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A
verdadeira economia clandestina
Rotas
seguras e esquemas para
lavar dinheiro do narcotráfico
produzem milagres no Brasil

Ernesto
Bernardes
Há cinco traficantes de drogas na cadeia pública
de Cacoal, cidade de Rondônia a 480 quilômetros
de Porto Velho. Todos inofensivos, segundo o delegado
José Vieira. Os condenados com maiores penas foram
pegos com 30 gramas de cocaína. Em troca de pequenas
tarefas, como varrer o chão, buscar café na
padaria ou atender o telefone, eles recebem permissão
para passear na rua, e os vizinhos não se assustam
com a liberalidade. Dizem que há muito tráfico
aqui, mas a gente só vê bagrinhos. Se há
tráfico grande, é nas pistas de pouso no meio
do mato. Mas lá a gente não chega, lamenta
o delegado, que conta com seis investigadores e uma viatura
que faz ponto na oficina. A delegacia de Cacoal é um
exemplo das duas cidades que atendem pelo mesmo nome
uma visível, outra subterrânea. A primeira é
uma cidade pobre, onde só 3% das famílias ganham
mais de dez salários mínimos e três bancos
fecharam suas portas por falta de correntistas. A segunda
é um fenômeno que, no ano passado, movimentou
1,3 bilhão de reais em compensação de
cheques, fortuna quase do tamanho do PIB de Rondônia.
A enxurrada de dinheiro da Cacoal paralela tem
explicação. É a cocaína,
diz a geógrafa Lia Machado, da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, que estuda a espantosa vida financeira
da região.
Como
Cacoal, dezenas de cidades do Norte e do Centro-Oeste vivem
um milagre brasileiro sem explicação aparente.
Na Amazônia, bancos em municípios com 13 000
habitantes alugam canais de satélite 24 horas por dia
(ao preço médio de 2 000 reais por mês)
para fazer transferências de dinheiro para a Região
Sul. A riqueza, registrada pelo Banco Central, é invisível
para a Receita Federal. Enquanto Manaus, zona franca e paraíso
da evasão fiscal, arrecada em impostos 10% do que movimenta
nos bancos, as cifras de algumas cidades milagreiras não
atingem 1%. É porque o dinheiro é todo
ilegal. A região tinha tradição de contrabando
de ouro e madeira. Agora entrou nas drogas, afirma Lia
Machado. Sabia-se havia tempo que o Brasil é o maior
corredor de transporte de cocaína do planeta. O que
o estudo da UFRJ faz, pela primeira vez, é mostrar
como circula parte do dinheiro da droga no país.
Ajuda
irrisória O tráfico é o negócio
do século. Movimenta no mundo inteiro 300 bilhões
de dólares por ano e, na balança da economia
mundial, é uma indústria que perde para a de
computadores (450 bilhões) mas ganha da farmacêutica
(206 bilhões) e tem margens de lucro infinitamente
maiores que ambas. Gera 9% do PIB da Colômbia e emprega
300 000 agricultores nas plantações de coca
da Bolívia. Os Estados Unidos, o país que mais
consome narcóticos no mundo, gastam 30 bilhões
de dólares por ano em combate ao tráfico, tratamento
de dependentes e campanhas educativas. Uma quantidade tal
de dinheiro que ajuda a entender a atitude do Ministério
da Justiça, que na semana passada rejeitou, por considerá-la
irrisória, a verba de 600 000 dólares
destinada pelo governo americano ao combate do narcotráfico
no Brasil. A Colômbia, a maior exportadora de cocaína,
cujo presidente não tem visto para os Estados Unidos,
levou 30 milhões de dólares. O Peru, destaque
na linha de produção, 31 milhões. Mais
do que a quantia irrelevante, pesou a divergência entre
o governo do Brasil e o dos Estados Unidos sobre a estratégia
de combate. Os americanos querem concentrar a repressão
nos aeroportos, o ponto de saída no caminho das drogas
até seus consumidores mais importantes. O Ministério
da Justiça insiste em projetos que se concentrem nas
portas de entrada em território brasileiro.
