Vale a pena estudar fora?
"É bom dar o devido peso à apregoada
inferioridade brasileira em matéria de ensino. A verdade é que ou
se estuda lá fora numa grande faculdade ou então não vale a pena
o sacrifício"
Roberto Nejme
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O livro O que Não Se Ensina na Harvard Business School, de
Mark H. McCormack, que tem feito muito sucesso nos Estados Unidos,
discute os aspectos menos técnicos do mundo da economia, destacando
a importância de entender e saber lidar com as pessoas que fazem
negócios. Eu iria mais longe nessa história de cursos de mestrado
e doutorado que envolvem escolas no exterior, por mais tradicionais
e competentes que sejam, e faria uma pergunta: vale realmente a
pena estudar fora?
Eu, por exemplo, não estudaria economia, direito ou política fora
do país, a não ser que pensasse em trabalhar nos Estados Unidos
ou pretendesse ser assessor econômico da Casa Branca –
afinal, de nada adianta aprender coisas que não se aplicam no Brasil.
Já no caso de cursos como engenharia ou medicina, a coisa muda de
figura, uma vez que suas leis se aplicam também abaixo do Equador.
No caso específico de administração de empresas, estamos num meio-termo.
Muito do que se aprende não é exatamente útil, mas algumas poucas
escolas de administração ensinam algo bem mais importante: ensinam
a pensar. E essa é uma técnica que se aplica em qualquer país –
e que é, na verdade, muito pouco difundida nos países menos desenvolvidos.
Mas, se mesmo levando em conta tudo isso você está cogitando a possibilidade
de zarpar imediatamente, pelo menos considere certos aspectos antes
de uma decisão final.
Não pense que nos Estados Unidos o ensino é mil vezes superior
ao daqui. Não é. Por lá existem diversas universidades de terceira
categoria, com matérias irrelevantes e temas que não se aplicam
nem nos Estados Unidos nem no Brasil. Portanto, é bom dar o devido
peso à apregoada inferioridade brasileira em matéria de ensino.
A verdade é que ou se estuda lá fora numa grande faculdade ou então
não vale a pena o sacrifício.
Você pode investir os 80.000 dólares
que seriam pagos para fazer um bom curso no exterior. A longo prazo
pode ser mais interessante. Afinal, um título desses não significa
uma vice-presidência garantida ao voltar.
É melhor ir casado, porque os solteiros ficam malucos por causa
da pressão dos estudos e da carência afetiva crônica. Agora, não
se descuide: se você viajar com sua mulher, é ela quem poderá ficar
maluca e carente.
Não volte querendo adaptar a realidade brasileira às teorias aprendidas
em Chicago ou Nova York. Por aqui, graças a Deus, a teoria é outra.
Não queira fazer o mestrado logo em seguida ao bacharelado. Esse
negócio de ficar só estudando nos primeiros 25 anos de vida é um
costume do passado, quando as pessoas morriam cedo. Não faz sentido
terminar correndo os estudos e depois ficar 55 anos sem estudar.
Trabalhe pelo menos uns cinco anos em tempo integral, para conhecer
melhor sua profissão, antes de partir para um mestrado. E lembre-se
de que há muita gente fazendo cursos no exterior como fuga para
não encarar a realidade (leia-se trabalho).
Finalmente, considere que trabalhar fora pode ser uma opção até
melhor que estudar fora. Eu estudei em Harvard, para onde novamente
retornei neste ano, e já trabalhei em Wall Street. Em Harvard aprendi
como as coisas deveriam ser feitas, e em Wall Street, como as mesmas
coisas não deveriam ser feitas. Das duas, esta última foi a melhor
lição.
Quem estuda fora acaba achando que os americanos e os europeus
são o máximo e passa o resto da vida tentando adaptar o Brasil ao
que aprendeu. Quem trabalhou no exterior sabe que o que se vê por
lá não é tão fantástico assim.
Stephen Kanitz é professor (www.kanitz.com.br)

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