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O MST
fatura a fome
Movimento
usa a seca como pretexto
para um espetáculo feito para a mídia
Ernesto
Bernardes e Juliana De Mari
A imagem de multidões famintas avançando sobre
prateleiras de comida é um forte argumento político.
Nas últimas semanas, percebendo esse potencial na situação
do Nordeste seco, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra,
MST, deixou de lado suas atividades regulares - invadir propriedades
rurais e prédios públicos - para deixar o governo
numa posição incômoda perante a opinião
pública. O MST incitou saques a supermercados e seqüestros
de caminhões de alimentos em dezenas de municípios.
A operação de pilhagem, que não se destinava
a alimentar os famintos, mas sim a atrair as câmeras
de televisão, foi bem-sucedida. A opinião pública
ficou chocada com o aparente desespero dos flagelados, o governo
foi afrontado pelas manifestações que não
conseguiu reprimir e o resultado transformou-se em propaganda
para o movimento. O mais espantoso é que, em boa parte
dos casos, não foi necessária sequer a presença
de famintos para conduzir os saques e seqüestros.
A estratégia do MST no Nordeste foi bem detalhada.
Organizou saques simultâneos em quatro Estados. Na terça-feira,
uma das operações desenvolveu-se em Gravatá,
62.000 habitantes, uma estância climática a 80
quilômetros do Recife. Ao contrário da maioria
das atrações turísticas do Nordeste,
Gravatá tem seu trunfo não no sol, mas no frio.
Situada no alto de uma serra, ela tem noites frescas que convidam
a um fondue à beira da lareira. Longe dos rigores da
seca, a cidade tem rios perenes, fica mais perto do litoral
que do sertão e 70% de sua população
é urbana. Para criar a aparência de revolta dos
famintos, os militantes do MST tiveram de montar um teatro.
Um dia antes do saque, percorreram a periferia da cidade convocando
os moradores para uma "distribuição de
cestas básicas", que aconteceria no Sindicato
dos Trabalhadores Rurais. Sugeriu-se que todos levassem sacolas
e caixas de papelão para carregar os alimentos. Os
moradores se prepararam para a festa.
Quando chegaram ao sindicato, no dia seguinte, encontraram
discurso no lugar de comida. Jaime Amorim, um dos diretores
nacionais do MST, incitou os moradores a saquear um dos supermercados
da rede Novo Dia, o maior da cidade. A sugestão foi
votada e aprovada. Quinhentas pessoas marcharam então
para o centro da cidade, já coalhado de fotógrafos
e cinegrafistas. Eles haviam sido avisados com antecedência
pelo próprio MST. "A idéia era fazer um
ato para impressionar o governo", explicaria Amorim,
mais tarde. Na multidão, trabalhadores rurais propriamente
ditos eram apenas cinqüenta, trazidos em caminhonetes
do MST. Quando a polícia chegou para acabar com a pilhagem,
os líderes do movimento foram presos e os manifestantes
fugiram. "O que eu mais dei por falta foi de xampu, sabonete
e uísque", explicou Euclides Pereira Muniz, gerente
do supermercado, ao examinar o estrago nas prateleiras.
Soltos sob fiança, os líderes do MST saíram
do xadrez despachando recados ameaçadores. "A
primeira vez foi só para dar uma idéia. Da próxima
vez, vamos mostrar como se faz um saque de verdade",
ameaçou Eugênio Silva, diretor estadual do movimento.
Os saques acontecem no Nordeste há séculos,
sempre que uma seca começa a tomar dimensões
preocupantes. Na maioria das vezes, irrompem espontaneamente
e são fruto do desespero dos famintos. Mas, nesses
casos, costumam seguir uma ética peculiar que não
é a mesma do MST. O sertanejo prefere saques a armazéns
de prefeituras ou do governo, porque considera que se apossar
da propriedade dos comerciantes é roubo.
É também o que diz a lei. Para justificar-se,
os sem-terra invocam o furto famélico, situação
em que, no estado de absoluta necessidade, se rouba para não
morrer de fome. Nesse caso, não há infração.
"Apoiamos o saque eu, a CNBB, o ministro Pertence e até
o Sergio Motta, lá do inferno", disse João
Pedro Stedile, ideólogo do MST, que nem ao menos respeito
aos mortos demonstrou. Nem aos vivos. O Pertence que ele citou
é o ministro Sepúlveda Pertence, do Supremo
Tribunal Federal, que jamais deu apoio a saques como os organizados
pelo MST. A figura jurídica do furto famélico
aplica-se ao indivíduo que age num momento de desespero,
e não à multidão que participa de um
saque organizado. Nesse caso, há crime punível
com até oito anos de cadeia. "A lei que perdoa
o faminto, uma exceção, não se aplica
a quem está fazendo política", explica
o advogado Arnaldo Malheiros Filho, de São Paulo.
Surgido há treze anos sob a bandeira da reforma agrária,
o MST acostumou-se a mudar de reivindicação
de acordo com a conveniência. O apelo ao saque é
apenas a arma mais recente do grupo em sua estratégia
de expansão. Movimento que corre à margem dos
partidos políticos e da vida institucional brasileira,
o MST é acolhido ideologicamente pela esquerda, mas
costuma ser visto com desconfiança até por correntes
do PT. Como os líderes do movimento consideram ilegítima
a forma como a sociedade democrática se organiza no
Brasil, para eles nada mais legítimo do que cometer
atos ilegais que fragilizem as instituições.
Na semana passada, por exemplo, seqüestraram caminhões
com alimentos e os levaram para acampamentos de sem-terra,
onde a carga desses veículos foi depenada. A isso se
dá o nome de assalto para roubar. O presidente Fernando
Henrique, que na semana passada visitou o Ceará para
ver a situação da seca, anunciou que distribuiria
1 milhão de cestas básicas por mês nas
áreas atingidas. Quanto ao MST, o presidente afirmou
que o governo processaria os responsáveis pela incitação
aos saques.
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O
pizzaiolo no saque
Entre os saqueadores de merenda escolar em Acopiara,
Ceará, a polícia identificou um personagem
que dificilmente poderia ser classificado como faminto:
o pizzaiolo Antônio Genildo Filho, paulista que
estava de férias no sertão. Eu só
fui lá fazer bagunça, desculpou-se.
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