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ABORTO
 


“Nós fizemos aborto”

Mulheres de três gerações enfrentam a lei, o medo
e o preconceito e revelam suas experiências

Andréa Barros, Angélica Santa Cruz e Neuza Sanches
Com reportagem de Cíntia Campos e Marcia Guena, de Salvador, Juliana De Mari,
do Recife, Marcos Gusmão, de Belo Horizonte, Alexandre Oltramari e Ricardo Vilela,
de Porto Alegre, Raquel Almeida e Roberta Paixão, do Rio de Janeiro, e sucursais

Elas resolveram falar. Quebrando o muro de silêncio que sempre cercou o aborto, oito dezenas de mulheres procuradas por VEJA decidiram contar como aconteceu, quando, por quê. Falaram atrizes, cantoras, intelectuais — mas também operárias, domésticas, donas de casa. Falaram de angústia, de culpa, de dor e de solidão. Também falaram de clínicas mal equipadas, de médicos sem escrúpulos, de enfermeiras sem preparo, de maridos e namorados ausentes. A apresentadora Hebe Camargo contou que, quando era uma jovem de 18 anos, ficou grávida do primeiro namorado e foi parar nas mãos de uma curiosa que fez a cirurgia sem anestesia nem cuidado. A atriz Aracy Balabanian, a Cassandra do Sai de Baixo, ficou grávida quando estava chegando aos 40 anos e dando fim a um longo relacionamento. Resolveu fazer o aborto, convencida de que a criança não teria um bom pai nem ela seria capaz de criá-la sozinha. Metalúrgica da Força Sindical, a mineira Nair Goulart, 45 anos, fez dois abortos nos anos 70 por motivos econômicos. Ela e o marido, também operário, ganhavam pouco, viviam num quarto de despejo e não teriam meios de educar nenhum filho.

Quando o Congresso brasileiro debate a regulamentação de uma legislação que autoriza a realização de aborto apenas em caso de estupro e de risco de vida para a mãe — como está previsto no Código Penal desde 1940 —, a disposição das mulheres que falaram a VEJA não é apenas oportuna, mas também corajosa. Embora o 1º Tribunal do Júri de São Paulo, o maior do país, já tenha completado mais de uma década sem condenar nenhuma mulher em função do aborto, a legislação estabelece para esses casos penas que vão de um a três anos de prisão. E a maioria delas não fez aborto pelos motivos previstos em lei, mas porque, cada uma em seu momento, cada uma com sua história pessoal, considerou as circunstâncias e concluiu que interromper a gravidez era uma saída menos dolorosa do que ter um filho que não poderia criar.

Juízes anômalos — A maioria das pessoas ainda não se deu conta, mas, num movimento discreto o suficiente para que não se produzam escândalos, porém eficaz a ponto de produzir resultados em escala apreciável, um número cada vez maior de mulheres, juízes e médicos procura e encontra brechas cada dia mais amplas para realizar abortos com amparo legal, em hospitais públicos, com condições de higiene e saúde que em nada lembram aquelas clínicas de má fama e tantos traumas do passado. O prédio da 16ª Vara Criminal de São Paulo é o mais movimentado do Judiciário no Estado. No 16º andar, esse burburinho é menos acentuado. Ali trabalham o juiz corregedor e quatro juízes auxiliares da Polícia Judiciária do Estado, chamados de brincadeira pelos corredores de “os anômalos”. Desde 1993, eles concedem alvarás para a chamada interrupção médica da gravidez, o aborto feito por anomalia fetal. Pelas contas do juiz corregedor Francisco José Galvão Bruno, mais de 130 alvarás saíram dali. Para se ter uma idéia, todos os outros Estados da União somados acumulam apenas 300 alvarás concedidos desde 1991. No setor dos “anômalos”, um alvará sai em três dias. Se a gravidez envolve anomalia grave, incurável e sem perspectiva de sobrevida prolongada para o bebê, nunca é recusado. Todos os casos do gênero são resolvidos com uma justificativa padrão — pois, a rigor, não existe amparo legal para esse tipo de aborto, já que o Código Penal apenas fala em casos de estupro e risco de vida para a mãe. O juiz e seus auxiliares, no entanto, consideram que, ao autorizar o aborto em caso de estupro, os legisladores do Código Penal brasileiro tinham em mente a manutenção da saúde mental da mãe. Ora, raciocinam, os casos de anomalia fetal não foram incluídos no Código porque em 1940, quando foi elaborado, não havia tecnologia suficiente para identificar doenças em fetos. “Mas, por analogia, consideramos que casos de anomalia fetal são graves ameaças à saúde mental das mães. Portanto, concedemos os alvarás”, justifica Galvão Bruno.

