Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
Ponto de vista

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
VEJA on-line
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Claudio de Moura Castro

A faculdade do interior

"O dedo acusador contra toda faculdade E
não passa
de ignorância, elitismo ou luta
por reserva de mercado"



Ilustração Ale Setti


Nossas proezas no mapeamento do genoma da Xylella fastidiosa deram um artigo de capa na famosa revista Nature. No embalo, os cientistas foram contratados para tentar salvar a indústria do vinho da Califórnia, ameaçada por uma prima dessa bactéria. Esse é o tipo de trabalho que vitalmente esperamos de nossas universidades de pesquisa.

Mas ensino superior não é só isso. Fui recentemente visitar uma faculdade nos fundões das Minas Gerais. De colegiozinho, foi crescendo e virou faculdade. De tão mal construído, o primeiro prédio rachou. Mas, nos mais novos, com granito na entrada, as salas de aula dão inveja a muita federal. Os professores são os talentos locais, reforçados por alguns mestres de fora. A biblioteca é correta e os laboratórios impecáveis (exigência do MEC). Para algumas centenas de alunos, é a única chance de fazer um curso superior. Para a economia local, é mais uma atividade produtiva.

Como essa, existem 566 faculdades (privadas e comunitárias) esparramadas pelo interior, com 300.000 estudantes. A maior parte faz o que pode, limitada pelas condições locais. Nos grandes centros, há doutores e mestres à vontade. No interiorzão, no máximo, um ou outro. A maioria consegue fechar o balanço, algumas privadas com um lucrinho, outras nem isso. E, como em todas as áreas, há os que se enriquecem sem oferecer em troca um ensino correto.

O Provão nos diz quanto os alunos aprenderam ao se formar. Dificilmente uma dessas instituições mais modestas poderá brilhar com A e B no Provão. Na pesquisa que fiz com José F. Soares, mostramos que 80% da nota no Provão se deve ao nível do estudante ao entrar para o ensino superior. Ou seja, a qualidade do ensino oferecido pela faculdade só determina 20% do resultado. Quem recebe alunos fracos no vestibular está condenado a resultados modestos no Provão. Não existem mágicas, embora indivíduos possam dar grandes saltos por seu esforço.

Pelo desvelo dos donos da instituição que visitei, certamente ela não tirará nota E. Mas, para efeito de discussão, suponhamos que tirasse. O MEC deveria ir lá e fechar a faculdade?

Examinemos duas situações. Em uma, a instituição não oferece um ensino que atinja os padrões do MEC. É negligente, incompetente ou pobre demais. Não alcança um mínimo razoável de qualidade. Nesse caso, não tem perdão, que seja tratada com todo o rigor – como já está acontecendo com algumas. Mas e se está tudo direitinho e o único pecado é receber alunos fracos?

Na área médica ou em outras em que há questões de segurança envolvidas, que se exijam mínimos invioláveis. Mas, afora esses casos, será que os estudantes e a sociedade ganham ao se deixar operar uma escola que obtém nível E? Landeira-Fernandez (PUC/Unesa) e R. Primi (Universidade São Francisco) trazem a resposta. Tomam cinco faculdades de psicologia, de A a E. Em cada uma, aplicam o Provão aos calouros. Embora o teste seja para formandos, cultura e o uso do raciocínio lógico permitem que um calouro acerte várias perguntas. Os da faculdade A obtêm os escores mais altos, seguidos pelos da B, ficando por último os da faculdade E. Ou seja, a melhor instituição recebe os melhores alunos e produz os melhores diplomados.

Mas podemos subtrair as médias do Provão oficial de cada faculdade da média do Provão aplicado aos calouros. Essa diferença nos dá os ganhos obtidos no decorrer do curso, o chamado valor adicionado. O da faculdade A é maior que o da B, e assim por diante. No entanto, mesmo os alunos da faculdade E têm um ganho de pontuação apenas ligeiramente menor. Ficam bem abaixo dos da faculdade A no final do curso, pois partem de uma base mais baixa. Mas, por estudarem quatro anos, crescem em pontuação quase o mesmo que os da faculdade A.

O papel social e econômico de uma faculdade E não pode ser desprezado. Desde que o ensino seja correto (um papel nobre do MEC é verificá-lo implacavelmente), ela está oferecendo uma chance de crescimento a um aluno, em geral, mais pobre e vítima de uma educação prévia de má qualidade. O dedo acusador contra toda faculdade E não passa de ignorância, elitismo ou luta por reserva de mercado.

 

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)

 
   
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS  
 
 
voltar



VEJA on-line | VEJA Educação
copyright © 2001 - Editora Abril S.A. - todos os direitos reservados