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A longa marcha

Diante da caminhada dos sem-terra, a pior
escolha é ficar de braços cruzados

A Marcha dos Sem-Terra, depois de dois meses de andanças, chega a Brasília nesta quinta-feira. No passo de 20 quilômetros por dia, os 1.500 marchadores, que saíram de São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais, desfilarão pela Esplanada dos Ministérios. Na era do avião a jato, eles andam a pé. Quando a economia se globaliza, seu ideal é um pedaço de chão com cerca, uma vaca no pasto e uma roça atrás de casa. O mundo caminha no passo da informática e da alta tecnologia, e eles querem trabalhar a terra, enxada na mão. A moçadinha vai de rock, e o hino do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST, canta uma pátria “operária e camponesa”. Representantes de um Brasil arcaico, descalço, dentes ruins, bicho-de-pé e pouco estudo, os sem-terra invadem propriedades, desrespeitam a lei e enfrentam a polícia. Já morreram e mataram nesses conflitos. Parecem um pouco os fanáticos do beato Antonio Conselheiro.

E, no entanto, esses marchadores do atraso são popularíssimos. O Ibope informa que os sem-terra caíram nos braços do povão urbano depois de O Rei do Gado: 83% apóiam a reforma agrária e 40% são a favor até de invasão de fazendas. Para a elite, o fotógrafo Sebastião Salgado, o escritor José Saramago e o compositor Chico Buarque oferecem o livro Terra, em homenagem àqueles que não a têm. Quem circula pelo exterior avisa que acabou a fase da ecologia e do verde — todo mundo quer saber o que o Brasil fará com os sem-terra, a gente massacrada em Corumbiara e Eldorado dos Carajás. A questão dos sem-terra virou um grande problema nacional, apesar de eles serem relativamente poucos. Segundo o MST, há 100.000 pessoas em acampamentos, e o governo os conta em 40.000. Enfezados, os militantes do MST adotam um ideário que casa o sandinismo da Nicarágua com o zapatismo mexicano sob as bênçãos da Teologia da Libertação. Ninguém sabe o que pode sair daí, fora confusão. Mas sua presença em Brasília lembra, com simbolismo e clareza, que os pés-rapados também querem um lugar ao sol. Querem uma reforma agrária que está vindo tarde, já não tem sentido na ordem econômica, é anacrônica e ineficaz. Dois anos depois da posse de Fernando Henrique se assiste ao desmoronamento do movimento sindical, da oposição de esquerda (o PT de Lula) e também de direita (o PPB de Maluf) a seu governo. O que sobrou como oposição foi o MST, sigla que identifica aquilo que na verdade é um partido político organizado pelos velhos métodos do leninismo, com vida clandestina, doutrinação política e centralismo duro. Sem abandonar seus laços com o mundo imenso e miserável de onde saiu, o MST manteve-se como uma organização com vida própria, uma agenda estabelecida de problemas a resolver e objetivos determinados a alcançar. Conforme uma pesquisa feita por VEJA nos acampamentos, as fileiras do MST são formadas, numa maioria de 60%, por agricultores arruinados, mas também por trabalhadores sem perspectiva, servidores desiludidos. O que a cidade lhes oferece é desesperança, desagregação familiar, empregos humilhantes ou desemprego. A alternativa buscada por quem foi parar num acampamento é outra — um pedaço de terra que lhe garanta o sustento.

Antes da abolição da escravatura, em 1888, já se debatia a questão da terra no Brasil. Pouco foi feito para modificar uma situação absurda de concentração de propriedades, desperdício e baixa produtividade. Em nome da herança recebida, não se pode culpar o presidente Fernando Henrique. A questão é saber a herança que o presidente pretende deixar. Fernando Henrique tem horror a conflitos, mas, neste caso, uma decisão terá de ser tomada, pois até cruzar os braços tem conseqüências: optar entre os grandes proprietários que alimentam a multipartidária e ecumênica bancada ruralista do Congresso ou iniciar um processo de mudança na estrutura de propriedade da terra. O risco de nada fazer é conviver com as vagas de sem-terra que invadem e ocupam fazendas pelo Brasil afora.

A reforma agrária é um projeto caríssimo. O Planalto estima que cada assentamento custa 40.000 reais. Sendo assim, a conta para assentar 1 milhão de famílias bate em 40 bilhões. Na reforma agrária também não existe o almoço grátis. Os custos dependem do lugar em que se instalam as famílias, de quanto se gasta com indenizações, de como se paga cada investimento, dos prazos, do retorno em impostos. Mas está difícil achar alternativas mais baratas. As boas empresas do país informam que a criação de um emprego custa, hoje, mais de 50.000 reais. Brasília tem razão quando retira a reforma agrária do plano da caridade para tratá-la como investimento. Pois é disso que se trata, de um projeto que só pode vingar amarrado com propostas de crescimento econômico e distribuição de renda. O Japão, a França, os Estados Unidos e a Alemanha destinam subsídios pesados a seus agricultores, que também são uma gente atrasada pelos padrões locais, que gosta de bloquear estradas e fazer barulho. Esses países já perceberam que o preço de nada fazer é mais alto — na forma de desemprego, na degradação das cidades, na elevação da delinqüência. O atraso está aí. Os sem-terra são sua voz. Há que se fazer algo com eles. Há que se entender o problema. É o que as próximas 21 páginas tentam fazer.

 
 
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