momento em que
Cuba e Coréia do Norte são praticamente o que
resta de modelos a imitar nessa área. É o
próprio MST que diz isso. Sem constrangimento algum.
Num primeiro momento, o inimigo declarado do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem-Terra era o latifúndio improdutivo
não por ser latifúndio, mas por ser improdutivo.
Quando, por descuido, se comprovava que a propriedade era
produtiva, ao contrário do que se imaginava antes da
invasão, os sem-terra saíam para evitar confusão.
Com o tempo, o movimento passou a atacar latifúndios
produtivos não importava que fossem produtivos,
bastava que fossem latifúndios. Nessas operações,
registraram-se diversas ocorrências de roubo e venda
de grãos estocados, depredação de tratores
e sedes de propriedade e até mesmo um caso em
que a fazenda foi incendiada. Em uma terceira fase, o MST
deixou a área rural, mas permaneceu nas pequenas cidades
do interior. Organizou saques a supermercados, invadiu delegacia
de polícia para libertar companheiros presos e ocupou
agências bancárias como forma de protesto contra
as altas taxas de juro. Chegou a encenar uma ação
de grande visibilidade, ao organizar uma marcha nacional sobre
Brasília há três anos. Na semana passada,
os liderados de João Pedro Stedile, chefe máximo
do MST, estavam na quarta fase de sua escalada: atuavam nas
grandes capitais do país.
Os sem-terra entraram nos prédios públicos na
terça-feira e até quinta-feira insistiam
em só sair depois que uma comissão fosse recebida
diretamente por Pedro Malan ou pelo ministro-chefe da Casa
Civil, Pedro Parente. Queriam distância do ministro
do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, interlocutor
apropriado para tratar do assunto. Não adianta
negociar com o Jungmann porque ele não teve prestígio
para melhorar o orçamento da reforma agrária,
afirma outro coordenador nacional do MST, Jaime Amorim, de
Pernambuco. Uma das principais reivindicações
dos sem-terra é quadruplicar o orçamento
anual do Incra, que hoje dispõe de 1,2 bilhão
de reais para fazer reforma agrária. Tal era o empenho
do MST em enfatizar suas reivindicações que
seus integrantes não hesitaram em violar o Código
Penal em vários artigos. Invadiram repartições
públicas, impedindo-as de funcionar. Mantiveram servidores
do Estado em cárcere privado. Danificaram bens públicos
e propriedades particulares. E tudo isso sem a menor sensação
de que cometiam crimes. Como considera ilegítimo o
Estado, o MST desconsidera suas leis.
Com exceção dos governadores de São Paulo,
Mário Covas, e do Paraná, Jaime Lerner, os responsáveis
pelo comando das polícias nada fizeram para conter
a baderna. Descumprindo uma ordem judicial, Itamar Franco,
de Minas Gerais, declarou que não colocaria sua polícia
para tirar os sem-terra do edifício do Ministério
da Fazenda, em Belo Horizonte. O governador Dante de Oliveira,
de Mato Grosso, consultado por Brasília, respondeu
que deveriam ser esgotadas todas as chances de negociação
antes do uso da força contra manifestantes que tomaram
de assalto o prédio do Ministério da Fazenda
na cidade de Cuiabá. Em São Paulo, a tropa de
choque fez a desocupação e prendeu quinze manifestantes
minutos depois que as portas de aço do Ministério
da Fazenda foram arrombadas. No Paraná, o governo mandou
800 policiais conter o avanço de quarenta ônibus
que levavam sem-terra para um protesto em Curitiba. Houve
muita confusão, mais de cinqüenta feridos de lado
a lado e uma tragédia, a morte do sem-terra Antônio
Tavares Pereira, 38 anos, casado, cinco filhos, que foi atingido
durante um confronto com policiais numa estrada de acesso
à capital. Diante desse episódio, o presidente
Fernando Henrique Cardoso fez uma de suas manifestações
mais ríspidas em relação ao MST: A
morte do lavrador deve servir de alerta para os que optam
pelo desrespeito à democracia, disse. Numa reunião
de emergência, FHC baixou uma lista de medidas que já
vem sendo chamada de pacote anti-MST.
Uma das medidas é transferir à Polícia
Federal a responsabilidade de zelar pela segurança
dos prédios da União. É um desafio
e tanto, já que a PF tem um quadro reduzido de agentes.
