Universitários dirigindo táxi?

"O mercado é cada vez mais exigente quanto
à capacidade do diplomado de usar bem a cabeça.
A faculdade é o momento de burilar essa habilidade"

Claudio de Moura Castro

Moema Cavalcanti

O mercado para universitários está tão saturado que dirigir táxi se tornou uma alternativa. Será verdade? Vamos por partes. Inicialmente, a resposta não pode ser baseada na observação casual ("outro dia tomei um táxi..."). É com dados estatísticos que se respondem a tais perguntas. A primeira questão é saber se o ensino superior leva ao emprego ou ao desemprego. Ora, os diplomados do ensino superior têm uma taxa de desemprego de 2,7%, comparada com os 6,7% para os que pararam no secundário. Quer dizer, embora não seja uma garantia perfeita contra o desemprego, o diploma reduz os riscos em mais da metade.

Quando me formei em economia, recebi várias ofertas de emprego de economista. Hoje, pouquíssimos graduados viram economistas no sentido estrito do termo, talvez 1%. Saturação dos mercados? Se tomarmos uma definição rigorosa, saturação significa que os benefícios econômicos não justificam os custos do diploma. Como, em média, os universitários ganham mais do que os que pararam no 2º grau (sobretudo com o passar dos anos), amplamente compensando os custos, não há propriamente saturação. Mas há outras mudanças.

Enfrentamos uma longa crise econômica e um processo em que a economia se livra das gordurinhas acumuladas ao longo dos anos de protecionismo. Nesse clima de vacas magras, ficou muito mais difícil para um universitário conseguir trabalho. É duro lutar quatro anos para conseguir um diploma que não mais dá acesso aos empregos sonhados. Mas o consolo é que sem o diploma seria muito pior.

A grande mudança, em todos os lugares do mundo, é a perda do vínculo claro entre diploma e ocupação. O engenheiro vira suco, o economista vende terreno. O economista Roberto Macedo, discutindo idéias semelhantes (no livro Seu Diploma, Sua Prancha, altamente recomendável), mostra como mesmo em empresas de primeira linha o nexo entre diploma e o que fazem os funcionários é mais do que tênue. Há gente com praticamente todos os tipos de diploma exercendo praticamente todas as ocupações. O mercado não encontra grande diferença entre o engenheiro, o contador e o advogado. Mas premia a pessoa bem informada (não importa muito em quê) e descarta a mal informada. Exceto nas profissões legais, pessoas com as mais variadas formações são aprovadas nos concursos públicos mais difíceis.

Mas esse mercado que parece tão despreocupado com o conteúdo específico dos cursos, na verdade, torna-se cada vez mais exigente quanto à capacidade do diplomado de usar bem a cabeça. As empresas (e o setor informal não é diferente) querem quem entenda o que leu, escreva coisa com coisa, lide com quantidades, fale inglês, ajunte as peças de um problema e encaminhe a solução, tome decisões, enfim, que saiba pensar. Os quatro anos de faculdade são o momento de burilar essas habilidades. Interessa o conteúdo do curso, apenas na medida em que algumas carreiras dão mais oportunidades de exercitar a cabeça. Interessa supremamente a qualidade do curso, bem como o esforço do aluno, pois cada vez menos a empresa se importa com o diploma em si e cada vez mais pela capacidade do diplomado de entender o mundo e aprender com a experiência. Ter informações não é importante, saber buscá-las é.

Infelizmente, muito do nosso ensino superior não entendeu isso e continua insistindo em especializações bobas, currículos abarrotados de informações e pouca ênfase em aprender a usar a cabeça.

Aí estamos. O diploma já não é mais uma passagem permitindo entrar no avião que leva ao país das maravilhas. É apenas uma lista dos equipamentos que levaremos para empreender uma jornada que pode ter muitos destinos. Ademais, o equipamento não é garantido pelo fabricante e os bons destinos requerem seu uso competente. Para quem tem o diploma, resta o consolo de que a jornada é muito mais árdua para os que não o têm.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@earthlink.net)




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