A rapidez e a justificativa padrão transformam o setor do juiz Galvão Bruno numa espécie de linha de produção de alvarás. O pedido chega, acompanhado de dois laudos médicos, é rapidamente analisado e a autorização legal para o aborto é concedida. Hoje, é simples. Mas, como tudo o que envolve o aborto, já houve conflitos por ali. “Para chegar a essa serenidade foi um sufoco”, diz o juiz. O primeiro caso de aborto por anomalia chegou às suas mãos logo que assumiu o comando da Polícia Judiciária, em 1993. Quando lembra do episódio, ele define: “Foi uma decisão sofrida”. Casado com uma espírita, pai de dois filhos, 46 anos e católico praticante, Galvão Bruno é contra o aborto. Teve até uma experiência traumática, quando sua mulher sofreu um, espontâneo. “Vi o feto, de oito meses, e fiquei traumatizado. Nunca permitiria que minha esposa ou minha filha abortassem”, conta. Para começar a decidir sobre o assunto, debruçou-se numa pesquisa sobre doutrinas religiosas, procurou referências sobre o tema em autores como São Tomás de Aquino e Santo Agostinho, afogou-se em debates com religiosos. O primeiro alvará para aborto por anomalia fetal de São Paulo foi concedido no dia 5 de novembro de 1993, pelo juiz Geraldo Pinheiro Franco, católico. Galvão Bruno teve longas conversas com ele. “Cheguei à conclusão de que minhas convicções pessoais e religiosas devem ficar em segundo plano quando estou no papel de juiz. Tenho aqui em meu escritório cinco juízes auxiliares — um espírita e quatro católicos. Nenhuma mulher. Quando estamos decidindo, a lei é a nossa religião. Isso é o bastante para nossa consciência. O fato é que não podemos comprometer a saúde mental de mães que estão passando por uma situação terrível”, diz.

Discussão interminável — Essa é a mudança. A decisão individual, privada, reservada, antes escondida, começa a invadir a esfera pública. Fala-se, discute-se. Porque a decisão sobre um aborto envolve aqueles dilemas morais insolúveis, que lidam com vida e morte e, de certa maneira, é irmã gêmea da discussão sobre a eutanásia. Feministas de longa jornada, como a socióloga Danielle Ardaillon, que nesta semana defenderá sua tese de doutorado na USP sobre o tema, aponta: “As mulheres sabem que a responsabilidade final é delas. O difícil é enfrentar a pressão dos valores mais prezados, o diz-que-diz, e, muito mais importante, como decidir não apenas com a cabeça tão cheia, mas com o corpo habitado?”. A poeta americana Adrienne Rich escreveu uma bela definição do que venha a ser essa habitação: “A criança que carrego por nove meses não pode ser definida nem como eu nem como não-eu”. Aí o drama. O aborto dispõe sobre a vida de um outro. Quem tem o direito de atentar contra ela? Não é doloroso autorizar o aborto, quando se sabe que dentro de poucos meses aquele ser de formas arredondadas vai crescer, depois estará andando, sorrindo, terá um nome, fará brincadeiras? É muito doloroso. A força dos argumentos religiosos, que tanto podem ser sinceros como apenas manipulados, vem daí. Fala dom Rafael Cinfuentes, responsável pela Pastoral Familiar da Arquidiocese do Rio de Janeiro e um dos principais organizadores da visita do papa em 2 de outubro: “Entre o embrião, o feto e o bebê não há uma diferença qualitativa. No início da fecundação já é uma vida humana”. Bem diferente de fundamentalistas, dom Rafael embasa seu raciocínio em considerações de biologia molecular: “Esse é um princípio insofismável da genética moderna: dono de todo o patrimônio genético humano, o feto tem vida. Por isso, a legalização do aborto é a legalização de homicídio. É o Estado, que deveria zelar pela vida de todos, inclusive dos mais desprotegidos, assumindo a posição de algoz. O bebê está indefeso, inocente. Ele não tem advogado de defesa. É como se o seio materno estivesse passando de lugar acolhedor, de proteção, para cadeira elétrica”.

