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AIDS
 

Dormindo com o inimigo

Sete em cada dez
mulheres aidéticas são infectadas
por seus maridos

Thomas Traumann e Karla Monteiro

"Eu desconfiava que meu marido tinha suas aventuras extraconjugais. Desde 1993, ele apresentava sintomas estranhos. Foi internado várias vezes com crises de herpes-zoster e tuberculose. Resolvi fazer um exame. Nunca mais vou esquecer aquela sexta-feira 13, dia em que saiu o resultado. Era janeiro de 1995. Aos 35 anos de idade, confirmei uma suspeita que me martirizava: fui contaminada pelo HIV por meu marido. Fiquei em estado de choque. Só conseguia chorar e passei a pensar que iria morrer no dia seguinte. Eu me senti impotente, injustiçada, arrasada. Não era promíscua, não recebi transfusão de sangue nem usava drogas de nenhum tipo, quanto mais injetáveis. Só poderia ter pegado Aids de uma maneira: fazendo sexo com o homem com quem vivo há dez anos. Estou pagando pelo prazer que meu companheiro foi buscar fora de casa."

O depoimento acima, dado a VEJA pela pedagoga pernambucana Jerusa Maria Mendes, hoje com 38 anos, é de arrepiar. Ela foi contaminada pelo vírus da Aids sem pertencer a nenhum grupo de risco, apenas levando a vida corriqueira de uma mulher casada. Para muita gente, um caso assim parece ser fruto de uma fatalidade. Da mesma forma que pegou Aids com o marido, Jerusa poderia ter sido atingida por um raio caminhando na Praia de Boa Viagem, no Recife. Certo? Errado duplamente. Em primeiro lugar, porque normalmente as pessoas olham para as vítimas da Aids como se fossem uma exceção. Esse modo de encarar a contaminação é fruto do preconceito e do desconhecimento em relação à doença.

A primeira sensação das pessoas sadias é achar que alguma coisa errada houve para ter ocorrido o contágio.

- Isso não poderia ter acontecido comigo, é a conclusão errada que muita gente tira por causa da ignorância. A Aids foi no ano passado a doença que mais matou no mundo. Fez 2,3 milhões de vítimas. No Brasil, é a segunda doença que mais vítimas fatais faz entre as mulheres de 20 a 50 anos - período mais ativo de sua vida sexual. As doenças que mais matam são, pela ordem, câncer, Aids, doenças circulatórias, derrames, doenças cerebrovasculares e doenças respiratórias.

Nessa faixa de idade, a Aids matou no Brasil 2600 mulheres apenas em 1996. Há uma segunda razão para se preocupar com o problema. A relação heterossexual estável e monogâmica tornou-se, para as mulheres, a principal porta de entrada para o vírus da Aids. Segundo pesquisa feita pelo Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids da Universidade de São Paulo, 71% das mulheres soropositivas contraíram o vírus do marido ou de um namorado ou noivo com quem se relacionam há mais de um ano. Ficam bem atrás as contaminações em mulheres que trocam de parceiro com mais freqüência e as usuárias de drogas injetáveis. O estudo da USP foi feito com 148 entrevistas de portadoras do HIV e, de acordo com todos os especialistas consultados por VEJA, retrata uma tendência nacional da epidemia. Entre os homens, a conta é outra. De acordo com dados do Ministério da Saúde, 43% dos soropositivos dizem ter contraído o vírus em relações não convencionais (homossexuais ou bissexuais). Os que se dizem contaminados em relações heterossexuais são 25% do total. Com uma clareza que machuca, o confronto dos números reforça o que está escrito no título desta reportagem. Milhares de mulheres estão literalmente dormindo com o inimigo.

