Vontade
radical
Por
trás dos sem-terra, atuam
dirigentes que vivem sem conforto,
cultuam Guevara e Mao Tsé-tung
Angélica
Santa Cruz e Expedito Filho
Em 1978, no ABC paulista, 3 000 operários da montadora
Scania cruzaram os braços, na primeira grande greve
de trabalhadores na fase de agonia do regime de 64. Ninguém
prestou atenção, mas, naquele mesmo ano, apareceram
as primeiras barracas de lona preta pelo interior do Rio Grande
do Sul e Santa Catarina. Eram agricultores arruinados que
começavam a ocupar latifúndios. Dezoito anos
depois, os operários do ABC se transformaram no PT,
legenda que produziu até o candidato a presidente da
República Luís Inácio Lula da Silva.
As famílias acampadas em fazendas lançavam a
semente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o
MST. De lá para cá, o PT se tornou um partido
parlamentar, preocupado em engordar sua bancada no Congresso
e em eleger prefeitos nas capitais. O MST ficou maior e muito
mais forte, mas segue muito parecido com aquilo que era ao
nascer.
Em casa, seus dirigentes recebem as visitas com retratos de
Che Guevara e Mao Tsé-tung em cima do sofá.
Admiramos Guevara porque era um lutador internacionalista,
que nasceu na Argentina, fez a revolução em
Cuba e depois morreu na Bolívia, diz um deles,
Gilmar Mauro, 29 anos. E Mao Tsé-tung, líder
da revolução chinesa que, nos anos 60, massacrou
milhões de pessoas na chamada revolução
cultural? Com todos os seus defeitos, Mao alterou a
estrutura agrária de seu país, uma das mais
atrasadas do mundo, e isso é o mais importante para
nós, afirma Jaime Amorim, 36 anos. Com tantos
heróis extremistas, o MST é uma organização
a favor da luta armada? A resposta de Neuri Rossito, 35 anos,
impressiona porque é sutil. É ridículo
defender a luta armada, afirma. Seríamos
massacrados. Ou seja: não estamos falando de
princípios mas apenas de conjuntura, talvez.
COMANDO FECHADO Os militantes do MST fazem cursos
de formação política, estudam clássicos
da esquerda latino-americana e entoam cânticos a favor
do socialismo e da revolução, num palavreado
duro que não se ouve em nenhum outro lugar. Eles pertencem
a uma organização vitoriosa que em onze anos
de existência instalou 139 000 famílias em 7,2
milhões de hectares uma área equivalente
à dos Estados do Rio de Janeiro e de Sergipe juntos.
O MST mantém escolas e fazendas que recebem subsídio
do governo federal e professores da rede estadual, tem conexões
políticas no Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária, o Incra, que lhe permitem invadir
e ocupar fazendas sabendo que não será difícil
demonstrar que têm baixos índices de produtividade,
ou mesmo que são puro desperdício de terra.
O MST possui 55 cooperativas em doze Estados, onde, com ajuda
de programas do governo federal, foram investidos 300 milhões
de reais em quatro anos.
A organização tem ambições revolucionárias
e dá preferência aos métodos ilegais de
reivindicação. Sem respeitar a propriedade privada,
prepara e organiza invasões que se transformam em ocupações,
mais tarde em assentamentos, onde se forma uma nova cooperativa.
Outro hábito teimoso é invadir repartições
públicas, especialmente sedes do Incra, mantendo diretores
e funcionários como reféns. É melhor
do que qualquer conchavo no Congresso, diz João
Pedro Stedile, principal dirigente do MST. Fazendo barulho
mas também mostrando eficácia, a organização
ganhou um prestígio inesperado, e também uma
audiência enorme. O movimento inspirou o autor Benedito
Ruy Barbosa a fazer de um sem-terra um dos protagonistas de
sua novela O Rei do Gado. Numa das mais escancaradas campanhas
políticas já promovidas por um telefolhetim,
o personagem Regino, vivido pelo ator Jackson Antunes, se
queixa do radicalismo da organização em todos
os aspectos reclama não só dos acampamentos
à beira de estrada mas também acha ruim que
sua bandeira seja vermelha, cor que lembra guerra, sangue.