Culpa — Dom Rafael tem lógica no que diz. Tanto que nenhuma mulher que fez aborto consegue referir-se ao fato com a naturalidade da pessoa que foi lixar unhas no cabeleireiro. “Tem hora em que eu lembro que fiz um aborto e digo para mim mesma: ‘Não havia outra saída, eu agi corretamente’ ”, fala a cantora Elba Ramalho, 46 anos, um filho, um aborto, que realizou 24 anos atrás, numa clínica no Recife. “Mas depois eu penso de novo e fico em dúvida: ‘Será que agi certo, mesmo?’ ” A própria Elba completa: “Se ficasse grávida de novo, não faria o aborto mesmo que não desejasse o filho”. VEJA encontrou mulheres que admitiram ter realizado um aborto mas não conseguem conviver com o fato. Não importa que não estivessem em condições de criar a criança que levavam no ventre, que depois tiveram filhos saudáveis, criados com todo carinho, e algumas estejam até à espera dos netos — em muitos casos sobrou uma coisa amarga, uma tristeza, uma culpa. “É sempre um caso de extrema necessidade”, afirma a socióloga e professora Maria Ligia de Moraes, da Universidade de Campinas. Maria Ligia abortou no exílio, quando se tornara viúva de Alberto Nehring, engenheiro que militou numa organização armada e foi morto pelo porão militar. Foi a decisão mais lúcida que poderia ter tomado, mas, mesmo assim, ela é dessas pessoas que de certa maneira sentem necessidade de dizer e repetir: “Adoro minha filha, adoro criança, adoro meus netos”.

A atriz Cássia Kiss, 39 anos, um aborto, dois filhos, lembra: “As pessoas têm de ter consciência de que o aborto, em qualquer circunstância, é um crime”, afirma. Ela baseia sua opinião em dois fatos de sua vida. Em 1990, alguns anos depois de ter feito o aborto, Cássia Kiss fazia parte do elenco da novela Pantanal, da Rede Manchete. Ela interpretava uma mulher forte, parideira, de nome Maria Marruá. Em uma cena antológica, a personagem dá à luz a menina Juma Marruá. “Fiquei emocionadíssima durante as gravações dessa cena. Logo depois, chorei copiosamente durante quase uma hora. Foi um momento divino. Ali comecei a descobrir o valor da maternidade e da importância de ter um filho”, diz. Numa segunda fase de sua vida, já casada e disposta a ter um filho, engravidou. Mas, com três meses de gravidez, Cássia foi surpreendida por um aborto espontâneo. “Recebi aquilo como um castigo de Deus. Mesmo traumatizada resolvi que iria tentar novamente, quantas vezes fossem necessárias. Hoje eu acho que me recusaria a fazer qualquer exame, pois, mesmo que ficasse comprovado algum problema com o bebê, ainda assim eu levaria a gravidez adiante.”

É tão difícil tomar a decisão de fazer um aborto que, nos países onde essa cirurgia foi legalizada, a mulher que resolve fazer a operação é obrigada a cumprir uma jornada de reflexão, em geral de uma semana — para que possa amadurecer a idéia, evitando fazer algo de que venha a se arrepender mais tarde. Uma pessoa com valores religiosos muito arraigados talvez nunca deva fazer um aborto — pois seu risco será de sentir-se mal pelo resto da vida, ainda que tenha extraído do útero um feto doente, incapaz de levar uma vida normal ou mesmo de sobreviver por mais do que alguns dias. Fora do mundo da doença e da violência, a discussão do aborto coloca-se, na realidade, para mulheres ocupadas em tocar sua vida, ou com falta de dinheiro e mesmo de neurônios maduros para cuidar de um filho no momento. Quando é possível fazer um aborto? Depende.