Jerusa conheceu o artista plástico Ernandes Ferreira Cavalcanti, de 45 anos, por intermédio de amigos comuns. Ele era solteiro. Ela, viúva. Namoraram e casaram-se. Formavam o que ela define como "um casal normal". Todos os fins de semana, eles passam um dia na praia. Vão ao cinema mais de uma vez por mês. Em alguns domingos, Ernandes cozinha e prepara uma feijoada para os amigos e a família. Ele trabalha em casa pintando quadros e está abrindo uma microempresa para fazer pintura e pequenos consertos domésticos. Ela trabalha há doze anos como educadora no Centro das Mulheres do Cabo, uma organização não-governamental feminista. Nas datas especiais, como o Dia das Mães, quebram a rotina e vão a um motel. A vida sexual do casal era como a de qualquer outro. Mantinham de duas a três relações semanais e ficavam distantes em épocas de crise. Nas fases de euforia, quando a paixão entre os dois incandescia, saíam para dançar e mergulhavam em noitadas às quais ela se refere como inesquecíveis.

Doze mulheres por dia - Dois detalhes tornam o caso impressionante. O primeiro: Jerusa tem cinco filhos, o mais novo com 13 anos, o mais velho com 22, fruto do seu primeiro casamento. O mais velho tentou o suicídio depois de receber a notícia de que a mãe estava doente. O segundo detalhe, contado por ela própria: "Em várias oportunidades eu pedi ao Ernandes que usasse preservativo nas nossas relações sexuais, mas ele se recusou. Dizia que o pedido era coisa de feminista. Acabei cedendo, não pedi mais, e deu no que deu".

Quando um homem e uma mulher decidem viver juntos, eles estão dividindo mais do que uma paixão ou o sonho de formar uma família. É um gesto de confiança, um acordo de que os dois vão responsabilizar-se um pelo futuro do outro - e os dois pelo futuro dos filhos. Nem sempre funciona dessa forma, como mostram os números. A Aids, que já atingiu mais de 135.000 pessoas no Brasil, há muito deixou de ser um mal relacionado a homossexuais, travestis, prostitutas e viciados em drogas. A doença entrou na casa dos brasileiros e está contaminando mães e esposas. Em 1985, existia uma mulher contaminada para cada grupo de 25 homens. Hoje, a relação é de uma mulher para dois homens. Entre as casadas, a doença tomou contornos alarmantes nos últimos anos. Desde 1995 caiu o número de contaminações anuais por HIV de homossexuais (-16%), usuários de drogas injetáveis (-18%) e receptores de transfusão de sangue (-38%). Entre as mulheres contaminadas por relação sexual, no entanto, o crescimento foi de 14%. No ano passado, segundo dados preliminares, 14500 pessoas foram infectadas no Brasil, sendo 4300 do sexo feminino. Feitas as contas, são doze mulheres contaminadas todos os dias, oito delas em relações monogâmicas. Vitimar mulheres casadas e monogâmicas é enterrar definitivamente o conceito de "grupo de risco" para definir as pessoas mais expostas ao HIV.

Seria menos perturbador se a pesquisa da Universidade de São Paulo descobrisse que aquele grupo de mulheres "casadas" contaminadas, os tais 71%, tivesse feito alguma coisa errada, tivesse dado algum passo em falso, não tivesse resistido a uma compreensível aventura fora do casamento depois de tantos anos fazendo sexo com o mesmo homem. Mas não. Tudo indica que elas só se relacionavam com o marido. Também seria menos perturbador para as demais mulheres se a pesquisa apontasse um traço qualquer de perfil ou de personalidade que as distinguisse das não contaminadas, mas isso não aconteceu. Elas não são diferentes de ninguém. A maioria possui emprego, aposentadoria ou ganha dinheiro no mercado informal. Mais de 12% freqüentaram a universidade, um índice acima da média nacional. A idade das contaminadas é em torno de 32 anos. Elas têm em média dois filhos. O erro delas? Confiaram nos maridos e namorados e faziam sexo sem preservativo. É um dado longe da realidade?
A Aids tem um vírus transmissor, o HIV, mas se multiplica em ambiente de desinformação. Não é por outra razão que o último relatório da Organização Mundial de Saúde mostra que nove de cada dez casos da doença registrados no mundo ocorrem em países pobres ou em desenvolvimento. Há mais casos no interior que nas capitais e o crescimento é mais acentuado entre pessoas pobres e de baixa escolaridade. "Não me preveni e me comportava como se o amor me garantisse a imunidade. Talvez se eu fosse promíscua hoje me preocuparia com a camisinha e não teria o vírus da Aids", diz Simone Borges, 29 anos, técnica em radiologia do Rio de Janeiro, que contraiu Aids com um namorado. "As mulheres que têm vários parceiros sabem dos riscos que correm e por isso se cuidam", afirma o cancerologista paulista especializado em Aids, Dráuzio Varella. "Já as monogâmicas acreditam que a fidelidade é uma proteção."

