Lições do Provão

Claudio de Moura Castro

Moema Cavalcanti

Um bando de engenheiros pode desmontar um carro, examinar seu motor e pedir o currículo de quem o desenhou, para descobrir que velocidade atingirá. Mas há uma alternativa mais fácil e confiável: pisar no acelerador e medir a velocidade. Assim é também com a educação. Os funcionários do MEC brandiram fitas métricas para medir salas, contaram livros na biblioteca e os diplomas dos professores, no afã de adivinhar quanto aprenderiam os alunos que cursassem nossas escolas. Mas o ministro teve a coragem de tomar o caminho mais direto: medir o que os alunos sabem ao fim do curso. Assim nasceu o Provão, uma prova aplicada aos formandos com o fim de avaliar a qualidade da educação superior.

Já estão disponíveis os resultados de duas rodadas. Hoje sabemos quem é quem, embora nem todos queiram ver o que os números mostram. Em companhia do educador João Batista de Oliveira, voltamos a examinar as tabelas e aprendemos muito ao ver os números. Com raras exceções, as notas são estáveis. Hoje, os alunos podem escolher o melhor ensino e as empresas as melhores escolas para buscar futuros empregados. Um avanço incalculável. Mas essa prova apenas compara uma escola com a outra. Quem teve mais pontos tira A, quem teve menos tira E. Não ficamos sabendo se quem tirou A é bom ou se os piores são realmente deficientes. Tudo é relativo. Quando todos melhoram entre um provão e outro, quem ficou no mesmo lugar tira nota pior. Isso não é um defeito, mas uma característica da prova. Quem são os melhores e quem são os piores? Quando tomamos as escolas que obtiveram notas A, 12% do total, vemos que, de cada três, duas são públicas. Ou seja, dessa elite de cinqüenta instituições, entre centenas de outras, as públicas têm vasta superioridade. Mas quando olhamos os 12% das piores, encontramos também escolas públicas. Ou seja, os gastos acima de 12.000 reais por aluno e as matrículas gratuitas não impedem muitas de ficar na rabeira.

No miolo da distribuição, públicas e privadas se misturam. Mais de 60% dos cursos das instituições públicas federais obtêm entre A e B mas, dada a predominância quantitativa das privadas (dois terços da matrícula), delas vêm a maioria dos alunos que obtêm A e B. Ou seja, não há lugar para qualquer afirmação taxativa comparando públicas e privadas. Podemos apenas lamentar que as públicas, custando, em média, quatro vezes mais do que as privadas e recrutando os alunos mais talentosos, não tenham resultados superiores. Não foi uma surpresa ver que professores com mais diplomas não garantem um bom ensino. Isso apenas confirma pesquisa em outros países. Todavia, houve algumas surpresas, sobretudo o esplêndido desempenho de algumas escolas privadas cujos administradores não suspeitavam estar funcionando tão bem. Uma conseqüência bem-vinda do exame é que muitas faculdades não se conformaram com sua posição e decidiram investir para melhorar seu desempenho. Só isso já justifica o Provão.

Mas tão crítico quanto tirar essas conclusões é não tirar conclusões erradas. O ensino superior é o acabamento de um processo educativo que começa no berço. Não é possível ignorar a qualidade da "matéria-prima" que passa no vestibular. Uma escola péssima que recebesse os melhores estudantes terminaria com resultados melhores ou quase tão bons quanto os da melhor escola que recebesse alunos fracos. Mas como bem sabemos, os melhores alunos em geral vão para as melhores escolas, confundindo a tarefa de deslindar se as boas notas resultam do bom ensino ou da boa matéria-prima. De fato, os alunos dos cursos A freqüentaram as melhores escolas secundárias (em geral privadas) e vêm de classes sociais mais altas. Igualmente, não ficamos sabendo se os cursos piores o são pela inconseqüência do ensino ou pela fragilidade dos alunos.Visitas sérias permitiriam saber quais escolas estão oferecendo algo substancioso aos seus alunos fracos e quais apenas oferecem um ensino desleixado. Infelizmente, os visitadores indicados pelo MEC continuam hipnotizados pela contagem de Ph.Ds. e pela miragem da pesquisa (desnecessários para o bom ensino) e ignoram o diagnóstico qualitativo. O próximo passo para o MEC deveria ser separar o joio do trigo, isto é, valorizar quem está elevando o nível dos alunos que foram vítimas do nosso ensino médio público, bem como identificar e puxar as orelhas de quem está oferecendo apenas um ensino superior desleixado e incompetente.

Claudio de Moura Castro é economista (ClaudioMC@earthlink.net)




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