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Fé,
enxada e chimarrão
Quem
são os religiosos brasileiros
que lutam ao lado do Movimento dos
Sem-Terra pela reforma agrária
Maurício
Lima
Com reportagem de Alexandre Secco
A roda de chimarrão faz parte da paisagem de todo acampamento
de sem-terra, em qualquer lugar do país. É em
torno do chá-mate que se comemora o sucesso de uma
ocupação ou se discute o plantio do feijão
e do milho. Entre uma bicada e outra, também é
comum ouvir uma pregação. Dividir o chimarrão
é uma lição de como se deve dividir tudo
na vida. A terra, o pão, diz o padre Círio
Vandresen, 35 anos, num dos três acampamentos que visita
por semana no interior de Santa Catarina. Não há
grupo de sem-terra que não conte com a supervisão
constante de um padre católico. Vandresen é
o exemplar típico desse exército de religiosos.
Não sou padre só para rezar. Sou padre
para me engajar na luta por justiça. E a coisa mais
importante a ser feita pela Justiça no Brasil é
a reforma agrária, apregoa. Vandresen é
um padre sem paróquia nem residência fixa. Como
coordenador da Comissão da Pastoral da Terra, CPT,
em Santa Catarina, ele e três assessores percorrem o
Estado, dormindo em tendas de lona ou pernoitando em uma paróquia
aqui, noutra acolá. O padre já participou diretamente
de quinze invasões e, em suas andanças, passou
por todos os 293 municípios do Estado.
Não se sabe exatamente quantos padres militam dessa
maneira ao lado do MST. A única contabilidade sobre
o assunto é a da Pastoral da Terra, à qual estão
filiados 700 religiosos. É um grupo, por si só,
mais numeroso no país do que ordens católicas
tradicionais, como a dos dominicanos. Mas calcula-se que o
dobro desse número divida seu tempo entre as atividades
regulares nas paróquias e o apoio aos acampamentos
do MST e de outros movimentos pela reforma agrária.
Não é de se estranhar. O berço do movimento
sem-terra e o de boa parte dos padres é o mesmo
as cidades mais pobres do interior dos Estados do Sul.
Segundo uma pesquisa feita neste ano pelo Centro de Estatística
Religiosa e Investigações Sociais, Ceris, quase
a metade do clero brasileiro veio da Região Sul do
país (veja quadros). Dois terços pertencem a
famílias de classe baixa ou média-baixa. Enquanto
78% da população brasileira vive nos centros
urbanos, 64% do clero tem origem na zona rural. Três
em cada quatro padres nasceram em cidades com menos de 20.000
habitantes. Na secretaria da entidade, dos quatro secretários
executivos, dois vêm do Rio Grande do Sul, um do Paraná
e o outro de Santa Catarina. Padre gaúcho parece
churrascaria. Tem em todo o lugar, diz dom Tomás
Balduino, bispo responsável pela CPT, uma exceção
na cúpula do movimento ele é goiano.
Família no seminário A concentração
de padres sulistas no movimento pela reforma agrária
não é só um dado estatístico e
a análise sobre sua origem não é apenas
uma curiosidade sociológica. O interesse dos padres
da Região Sul pelo Movimento dos Sem-Terra e outros
movimentos ligados à reforma agrária é
um fenômeno que explica em parte a lógica e a
maneira de pensar do próprio MST. O fato de os padres
que apóiam o movimento ser originários de famílias
de imigrantes, conservadoras e profundamente religiosas, estabelecidas
em pequenas propriedades, cria a base para que seus descendentes
de batina sejam refratários a modernizações
e desconfiados em relação aos mecanismos capitalistas
de produção. Esses são alguns fatores
que explicam por que estes religiosos defendem com tanto fervor
o engajamento ideológico do MST.
No sul do país há padres demais porque persiste
um hábito trazido pelos imigrantes europeus no início
do século. Como acontecia no sul da Itália
e na Baviera católica, cada família costuma
mandar pelo menos um dos filhos para o seminário,
explica o filósofo Roberto Romano, da Universidade
Estadual de Campinas, Unicamp, estudioso da história
da Igreja no Brasil. É uma maneira barata de garantir
educação e emprego a pelo menos um dos rebentos.
Com padres demais sendo formados, todos num mesmo caldo de
cultura, é natural que eles se associem aos sem-terra,
com quem concordam em gênero, número e grau.