Outra medida do pacote visa conter a onda de invasão
de terras produtivas. A partir de agora, se uma fazenda for
invadida, o governo a retirará da lista de terras passíveis
de reforma agrária por dois anos. Se a fazenda sofrer
uma segunda invasão, o que é freqüente,
as terras ficarão fora do programa por quatro anos.
Como forma de envolver os governadores, FHC assinou um projeto
de lei descentralizando o programa de reforma agrária,
que agora pode ser feito também nos Estados. O
Brasil cansou da falta de respeito à liberdade, da
transformação da liberdade de uns no constrangimento
de outros. O Brasil e o presidente não vão mais
admitir que funcionários públicos sejam reféns
de gente que faz baderna em nome de uma causa que em si é justa,
disse o presidente durante solenidade no Planalto. O pacote
foi acompanhado do anúncio, feito por Brasília,
de que empregaria toda a força necessária para
a desocupação dos prédios públicos
inclusive o Exército, se fosse preciso.
O governo demorou muito tempo para resolver que as invasões
promovidas pelos sem-terra em prédios públicos,
algumas com quebradeira, exigiam reação severa
das autoridades. Na semana passada, o Palácio do Planalto
dava sinais de ter descoberto subitamente que não dá
para negociar com o MST. A verdade é que o governo,
receando a acusação de insensibilidade social,
tem evitado usar a autoridade contra os integrantes do MST
que burlam as leis do país. Na semana passada, finalmente,
um membro do governo, o secretário-geral da Presidência
Aloysio Nunes Ferreira, apresentou com clareza as razões
pelas quais as desordens dos sem-terra deveriam ser enfrentadas
com o vigor necessário. Segundo Nunes, os membros do
MST estão atuando de modo criminoso contra a democracia
vigente no país logo, a autoridade não
pode tolerar que continuem na trilha do desafio às
instituições. Diante da pressão, as lideranças
dos sem-terra decidiram orientar seus comandados a desocupar
as instalações do governo.
Durante toda a semana, agentes da Secretaria de Assuntos Estratégicos
da Presidência da República repassaram ao gabinete
militar relatos de que os sem-terra têm planos para
invadir a fazenda de propriedade do presidente Fernando Henrique
em Buritis. Nossa estratégia é de
avanço e crescimento, afirma Gilberto Portes,
coordenador do MST. Entre as diversas ações
do MST, a mais tensa foi em Brasília, onde 400 manifestantes
ocuparam a sede do Incra. A Justiça concedeu o mandado
de reintegração de posse solicitado pelo governo,
mas os sem-terra fizeram um cordão de isolamento para
que o documento não fosse entregue às lideranças
do movimento pelo oficial de Justiça. Um dos coordenadores
da invasão, Jairo Amorim Sol, deu entrevistas informando
que os sem-terra haviam preparado vários coquetéis
Molotov, aquela bomba incendiária feita com gasolina.
Seriam usados, disse Sol, caso os policiais tentassem entrar
no prédio. Preparando-se para uma eventual ação
da polícia, os manifestantes levaram pneus e pedras
ao teto do edifício. Vamos tentar resistir aqui
fora e depois vamos jogar coquetel Molotov e fazer barricadas
dentro do prédio do Incra, disse Sol.
Depois de receber 22 milhões de hectares de terra,
área equivalente a cinco Dinamarcas, o MST acrescentou
um item novo ao seu tradicional discurso. Agora, a tônica
das reivindicações dos sem-terra deixou de ser
a distribuição de terras e passou a ser distribuição
de dinheiro público daí a invasão
dos prédios do Ministério da Fazenda e da sede
do BNDES, no Rio de Janeiro. A pauta completa de pedidos feita
pelo MST ao governo tem cinqüenta itens e cobra medidas
que dizem respeito à diminuição das taxas
de juros, concessão de créditos especiais e
financiamentos para a construção de casas. É uma
lista que conduz a uma observação intrigante.
O MST procura sempre desmentir os dados do governo segundo
os quais o Brasil fez um dos maiores programas de reforma
agrária do planeta. Então, se os sem-terra acham
que o problema continua sendo a distribuição
de lotes, por que agora pedem dinheiro? Afinal, só
precisa de crédito rural quem tem terra para plantar.