A incidência de Aids entre mulheres está aumentando por uma trágica combinação de fatores biológicos, econômicos e sociais. Os principais motivos, de acordo com médicos, psicólogos e grupos de apoio a infectados, são os seguintes:

• A mulher tem dez vezes mais chance de contrair o vírus de um homem infectado do que um homem de ficar doente relacionando-se com uma mulher soropositiva.
• para um homem se contaminar numa relação com uma mulher portadora do vírus é necessário que seu pênis esteja ferido. É muito mais fácil notar o ferimento no pênis - e assim se proteger com camisinha - do que uma lesão interna na mulher, que pode passar despercebida.
• o esperma contaminado tem uma concentração de vírus várias vezes maior do que a encontrada na secreção vaginal de uma mulher soropositiva. Além disso, o tempo de permanência do pênis em contato com a secreção vaginal é muito menor do que a da mulher em contato com o esperma.
• em geral, os homens comandam a relação sexual, usando camisinha quando lhes interessa. Nos depoimentos aos grupos de apoio a portadores do HIV são comuns as histórias de maridos que tomavam como ofensa a sugestão de usar preservativo. É como se a mulher o estivesse acusando de ser infiel.
• embora não existam estatísticas a respeito, a experiência dos médicos mostra que é grande o número de homens casados, aparentemente insuspeitos, que gostam de uma aventura homossexual de vez em quando. "Eu afirmaria que a maioria dos homens que infectaram suas mulheres foi contaminada numa relação homossexual", declara o infectologista David Uip, de São Paulo.
• muitos casais param de usar preservativos no momento em que consideram que o relacionamento se tornou sério ou quando passam a morar juntos. "Para eles, o preservativo é como se fosse uma formalidade", explica Dráuzio Varella. "É usado na época em que os parceiros se estão conhecendo, mas depois é abandonado."

Para a ciência não há dúvida de que a Aids é mais cruel com as mulheres do que com os homens. Dois estudos recentes apresentados por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, reforçam a fragilidade da mulher diante do vírus. Comparando um grupo de homens e outro de mulheres que estavam no mesmo estágio da doença, as universidades verificaram que os sintomas progridem mais rápido no sexo feminino, independentemente dos medicamentos usados ou do nível de células de defesa que a paciente tenha. Ainda não se sabem os motivos dessa diferença biológica, mas estuda-se uma hipótese relacionada à ação dos hormônios femininos. Some-se a isso o fato de que os maridos que levam a Aids para dentro de casa em geral não fazem o teste do HIV. As mulheres descobrem a doença normalmente depois que os companheiros adoecem e já perderam um bom tempo no processo de tratamento.

Ao saber que está com Aids, a mulher tem uma primeira reação previsível, igual à do homem: a raiva, o ódio, a vontade de cometer uma loucura contra o responsável por sua contaminação. "Quando soube que era HIV positiva, que havia sido infectada por meu marido, esperei que ele chegasse em casa, olhei para ele e disse: 'Você me matou'. Fiquei com tanta raiva por ele não ter me contado que perdi o controle e bati nele. Depois disso, já tentei suicídio duas vezes", conta Jacqueline Normandia, 32 anos, operadora de telemarketing em Belo Horizonte. Após essa fase de fúria, a mulher passa a demonstrar reações distintas das do homem, bem menos egoístas. A tendência masculina é fazer o possível para evitar que a notícia se espalhe. O motivo é sabido. Tem medo de que os amigos pensem que ele é gay. Nessa hora, inventa histórias para a própria mulher. Se o casamento é recente, conta que contraiu o vírus de uma antiga namorada. Se o casal enfrentou uma separação, diz que teve um caso eventual nesse período com outra mulher. Já a mulher prefere contar logo o ocorrido para a família. Nas conversas com os médicos ou psicólogos, ela demonstra também preocupação imediata com o futuro dos filhos. Afinal, quem vai cuidar deles depois que ela se for? Isso sem contar a dor imediata das crianças. Na escola, os amigos acabam sabendo que a sua mamãe pegou Aids e quem passou foi o seu papai.