Guilhotina — Uma mulher que vivesse na Suíça, no século XIII, seria enterrada viva — pois essa era a punição para quem interrompesse a gravidez, mesmo demonstrando a extraordinária coragem necessária para enfrentar a medicina daquela época. Se estivesse na França, durante a II Guerra, o risco seria a guilhotina — a pena pelo aborto sob a ocupação nazista. Por outro lado, se vivesse na Idade Média e fosse católica fanática, com a felicidade de ser aconselhada pelo maior pensador de seu tempo, Tomás de Aquino, poderia fazer o aborto com a bênção dos céus. Ao contrário dos prelados de hoje, Tomás de Aquino era favorável ao aborto. Pelas concepções da Igreja da época, que acompanhava o que se conhecia do organismo humano, pensava-se que a vida começava depois do nascimento — e não antes. Assim, o aborto podia ser feito sem receio algum. O mesmo acontecia entre alguns índios brasileiros antes do desembarque de Pedro Álvares Cabral, em 1500, como anotou o padre José de Anchieta: “Essas mulheres brasílicas mui facilmente movem (abortam): ou iradas contra seus maridos, ou não os têm por medo; ou por outra qualquer ocasião mui leviana bebem beberagens, ou apertam a barriga, ou tomam alguma carga grande”. No final do século XX, no Brasil, nem todas as religiões condenam o aborto. Os evangélicos estão divididos entre os que o combatem com dureza e aqueles que o admitem em alguns casos. Favorável à legalização do aborto, o pastor Jaime Wright, reverendo da Igreja Presbiteriana, acha que “é um direito da mulher decidir o que fazer”. Nem todas as fileiras da Igreja Católica têm a mesma opinião que o papa João Paulo II. Religiosos do círculo do cardeal Paulo Evaristo Arns admitem a chamada pílula do dia seguinte — que age após o encontro do espermatozóide com o óvulo e impede a fixação do ovo humano no útero, produzindo uma espécie de aborto químico.

Como sempre acontece, são os valores de cada época e de cada lugar que determinam a discussão sobre temas delicados como esse. Algumas mudanças de valores são tão gigantescas que não podem sequer ser discutidas. Podem ser provadas com apenas uma consulta ao IBGE, que registra que a entrada das mulheres no mercado de trabalho deu fim à família extensiva, aquela com oito, dez ou mais filhos. Segundo o último censo demográfico, as mulheres que se encontram na faixa dos 20 aos 24 anos e não trabalham têm três vezes mais filhos do que as economicamente ativas. Na faixa dos 25 aos 29 anos, 50% das mulheres economicamente ativas não têm filhos. Entre as que não trabalham, esse porcentual é de apenas 17%. “São números reveladores de como a vida profissional se contrapõe aos filhos, embora não saibamos se essas mulheres não trabalham porque têm filhos, ou não têm filhos porque trabalham”, diz a demógrafa da Fundação Seade e doutora em saúde pública Maria Graciela Morell.

Anomalia — “O debate não deve girar em torno da vida no ventre da mãe, mas do tipo de vida que o feto terá depois do nascimento, quando se transforma num bebê, num cidadão”, considera o obstetra Thomaz Gollop, professor de genética médica da Universidade de São Paulo. A julgar pelo número de mulheres que fazem aborto no Brasil, essa discussão vem sendo feita todos os dias — e é imensa a quantidade daquelas que acham melhor interromper a gravidez. Legalmente, o número é baixíssimo. Somando os casos de anomalia com os de estupro e risco de vida para a mãe, desde 1989 em todo o país foram feitos apenas 205 abortos legais. A questão é a clandestinidade. O número mais aceito de abortos é uma enormidade — 1,4 milhão por ano. Como nascem perto de 3 milhões de crianças, conclui-se desse cálculo que de cada catorze mulheres que ficam grávidas dez vão para a maternidade — e quatro entram numa clínica clandestina para fazer aborto. Num puro exercício matemático, e supondo que as mulheres só fizessem um aborto na vida, pode-se até imaginar que, percorrido o prazo de 25 anos, o equivalente a toda a população feminina brasileira teria feito aborto. É difícil adivinhar onde se pode realizar 1,4 milhão de cirurgias desse tipo sem causar um imenso transtorno em hospitais, clínicas e consultórios médicos — pois a rede pública do Estado de São Paulo, que é de longe a maior do país, possui 85.000 leitos.

