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A extensão da rede universitária brasileira torna cada vez mais difícil o acompanhamento das atividades científicas no país. Faculdades e centros de investigação governamentais e privados multiplicam os programas de estudos, elaborando um número cada vez maior de relatórios e de teses. A propósito, parece inacreditável que órgãos governamentais importantes, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), não tenham ainda organizado um fichário nacional das teses de mestrado e doutorado. Financiados por esses órgãos, mas registrados apenas em fichários fragmentados e pouco confiáveis, muitos trabalhos de qualidade dormem em arquivos desconhecidos. Nessas circunstâncias, os simpósios promovidos pelas associações das diferentes disciplinas constituem um evento de primeira grandeza. Reunindo pesquisadores dos quatro cantos do país, tais encontros oferecem uma oportunidade única de intercâmbio científico e de contato direto entre estudiosos espalhados pelo Brasil. Um desses eventos, o congresso bienal da Associação Nacional dos Professores Universitários de História (Anpuh), realizou-se no mês passado, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Em presença de estudantes, professores e pesquisadores, cerca de 200 palestras e mesas-redondas abordaram os temas mais diversos da investigação histórica. Palestrantes estrangeiros expressaram sua admiração ao encontrar nos debates um público jovem, atento e numeroso. O congresso foi também a ocasião de observar os rumos da pesquisa no Brasil. Ao lado de muitas novidades interessantes, confirmam-se algumas limitações. A mais flagrante foi a quase ausência de abordagens sobre o império português. Houve umas poucas palestras a respeito da África portuguesa e somente uma mesa-redonda sobre a Ásia colonial, sobre Goa, mais exatamente. Dessa forma, transparecia o fato de que as universidades brasileiras carecem de demanda nesses setores. Ora, uma das insuficiências mais patentes do ensino de história no Brasil tem a ver com a tendência endogenista, que leva a pensar os fatos históricos apenas no contexto brasileiro. Como se o Brasil tivesse sido o horizonte exclusivo dos portugueses, dos jesuítas e do comércio da época moderna. Por que deslanchar uma enésima pesquisa sobre a Inconfidência Mineira sem compará-la com as insurreições de colonos que sacudiam, nesse mesmo fim do século XVIII, regiões do continente americano ou outras possessões portuguesas da África e da Ásia? As multinacionais brasileiras (Petrobras, Odebrecht, TV Globo) remexem o solo e o céu angolano, mas nossos pesquisadores reservam pouca atenção aos laços intensos que, desde o século XVI, nos uniram a Angola. A mesma coisa, o mesmo desinteresse intelectual, toca os países platinos, aos quais estivemos próximos durante a União Ibérica (1580-1640); depois, de maneira intermitente, nos séculos XIX e XX; e agora, talvez para valer, no âmbito do Mercosul. Na semana passada, o novo correspondente do jornal Folha de S. Paulo em Paris, o excelente Alcino Leite Neto, fez uma constatação que não hesito em endossar. Segundo ele, quem lê de longe a imprensa brasileira tem a impressão de que nosso país vive num universo "auto-explicativo, auto-referente, sem laços com o restante da Terra". Efetivamente, essa "provincianização" do Brasil, a despeito do movimento globalizante atualmente em curso, afigura-se como algo extravagante. A realidade externa só parece equacionar-se entre nós quando envolve a taxa de câmbio, as exportações de suco de laranja, as viagens das top models ou o passe dos jogadores de futebol. Governo e oposição comungam no mesmo viés internalista. Tenho para mim que as duas coisas estão ligadas: ensinar a história do Brasil olhando para o nosso próprio umbigo complica nossa percepção sobre o mundo atual. Mudar nosso olhar sobre o passado nos ajudará a entender melhor o presente. Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular |
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