"Cuidei dele até o fim" - Outro dado curioso é que, apesar do ódio, as mulheres dificilmente abandonam seus maridos, ainda que só estejam nesta situação terrível por causa deles. "Meu marido morreu de Aids no ano passado e cuidei dele até o fim. Minha preocupação era dar força para ele lutar contra a doença", afirma a dona de casa Greicilene Rodrigues, de 24 anos, de São José dos Campos. É claro que a presença do vírus produz outros tipos de reações, pessoais, delicadas e extremamente compreensíveis. "Tenho vontade de namorar, tenho desejo sexual, mas quem vai querer uma mulher com Aids? Ainda mais com tantos filhos", desabafa a viúva Renata Frazão, sete filhos, carioca de 35 anos que perdeu o marido com Aids.

"Se eu pudesse voltar atrás..." - O avanço da Aids entre as mulheres, da forma como vem ocorrendo, exige que as pessoas pensem um pouco mais nos seus relacionamentos íntimos. O casamento é uma aliança que envolve rotina, uma base sólida para a criação dos filhos e a manutenção da família. Não é um acordo em torno de aventuras. Com o tempo, a paixão pode arrefecer, mas sobram a amizade, a confiança, uma história comum. O casamento, como outras instituições, passa por ciclos. A paixão na lua-de-mel, a adaptação à vida a dois nos primeiros anos, o primeiro filho por volta do quarto ano e, em um determinado momento, a "crise dos sete anos", seguida da crise dos dez, quinze, vinte... Os dois se perguntam se valeu a pena o esforço que fizeram no passado e se o casamento merece uma chance no futuro. É a velha história: elas anseiam por romance, eles querem mais sexo. Surge o caldo ideal para a traição conjugal. Sem camisinha, como se vê.

Para realizar esta reportagem, VEJA entrevistou oito homens que tinham infectado a mulher. A idéia era que relatassem sua história e se deixassem fotografar. Ninguém concordou. As justificativas iam do medo dos comentários entre colegas de trabalho até a reação dos filhos. Alguns reconheceram que temem ser tachados de homossexuais. Todos falam com remorso sobre a transmissão do vírus para a mulher. "Eu sei que acabei com a vida dela e me arrependo muito", relata o engenheiro paulista Jorge. "Minha filha está crescendo com dois pais sob risco de morte." Ele soube que estava com o vírus em 1992, quando foi doar sangue para um colega de trabalho hospitalizado. A doação foi recusada, e ele teve de fazer um novo teste. "Larguei meu emprego e mudei com minha família para o interior, mas o casamento não durou mais um ano", lembra. "Felizmente minha ex-mulher ainda não desenvolveu a doença."

Para quem se chocou com os relatos, é sempre útil lembrar que a única forma segura de não engrossar as estatísticas da Aids é usar o bom senso e a camisinha. Não é tão simples, mesmo porque as mulheres que são contaminadas em geral não tinham motivo para suspeitar do risco que corriam junto de seus parceiros. Então, por que tomar precauções? As pessoas podem, no entanto, agir com mais responsabilidade, sobretudo os homens. E talvez com um pouco mais de malícia, sobretudo as mulheres.

• Os bissexuais, por exemplo, deveriam ter a dignidade de renunciar ao casamento para não colocar em risco suas esposas. O homem nessa situação simplesmente não tem o direito de fingir que leva uma vida normal.
• Para o homem ou a mulher casados que mantêm aventuras heterossexuais, é imperativo o uso da camisinha nesses encontros fora de casa. É o mínimo que se pode esperar. Comportar-se de maneira diferente é agir como um assassino em potencial.
• A mulher casada que tenha a mais leve desconfiança de que seu marido mantém relações extraconjugais precisa exigir a camisinha. Se desconfiar que o parceiro pode ter relações homossexuais, então, a exigência é muito mais urgente.
Isso é o que dizem os médicos e especialistas no comportamento de pessoas que se contaminaram. A mesma sugestão, no entanto, acaba sendo colhida da principal das vítimas: a mulher. Ouça-se pela última vez a pedagoga Jerusa Maria Mendes, de Pernambuco: "Depois de odiar meu marido num primeiro momento, depois de me odiar, passei a ver uma coisa que não via antes. Reconheço que a culpa pela presença do vírus no meu corpo é dos dois: dele por ter me contaminado e minha por não ter exigido a camisinha. Se eu pudesse voltar atrás, teria tomado essa decisão tão simples e hoje seria saudável".

