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Lições
da longa marcha descalça
Depois
da caminhada, do protesto
e da festa, chegou a hora da política
A rebeldia é a marca do MST. Os sem-terra não
aguardam quietinhos as decisões da Justiça.
Não fazem lobby para modificar as leis no Congresso.
Não, nada disso. Eles tomam as terras primeiro, conversam
depois. São gente brava, que invade o terreno onde
se funda a ordem capitalista: a propriedade privada. Mas o
final da marcha deles, na quinta-feira, em Brasília,
foi uma maravilha. Pela primeira vez desde as manifestações
pela saída de Fernando Collor, a capital serviu de
palco para uma manifestação, de 40.000 pessoas,
que contava com simpatias generalizadas.
Maiores que eles mesmos, os sem-terra servem de símbolo
para o Brasil pobre e atrasado. A sua marcha, que lentamente
foi chamando a atenção de todo o país,
teve um quê de épico, ecoou as manifestações
de Mahatma Gandhi pela independência da Índia.
É difícil ficar contra eles, mesmo sabendo que
seus métodos políticos têm um cerne antidemocrático.
Afinal, são gente honesta, que quer trabalhar a terra,
educar os filhos. E, com tanta terra sobrando, eles vagam,
como assombrações, desde o tempo de Antonio
Conselheiro. Como antipatizar com uma organização
que leva, para o encontro com o presidente da República,
uma sambista, um cacique com borduna e um bispo de bigode?
Depois de um clamoroso erro de cálculo e de educação
política, de desprezar o poder de mobilização
dos sem-terra, de falar de primitivismo e de utopia
regressiva mesmo quando as pesquisas de opinião
informavam que 80% da população quer a reforma
agrária, o governo sentou-se à mesa para conversar.
Teria sido melhor se, nesse momento, em vez de oratória,
já tivesse medidas concretas para anunciar. Mas já
é um passo. Toda vez que colocam os pés em palácio,
os sem-terra ficam longe das pancadas e dos tiros da polícia.
E é bom que, nem que seja de vez em quando, as realidades
do Brasil pobre e atrasado possam ter vez e voz nos palácios.
Passada a marcha, a manifestação, a festa e
a audiência, resta a pergunta: o que fazer? O que fazer
com eles, os sem-terra, os pobres, os sem-nada? Responder
à pergunta é dizer que Brasil se quer construir.
Agora que foi dado o primeiro passo, está mais fácil
seguir adiante na marcha que realmente interessa: a da resolução
política do problema dos pobres que querem trabalhar
e não têm condições.
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