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Turismo
radical
Acampamentos
do MST hospedam estrangeiros
que vêm ao país só para conhecer os sem-terra
Thaís
Oyama
A Rocinha que se cuide. A megafavela carioca, visitada por
estrangeiros como atração turística,
corre o risco de perder freguesia para a mais nova estrela
do turismo social no Brasil: o Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra, MST. Nos últimos dois anos, quase
100 estrangeiros deixaram o conforto de suas casas para hospedar-se
em acampamentos do MST que, como se sabe, não
têm nada de paradisíacos. A secretaria do movimento
no Rio Grande do Sul, Estado onde o MST nasceu, é a
campeã em número de visitantes. De 1998 para
cá, alojou mais de vinte estrangeiros, entre argentinos,
holandeses e alemães. Os acampamentos da Bahia receberam
franceses e ingleses. Os do Maranhão são pólos
de atração para americanos, franceses e espanhóis.
O que faz com que estudantes e profissionais liberais, sem
nenhum vínculo com a organização nem
o perfil militante dos voluntários que vão cortar
cana em Cuba, decidam saquear o próprio bolso, atravessar
oceanos e trechos imensos de estradas deploráveis para
vir dormir debaixo da lona? É gente que, em geral,
tem boas intenções, um difuso sentimento de
solidariedade e curiosidade por um tipo de vida literalmente
de outro mundo. A estudante americana Katherine VanSickle,
24 anos, está há duas semanas no país.
Visita pela terceira vez o assentamento do MST em Vila Diamante,
a 220 quilômetros de São Luís, no Maranhão.
Em 1995, ela fazia compras em Minneapolis, no gelado Estado
americano de Minnesota, quando viu um cartaz convidando universitários
americanos a participar de mutirões em assentamentos
de sem-terra no Brasil. Junto com um grupo de estudantes,
passou dois meses em Vila Diamante, ajudando a levantar o
galpão que hoje sedia as reuniões da comunidade.
Gostou tanto da experiência que, dois anos depois, voltou
por conta própria.
Fiquei apaixonada. Aqui, conheci outro tipo de vida:
uma vida em que existe solidariedade, emociona-se. Kate,
ou Catarina, como a chamam os amigos assentados, desta vez
trouxe também a mãe. As duas estão hospedadas
na vila, na casa de uma das oitenta famílias de assentados.
A construção, de alvenaria, tem seis cômodos
e abriga catorze pessoas. Kate diz não ligar para o
pouco conforto. Com razão. A graça da aventura
está justamente em conviver com legítimos sem-terra,
dormir numa autêntica habitação sem-terra
e desfrutar o verdadeiro cardápio sem-terra
que em Vila Diamante significa arroz, feijão e farinha;
eventualmente peixe e raramente carne. O namorico de Kate
com Rubens do Nascimento, da secretaria regional de Tocantins,
completa o quadro de encantamento sócio-romântico-turístico.
Carne de jacaré A mãe da
estudante, Jane VanSickle, compreende perfeitamente os sentimentos
da filha. Alguns gostam de passar férias nas
praias do México. Kate prefere vir para cá.
Ela, como eu, admira a coragem e a capacidade que essa gente
tem de viver com tão pouco, afirma. Decoradora
de interiores em Minneapolis, Jane passou as últimas
férias na França. Não conhecia o Brasil.
Está adorando: Sinto-me como se tivesse voltado
à época dos desbravadores americanos.
Os principais responsáveis pela divulgação
dos sem-terra no exterior são os comitês de solidariedade
e os grupos de apoio que o MST tem espalhados pelo mundo.
Além de propagandear o movimento, as entidades arrecadam
fundos para enviar ao Brasil. Hoje, respondem por quase 15%
da verba que sustenta a organização. Foi depois
de visitar uma exposição de fotografias sobre
os sem-terra, organizada por um desses comitês, que
o educador espanhol Enrique Cancio, 34 anos, resolveu vir
ao país. Sempre me interessei pelo assunto. Tive
vontade de conhecer essa realidade de perto, explica.
Em agosto, ele reuniu sete amigos um educador, dois
biólogos, três engenheiros especializados em
informática e uma publicitária. Juntos, montaram
um roteiro de três semanas, cujo ponto alto era o assentamento
de Vila Diamante. O grupo visitou a escola da comunidade,
recebeu aulas de reforma agrária, dormiu em redes e
divertiu-se a valer. A assentada Maria José de
Lima, uma das anfitriãs, lembra que, entre os quitutes
da terra, a carne de jacaré agradou particularmente
ao paladar dos espanhóis. Como é praxe
no movimento, ela e o marido, Benedito, não cobraram
nada pela hospedagem do grupo.
O turismo social é um bom negócio para
o MST. Os estrangeiros ajudam a divulgar a causa no exterior
e, volta e meia, ainda deixam uma lembrancinha de lambuja.
Às vezes, uma lembrançona. Katherine, por exemplo,
acaba de doar 3.000 dólares aos assentados do Maranhão.
O dinheiro foi arrecadado por meio das quase 200 cartas com
pedidos de contribuição que ela enviou a parentes
e amigos dos pais ao longo do ano. Vai servir para eles
montarem uma estação de rádio na vila,
festeja ela. Cancio e os amigos prometeram enviar um computador
de Barcelona para ajudar na administração.
Para a coordenadora de Vila Diamante, Maria Goreti de Souza,
a curiosidade dos estrangeiros pelo MST é prova
da importância que o movimento tem, não
só no Brasil mas também no mundo. Mesmo
dentro da organização, porém, há
quem tenha opinião mais pragmática. José Ferreira
de Souza, da direção estadual do movimento,
acha que a nova modalidade de turismo social se deve menos
à admiração dos visitantes estrangeiros
pelo MST do que a um certo tédio existencial que, na
sua opinião, aflige os visitantes do Primeiro Mundo.
Mordomias os gringos já têm demais,
raciocina. Passar férias num hotel cinco-estrelas
para eles não tem graça. Já pensou
o sucesso que vai ser se os agentes turísticos improvisados
resolvem ampliar o leque de atrações, botar
uma pitada de aventura no pacote e levar os gringos para uma
invasão?
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