Stephen
Kanitz
Revolucione
a sala de aula
"Na
vida você terá de ser aprovado
pelos
colegas e futuros companheiros de trabalho,
não pelos seus antigos professores"
Ilustração Ale Setti
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Qual a profissão mais importante para o futuro de
uma nação? O engenheiro, o advogado, o administrador?
Vou decepcionar, infelizmente, os educadores, que seriam
seguramente a profissão mais votada pela maior parte
dos leitores. Na minha opinião, a profissão
mais importante para definir uma nação é
o arquiteto. Mais especificamente o arquiteto de salas de
aula.
Na minha vida de estudante freqüentei vários
tipos de sala de aula. A grande maioria seguia o padrão
usual de um monte de cadeiras voltadas para um quadro-negro
e uma mesa de professor bem imponente, em cima de um tablado.
As aulas eram centradas no professor, o "locus" arquitetônico
da sala, e nunca no aluno. Raramente abrimos a boca para
emitir nossa opinião, e a maior parte dos alunos
ouve o resumo de algum livro, sem um décimo da emoção
e dos argumentos do autor original, obviamente com inúmeras
honrosas exceções.
Nossos alunos, na maioria, estão desmotivados, cheios
das aulas. É só lhes perguntar, de vez em
quando. Alguns professores adoram ser o centro das atenções,
mas muitos estão infelizes com sua posição
de ator obrigado a entreter por cinqüenta minutos um
bando de desatentos.
Não é por coincidência que somos uma
nação facilmente controlada por políticos
mentirosos e intelectuais espertos. Nossos arquitetos valorizam
a autoridade, não o indivíduo. Nossas salas
de aula geram alunos intelectualmente passivos, e não
líderes; puxa-sacos, e não colaboradores.
Elas incentivam a ouvir e obedecer, a decorar, e jamais
a ser criativo.
A primeira vez que percebi isso foi quando estudei administração
de empresas no exterior. A sala de aula, para minha surpresa,
era construída como anfiteatro, onde os alunos ficavam
num plano acima do professor, não abaixo. Eram construídas
em forma de ferradura ou semicírculo, de tal sorte
que cada aluno conseguia olhar para os demais. O objetivo
não era a transmissão de conhecimento por
parte do professor, esta é a função
dos livros, não das aulas.
As aulas eram para exercitar nossa capacidade de raciocínio,
de convencer nossos colegas, de forma clara e concisa, sem
"encher lingüiça", indo direto ao ponto. Aprendíamos
a ser objetivos, a mostrar liderança, a resolver
conflitos de opinião, a chegar a um comum acordo
e obter ação construtiva. Tínhamos
de convencer os outros da viabilidade de nossas soluções
para os problemas administrativos apresentados no dia anterior.
No Brasil só se fica na teoria.
No Brasil, nem sequer olhamos no rosto de nossos colegas,
e quando alguém vira o pescoço para o lado
é chamado à atenção. O importante
no Brasil é anotar as pérolas de sabedoria.
Talvez seja por isso que tão poucos brasileiros escrevem
e expõem suas idéias. Todas as nossas reclamações
são dirigidas ao governo leia-se professor
e nunca olhamos para o lado para trocar idéias
e, quem sabe, resolver os problemas sozinhos.
Se você ainda é um aluno, faça uma pequena
revolução na próxima aula. Coloque
as cadeiras em semicírculo. Identifique um problema
de sua comunidade, da favela ao lado, da própria
faculdade ou escola, e tente encontrar uma solução.
Comece a treinar sua habilidade de criar consenso e liderança.
Se o professor quiser colaborar, melhor ainda. Lembre-se
de que na vida você terá de ser aprovado pelos
seus colegas e futuros companheiros
de trabalho, não pelos seus antigos professores.
Stephen
Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)