Ainda que tais estimativas mereçam a credibilidade de qualquer outra estatística brasileira, é tão fácil encontrar pessoas que tenham feito um ou mais abortos na vida que a conclusão é que têm boas raízes na realidade. Como a pílula anticoncepcional e o DIU são invenções recentes, e a camisinha só teve seu grande momento depois da Aids, o aborto é tão mais comum quanto maior for a idade da mulher. “Com tantos métodos à disposição, é só em último caso que o aborto se apresenta hoje”, diz a deputada Marta Suplicy. “Antigamente não era assim.” VEJA conversou com 22 estudantes da USP na última quarta-feira. Todas usam métodos para evitar filhos. Apenas uma, a aluna do 3º ano de química e diretora do DCE Renata Mielli, 25 anos, admitiu já ter feito um aborto. Nenhuma delas, porém, descarta liminarmente a hipótese de fazer um. “Ninguém na nossa idade quer ser mãe”, explica Natasha Madov, 21 anos, que cursa o 3º ano de jornalismo. “Só ficando grávida para saber.”

Uma amostra de que o aborto varia conforme a idade se encontra nos depoimentos dados à revista. Entre as mulheres ouvidas, 57,3% têm mais de 45 anos. Outras 38,2% têm entre 26 e 40 anos. Apenas 4,5% têm até 25 anos. Dona Marília, 90 anos, mãe da empresária e atriz Ruth Escobar, fez dois abortos. A própria Ruth fez três. Ela tem três filhas, das quais duas fizeram um cada uma. Numa das vezes, a própria Ruth foi com a filha até a clínica. “Foi difícil”, lembra a empresária. “Eu, que era uma personalidade conhecida, que havia declarado publicamente minha posição a favor da legalização do aborto, acabei naquela situação.” Nas antigas clínicas que realizam aborto no país, o movimento tem diminuído. Em grande parte isso aconteceu porque hoje em dia não é preciso fazer uma cirurgia para provocar um aborto.

Existe uma droga, originalmente fabricada contra úlcera, chamada Cytotec, que é usada como abortivo em vários países, inclusive no Brasil. Sua venda é proibida, o único meio de encontrá-la é por contrabando, mas o Cytotec é um sucesso. Estima-se que 80% dos abortos realizados no país empreguem esse tipo de remédio. O preço é de 100 reais por quatro comprimidos no mercado negro, enquanto um aborto numa clínica com jeito de hospital decente pode chegar a 2.000 reais. Há dois anos, a primeira-dama americana, Hillary Clinton, visitou uma maternidade em Salvador, mostrando-se horrorizada com os casos de mulheres com seqüelas de abortos malfeitos, em qualquer quartinho sujo. Hillary chegou a filmar o hospital para exibir as cenas mais chocantes nos Estados Unidos — para demonstrar como fica ruim a vida das mulheres em países onde o aborto não é legalizado. Dois anos depois de uma visita tão ilustre, a diretora do lugar, Sara Barbosa, comemora a diminuição de óbitos na chamada “enfermaria do aborto”.

“O Cytotec chegou à Bahia”, diz ela. À venda por contrabandistas, a droga provoca contrações fortíssimas, que produzem hemorragias intensas. Sua eficácia não é garantida. O embrião pode não sair — provocando uma infecção gravíssima na mulher. Ou seja: não é nenhuma sétima maravilha abortiva. Mesmo na era do Cytotec, contudo, registram-se casos de mulheres que interrompem a gravidez em situação brutal. A estudante pernambucana Cisleide Silva, 19 anos, deu entrada na emergência do Hospital Tricentenário, em Olinda, às 11 horas da terça-feira passada. Amparada por familiares, estava pálida, com febre e sangramento — ocasionados por um aborto induzido cinco dias antes. Cisleide tomou dois comprimidos de Cytotec, que expulsaram o feto lentamente. Exames no hospital mostraram que a gravidez foi interrompida no terceiro mês. Mãe de uma menina de 2 anos, Cisleide ficou desesperada quando soube que estava grávida. Ela não trabalha, cursa o 2º. grau e mora com o marido, Antonio Pereira, de 23 anos, na casa dos pais. Motorista de caminhão, Pereira ganha 460 reais por mês. Cisleide não esperava que fosse padecer tanto tomando Cytotec. “As cólicas eram tão fortes que parecia que eu estava parindo”, diz.