Na vida real, o MST ainda dispõe de esconderijos para
abrigar seus dirigentes quando estes são perseguidos
pela Justiça. A maioria dos brasileiros já viu
uma imagem do sem-terra comum, aquele sujeito de aspecto desamparado,
roupa suja e pés descalços que se avista em
fotografias com a foice na mão. No país inteiro,
as chacinas de Corumbiara e de Eldorado do Carajás,
em que 31 sem-terra morreram massacrados, provocaram clamor
nacional. Até agora, apesar da importância da
organização, pouco se sabe sobre seus principais
dirigentes, que não pegam na enxada nem trabalham na
terra. Desse comando fechado não faz parte sequer o
mais famoso líder da organização, José
Rainha, que, sendo apenas um bom orador, na estrutura interna
é um quadro de segundo escalão. Esses dirigentes
vivem viajando de um lugar para outro de ônibus
e sobrevivem numa ocupação que se supunha
em extinção, a de agitador profissional.
Gaúcho de Lagoa Vermelha, a 325 quilômetros de
Porto Alegre, João Pedro Stedile, 42 anos, só
não é um típico dirigente do MST porque
é mais importante do que os outros. Em julho do ano
passado, uma comitiva de sem-terra foi recebida no Planalto
pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. A audiência
durou quarenta minutos e era Stedile quem falava primeiro
e, em seguida, dava a palavra aos outros, como um maestro
no comando dos solistas de uma orquestra. Agora vai
falar a companheira Fátima, que vai mostrar que o Incra
não faz reforma agrária, comandava ele,
com o tom cáustico que o caracteriza. João Pedro
Stedile é o patrono do MST desde 1985, quando a organização
foi fundada, e até hoje a dirige, a partir das três
salas de sua sede principal, no bairro de Perdizes, em São
Paulo. Stedile gosta de negar sua condição de
número 1, diz que o MST não pratica o culto
à personalidade e afirma que todas as decisões
são tomadas coletivamente. Balela. Tanto ele é
o chefe que até suas piadas fazem mais sucesso que
as dos outros. Também é só com sua autorização
que se consegue visitar os acampamentos, ouvir os assentados,
conhecer detalhes da organização. Stedile também
chama a atenção pelo preparo. Em trabalho solitário
ou em parceria, ele já escreveu quatro livros sobre
reforma agrária. Nenhum é obra-prima do ponto
de vista acadêmico, mas todos são eficazes como
combustível político que era sua finalidade.
Existem outros dirigentes do MST que têm formação
universitária. Mas ninguém coloca em questão
a autoridade de Stédile para o assunto que é
o coração e o pulmão do movimento, a
questão agrária. Também é seu
o troféu de comandante político. É com
Stedile que enviados do presidente Fernando Henrique Cardoso,
como o advogado José Gregori, secretário-geral
do Ministério da Justiça, e o general Alberto
Cardoso, chefe da Casa Militar do Planalto, se sentam para
discutir questões delicadas.
VINHO DE GARRAFÃO Stedile tem um padrão
de vida de classe média baixa e biografia de agricultor
arruinado. Segundo filho de uma prole de cinco, com os quais
teria de dividir uma propriedade de área insuficiente
para uma única família caso resolvesse ganhar
a vida no campo, Stedile só não cresceu analfabeto
porque em sua adolescência o então governador
Leonel Brizola já havia criado as brizoletas, embriões
de Cieps espalhados pelo interior do Rio Grande do Sul. Seminarista,
com ajuda da família e disposição para
trabalhar até como padeiro para conseguir uns trocados
no fim do mês, ele se formou em economia pela Pontifícia
Universidade Católica de Porto Alegre. Em 1976, esteve
no México fazendo um curso acadêmico na Universidade
Autônoma. Ali também foi submetido a seu batismo
político junto a exilados de extrema esquerda que vagavam
pela América Latina. Na volta ao país, estava
filiado à Comissão Pastoral da Terra e, com
um emprego na Secretaria de Agricultura, não saía
de perto de assentamentos e manifestações pela
reforma agrária. Em 1982, deixou o emprego público
e, três anos mais tarde, na fundação do
MST, num Congresso em Cascavel, a 498 quilômetros de
Curitiba, já era seu principal dirigente.