Em fevereiro, o professor José de Souza Martins,
da Universidade de São Paulo (USP), uma das maiores
autoridades mundiais em sociologia agrária, redigiu
um artigo no qual mostra que o país está mergulhado
nesse debate porque, ao longo da história, evitou discutir
de verdade a chamada questão agrária nas várias
oportunidades que teve. No trabalho, publicado na Revista
de Sociologia da USP, o professor apresenta as razões
para que isso tenha ocorrido. Algumas delas:
A reforma agrária deveria ser um debate histórico,
não ideológico. Mesmo nos meios acadêmicos,
intérpretes tardios, desinformados e estranhos ao tema
e à área lançam-se no que chamam de sociologia
militante, misturam ciência e ideologia, marxismo
panfletário, senso comum e descabidas raivas pessoais,
escreve o professor.
Os líderes do MST são de classe média
e partidarizam a discussão. Por essa razão,
segundo o professor, eles possuem uma visão do
processo histórico que é própria
dos setores militantes e radicais dessa classe e não
do campesinato. Esperam com isso legitimar o pleito da reforma
agrária e o resultado acaba sendo exatamente o oposto.
A esquerda não queria a reforma agrária.
Os partidos de esquerda acreditavam que a revolução
no campo ocorreria se os trabalhadores rurais fossem beneficiados
com os direitos trabalhistas existentes nas cidades. Portanto,
a esquerda tradicional jamais se movimentou para promover
a distribuição de terra, que geraria uma legião
de pequenos proprietários. Trabalhadores rurais poderiam
manter acesa a chama revolucionária. Pequenos proprietários
poderiam apagá-la de vez.
O governo sustenta uma luta tola com o MST pelos números
da reforma agrária. A reforma agrária
é um tema que se propõe em termos qualitativos,
não em termos quantitativos. Não é o
número de desapropriados ou o número de assentamentos
em terras desapropriadas ou compradas que definem o perfil
da reforma agrária brasileira, sua justeza ou não.
As divisões de informação da Polícia
Federal e das polícias militares e os agentes da Secretaria
de Assuntos Estratégicos já vasculharam toda
a papelada que puderam encontrar com o carimbo do MST em busca
de indícios de milícias armadas no Movimento
dos Sem-Terra. Nos cursos de formação de militantes,
em que o discurso é bastante radical e se fala
abertamente em revolução, não existe
registro de aulas de tiro ou de manuseio de armas. Nas inúmeras
invasões realizadas pelo MST, as únicas armas
eram foices e pedaços de pau, e havia casos esporádicos
de carabinas calibre 12 e revólveres 38. Até o
momento, não há razão para temer em solo
nacional o repeteco da revolução que virou o
México de cabeça para baixo na segunda década
do século XX e deixou um saldo de 1 milhão de
mortos. À frente de um exército de camponeses,
Emiliano Zapata distribuiu terras na marra e acabou assassinado.
Vinte anos depois, o México entregou 70 milhões
de hectares a 3 milhões de lavradores, uma das maiores
reformas agrárias do planeta.
Não se sabe ao certo quais são os limites do
MST, mas na contabilidade das vítimas são eles
os que morrem, não os que matam, como aconteceu na
semana passada com Antônio Tavares Pereira, próximo
a Curitiba, e no massacre de Eldorado dos Carajás,
no Pará, em 1996, no qual dezenove sem-terra foram
assassinados pela PM do governador Almir Gabriel. É bom
que os governadores estejam atentos. As polícias militares
preocupam-se em combater bandidos, não arruaceiros.
Quando um grupo de militantes do MST aparece e fecha uma estrada
ou ocupa um edifício, a solução é delicada.
Nos Estados Unidos, em caso de grandes concentrações,
a polícia tem divisões especialmente treinadas
e vestidas com uma roupa que lembra o filme Robocop. Nada
parecido com o que se usa nos confrontos no Brasil. Quando
um policial sem treino para a dispersão de multidões
aparece vestido com sua farda cáqui e um revólver
38 na cintura, o final da história é sempre
uma incógnita. É grande o risco de acabar
em tragédia.
Em muitos países, grupos organizados fazem proselitismo
da tomada do poder por quaisquer meios e isso costuma ser
aceito com normalidade quando se trata de pregação
de idéias. Ken Livingstone, o novo prefeito de Londres,
chamado Ken, o Vermelho, foi eleito na semana passada com
os votos dos partidos marxistas ingleses. Um dos bordões
mais repetidos de Ken é o de que o capitalismo
matou mais gente que Hitler. França, Alemanha,
Áustria, Itália e outros países europeus
têm minorias intolerantes, extremistas de esquerda e
de direita que fazem passeatas e elegem deputados. Até nos
Estados Unidos sobrevive um partido esquerdista revolucionário
que denuncia livremente pelas ruas as iniqüidades do
capitalismo e propõe a implantação do
comunismo na democracia mais poderosa do mundo. O problema
com o MST é que seus militantes cruzaram a linha
da pregação ideológica para a prática
da desordem pública. E isso não é tolerado
passivamente em nenhuma democracia digna desse nome.