No ano passado, a Aids matou 2,3 milhões de pessoas em todo mundo. Nenhuma outra doença fez tantas vítimas

Jerusa Maria Mendes, Recife 38 anos, pedagoga, cinco filhos.
Ano do diagnóstico: 1995

Romilda de Lima, Curitiba 36 anos, secretária, três filhos.
Ano do diagnóstico: 1994

Angélica Silveira, São Paulo 24 anos, estudante de arquitetura.
Ano do diagnóstico: 1994

Simone Borges, Rio de Janeiro 29 anos, técnica de radiologia.
Ano do diagnóstico: 1996

Greicilene Rodrigues, São José dos Campos 24 anos, dona de casa.
Ano do diagnóstico: 1993

Maria Beatriz Dreyer Pacheco, Porto Alegre 49 anos, advogada, quatro filhos.
Ano do diagnóstico: 1997

Elizabete do Rocio Chagas, Curitiba 36 anos, vendedora, três filhos.
Ano do diagnóstico: 1994

Jacqueline Normandia, Belo Horizonte 32 anos, operadora de telemarketing.
Ano do diagnóstico: 1991

Maria Helena Araújo, Florianópolis 46 anos, escrivã aposentada.
Ano do diagnóstico: 1991

 

Quem são as mulheres que pegam Aids

76% são mães
71% foram contaminadas por maridos ou namorados fixos
59% descobrem que estão com o vírus depois que o marido adoece
51% têm até o 1º grau completo
41% têm entre 25 e 35 anos
40% trabalham

O avanço entre as mulheres

Em 1985, a proporção entre homens e mulheres com Aids era de 25 homens para 1 mulher
Hoje essa proporção é de 2 homens para 1 mulher

Fontes: Ministério da Saúde e amostra feita pela Universidade de São Paulo, USP

 

Não posso ter filhos

Greicilene Rodrigues

“Eu desconfiei que poderia estar contaminada pelo vírus da Aids antes mesmo de fazer um exame. É que meu marido, de uma hora para outra, ficou muito doente. Desenvolveu uma tuberculose que não sarava mais. Fiquei sabendo que era Aids, e o teste a que me submeti foi apenas uma confirmação. Nunca senti raiva. Minha única preocupação foi cuidar dele até o fim. Acompanhava suas idas semanais ao médico, tomava conta dos horários de medicamento e cozinhava legumes e verduras duas vezes ao dia. Como ele dormia só quatro ou cinco horas por noite, eu também ficava acordada. Depois desse período terrível, ele se recuperou e viveu mais quatro anos como uma pessoa normal. Foi a melhor fase do nosso relacionamento. Quando ele morreu, perdi o rumo. Entrei em depressão e não saí de casa por uns dois meses. Agora estou num grupo de auto-ajuda e encontrei um namorado soropositivo. Ainda não desenvolvi a doença, mas a Aids me tirou um grande sonho: não vou poder ter filhos.”

 

A gente ia se casar

Angélica Silveira

“Começamos a namorar quando eu tinha 15 anos de idade. Depois de seis anos de namoro e um de noivado, já tínhamos comprado apartamento e o meu enxoval estava completo. Faltava apenas marcar a data do casamento. Foi quando ele começou a ficar muito magro e doente. Dizia que era um problema intestinal. Só descobri que era Aids porque peguei uma caixinha do remédio que ele estava tomando, Estavudina, da família do AZT, fui até a farmácia e o senhor que me atendeu explicou para que servia. À noite perguntei: ‘Nós estamos com Aids?’. Foi aí que descobri que o homem que eu amava estava morrendo sozinho sem me contar. Fiz o meu teste e, é claro, deu positivo. Fiquei desesperada, mas na hora ainda estava muito magoada por ele não ter confiado em mim. A doença nele foi fulminante. Três semanas depois que fiquei sabendo, ele morreu e eu achei que ia ser a próxima. Comecei a me destruir. Saía toda noite, bebia muito e não tomava os remédios. Depois de um ano encontrei outra pessoa que me ajudou muito e estou muito bem. Iniciei o tratamento com o coquetel, engordei e voltei a estudar.”