Cada
país que defenda seus interesses mas é
conveniente que todos o façam. Existem bons motivos
para se preocupar com os narcóticos. Eles movimentam
muito dinheiro. Não pagam imposto. E provocam gastos
públicos imensos, avalia o economista francês
Michel Schiray, que há dez anos estuda a economia do
tráfico. As despesas com o combate às drogas
são tantas que expoentes do pensamento conservador,
como Milton Friedman, Nobel de Economia, já propuseram
sua legalização o dinheiro poupado seria
usado para o tratamento dos dependentes e ainda sobraria,
segundo a tese, que reflete, na verdade, a impotência
diante de uma atividade que desafia todos os esforços
de repressão.
Quilo
de toucinho As leis do mercado encontram sua mais
perfeita expressão no negócio das drogas. Os
entorpecentes existem há séculos, mas nunca
renderam tanto dinheiro, explica o jurista espanhol
Antonio Escohotado, autor de um livro sobre a história
das drogas. Na antiga Roma, o imposto sobre o ópio
representava 15% da arrecadação imperial. No
final do século passado, os Estados Unidos importavam
250 toneladas de ópio por ano. O consumo aumentou,
mas o que enriqueceu mesmo os traficantes foi a proibição.
Em qualquer mercado negro, os preços vão lá
para cima, teoriza. No início do século,
1 quilo de heroína, produzida pela mesma Bayer que
fabrica a aspirina, custava o preço de 1 quilo de toucinho.
Hoje, 1 grama do pó é comprado nas ruas de Nova
York por 300 dólares. O preço cresce porque
inclui suborno de autoridades, transporte por vias tortuosas
e uma margem de lucro gordíssima, para compensar as
cargas eventualmente apreendidas.
O
Brasil é um dos países que mais apreendem drogas
no mundo. No ano passado, a Polícia Federal confiscou
5,3 toneladas de cocaína e 12 de maconha. Calcula-se
também que 100 000 pessoas vivem do cultivo e da venda
da maconha em Pernambuco e outras 150 000 estão vinculadas
ao tráfico de cocaína, maconha e crack nas ruas
do Rio e de São Paulo. Polícia e autoridades
estão familiarizadas com o drama do consumo, mas pouco
sabem sobre a lavagem do dinheiro sujo. Os Estados Unidos
estimam que o Brasil lave, por ano, 20 bilhões de dólares
do narcotráfico. Mas esse número é um
chute, diz o delegado Getúlio Bezerra Santos,
subdiretor da Divisão de Entorpecentes da Polícia
Federal. Sobre esse assunto, começam a surgir as primeiras
descobertas.
De
carona Uma das maneiras de encontrar o dinheiro
das drogas é seguir os outros esquemas ilegais que
existem num país. Os traficantes sempre se aproveitam
de estruturas de corrupção tradicionais, que
geralmente contam com a conivência de autoridades,
explica o sociólogo José Luiz Del Roio, do Núcleo
de Estudos da Violência da USP. Na Itália, onde
o consumo de heroína é um dos mais altos do
mundo, a Máfia começou a trazer as drogas de
carona com o contrabando de ouro. Dois terços das jóias
que entravam no país desembarcavam ilegalmente, sob
a vista grossa do governo, porque o contrabando permitia aos
joalheiros locais concorrer em preço com os vizinhos
suíços. Quando a droga entrou firme de contrapeso,
a rede já estava tão forte que não podia
mais ser desmantelada.
No
Paraguai, que disputa com o Nordeste brasileiro o posto de
o maior produtor de maconha da América do Sul, as drogas
pegaram carona na tradição do contrabando. O
comércio de Ciudad del Este movimenta 14 bilhões
de dólares, segundo dados do Mercosul. Só que
todo o PIB do Paraguai não chega a 7 bilhões.
Macacos me mordam se essa diferença não
for a lavagem do dinheiro de contrabando e tráfico,
diz Del Roio. No caso paraguaio, o esquema já é
conhecido. A soja brasileira é contrabandeada para
o Paraguai, para não pagar imposto no Brasil. De lá,
é maquilada como soja estrangeira e embarcada de volta
para os próprios portos brasileiros, com uma margem
de lucro fenomenal. Os caminhões atravessam a
fronteira, pegam drogas e voltam. Se a Polícia Federal
checar as fazendas compradas por brasileiros no Paraguai e
na Bolívia, verá que boa parte delas faz lavagem
de dinheiro. Os caminhões entram no Brasil trazendo
cocaína, com notas que dizem que aquilo é soja,
acusa Lia Machado.