É difícil encontrar profissionais curtidos pelos corredores dos hospitais públicos brasileiros que não usem o tempo inteiro a frase “Aborto é uma questão de saúde pública”. A chefe do departamento de enfermagem da Universidade Federal de São Paulo, Lucila Viana, 54 anos, é uma dessas pessoas. “Durante anos, vi mulheres desesperadas chegando ao hospital e dizendo que não podiam e não queriam ter filhos. É uma realidade triste e constrangedora para quem trabalha com saúde. Qualquer resposta é inadequada. Não podemos aconselhar ninguém a fazer aborto, porque isso é ilegal. E como vamos dizer para não fazer? O sentimento de frustração e impotência é incrível”, conta.

A clandestinidade que envolve os abortos também lança um manto de mistério sobre suas conseqüências. Não se tem muito controle sobre o que acontece nesse submundo. Intrigada com essa névoa, Lucila resolveu puxar o fio da meada pelo lado mais trágico, o das mortes declaradas. Em sete hospitais públicos da periferia de São Paulo, descobriram-se oito óbitos diretamente atribuídos a abortos, em dados de 1994. Na verdade, sabe-se que o número é bem maior. A maioria é registrada através de suas causas finais. Uma morte por aborto precário, por exemplo, pode ser arquivada como um caso de embolia pulmonar, hemorragia uterina ou septicemia. Na lista disponível, havia uma adolescente de 16 anos e outra de 17. As demais mulheres tinham 20, 30, 31, 33 e 35 anos. Lucila foi até a casa das famílias delas e encontrou um perfil parecido. Todas eram solteiras, tinham o 1o. grau, namorado fixo e moravam na periferia. Em todos os casos, a família não sabia que estavam grávidas. Por isso, elas demoraram muito a procurar socorro depois que surgiram as complicações. Morreram sem que ninguém soubesse que métodos abortivos usaram. São baixas causadas pelo limite do abandono, da ignorância. “Essas mortes são pavorosas, porque dolorosas, solitárias, envolvidas em segredos e baseadas na falta de conhecimento. E só acontecem com mulheres pobres, que dependem de um local público para fazer qualquer intervenção”, diz Lucila.

Em um túmulo simples no cemitério da Santa Casa em Porto Alegre, identificado apenas pelo número 1.311 e uma rosa de plástico vermelha, está o corpo de Maria Barbosa da Silva, 29 anos, morta há pouco mais de um mês em decorrência de um aborto clandestino. Por dez dias, Maria suportou em silêncio o aborto e as dores em decorrência de uma infecção generalizada contraída na clínica clandestina. Só quando não deu mais para disfarçar foi para o hospital onde ainda agonizou por dezessete dias antes de morrer. Manteve até o fim o pacto de silêncio exigido pelos aborteiros: o de nunca revelar quem fez o trabalho caso algo saia errado.

O pior método — A mãe, dona Senhorinha Barbosa da Silva, 69 anos, foi pega de surpresa. Já tinha notado que a filha andava pálida, insistia em levá-la ao posto da Vila Tronco, onde mora em Porto Alegre, mas Maria se negava. “Ela não tinha força para nada, nem para lavar a roupa”, lembra. Até que, numa manhã de julho, Maria passou mal e foi hospitalizada. Somente aí dona Senhorinha ficou sabendo que a filha tinha feito um aborto. “Se ela tivesse me contado, eu aconselharia a não fazer”, diz Senhorinha, que, apesar de no seu tempo não haver anticoncepcionais, teve apenas três filhas. O método que usava era simplesmente não manter relações — outro fato a lembrar como essa questão envolve os valores de cada um.