Stedile foi o primeiro salário do movimento. Hoje é
o maior. Ganha 800 reais por mês. Mora num sobrado de
dois andares com móveis simples, paredes descascadas
e uma decoração desordenada que lembra república
estudantil. O MST ajuda no aluguel da casa, como faz com outros
dirigentes. Stedile é casado com uma tradutora baiana,
Joselita Maria Almeida, e tem quatro filhos, o estudante de
jornalismo Miguel, 18 anos, a estudante de sociologia Janaína,
17, Maurício, 16, e Rafael, 12. Sempre metido em encontros,
reuniões e viagens de ônibus, fica pouco tempo
em casa. Quando aparece, seu local predileto é uma
biblioteca enfeitada com um manifesto dos zapatistas mexicanos
do comandante Marcos e recheada com a literatura clássica
de Lenin, Marx e Engels. Os filhos têm orgulho do pai,
mas reclamam que ele podia estar mais presente. Stedile é
um pai de domingo isso quando consegue reservar esse
dia para a família. Nessas ocasiões, sai com
os meninos para jogar futebol é um lateral direito
sofrível e, ao retornar a casa, junta todos
para um prato de frango com macarrão e um copo de vinho
de garrafão.
O SEGREDO DE NOSSA FORÇA Stedile
tem um perfil particular, mas seus colegas de comando apresentam
uma história muito parecida. A maioria também
nasceu em família de pequenos agricultores, com uma
penca de irmãos. Entrando para o MST, passaram a viver
para o movimento com um afinco que hoje em dia só se
admite em seitas religiosas e levam uma vida de pouco conforto.
Não têm cartões de crédito, nem
mesmo conta bancária. Jogam xadrez, esporte que sempre
foi moda entre dirigentes de esquerda. A maioria está
no MST desde os primórdios. Alguns foram recrutados
a partir daquelas primeiras invasões, de 1978. A pirâmide
do MST tem, em sua base, os acampamentos e assentamentos e,
por cima deles, coordenações estaduais e regionais.
Reunidos em congresso a cada dois anos, os líderes
dessas coordenações escolhem noventa integrantes
de uma coordenação nacional e os 21 da direção
nacional. Dentre esses estão os mais ativos.
Jaime Amorim, 36 anos, é um grande mandachuva do MST.
Nasceu em Guaramirim, a 200 quilômetros de Florianópolis,
mas desde 1992 mora em Pernambuco. Ele passou os últimos
dois meses recrutando famílias para invadir terras
às margens do São Francisco que pertencem a
fazendeiros quebrados do Banco do Brasil. Bom orador, com
talento especial para a organização, é
um desbravador. Desde 1987, percorre o Nordeste com a missão
de expandir suas fileiras. Criou o MST na Bahia, depois em
Alagoas, também passou pelo Maranhão e agora
mora com a mulher, a baiana Rubineusa, e os filhos Raul, 7
anos, e Marcos, 1 ano, numa casa pobre em Caruaru, a 134 quilômetros
do Recife. O local é modesto, mas não miserável.
O principal eletrodoméstico é uma TV colorida;
ali também se pode ouvir um rádio velho. Há
até um móvel que um dia foi um bar, em que se
oferecem pinga e vodca nacional.
No mês passado, Amorim começou a recrutar novos
interessados em invasões. Seu método de atuação
é bem elaborado. Primeiro, a bordo de um Fiat Uno,
ele deixa militantes espalhados por diversos municípios.
