Edição 1 648 -10/5/2000

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Piolho não é educação

"Embora a notícia seja o somatório de pequenas
coisas boas, a manchete é o desvio de verbas,
é a reprovação, é a escola que desaba, o piolho"



Ale Setti

Quando era secretária municipal de Educação de São Paulo, Guiomar Mello queixava-se de que educação só era notícia quando dava piolho em alguma escola. Que a educação fosse boa ou má, que melhorasse ou piorasse, nada disso era notícia. Só o piolho.

É vital que educação vire notícia. Se a sociedade não estiver respirando o que está acontecendo nas escolas, não pode apoiar ou censurar, não pode dar legitimidade e aplauso aos que merecem ou puxar as orelhas dos que não dão conta do recado. Isso porque, nas nossas Américas Latinas, ministro e secretário de Educação mandam menos do que se imagina – muito menos que um chefe de empresa. Não há prêmios, não há punições ou dispensas. Não há quase dinheiro para redistribuir. Pior, as indicações políticas e a distribuição de empregos são a moeda de troca dos políticos, pondo a perder as melhores intenções dos governantes. Na sala de aula o professor é soberano, para ser brilhante ou irresponsável.

Por isso, a sociedade tem de cobrar ativamente. Todas as reformas bem-sucedidas na região tiveram como coadjuvante uma forte participação da sociedade civil (particularmente os pais). Se é assim, educação tem de estar no cardápio diário, por via da mídia, para que a sociedade possa tomar partido, apoiando as boas coisas e berrando quando não gosta.

Mas educação, como outras áreas semelhantes, não produz por si própria boas notícias. Inventemos as seguintes manchetes: "Alunos estão freqüentando as escolas regularmente e aprendendo sua lição", "Não houve greve de professores", "Tribunal de Contas aprova gastos da educação". Nenhuma delas seria publicada. Embora a boa educação seja feita pelo somatório dessas pequenas coisas boas, a manchete é o piolho, é o desvio de verbas, é a reprovação, é a escola que desaba. Ora, essa avalanche de más notícias cria uma visão negativa e pessimista de tudo. Anúncios de novos programas ou intenções de reforma são também manchetes convencionais. Ocupam espaço mas não convencem. Ficamos entre a falta de notícia e a notícia ruim.

Mas, afinal, o que é a boa notícia em educação?

Como as boas notícias são o resultado da miríade de pequenas coisas certas que se acumulam ao longo do tempo, elas têm de ser colhidas em algum momento em que se dá um balanço, no qual o somatório dos pequenos atos rotineiros e invisíveis se metamorfoseia em evento. Daí a importância da cobertura adequada dos censos escolares, de novas pesquisas, dos resultados de exames, dos prêmios, enfim, dos eventos que destilam esses somatórios. É aí que estão as jazidas de boas notícias (embora possam também vir más notícias, mas é melhor saber que se iludir). O Inep/MEC, que elabora estatísticas e provas, é, portanto, o maior produtor de notícias. Há também os casos individuais ou de escolas que são inventivas ou mais bem-sucedidas, outro manancial a ser garimpado por jornalistas habilidosos.

Mas é necessário também que as notícias sejam bem dadas, o que requer conhecimento do assunto e profissionalismo. Tudo o que a educação gostaria de pedir à imprensa é que fosse tratada com a mesma competência com que trata a economia. Infelizmente, esse não é o caso, mesmo nos melhores jornais. Há erros grosseiros de interpretação de dados em assuntos em que não há lugar para opiniões ou "achismos". Há erros de foco, em que o jornalista não localizou o ponto importante da notícia. Há as opiniões que se fantasiam de fatos. Há os jornalistas que não fazem o dever de casa de checar fontes, verificar números (talvez citados de memória pelo entrevistado). Há a tendenciosidade no reportar, dizendo o que o entrevistado não quis dizer.

A boa notícia é que somente nos dois últimos anos aumentou em mais de 35% o espaço nos jornais dedicado à educação. Dificilmente haveria uma notícia mais alvissareira para a área.

 

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)
 

 
 
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