A família de Vandresen, caçula de onze irmãos,
exemplifica o fenômeno. Suas seis irmãs se tornaram
freiras. Dos quatro irmãos, três cursaram o seminário
(mas não se formaram). Essa contabilidade não
surpreende na pequena cidade de Rio Fortuna, a 196 quilômetros
de Florianópolis, onde ele nasceu. De lá, desde
a II Guerra, saíram 36 padres. Bastante para um município
que possui apenas 2.000 habitantes.
Foi a colonização dos imigrantes que fez com
que ali, no mesmo caldeirão, se misturassem a religiosidade
e os problemas fundiários. Quando chegaram ao Sul,
a partir do final do século passado, os lavradores
europeus receberam glebas de tamanho razoável. De uma
geração para outra, porém, as famílias
muito numerosas tiveram de dividir a terra em
pedaços cada vez menores. Em algumas décadas,
o campo ficou pequeno para tanta gente. Uma das conseqüências
foi a diáspora de agricultores gaúchos, que
partiram para desbravar as fronteiras agrícolas em
todos os cantos do país. Outras foram o acirramento
da luta pela terra e o aumento do desemprego no campo.
Seminários de esquerda Na década
de 60, depois dos ventos liberalizantes do Concílio
Vaticano II, os seminários da região passaram
a receber padres formados no Seminário para a América
Latina, situado em Verona, norte da Itália. Sua influência
foi imensa. Lá, os livros da Teologia da Libertação
(que, no Brasil, eram proibidos pela ditadura) davam a tônica.
Para entender a situação agrária
daqui, líamos Graciliano Ramos e Jorge Amado e assistíamos
aos filmes de Glauber Rocha, explica o padre italiano
Ermanno Allegri, 54 anos, hoje na CPT de Fortaleza. O modo
de pensar desses padres formou toda uma geração
de religiosos brasileiros, que por sua vez se espalharam pelo
país. O bispo Itamar Vian, gaúcho de Roca Sales,
decidiu há quinze anos mudar-se para o Nordeste. Nesse
período, deu auxílio direto e indireto a 550
invasões na região de Feira de Santana, na Bahia.A
terra prometida foi uma ocupação, teoriza
o italiano Allegri.
Nos últimos anos, o papa João Paulo II bombardeou
duramente a Teologia da Libertação, especialmente
onde ela ameaçava corroer os dogmas mais importantes
da Igreja. Mas deixou que a atividade política dos
padres à esquerda subsistisse por um motivo simples.
Para Roma, ela é uma maneira de garantir os fiéis
da zona rural, onde a Igreja Católica ainda tem predominância
tranqüila. A Igreja sabe que, na cidade, é
mais difícil garantir seus fiéis. Há
outras religiões. E também os templos de consumo,
os shopping centers, teoriza a historiadora Zilda Iokoi,
da Universidade de São Paulo, especialista em movimentos
sociais. Manter os fiéis longe desses perigos
também interessa.
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A
origem explica a doutrina
A maioria dos padres que apóiam os sem-terra
vem de famílias de agricultores, principalmente
do Sul, onde há muitos problemas de terra
De onde vêm os padres
Zona rural - 64%
Zona urbana - 36%
Sul - 46%
Sudeste - 36%
Nordeste - 15%
Centro-Oeste - 2,5%
Norte - 0,5%
Fonte: Ceris
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Padre
Círio Vandresen, 35 anos
Onde nasceu: Santa Catarina
Origem: Seu pai era agricultor. É o caçula
de onze filhos
Por que apóia os sem-terra: Achei
que tinha obrigação de aliviar o sofrimento
do meu povo
Pregação: O MST é fundamental
para deter o avanço do neoliberalismo no campo
Bispo Itamar Vian, 58 anos
Onde nasceu: Rio Grande do Sul
Origem: Um dos nove filhos de uma família
de agricultores
Por que apóia os sem-terra: Estou
do lado dos pequenos. Sou contra os grandes latifundiários
Pregação: Sem reforma agrária
não é possível eliminar a miséria |
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Por
que os padres se alinham com o MST
86% acham que entre as funções
da Igreja está defender a reforma agrária
e combater a miséria
80% acham que lutar para resolver os problemas
dos pobres é importante para o crescimento da
própria Igreja
62% acham que a Igreja precisa associar-se mais
profundamente com movimentos sociais, como o MST, o
movimento negro e o movimento operário
Fonte: Ceris
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