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Seqüestro:
o sucesso
do Rio de Janeiro
Oscar Cabral

Zeca
Borges, ex-executivo do mercado financeiro, é coordenador
do Disque-Denúncia do Rio de Janeiro, Recife e Vitória |
O capitalismo tem uma lógica própria que não
admite vaidades. Quando uma empresa lança uma idéia
ou um produto inovador, a primeira coisa que as concorrentes
fazem é copiá-lo sem pudor e, se possível,
aprimorá-lo para relançamento. Em nova embalagem,
que seja. É a lei da sobrevivência. Pois note-se
o que vem ocorrendo, nos últimos anos, na área
de segurança pública: aconteceu no Rio de Janeiro
um caso exemplar de combate aos seqüestros. Ao deparar
com o intolerável recorde de 108 seqüestros em
um só ano, empreendeu-se uma ação eficaz.
Três anos depois, a polícia do Rio havia esvaziado
todos os cativeiros. Do sucesso dessa experiência, restaram
muitas certezas, mas uma indagação ficou no
ar: por que ninguém nunca sequer tentou aprender com
esse episódio?
Há quem vá dizer que no mundo habitado pelos
políticos não existe grandeza dessa latitude.
E os políticos não vão poder reclamar.
Costuma-se mesmo abater boas idéias a golpes de caneta
quando a procedência é a prancheta da oposição.
O fato é que não se pode mais transigir com
essa conduta no campo da segurança pública.
Não por nada. Mas é que há gente presa,
neste momento, em cativeiro. Quem já esteve lá
sabe como é desesperador. Para que não se perca
mais tempo, vamos direto ao ponto: é preciso que se
diga o que aconteceu no Rio no campo do seqüestro para
que essa experiência possa ser apropriada. O Rio venceu
os seqüestros não porque os seqüestradores
tenham mudado para outro Estado a sede de seus negócios.
A maior parte deles tem hoje endereço fixo no complexo
de segurança máxima de Bangu. O que se conseguiu
foi reunir policiais dispostos a realizar uma missão
da qual mais tarde se orgulhariam, dar-lhes condições
de trabalho e um suporte de inteligência às investigações.
Tudo isso com o apoio e a presença constante da sociedade
civil. Nada de novo. Só o trabalho levado a sério.
O primeiro passo foi a realização de um seminário
em que se juntaram políticos, acadêmicos, policiais
civis e militares e, o mais importante, as vítimas.
Gente que foi contar o que sentiu, viu e ouviu quando estava
sob o domínio de bandidos. Se ainda vale a comparação
com o mundo empresarial, levou-se o cliente para a reunião
de diretoria. A nova Divisão Anti-Seqüestro (DAS)
que surgiu dali também tinha inovações.
Acabou-se com o sistema em que um caso é investigado
por apenas uma equipe que se desdobra em várias tarefas,
como é o usual nas delegacias, onde os plantões
de 24 horas são intercalados por 72 horas de folga.
Não havia como deixar os seqüestrados esperando
no cativeiro pela folga do policial. Os casos passaram a ser
assunto de toda a divisão, mas cada um com sua tarefa
específica. Os homens de inteligência analisavam
as informações, enquanto investigadores buscavam
pistas. Tudo isso sob a inspiração do Cisp,
órgão de inteligência da polícia
do Rio. O Disque-Denúncia, criado alguns anos antes,
funcionou e ainda é assim como uma ferramenta
poderosa para que as comunidades pudessem colaborar com o
trabalho policial sem medo, certas de que a confidencialidade
é um compromisso jamais desfeito. Cento e noventa e
oito bandidos foram presos pela Divisão Anti-Seqüestro
em dois anos. Em nenhum desses casos foi permitido o pagamento
de resgate. Com isso, tirou-se o fôlego financeiro que
as quadrilhas teriam para financiar novas ações.
E assim se conseguiu chegar, em maio de 1998, ao "seqüestro
zero" no Rio. As pessoas certas, trabalhando sério,
com o apoio da sociedade. É difícil?
A sinalização de que algo começava a
mudar foi dada, ainda em 1995, pelo então diretor da
DAS, Hélio Luz. "A Divisão Anti-Seqüestro
não seqüestra mais", anunciou. Era uma frase com
dois recados. Um, à sociedade, de que a polícia
reconhecia seus problemas internos. Outro, aos maus policiais,
de que seus dias estavam contados. O mesmo se repetiu com
a chegada à DAS do delegado Marcos Reimão, dois
anos depois. A simples notícia de que ele estaria à
frente da divisão fez com que sete seqüestrados
fossem soltos. Houve quem levantasse a hipótese de
que policiais estivessem por trás dos crimes. Bastou
a percepção de que a autoridade se impôs
para que a casa começasse a se arrumar. Tudo isso hoje
parece muito simples. O fato é que, até então,
ninguém sabia disso. Descobriu-se trabalhando. Essa
parte já foi feita. Por que, até agora, ninguém
procurou aprender com a experiência do Rio? Com a palavra,
os homens públicos.

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