Eles carregam 5 reais no bolso para a comida, têm um
boné vermelho do movimento na cabeça e uma lista
de inscrições em que se registra quem quer seu
pedaço de terra. Depois, Amorim retorna a esses lugares
para colher a encomenda. Diante dos grupos já formados,
ele explica o que é o movimento, pergunta quem está
disposto a participar, inclusive com sacrifícios, e
marca nova reunião. Com planos de fazer duas ocupações
até o final de setembro, Amorim começou a trabalhar
pesado na retórica e no recrutamento já em julho
sua esperança é reunir pelo menos 2 000
pessoas antes de iniciar a empreitada. Agimos assim
mesmo, rapidamente, explica. As massas são
o segredo de nossa força.
O tom é discursivo, mesmo em conversas que deveriam
ser coloquiais, mas a comunicação é tão
eficaz que talvez só tenha paralelo nas igrejas pentecostais.
As reuniões do MST atraem tanta gente que nos locais
onde o movimento surgiu o sindicato rural se esvaziou e até
a CUT tem dificuldade para se implantar. Uma vez, Amorim chegou
a Itamaraju, 40 000 habitantes, no interior da Bahia, para
estabelecer uma filial da organização. Visitando
entidades e pontos de encontro, aceitou o desafio de um veterano
sindicalista local para saber quem teria mais audiência:
o MST ou o sindicato. Os sem-terra venceram, com 200 presentes
em seu encontro, contra cinqüenta no sindicato. Atraímos
pessoas porque não fazemos blablablá,
explica Amorim. Chamamos para a luta por algo possível
de conseguir, que é terra.
O MST é uma dureza, mas não é milagroso.
Se hoje em dia mantém 31 600 famílias acampadas
em todo o país, é porque tem uma respeitável
folha de serviços prestados, pois um número
quatro vezes maior já foi assentado. A organização
mobiliza tanto porque pratica uma raridade política.
Quando lança a corrida por um lote de terra, está
falando diretamente ao miserável, ao que não
tem nada a perder, e oferecendo um objetivo não apenas
palpável, mas viável. Mais tarde, muitas dessas
pessoas irão estabelecer-se em locais de onde não
será possível extrair, em média, uma
renda familiar superior a 132 reais por mês, conforme
um levantamento feito pelo instituto Vox Populi e divulgado
na semana passada. É pouco dinheiro. O que se esquece
de perguntar, aí, é qual era a renda dessas
famílias antes que recebessem um pedaço de terra.
A HISTÓRIA EXPLODIU Arregimentando
essas pessoas, o MST se tornou uma organização
próspera. Ela recebe doações da Igreja
Católica, que lhe forneceu perto de meio milhão
de reais no ano passado. Outra parte dos recursos vem dos
assentamentos e cooperativas, que lhe entregam o equivalente
a 2% da produção anual de seus lotes. Não
é pouca coisa. Tanto que, há dez anos, as despesas
do congresso de fundação do MST ficaram em 70
000 dólares. No ano passado, outro encontro, com milhares
de participantes, convidados e viajantes, saiu por 2,5 milhões
pagos sem maiores sobressaltos financeiros.
Na divisão de trabalho no MST, o estudo das crianças
e a doutrinação dos adultos têm um papel
de peso. Quem cuida disso é o pedagogo Egdar Kolling,
34 anos. Ele mora em Porto Alegre com a mulher, Rosely Caldart,
que também é educadora. Com uma literatura de
apoio que engloba esquerdistas nacionais e estrangeiros, como
Paulo Freire e Florestan Fernandes, o cubano José Martí
e o russo Anton Makarenko, da linha dura bolchevique dos anos
20 na União Soviética, é de seu escritório
que saem cartilhas e apostilas destinadas a 1 500 professores
da rede pública que servem às 880 escolas espalhadas
pelos assentamentos. São livros que podem atingir 38
000 alunos em todo o país. Barba grisalha, cabelos
brancos, Roberto Baggio, 32 anos, é um ex-seminarista
que já fugiu do cerco de 500 policiais, escapou de
uma emboscada e estimula que os acampados utilizem facões,
enxadas e foices para resistir durante as invasões.
