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As
dúvidas dos leitores de VEJA e as incorreções gramaticais
publicadas na revista são discutidas semanalmente pela chefe
da revisão Clara Baldrati*. Leia aqui um apanhado delas, com
os temas mais correntes.
* Clara Baldrati (clara.baldrati@abril.com.br)
é supervisora da produção editorial de VEJA.
"A nível de"
"A nível de", expressão utilizada
no título de uma nota da seção Gente
(edição 1744), causou arrepios a muitos leitores.
Choveram cartas de protesto à utilização
da surrada locução.
Na verdade, o redator pretendeu fazer uma brincadeira, explorando
outro modismo o uso de "enquanto"
em lugar de "como"
, extraído de uma declaração de
Giovanna Antonelli. A nota relata que Jade, a personagem interpretada
pela atriz na novela, apareceria, em algumas cenas, com uma
jibóia enrolada no corpo. No texto, Giovanna assegura
não sentir medo diante da situação e
diz: "(...) em cena tenho uma grande segurança,
enquanto Jade".
A graça do título estava em imitar o linguajar
da atriz. Não se quis, de modo algum, avalizar o emprego
de "a nível de" em VEJA.
Há/Havia
Na
capa da edição 1733 de VEJA, deparei com o seguinte
texto, logo abaixo do rosto da cantora Cássia Eller:
"A polícia suspeita que um coquetel de droga,
álcool e remédios matou a cantora, que havia
dois anos lutava para se livrar da dependência de cocaína".
Estranhei muito o trecho: "(...) que havia
dois anos lutava (...). Aguardo, ansioso, uma explicação.
Felipe
Penna
Eis a explicação para a não-flexão
do verbo haver no subtítulo da capa.
À semelhança do verbo "fazer", "haver"
é impessoal (não
tem sujeito) quando designa tempo
decorrido. Permanece, portanto, na terceira pessoa
do singular.
Assim, o correto é dizer: "Há
três anos não viajo" ou "Faz
três anos que não viajo".
Outro aspecto importante a observar é a correspondência
entre os tempos verbais. No exemplo citado, se
o verbo que acompanha "haver" estivesse no pretérito
imperfeito, teríamos a seguinte construção:
"Havia (ou Fazia)
três anos que não viajava".
Essas considerações justificam a correção
do texto da capa da última edição de
VEJA, no qual se afirma que Cássia Eller "havia
(ou fazia) dois anos lutava
para se livrar da dependência de cocaína".
Corão
ou Alcorão?
Gostaria
de saber por que VEJA cita o livro sagrado dos muçulmanos
como Corão, enquanto vários livros e o dicionário
Aurélio registram Alcorão.
Estanislau Felsky Neto
Corão e Alcorão são formas
variantes adotadas em português para designar
o livro sagrado do islamismo. O Vocabulário Ortográfico
da Língua Portuguesa, o Novo Aurélio
- Século XXI e o Michaelis registram ambas
as grafias. Em seu dicionário, Antônio Houaiss
ressalta que "a forma Corão é moderna,
de fonte francesa, usada sob o argumento de que, por ser o
al- do étimo o
artigo definido árabe,
dizer o alcorão seria pleonástico".
A redação de VEJA adotou essa linha e grafa
a palavra como Corão.
É bom frisar, no entanto, que nada desabona o uso da
forma Alcorão. Napoleão Mendes de Almeida, no
Dicionário de Questões Vernáculas,
afirma que "a forma Corão deixou de ser usada;
o artigo árabe faz parte dessa e de muitas outras palavras
de igual proveniência". De fato, ninguém
consideraria redundante o emprego de artigo junto a palavras
de origem árabe de amplo uso como (a) alface, (o) alfaiate,
(a) almofada, (o) álcool. Foi significativa a contribuição
do árabe para o léxico português, devido
aos cinco séculos de dominação muçulmana
do território lusitano (711-1249).
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Leitor
atento de VEJA e estudioso de português, o professor
Roberto Sarmento Lima,
da Universidade Federal de Alagoas, envia-nos importantes
considerações sobre deslizes gramaticais
encontrados nas páginas da revista.
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