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Ninguém chora
Sem
confiança em Duhalde,
o FMI e os países ricos hesitam
em conceder empréstimos
Raul
Juste Lores
Fotos Editorial Perfil
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nos bons tempos, com sua Ferrari, e, à direita,
a nova esposa, Cecília: contas bloqueadas na Suíça |
Quando
as economias dos países emergentes ameaçaram
entrar em colapso na década passada, os organismos
internacionais e os governos de países ricos apressaram-se
em acudir com empréstimos generosos, temerosos de que
crises localizadas acabassem por detonar problemas globais.
Não é o que está ocorrendo com a Argentina.
Sufocado pela recessão, pelo calote da dívida
externa e pela escassez de dinheiro no sistema bancário,
o governo de Eduardo Duhalde tem seus apelos recebidos com
indiferença. O Fundo Monetário Internacional
(FMI), ao qual foi pedido 20 bilhões de dólares,
recusa-se a entregar um sequer tostão enquanto o governo
argentino não parar de gastar acima do que arrecada.
"Não há sucesso sem sofrimento", disse friamente
Horst Koehler, diretor-geral do FMI. Na terça-feira
passada, foi a União Européia que advertiu Duhalde
para que não discrimine empresas estrangeiras. No dia
seguinte, o influente diário americano The Wall
Street Journal partiu para a martelada final. Definiu
a Argentina como uma "república bananeira".

Maria
Julia: ex-ministra bela e sensual é investigada por corrupção |
Esses
poderosos dão-se ao luxo de ignorar o sofrimento dos
argentinos porque a moratória da dívida externa
e o colapso econômico do país foram previstos
com tal antecedência que seus efeitos sobre o restante
do mundo foram mínimos. Mas não é só
isso. O FMI, o governo dos Estados Unidos e a União
Européia estão convencidos de que a crise econômica
decorre de maus costumes locais e que não há
outra solução exceto uma reforma mais profunda
que a monetária. Nas últimas cinco décadas,
a governabilidade na Argentina dependeu do populismo e do
corporativismo patronal e sindical. Para financiar esse esquema,
o governo endividou-se até o pescoço. Desde
que chegou ao poder, Duhalde rasgou contratos com empresas
estrangeiras, quebrou o sistema bancário e tungou as
economias daqueles que depositaram em dólares e agora
vão receber em pesos. Bem ao estilo da velha-guarda
peronista, recusa-se a frear a gastança nas províncias
(uma das principais razões dos problemas do Tesouro
Nacional), critica o "modelo de abertura econômica"
e culpa o FMI pela situação da Argentina. "Não
precisamos de ninguém que nos diga como devemos sofrer",
mandou avisar seu chefe de gabinete, Jorge Capitanich.
O que Duhalde ainda não tem é um plano para
reativar a economia em seu quarto ano de recessão
e estabilizar o sistema bancário. Para piorar
o descrédito em relação aos credores
estrangeiros, na semana passada a Justiça da Suíça
bloqueou duas contas bancárias em nome do ex-presidente
Carlos Menem, num total de 10 milhões de dólares.
A existência dessa dinheirama numa conta secreta reforça
a sensação no exterior de que uma parte do dinheiro
que chegou à Argentina como empréstimo
de bancos privados ou ajuda do FMI sumiu pelo ralo
da corrupção. Menem foi o presidente que adotou
a paridade entre o peso e o dólar, artifício
que permitiu derrotar a hiperinflação. Foi também
quem deu início à modernização
da economia e privatizou as estatais ineficientes. Mas usou
e abusou do tradicional clientelismo peronista, numa orgia
de gastança e rapina do dinheiro público.
No ano passado, esteve preso seis meses por envolvimento em
contrabando de armamento para a Croácia e o Equador.
As armas das Forças Armadas argentinas foram vendidas
clandestinamente e 60 milhões de dólares "desapareceram"
do total de 100 milhões da transação.
Um ex-cunhado de Menem, Emir Yoma, foi preso pelo mesmo caso.
Libertado, Menem foi passar sua lua-de-mel com a ex-miss Universo
chilena Cecilia Bolocco em um luxuoso resort no México.
A diária da suíte ocupada pelo casal é
de 4.000 dólares. Nos dez
anos e meio de governo Menem, a corrupção foi
desenfreada e boa parte do dinheiro que chegou com
o vigoroso processo de privatização simplesmente
evaporou-se. Menem sofre vários processos na Justiça,
a maioria por enriquecimento ilícito ou compras superfaturadas.
Pelo menos 130 altos funcionários de seu governo estão
sendo processados por enriquecimento ilícito. Uma personagem
que simboliza a década de farra com dinheiro público
é María Julia Alsogaray, ministra responsável
pelas privatizações da telefonia e da siderurgia,
de quem se diz ter despertado a veia de conquistador em Carlos
Menem. Dos bens avaliados em 10.000
dólares na declaração de renda de 1990,
ela evoluiu para 2,5 milhões no ano passado. Com um
salário de 4.000 dólares,
a elegante ministra tinha um gasto médio de 7.000
dólares em cada um de seus seis cartões de crédito.
Viajava constantemente para Paris e Nova York, onde comprou
um apartamento em frente ao Central Park por 400.000
dólares. Também comprou um palacete de três
andares do início do século XX na Recoleta,
um dos bairros mais caros de Buenos Aires. Com uma turma assim,
tinha mesmo de dar confusão no governo.

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