É o homem mais importante do MST no sul do país,
onde dirige 124 projetos de assentamento e 38 ocupações
de terra. Ao todo, são 7 500 famílias sob sua
tutela. Mora na cidade industrial de Curitiba com a mulher,
Fernanda, e as filhas, Mariana, 8 anos, e Janaína,
7.
Em seu passado católico, quatro dos seis principais
dirigentes do MST têm a influência de uma mesma
pessoa. Trata-se de um certo dom José Gomes, bispo
da diocese de Chapecó, a 630 quilômetros de Florianópolis.
Dom José tem 75 anos, colocou seu cargo à disposição
e anda meio quieto. Sua grande diversão atual é
acelerar até 150 quilômetros numa Parati vermelha
sob a justificativa de que essa estrada é um
retão. Mas ele já achou graça em
atividades mais silenciosas. Em 1968, dom José assumiu
a diocese de Chapecó, uma casa simples de dois andares
e ar monástico. Firme na Teologia da Libertação,
que vivia seu apogeu, o bispo já chegou fazendo um
levantamento do perfil dos pequenos agricultores da área.
Descobriu que boa parte deles era composta de pessoas que
sabiam trabalhar com uma enxada mas não possuíam
um lugar para isso. A primeira idéia do bispo foi organizá-los
em sindicatos, mas, segundo suas palavras, a história
explodiu. No final de 1978, um grupo de trabalhadores
invadiu a Fazenda Burro Branco, a duas horas de Chapecó.
Ao mesmo tempo, houve a ocupação da Fazenda
Encruzilhada Natalino, no Rio Grande do Sul. Dom José
pegou um ônibus e foi visitar o acampamento gaúcho.
Ali, numa dessas coincidências que sempre espantam,
o bispo conheceu Stedile, que era funcionário da Secretaria
de Agricultura, foi espiar a invasão como empregado
do governo e resolveu ajudar os acampados por conta própria.
Cinco anos depois, os dois organizaram em Chapecó o
Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, o embrião
do MST.
ENCANTO RADICAL Pode-se dizer que a organização
começou assim, e não mudou muito. Os dirigentes
saíram do seminário de dom José e os
dirigidos seguem de enxada e foice na mão. O MST, hoje
em dia, também tem um encanto radical que vez por outra
atinge determinadas organizações de esquerda.
No início dos anos 60, as Ligas Camponesas de Francisco
Julião cuja dimensão social foi superfaturada
por seus admiradores políticos cumpriram esse
papel. No México atual, são os zapatistas do
comandante Marcos que cumprem esse papel. Os sem-terra gostam
dessa carapuça e fizeram questão de enviar Gilmar
Mauro, um dirigente de 29 anos, para assistir a um piquenique
internacional em Chiapas, no mês passado. O MST começa
a se tornar alvo freqüente de teses universitárias,
intelectuais também disputam vagas em seus seminários.
Nós precisamos desse apoio da classe média,
explica João Pedro Stedile. A luta pela reforma
agrária se trava no campo, mas será resolvida
na cidade. É ali que está o poder político
para qualquer mudança estrutural. Embora siga
dando dinheiro, a Igreja começou a se afastar do MST
depois que ele demonstrou sua preferência por ocupações
e invasões, além de acumular um passivo de violência
interna que impressiona, inclusive com mortes (veja quadro
na pág. 70). Cioso de sua independência e sua
força, o MST até se dá ao direito de
esnobar o governo federal. No mês passado, recusou três
convites para se sentar com o ministro da Reforma Agrária,
Raul Jungman. Mais recentemente, o MST tem esnobado também
o PT, legenda que adora aparecer em fotografias carregando
o caixão de sem-terra mortos em confrontos mas não
ajuda nas mobilizações. O PT não ajuda
porque é concorrente do MST na disputa por influência
no campo. Depois do massacre de Eldorado do Carajás,
o senador Eduardo Suplicy marcou uma audiência com Fernando
Henrique Cardoso e mandou avisar que dois representantes do
MST também poderiam marcar presença. O movimento
agradeceu e recusou. Quatro dias depois, o Planalto abriu
suas portas e doze líderes do movimento foram recebidos
pelo presidente.