Imaginar que a legalização do aborto aumente o número de casos é uma visão enganosa sobre o problema. Na Itália, os casos registrados caíram 20%. Na França, eram 250.000 abortos em 1976, foram 195 000 em 1992. Em Cuba, com a legalização, houve uma queda de 50% nos últimos cinco anos. O mais importante, porém, é que menos mulheres morrem quando o aborto é legalizado. Porque é mais fácil pedir ajuda, é mais fácil atender, ninguém tem medo de falar do problema. Em 1973, na França, morreram 27 gestantes em decorrência de abortos realizados nos últimos meses na clandestinidade. Em 1992, o número de mortes caiu para três. Nem na França nem em qualquer país do mundo se pensa que o aborto seja o melhor método para uma mulher evitar filhos. É o pior — o mais traumático, o mais doloroso, o que mais deixa seqüelas, físicas e emocionais. O melhor, sempre, é o planejamento. Mas, depois que todos os outros recursos foram tentados, pode ser a última saída. “Nossa legislação é um dinossauro”, afirma a deputada Zulaiê Cobra Ribeiro, nenhum aborto, que foi chamada de assassina e carniceira ao decidir-se a favor da regulamentação dos casos de aborto previstos no Código Penal.

Se o principal tribunal de júri do país não registra uma condenação de mulher que tenha feito aborto há pelo menos dez anos, o médido Aníbal Faundes, um professor reputado, titular da cadeira de obstetrícia da Unicamp, até hoje está sendo processado por uma entrevista dada em junho de 1994. Na época, Faundes declarou que o Centro de Assistência Integral à Saúde da Mulher, que coordenava, fazia abortos em casos de malformação de fetos sem condições de sobreviver. “Eu me sinto muito mal quando me chamam de aborteiro, porque não me sinto aborteiro. Tenho muitas restrições a quem faz aborto por dinheiro. É a exploração de uma desgraça. Cobra-se não pelo ato médico, mas pela ilegalidade”, disse ele. Herói das mulheres que lutam pela descriminação do aborto, Faundes nunca se furtou a fazer, ele mesmo, as interrupções de gestação previstas em lei, quando outros médicos do serviço se recusavam. “Criminalizar o aborto só piora, é uma agressão física e emocional à mulher.” Com uma carreira acadêmica brilhante, Faundes fala do aborto com conhecimento de causa. “O país que tem o menor índice de abortos do mundo é a Holanda, que é de 0,5 para cada grupo de 100 mulheres. Sabe por quê? Porque, além de ser legalizado, ali se faz campanha de educação sexual, o funcionamento da pílula é explicado.” O médico também lembra um detalhe muitas vezes esquecido: não há proteção apenas para quem quer evitar filhos — mas também para quem deseja tê-los. “Como é que o Estado julga-se no direito de obrigar as mulheres a ter filhos, se ele é incapaz de garantir o mínimo para essas mães e seus bebês?”, pergunta a psicóloga Edna Roland, 46 anos, um aborto.

Elas fizeram aborto:

• Cássia Kiss, atriz
• Marli Medeiros, líder comunitária
• Cissa Guimarães, atriz
• Maria Adelaide Amaral, escritora
• Elba Ramalho, cantora
• Ruth Escobar, empresária, e mãe, Marília
• Edna Roland, psicóloga
• Marília Gabriela, jornalista
• Tata Amaral, cineasta
• Nair Goulart, metalúrgica
• Ivonete da Silva, faxineira
• Arlete Salles, atriz
• Tereza Rachel, atriz
• Cynthia Sarti, antropóloga
• Vera Gimenez, atriz
• Aracy Balabanian, atriz
• Angela da Silva, doméstica
• Vânia Toledo, fotógrafa
• Cláudia Alencar, atriz
• Zezé Polessa, atriz

 

"Lembro de uma mulher falando alto: Não grita! Não grita!"
Hebe Camargo, 68 anos, apresentadora de TV

Eu tinha 18 anos e um corpinho lindo, sobrancelhas grandes, cabelos compridos e escuros. Começava minha carreira de cantora no rádio. Na minha primeira relação sexual fiquei grávida. Não podia contar para ninguém. Meus pais sempre foram muito severos e naquela época era uma perversão ter relação sexual sem se casar. Contei para uma amiga, uma vizinha. Ela soube de um local onde uma mulher fazia aborto. Ela não era médica. Numa sala pequena, sem anestesia, sem medicamento nenhum, fez a curetagem. A dor era tão intensa que ameacei gritar. Jamais vou esquecer-me daquela voz falando em tom alto e áspero para eu calar a boca. Voltei para casa e tive hemorragia por vários dias. Acabei em um hospital. Estava muito doente. Minha família nunca soube disso e foi ruim ter de esconder. Para ser mãe a gente tem de desejar ter um filho. Ele tem direito à vida, é verdade. Mas com amor dos pais, com condições para crescer com saúde e boa educação. Quem vai garantir isso? Um Estado falido, miserável e hipócrita? A Igreja? Nem pensar. Sou católica e até hoje não me arrependo do que fiz. Hoje tenho o Marcelo, a melhor coisa que me aconteceu. Estava casada e preparada para ter um filho. Sinto-me muito feliz.