 

A fidelidade me traiu

Simone Borges

“Não sou promíscua. Nunca fui. Só mantinha relações sexuais com meu namorado. Mas talvez se eu fosse, hoje não teria contraído o vírus da Aids. Não me preveni, não pedia a ele que usasse camisinha, como se o amor me proporcionasse imunidade. Mas a fidelidade me traiu. Histórias como a minha há muitas. Eu me apaixonei pelo meu namorado, que conheci por intermédio de um amigo comum. Um ano depois, ao fazer um exame de rotina, descobri que estava com o vírus. Quando peguei o resultado, simplesmente desabei. Quantas de nós deixam de se proteger em nome do amor, ou do ‘o que ele irá pensar de mim?’. A pessoa amada é sempre idealizada e perfeita. Esquecemos que há lá atrás um passado de amores vividos. Por que não dialogar sobre o uso do preservativo pelo menos até o resultado do teste? Um homem aparentemente saudável, um colega de trabalho ou de faculdade pode estar infectado. Todo meu projeto de vida foi alterado. Coisas que eu pensava que teria anos para realizar passam a ter urgência.”

 

Reações opostas

Frases típicas de homens e mulheres ao ser informados que estão contaminados pelo vírus da Aids, conforme depoimentos de médicos e pacientes colhidos por Veja

Homens
"Não é verdade. Vou fazer outro exame"
"Vão pensar que sou gay"
"Vou levar a vida como se nada tivesse acontecido"
"Minha mulher não pode saber"
"Não vou contar para ninguém"
"Se minha mulher também pegou Aids, a culpa é minha"

Mulheres
"É injusto. Nunca fiz nada para pegar Aids"
"Vou morrer. Quem vai cuidar dos meus filhos?"
"Meus filhos precisam fazer um teste para saber se também estão contaminados"
"Meu marido me traiu. Eu mato aquele miserável"
"Vou contar para a minha família. Eles vão saber entender"
"Não vou me separar porque não terei como me sustentar"

Comportamento de homens e mulheres heterossexuais. Não inclui homossexuais, viciados e pacientes de transfusão de sangue

 

Ele sabia havia seis meses

Jacqueline Normandia

“Ele sabia que estava com Aids havia pelo menos seis meses e continuou levando o nosso casamento como se nada tivesse acontecido. Seguíamos mantendo relações sexuais sem preservativo. Ele mentiu logo para mim, que confiava cegamente no seu amor. Só soube que ele estava com Aids quando minha sogra avisou. Fiquei com tanta raiva que perdi o controle e bati nele. Fiquei com ódio. Estávamos casados havia cinco anos e depois da notícia nossa relação acabou. Não me separei porque tive medo de que as pessoas não me aceitassem. Não tenho como esquecer que estou com o HIV porque a discriminação está em toda parte. Uma vez, ao contar a um dentista que era portadora do vírus, ele disse que não podia me atender. Parei de fazer a unha com minha manicure depois que ela perdeu várias clientes por minha causa. Minha irmã também já perdeu um namorado depois que contou a ele que eu tinha Aids. Mesmo assim, não me arrependo de ter assumido a doença. Não conseguiria enganar as pessoas como meu marido me enganou.”

 

Tentei o suicídio

Elizabete do Rocio Chagas

“Para mim, a Aids me fazia lembrar do Cazuza na fase terminal da doença: um pouco de pele por cima dos ossos. Quando a notícia sobre minha contaminação se espalhou, tinha vizinho que corria para dentro de casa quando eu passava. Todos me evitavam. Eu mesma não sabia como me comportar. Poderia me aproximar dos meus filhos? Pegá-los no colo? Beijá-los? Eu queria morrer. Tentei o suicídio três vezes tomando remédios e me cortando com uma faca. Fiquei com muita raiva do meu marido, mas eu ainda o amava e não me separei dele. O desejo superou o trauma e a gente continuou mantendo relações sexuais. Um dia ele não tinha preservativos, nem eu. Como éramos soropositivos, não nos preocupamos. Acabei ficando grávida. A família dele queria que eu abortasse, mas não admiti. A Jessica nasceu infectada, mas depois de dois anos os exames mostraram que ela não vai desenvolver a doença. Nunca recebi uma notícia tão boa.”

