Piolho não é educação
"Embora a notícia seja o somatório
de pequenas
coisas boas, a manchete é o desvio de verbas,
é a reprovação, é a escola
que desaba, o piolho"
Ale Setti
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Quando era secretária municipal de Educação
de São Paulo, Guiomar Mello queixava-se de
que educação só era notícia
quando dava piolho em alguma escola. Que a educação
fosse boa ou má, que melhorasse ou piorasse,
nada disso era notícia. Só o piolho.
É vital que educação vire notícia.
Se a sociedade não estiver respirando o que
está acontecendo nas escolas, não pode
apoiar ou censurar, não pode dar legitimidade
e aplauso aos que merecem ou puxar as orelhas dos
que não dão conta do recado. Isso porque,
nas nossas Américas Latinas, ministro e secretário
de Educação mandam menos do que se imagina
muito menos que um chefe de empresa. Não
há prêmios, não há punições
ou dispensas. Não há quase dinheiro
para redistribuir. Pior, as indicações
políticas e a distribuição de
empregos são a moeda de troca dos políticos,
pondo a perder as melhores intenções
dos governantes. Na sala de aula o professor é
soberano, para ser brilhante ou irresponsável.
Por isso, a sociedade tem de cobrar ativamente.
Todas as reformas bem-sucedidas na região tiveram
como coadjuvante uma forte participação
da sociedade civil (particularmente os pais). Se é
assim, educação tem de estar no cardápio
diário, por via da mídia, para que a
sociedade possa tomar partido, apoiando as boas coisas
e berrando quando não gosta.
Mas educação, como outras áreas
semelhantes, não produz por si própria
boas notícias. Inventemos as seguintes manchetes:
"Alunos estão freqüentando as escolas
regularmente e aprendendo sua lição",
"Não houve greve de professores", "Tribunal
de Contas aprova gastos da educação".
Nenhuma delas seria publicada. Embora a boa educação
seja feita pelo somatório dessas pequenas coisas
boas, a manchete é o piolho, é o desvio
de verbas, é a reprovação, é
a escola que desaba. Ora, essa avalanche de más
notícias cria uma visão negativa e pessimista
de tudo. Anúncios de novos programas ou intenções
de reforma são também manchetes convencionais.
Ocupam espaço mas não convencem. Ficamos
entre a falta de notícia e a notícia
ruim.
Mas, afinal, o que é a boa notícia
em educação?
Como as boas notícias são o resultado
da miríade de pequenas coisas certas que se
acumulam ao longo do tempo, elas têm de ser
colhidas em algum momento em que se dá um balanço,
no qual o somatório dos pequenos atos rotineiros
e invisíveis se metamorfoseia em evento. Daí
a importância da cobertura adequada dos censos
escolares, de novas pesquisas, dos resultados de exames,
dos prêmios, enfim, dos eventos que destilam
esses somatórios. É aí que estão
as jazidas de boas notícias (embora possam
também vir más notícias, mas
é melhor saber que se iludir). O Inep/MEC,
que elabora estatísticas e provas, é,
portanto, o maior produtor de notícias. Há
também os casos individuais ou de escolas que
são inventivas ou mais bem-sucedidas, outro
manancial a ser garimpado por jornalistas habilidosos.
Mas é necessário também que
as notícias sejam bem dadas, o que requer conhecimento
do assunto e profissionalismo. Tudo o que a educação
gostaria de pedir à imprensa é que fosse
tratada com a mesma competência com que trata
a economia. Infelizmente, esse não é
o caso, mesmo nos melhores jornais. Há erros
grosseiros de interpretação de dados
em assuntos em que não há lugar para
opiniões ou "achismos". Há erros de
foco, em que o jornalista não localizou o ponto
importante da notícia. Há as opiniões
que se fantasiam de fatos. Há os jornalistas
que não fazem o dever de casa de checar fontes,
verificar números (talvez citados de memória
pelo entrevistado). Há a tendenciosidade no
reportar, dizendo o que o entrevistado não
quis dizer.
A boa notícia é que somente nos dois
últimos anos aumentou em mais de 35% o espaço
nos jornais dedicado à educação.
Dificilmente haveria uma notícia mais alvissareira
para a área.