 

"O médico disse: Só vou fazer o aborto porque é um direito seu"
Renata Vicentini Mielle, 25 anos, estudante da USP

Era um senhor de meia-idade, simpático, que me explicou que não fazia aquilo por dinheiro. Defendia o direito de a mulher abortar sem correr riscos. Não gostaria de entregar meu corpo a um aborteiro profissional. Eu nunca entrara numa sala de cirurgia. Tinha 20 anos e fazia cursinho. Namorava havia dois anos e estudava muito para entrar na USP. Minha primeira reação quando soube que estava grávida foi ficar feliz. Mas nós não tínhamos condições financeiras. Foi uma decisão tranqüila. Eu não estava pronta para ser mãe. Mas sou louca por ter um filho.

 

"Não podia querer aquele filho. Não era fruto do amor, mas de um estupro"
Myriam Marques, 34 anos, enfermeira

Era verão de 1987, eu passava férias em Salvador. Numa noite, quando voltava sozinha para o hotel, um homem bêbado me agarrou, tirou minhas roupas à força e me estuprou. Ninguém ouviu meus gritos. Nem o meu choro. No dia seguinte, voltei para Belo Horizonte. Aquele monstro me engravidou. Eu tinha 24 anos, era divorciada e mãe de um filho de 3 anos. Fui para uma clínica no Rio de Janeiro. A única sensação que tive foi de alívio. A decisão foi madura, mas fiquei muito tempo em conflito porque, afinal, eu tinha um filho e tive uma formação católica.

 

"Resolvemos sair do país depois do golpe de 64. Não podíamos levar um bebê"
Clarice Herzog, 55 anos, publicitária

Eu fazia filosofia na USP, era recém-casada, tinha 22 anos e descobri que estava com dois meses de gravidez. Um médico famoso me indicou o consultório de uma médica amiga. Fui sozinha achando que não haveria problema nenhum. Meu marido tinha outro compromisso. Passei mal durante a curetagem, feita sem anestesia. A dor era forte demais e eu desmaiei. Depois de algumas horas em repouso, fui andando para casa. No caminho, vomitei e quase desmaiei outra vez. Pessoas estranhas me ajudaram. Foi horrível. Dois dias depois, estava num hospital, com hemorragia intensa. Descobri que não era tão forte para encarar tudo sozinha.

 

"Já tinha três filhos e usava DIU. Não podia ter uma quarta criança"
Pinky Wainer, 42 anos, artista plástica

Conversei com meu marido e chegamos à conclusão de que o aborto seria a melhor coisa a fazer. Procurei meu médico e ele indicou um outro. Foi muito rápido, e, quando acordei, tudo tinha acabado. Depois disso, voltei ao meu ginecologista. Ele me examinou e estava tudo bem. A decisão foi difícil, pesou-me por um tempo. Como eu tinha outros filhos, pensava muito nisso. Mas eu tinha certeza de que queria ter somente três filhos. Além disso, não me senti culpada porque eu me protegia com o DIU. Acho que a mulher tem plenas condições de decidir o que é melhor para ela.

 

"Eu era contra o aborto. Até que descobri que meu filho iria nascer muito doente"
Desirèe Zanelato, 30 anos, biomédica

Os exames de ultra-sonografia mostraram que o feto tinha síndrome de Turner, disfunção cromossômica que lhe garantiria sobrevida de apenas alguns dias. Quando soube, minha primeira reação foi tê-lo assim mesmo. Durante duas semanas minha vida virou do avesso. A certa altura vi que, para protegê-lo, estava sendo egoísta. Não havia motivo para prolongar o sofrimento daquele feto. Fiz o aborto com autorização judicial. A sensação de estar fazendo um aborto dentro da lei muda tudo. Mesmo arrasada, senti-me amparada, protegida.

 
 
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