João Pedro Stedile - 42 anos, é o principal
dirigente do MST. É casado, tem quatro filhos, entre
12 e 18 anos. É formado em economia, tem pós-graduação
na Universidade Autônoma do México e escreveu,
sozinho ou em parceria, quatro livros sobre a reforma agrária
Jaime Amorim - 36 anos, é de Guaramirim, Santa
Catarina. É casado com a educadora Rubineusa e tem
dois filhos. De sua casa em Caruaru, Pernambuco, coordena
todo o movimento da região. É formado em pedagogia
e ganha 300 reais
Roberto Baggio - 32 anos, é de São Lourenço
d'Oeste, Santa Catarina. Casado com Fernanda Fernandes, militante
do MST, tem duas filhas. Coordena o MST no sul do país.
É formado em filosofia e ganha 600 reais. Mora em Curitiba
Gilmar Mauro - 29 anos, nasceu em Capanema, no Paraná.
É o coordenador de massas do movimento. Casado com
uma economista mexicana, tem o 1º grau completo e ganha
300 reais
Edgar Kolling - 34 anos, nasceu em Guaraciaba, Santa
Catarina. Hoje mora em Porto Alegre, de onde coordena o setor
de educação do MST. É casado com uma
pedagoga. É formado em pedagogia e ganha 450 reais
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A
sombra violenta do MST
O
país conhece a violência contra os sem-terra
e fica indignado com ela. Mas existe um lado pouco
conhecido do MST. São conflitos internos, que
começam em brigas em acampamentos e algumas
vezes terminam em mortes. A rivalidade entre o MST
e os sindicatos rurais pela influência junto
aos agricultores tem produzido cenas estúpidas.
Em Planaltina de Goiás, a 50 quilômetros
de Brasília, o conflito resultou no assassinato
de um cidadão chamado Salvador Gomes de Souza,
que participava da ocupação da Fazenda
Nossa Senhora do Carmo.
O inquérito ainda não chegou ao final
e, até agora, existem duas versões para
o crime. Na do MST, Salvador bebia e assediava as
mulheres no acompamento, o que é proibido pelo
regulamento. Expulso do lugar, voltou dias depois
com o filho, Devanir Gomes de Souza, e seis pessoas
do sindicato para retomar sua barraca. Houve troca
de tiros. Um deles, disparado por descuido por Devanir,
atingiu o pai. Os sem-terra alegam ter até
uma testemunha que teria ouvido o rapaz gritar: Matei
meu pai.
Na versão de Cleber Souza, presidente do sindicato,
Salvador foi desalojado por indisciplina. Ele se ausentou
do acampamento por mais de dois dias seguidos, o que
é proibido pelas normas dos sem-terra, tentou
voltar e foi morto. O caso foi parar na delegacia
de Formosa, cidade vizinha de Goiás. O delegado
Milton Pestana, que preside o inquérito, duvida
da versão. Ele acredita que Salvador foi assassinado
pelos sem-terra. A conclusão não é
definitiva, mas é bom que a investigação
seja feita de modo a não deixar dúvidas
sobre quem foi responsável por um homicídio.
Caso seja um sem-terra, deve ser responsabilizado
e punido a menos que se queira reclamar de
impunidade apenas quando ela beneficia quem está
do outro lado do conflito. Outro caso de violência
aconteceu no Maranhão. Durante uma ocupação,
na Fazenda Sikel, um sem-terra tentou negociar com
os pistoleiros, mas acabou assassinado. Como vingança,
os sem-terra executaram três seguranças.
A fazenda até já foi expropriada, mas
nem por isso os crimes não precisam ser apurados
sob o risco de legalizar o banditismo desde
que não use farda da PM.
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