 

Tive vontade de matá-lo

Romilda de Lima

“Eu soube que estava com a doença por acaso. Apareceram uns nódulos no meu pescoço e fui consultar-me. Acabei fazendo alguns exames, entre eles o do HIV. Deu positivo. Estava casada há dezessete anos e não usava camisinha. Para mim, o preservativo era um bom método anticoncepcional. Mas eu tinha feito laqueadura depois do terceiro filho e não precisava disso. Jamais passou pela minha cabeça, como de resto pela cabeça da maioria das mulheres, que manter relações sexuais com o marido pudesse ser tão perigoso. Só vivia para a família, enquanto o meu marido me traía. Minha revolta era tão grande que pensei seriamente em matá-lo, mas não tive coragem. Felizmente já estávamos separados há dois meses, quando soube. Um dos momentos mais duros após a contaminação foi dar a notícia para meus filhos. Minha filha mais velha tinha 15 anos. Ela me viu chorando e perguntou o que havia acontecido. Eu não queria falar, mas não resisti. Para evitar que meus filhos passem por uma experiência semelhante, sempre falo sobre sexo seguro e em casa sou eu que forneço a camisinha para eles.”

 

A Aids de mãe para filho

Na esteira do avanço da epidemia de Aids entre mulheres está também o crescimento de um tipo ainda mais cruel de contaminação. É a transmissão perinatal do vírus, aquela que acontece da mãe soropositiva para o filho. O primeiro caso foi registrado no Brasil em 1985. Desde então, 40% das 3.596 crianças que nasceram carregando o vírus da Aids morreram. As sobreviventes, algumas passando hoje pela pré-adolescência, enfrentam uma rotina de medicamentos e preconceito. Muitas delas nem freqüentam escola porque não suportam o peso da discriminação. "O revoltante é que a maior parte dos casos de crianças com Aids poderia ser evitada", afirma a infectologista Marinella Della Negra, responsável pela ala de atendimento de crianças soropositivas do hospital paulista Emílio Ribas.
O fato de uma mãe ter o vírus da Aids não significa que a criança também seja infectada. A contaminação ocorre em um de cada quatro nascimentos. A transmissão do vírus, na grande maioria dos casos, não acontece durante a gestação, mas no parto. Na hora de nascer, a criança é banhada de sangue contaminado e o vírus penetra no organismo do bebê por meio de lesões microscópicas que são comuns na hora do nascimento. Se a gestante se tratasse com o remédio AZT, a quantidade de vírus que atinge a criança diminuiria drasticamente. Se a criança também tomar doses diárias de AZT nas primeiras seis semanas de vida, o vírus não se alastra e pode regredir. Com AZT, o risco de o bebê se tornar um soropositivo cai de 25% para 8%. O desafio de diminuir o número de registros da Aids perinatal depende também de informação médica. "Quando consulta uma gestante, os médicos pedem uma série de exames, mas não o de HIV. É uma negligência criminosa", acusa o infectologista paulista Caio Rosenthal. A prova desse pouco-caso é que no ano passado sobraram duas de cada três caixas de remédio anti-Aids na rede oficial de saúde. No período, mais de 600 crianças nasceram infectadas.

Contaminados ao nascer
Em dez anos, os casos registrados de Aids em recém-nascidos aumentaram quase vinte vezes
33 casos - 1987
641 casos - 1996

Fonte: Ministério da Saúde

 

Com reportagem de Dina Duarte, do Recife, Luciano Patzsch, de Curitiba,
Fabiana Godoy, de São Paulo, Consuelo Dieguez e Ronaldo França, do Rio de Janeiro,
Daniella Camargos, de Belo Horizonte, e Cristine Prestes, de Porto Alegre

 
 
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