Impunidade
Os policiais que trabalham na rota do tráfico
conhecem bem os truques. Aqui em Rondônia se planta
muito café. Uma das razões é que, colocando
um saco de cocaína dentro de um caminhão de
grãos, nem cães farejadores notam o cheiro,
argumenta um agente da PF. O delegado de Cacoal, José
Vieira, garante que vigiar as rotas é missão
de fôlego. Nas estradas, passam montes de caminhões
de madeira. Para examinar um deles, retirar as toras, checar
os pneus e o motor você perde a manhã toda. Quantos
outros passam nesse período?, pergunta. Em Vilhena,
uma das cidades da rota do tráfico, a delegacia da
Polícia Federal passou dois anos sem um titular, com
apenas dois agentes, para vigiar todo o sul de Rondônia.
Controlar o que entra e sai não é difícil
apenas no meio da floresta. O DEA, órgão do
governo americano para repressão às drogas,
calcula que apenas 3% dos contêineres que desembarcam
nos EUA são devidamente inspecionados.
É
impossível varrer as drogas da face da Terra. O que
temos de fazer é tornar o tráfico inviável,
dar-lhe prejuízo. Para isso, é preciso dificultar
a lavagem de dinheiro e acabar com a impunidade dos grandes,
teoriza Del Roio. Esse parece ser o maior problema. Há
seis anos, a polícia francesa criou um grupo especializado
em finanças para investigar lavagem de dinheiro. De
1 600 denúncias contra bancos e instituições
financeiras, 200 transformaram-se em inquéritos. Dessas,
sessenta foram a tribunal. Até agora, ninguém
foi condenado. Quando denúncias não são
comprovadas, é normal que isso aconteça. Cassado
em 1991 por fornecer documentos falsos a um irmão traficante,
o ex-deputado Jabes Rabelo foi acusado pela CPI do narcotráfico
e indiciado por receptação de carros roubados.
Na semana passada, como presidente do Country Club de Cacoal,
ele anunciava sua obra um lago artificial e
preparava-se para retomar a carreira parlamentar.
COCAÍNA:
com o cerco dos EUA à Colômbia, a Bolívia
passou a ser responsável por boa parte do refino
da droga na América Latina. De lá vem
a maior parte da cocaína que entra no Brasil.
O cultivo de folhas de coca ocupa 45 000 hectares
e emprega 300 000 pessoas
HEROÍNA:
nos últimos anos, traficantes colombianos iniciaram
o cultivo de papoula para produzir heroína,
que alcança preços três vezes
maiores que os da cocaína. O Exército
combate as plantações com aspersão
de veneno
MACONHA:
o Brasil disputa com o Paraguai o posto de maior produtor
da América do Sul. Há grandes plantações
na Bahia e no Maranhão e elas se espalham por
dezenove municípios do Estado de Pernambuco
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Uma
história milenar
Há duas semanas, foi publicado na França
o mais relevante trabalho sobre o problema do tráfico
nos últimos anos o Atlas Mundial das Drogas,
organizado pelo Observatório de Geopolítica
das Drogas, de Paris. O OGD, uma entidade não-governamental
que estuda os entorpecentes em todo o mundo, fez um
levantamento sobre o mercado das drogas que começa
na Grécia antiga, mapeou a produção
e o transporte de entorpecentes a partir dos tempos
do império inca e concluiu que as rotas não
mudaram muito desde o surgimento das primeiras organizações
criminosas das tríades chinesas à
Máfia italiana.
O
coordenador, Michel Koutouzis, tentou limitar-se à
descrição dos fatos e evitar conclusões,
mas não pôde escapar de uma constatação:
no que se refere às drogas, governos e a famosa
mão do mercado não têm nenhuma espécie
de preocupação ética. O livro mostra
como as grandes indústrias farmacêuticas
esconderam, no início do século, os estudos
que indicavam que a heroína viciava exemplo
seguido recentemente pelos fabricantes de cigarro. Lembra
também que, depois da I Guerra Mundial, os países
europeus relutaram em proibir a heroína e a cocaína,
produzidas em seus laboratórios, porque geravam
um bom dinheiro. E conta ainda como os EUA, zelosos
em acabar com a cocaína que financia a guerrilha
colombiana, jamais se preocuparam em combater as plantações
de papoula do Afeganistão, que bancavam a guerrilha
anti-soviética.
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