Há duas interpretações conflitantes para
as novas práticas do MST. Uma é a do grande-chefe,
João Pedro Stedile. Nossas ações
são a única forma de chamar a atenção
para a política social que empobrece o país,
justifica. Pós-graduado em economia no México,
Stedile aprecia textos de Lênin, Karl Marx e Mao Tsé-tung,
o trio de pensadores comunistas com que se identifica. Em
sua opinião, as ações radicais e a indisposição
ao diálogo são a forma adequada de apresentar
à sociedade em geral, não apenas aos sem-terra,
as mazelas provocadas pelo governo. Cria-se assim um mundo
em que o MST desempenha o papel do Bem, num cenário
maniqueísta em que o governo FHC é o Mal.
É essa divisão radical da sociedade que
dá à luta pela reforma agrária uma característica
de guerra santa. E, como toda guerra santa, é uma
guerra sem alternativas, sem saídas políticas,
escreve o professor José de Souza Martins, da
USP.
Outra interpretação para essa nova fase de atuação
do MST é de Raul Jungmann, o ministro do Desenvolvimento
Agrário. Para ele, o movimento está passando
por um processo de divisão, não em alas que
competem entre si, mas em duas camadas, a base e a cúpula.
O sem-terra padrão que se alista nas fileiras do MST
é uma pessoa sem perspectiva profissional alguma
e sem nenhum instinto missionário. Entre os 1.000 manifestantes
que na semana passada protestaram nas ruas de Salvador, a
maioria é gente que vive de bicos nos centros
urbanos. Não são propriamente militantes, mas
serventes de pedreiro, balconistas e diaristas em casas de
família. O que desejam essas pessoas? Quero um
pedaço de terra para o meu pai, que trabalha numa fazenda,
diz a baiana Katia Moraes, 19 anos. Para eles, ingressar no
MST representa quase sempre uma melhoria de padrão
de vida. O acampado recebe um lugar para morar, ainda que
sob uma lona, e ganha três refeições quentes
por dia. Diferentemente do que acontece na periferia dos grandes
centros, no acampamento o alistado tem segurança, já
que as regras são extremamente rígidas quanto
a bebedeiras e assaltos. E ainda tem direito a estudo e assistência
médica, pois o que não falta são voluntários
para prestar esses serviços. A vida nos acampamentos
e a mobilização são financiadas por convênios
com organizações estrangeiras, no valor de meio
milhão de dólares por ano, além de uma
taxa cobrada sobre a receita dos assentamentos. O entusiasmo
inicial dos sem-terra muda quando eles ganham um lote. Nessa
nova situação, costumam esquecer os ideais sagrados
que os líderes do movimento cultuam.
Como esse distanciamento é cada vez mais
evidente, a cúpula do MST está com dificuldade
para manter sua força apenas com a agitação
no campo. Por isso mudou de tática, diz Jungmann.
Esse fosso entre a base e a cúpula está previsto
nas cartilhas do MST. Uma delas, usada para o treinamento
de militantes, diz o que deve ser feito nesses casos: Os
dirigentes possuem um sonho revolucionário que é construir
sobre os escombros do capitalismo uma sociedade socialista.
Muitas vezes as aspirações dos dirigentes não
são as mesmas da massa. Nesse caso é preciso
desenvolver um trabalho ideológico para fazer com que
as aspirações da massa adquiram caráter
político e revolucionário. Vê-se
claramente que o distanciamento entre base e cúpula
conduz a uma estranha realidade. Os pobres que seguem a bandeira
vermelha do MST querem de fato um pedaço de chão,
mas as lideranças do movimento têm na luta pela
terra apenas um instrumento político. Como acontece
com a terra, o brasileiro humilde que se filia ao MST acaba,
de certa forma, sendo usado também como instrumento
para a realização da utopia dos dirigentes.
|
Meu
nome é Stedile, João Stedile
O agente James Bond, da série 007, tinha licença
para matar. Bond estava autorizado pelo governo de sua
majestade a cometer um crime sem ser punido por isso.
