Edição 1 621 - 27/10/1999
 

Internato na roça

Sistema em que estudante dorme no colégio
ajuda a reduzir evasão escolar na zona rural

Eduardo Nunomura, de Turmalina

Moreira Mariz
Trabalho escolar em Turmalina:
2 600 pães vitaminados por dia


Turmalina é uma daquelas cidades que só viram notícia nacional se surge um escândalo público de arrepiar os cabelos. Foi assim em 1995, quando a prefeitura pagou 65.000 reais por dois ônibus caindo aos pedaços, que seriam destinados ao transporte escolar. O dinheiro gasto à toa veio do Programa Comunidade Solidária, que ofereceu 11 milhões de reais para que as prefeituras do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, resolvessem o problema da evasão escolar na zona rural. Agora é diferente. Nos últimos três anos, mesmo sem poder recorrer aos ônibus, Turmalina reduziu a evasão escolar de 17,44% para 2,6%, praticamente colocando todos os alunos em sala de aula. A vedete da nova fase é um modelo de ensino em que o estudante passa quinze dias seguidos na escola e quinze em casa. Com isso se reduzem as cansativas viagens diárias e se permite que os jovens ajudem os pais na roça. Inspirada num programa francês dos anos 30, a Escola Família Agroindustrial, EFA, já existe em dezoito Estados brasileiros, com 13.000 estudantes e resultados animadores.

Quase metade dos 400 alunos da zona rural de Turmalina estuda na EFA. "Antes, eu saía às 8 horas, mas só chegava à escola às 11 horas", diz a estudante Adelina Luiz de Azevedo, de 16 anos. "À noite, só voltava para casa às 8 horas, depois de caminhar 6 quilômetros." Uma vantagem da permanência prolongada na escola é a possibilidade de aprender a ganhar a vida na própria zona rural. "O maior problema do Jequitinhonha é não saber utilizar técnicas agrícolas corretas", diz o secretário de Educação municipal, Mário Sebastião Cordeiro Alves. Nos 20 hectares da escola, os estudantes colaboram no cultivo de 120.000 mudas de frutas e flores. Com a ajuda de técnicos, eles aprendem ainda a criar porcos, cabras, abelhas e sistemas modernos de plantio. Diariamente, fabricam 2.600 pães fortificados com vitaminas, que são distribuídos em 22 escolas da rede municipal. O Vale do Jequitinhonha é uma região pobre, com renda média per capita de pouco mais de 100 reais mensais. A cidade só gasta 7.500 reais por mês para manter a escola. Significa em torno de 44 reais mensais por aluno. Baratíssimo e sem possibilidade de escândalo.

 
 

 




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