Será
que o gigante está despertando?
Este
livro procura responder à seguinte questão:
o que estará
realmente acontecendo com a transformação educacional
do Brasil?
De
forma muito clara, agora, é mais fácil ver as
mudanças. Há cerca de cinco anos, usei o termo
"revolução silenciosa" para descrever
a situação, e a revista VEJA adotou a expressão.
Hoje, seria inadequado usar o mesmo termo. A revolução
não é mais invisível. A característica
mais marcante dos avanços na década de noventa
é que o segmento mais dinâmico - a proporção
da clientela terminando a educação básica
- é exatamente aquele no qual o desempenho brasileiro
era mais fraco.
Um
outro aspecto muito interessante e pouco estudado desse processo
é o papel dos grupos de interesse, em particular, os
sindicatos de professores. Esses grupos de tendência
esquerdista adquiriram grande força na década
de 80 e no início da de 90 e dominaram as arenas de
discussão. Na verdade, estabeleceu-se na prática
um monopólio dos fóruns e conferências,
criando um ambiente abertamente hostil a outras linhas de
pensamento (as chamadas patrulhas ideológicas). De
fato, a avaliação deste autor é que a
presença de grupos de interesse foi, durante muito
tempo, uma presença pouco construtiva no cenário
educacional, sempre a queixar-se de que a educação
é uma ferramenta que reproduz a estratificação
social e desviando a discussão das políticas
práticas para melhorar as escolas.
Todavia,
muitos representantes desses grupos foram assumindo governos
munici-pais e estaduais, enquanto alguns subgrupos mais ruidosos
começaram a perder boa parte de seu poder e qualquer
liderança intelectual fora de seus seguidores. Não
obstante, há várias iniciativas respeitáveis
sendo desenvolvidas pelos segmentos de esquerda. Ao mesmo
tempo, o movimento sindical tem-se orientado para uma posição
mais organizada e de crítica técnico-científica
da política governamental, apresentando alternativas
à ação governamental.
O
que, hoje, faz mudar a educação é a feliz
conjunção de todos os níveis de governo
tentando acertar e um público, liderado pela sociedade
civil, exigindo que acertem. Os governos estão fazendo
mais, sobretudo, porque as forças vivas da sociedade
querem uma educação melhor e não se contentam
com menos. Falta muito, mas as mudanças estão
mais ou menos no rumo correto.
As
reformas acontecem, mesmo neste nosso Brasil de tão
pobres tradições na área. Vivemos um
momento único e precioso. O que falta, então,
para que alguém se atreva a enfrentar assombrações
e uma reforma de ensino que sugerem um amplo leque de mu-danças?
Faltavam pessoas que vissem mais longe e que apostassem no
futuro.
Este
é o tema deste livro. Procuraremos examinar como nossa
educação encami-nhou-se, de muito atrasada,
à fase atual de tentativa de recuperação.
Tínhamos um sistema que se construiu, tardiamente,
mesmo para os padrões dos países latinos americanos.
O problema que se nos coloca resume-se em uma interrogação:
quais devem ser os rumos da educação brasileira,
a partir de agora? Sem (ou com) espírito de polêmica,
é possível alinhar seis problemas que merecem
atenção: a melhoria da qualidade do Ensino Fundamental,
a reforma e expansão do Ensino Médio, com grande
preocu-pação com a qualidade; a diversificação
e aprimoramento do Ensino Superior, pela busca de caminhos
alternativos, também, no âmbito do ensino público;
o desenvolvimento de uma estratégia inteligente para
a Educação Infantil; a introdução
de novas tecnologias, como instrumento de democratização
da educação, e, finalmente, o desen-volvimento
rápido e vigoroso de propostas diferenciadas de qualificação
e re-qualificação de docentes.
|