Os integrantes do Movimento dos Sem-Terra, chefiados
por João Pedro Stedile (aqui numa montagem sobre
foto de James Bond), também se sentem autorizados
a cometer crimes durante suas ações porque
as autoridades se constrangem em aplicar a lei quando
o infrator carrega uma bandeira do MST. Os crimes do
movimento:
Violação de domicílio: ocorre no
ato da invasão.
Pena: até dois anos de prisão
Dano: é praticado quando, durante a invasão,
os sem-terra destroem bens públicos ou dos fazendeiros.
Pena: até três anos de prisão
Formação de quadrilha: acontece quando
um grupo se une para praticar um crime. Exemplo: os
sem-terra invadiram e incendiaram uma fazenda em Mato
Grosso do Sul no começo do ano passado.
Pena: até três anos de prisão
Furto: ocorre quando os sem-terra se apropriam dos bens
dos fazendeiros.
Pena: até oito anos de prisão
Corrupção de menores: o Código
Penal prevê punição para quem envolve
menores de 18 anos na prática de um crime.
Pena: até oito anos de prisão
Cárcere privado: nos últimos doze meses,
24 funcionários do governo foram feitos reféns
durante invasões dos sem-terra a prédios
públicos.
Pena: até oito anos de prisão
Lesão corporal: em diversas ocasiões,
os sem-terra e agrediram fazendeiros e seus empregados.
Durante uma invasão no Paraná, um dos
fazendeiros sofreu traumatismo craniano.
Pena: até oito anos de prisão
|
|
A
pregação do MST
O Movimento dos Sem-Terra redigiu uma cartilha para
orientar os cursos de formação de militantes
que ministra regularmente. O quadro reproduz alguns
dos pontos principais do documento
Devemos lutar pela tomada dos bens de produção
Os caminhos a trilhar para a libertação
do proletariado são a reforma agrária
e o socialismo. Para isso são válidas
todas as formas de luta possível, tendo sempre
em mente o poder
Os militantes devem saber combinar táticas
para atacar em diferentes pontos do país
A luta pela terra passou do plano da conquista
econômica para a luta política contra o
Estado e não simplesmente contra o latifundiário
Apenas ocupar a terra para trabalhar é uma
posição já superada que não
se sustentará
Os dirigentes possuem um sonho revolucionário,
que é construir sobre os escombros do capitalismo
uma sociedade socialista
Muitas vezes as aspirações
dos dirigentes não são as mesmas da massa.
Nesse caso, é preciso desenvolver um trabalho
ideológico para fazer com que as aspirações
da massa adquiram caráter político e revolucionário
|
|
Como
o governo deve agir diante dos abusos do MST?
A
resposta de seis dos mais renomados especialistas
É preciso
esgotar as possibilidades de diálogo para evitar
o pior. A partir daí, como ocorreu na semana
passada, o Estado tem a obrigação de fazer
valer a lei e usar a polícia se for preciso.
Reginaldo de Castro, presidente da OAB
Do
ponto de vista jurídico, as invasões reclamam
a utilização de força pelo Estado.
A inimputabilidade dos membros do MST não tem
nenhuma base legal. Fazer justiça com as próprias
mãos é acima de tudo uma atitude
antidemocrática.
Arnaldo Malheiros Filho, advogado criminalista
Essas
pessoas que invadem prédios públicos têm
de ser presas. O MST tem posições pré-revolucionárias
e suas ações não estão sendo
repelidas com a força necessária. Ele
tem direito de se manifestar, não de praticar
crimes.
Celso Bastos, professor de direito constitucional em
São Paulo
O
lado político da questão está sendo
privilegiado em detrimento do aspecto jurídico.
Os membros do MST devem ser tratados como criminosos
comuns e ser responsabilizados por invasões a
prédios públicos ou qualquer outro delito.
Manuel Alceu Affonso Ferreira, jurista, ex-secretário
de Justiça de São Paulo
O
governo é diretamente culpado pelo radicalismo
do MST porque foi incompetente para fazer a reforma
agrária. Agora, está pagando o preço.
É claro que, quando se chega ao ponto que
chegou, a polícia precisa ser acionada.
Saulo Ramos, jurista e ex-ministro da Justiça
O
MST depreda e danifica bens públicos. Isso tem
de ser analisado por inquérito policial. É dever
do Estado. Seria até prevaricação
se não fizesse isso. Mas também devem
ser investigados os abusos praticados pelo Estado, como
a morte de um sem-terra."
Miguel Reale, jurista
|
|