Sérgio
Abranches
A
educação pela média
"Há
muito que
discutir sobre os caminhos da
educação brasileira. Mas uma
coisa é certa:
eles já mudaram"
Ilustração Ale Setti
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Quando terminei de ler o noticiário sobre a educação
brasileira em 1999, fiquei com a impressão amarga
de que havíamos retrocedido. E pior é que,
na minha opinião, só vínhamos melhorando
na área da educação nos últimos
tempos. Fui conferir no relatório do Sistema Nacional
de Avaliação da Educação Básica
(Saeb), que faz o retrato preciso da educação
brasileira. Nada é mais importante que a educação
para nossa sociedade, por isso ela deve ser tratada com
profundidade e sem preconceitos. Para minha surpresa, não
encontrei as evidências de uma preocupante deterioração.
Vi o desempenho estacionado, em um sistema em expansão.
Menos mau.
As médias dos alunos caíram entre 1995 e 1999,
não muito, mas o suficiente para que se procure entender
o que está acontecendo. Na maioria absoluta dos casos,
permaneceram nos mesmos níveis de desempenho anteriores.
O Saeb analisa várias hipóteses e mostra que
não há uma explicação só.
Parte da queda de desempenho se deve a razões positivas,
como a incorporação de alunos de setores mais
desfavorecidos da sociedade. Mas cuidado com o raciocínio
apressado: não é culpa deles. É nossa,
que os deixamos sem educação e sem ambiente
social adequado para terem desempenho melhor.
A enorme rapidez com que se expandiu a matrícula
no Brasil provoca problemas de qualidade mesmo. Levamos
32 anos, de 1960 a 1992, para reduzir pela metade a proporção
de crianças fora da escola, de 40% para 18%. Entre
1992 e 2000, essa proporção foi reduzida em
quase dez vezes, caindo de 18% para 2%. De 1995 para 1999,
o número de matrículas no ensino fundamental
aumentou em 3,4 milhões (+ 10%), 2,3 milhões
só no Nordeste. O ensino médio ganhou mais
de 2 milhões de alunos, um crescimento de 45%. No
Nordeste, as matrículas cresceram ainda mais: 23%
no ensino fundamental e 51% no ensino médio. O crescimento
no ensino fundamental se dá principalmente entre
a 5ª e a 8ª séries. Isso aponta para maior
escolarização dos brasileiros no futuro. Indica
também queda da repetência.
Conclusão, grande avanço quantitativo, mas
sem ganhos de qualidade, certo? Nem tanto: quando a quantidade
é grande, sempre envolve qualidade. Claro, nenhum
progresso que fizermos em educação será
o bastante, diante de nossa imensa defasagem educacional.
Mas é preciso ter noção das coisas.
O raciocínio é simples: muitas crianças
trazidas para o ambiente escolar, por mais pobre que ele
seja e por pior que seja o ensino, estarão recebendo
qualitativamente mais do que soltas na rua ou sendo exploradas
no trabalho. Não digo isso para aceitarmos a baixa
qualidade, só para acentuar a melhora qualitativa,
por trás do "puro" crescimento quantitativo. É
dar mais qualidade, sobretudo a quem tem menos. Demos um
salto na quantidade, podemos dar o da qualidade.
O desempenho educacional brasileiro é irregular.
O importante não é que as médias caíram.
É que os níveis são baixos. Novidade
boa é que o Nordeste teve as menores quedas nas médias
de quase todas as séries, nos testes de língua
e de matemática. Na 8ª série, a média
nordestina em língua portuguesa subiu. Caiu em todas
as outras regiões. O mesmo aconteceu com as médias
de matemática, na 3ª e na 8ª séries.
Problemas? Muitos. A educação é desigual:
das primeiras para as últimas séries aumentam
os alunos das classes A e B e diminuem os das classes D
e E. Alunos que trabalham e não têm como fazer
o dever de casa apresentam médias piores. Os que
têm acesso a livros, computadores e vídeos
educativos mostram desempenho melhor. A performance desigual
está correlacionada à educação
do país e ao nível social e de qualificação
dos professores.
O Saeb oferece dados preciosos para o debate sério
da educação nacional. É uma questão
que deve ser enfrentada coletiva e solidariamente. Sem preconceitos.
Criatividade e novas tecnologias disponíveis para
os alunos ricos poderiam salvar os mais pobres do baixo
desempenho. Há muito que discutir sobre os caminhos
da educação brasileira. Mas uma coisa é
certa: eles já mudaram. A educação
brasileira agora evolui em outro ambiente quantitativo e
qualitativo. Não é o bastante, mas é
relevante.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)