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Enquanto espero o diretor do Senai do Rio Grande do Sul, bisbilhoto sua sala. Ali estão os indefectíveis objetos de metal construídos pelos alunos. Um furador de papel chama a atenção. A perfeição da usinagem não é de Terceiro Mundo. Com esse acabamento só vi na Alemanha e na Suíça (nos últimos anos, o Senai vem obtendo medalhas nas olimpíadas da formação profissional, competindo com Europa e Sudeste Asiático). Para fazer enxada ele é desnecessário, mas para exportar ônibus é essencial. A arquitetura da escola de Novo Hamburgo delata seus cinqüenta anos de idade. Mas, pela conservação, mais parece cinqüenta dias. Como em toda escola vocacional séria, suas oficinas (e os banheiros) são imaculadamente limpas e a direção sabe onde trabalham os seus graduados (quantas escolas brasileiras atingem esses parâmetros filosóficos?). Os inspetores do Departamento Nacional aparecem sem avisar, para controlar a excelência do ensino (onde existe isso nas escolas acadêmicas?). Os melhores centros ganham selos de qualidade de acordo com o desempenho. A visita leva-me à "sala de tortura dos sapatos", que são os laboratórios de controle de qualidade, operando 24 horas por dia para centenas de empresas locais. Solas são espremidas, couros são repuxados, sapatos são rasgados. Uma máquina pacientemente torce bicos de sapatos. Já haviam sido amarrotados 200.000 vezes; se agüentarem meio milhão, podem ser exportados. Fiquei sabendo que a fôrma faz o sapato confortável e que cada povo tem pé diferente. Uma pesquisa sobre o pé do brasileiro transformou-o em uma equação com 34 variáveis. Agora, é traduzir isso em melhores sapatos. O próximo passo é entender o pé alemão, sem isso não se exporta para lá. Dentre os quatro pedidos de patente, está um para a fôrma que troca de bico, a fim de baratear o lançamento de novos modelos. Está em curso uma longa e complicada pesquisa sobre o calcanhar-de-aquiles (trocadilho?) da manufatura: a colagem dos sapatos. Outra pesquisa usa um processo criogênico para dar novo uso aos resíduos do couro. O que era poluição vai virar matéria-prima. Após exportar quase 1 bilhão de reais em sapatos, a indústria quase foi à breca. A função dessa escola e de outra de couros e curtimento é salvar a indústria. Não cabe mais pensar em escolas técnicas e vocacionais para formar apenas sapateiros, mas sim para apoiar a indústria em todas as suas necessidades de recursos humanos e desenvolvimento tecnológico, desde o treinamento de operadores até o desenvolvimento de novos processos. É isso que está em jogo, diante das críticas crescentes contra o Senai. Se essa escola desaparecer, continuaremos a exportar sapatos? A mesma pergunta tem de ser feita para o meio milhar de escolas do Senai que foi peça fundamental para a industrialização de um país de lastimável ensino. Sem ele, estaríamos criando boi, plantando mandioca e comendo banana. Cabe perguntar se continua hoje indispensável como antes. Mas a esta pergunta não se responde em comícios e folhetins. É preciso ver o que o Senai anda fazendo certo, o que faz errado e o que deixa de fazer. Lembremo-nos de que cada Estado tem seu Senai, alguns são dados como exemplo do que há de melhor no mundo, outros são mais travados e há os que precisam de recauchutagem. Venho visitando escolas e fábricas para encontrar respostas. Segundo minha observação, em boa medida, os Senais souberam transformar-se e continuar indispensáveis. Mas ainda há problemas. Parafraseando Ortega y Gasset, há uma diferença entre o uso e o abuso. Se a idéia corretamente implementada não é boa, sucata com ela. Mas se o uso é bom, embora haja abusos, então é consertá-los sem jogar fora o modelo. Não peço aos leitores que creiam na minha avaliação. Tenho uma proposta mais modesta: antes de passar julgamento no Senai, é preciso conhecer o que ele faz e o que não faz. Claudio de Moura Castro é economista
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