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Claudio
de Moura Castro
A hora da
sala de aula
"Erro
grave é o excessivo tempo que
o professor gasta escrevendo no quadro,
os alunos copiando e respondendo a perguntas
desinteressantes 25% a 47% do tempo"
Ilustração Ale Setti
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Quando construímos uma casa, os alicerces vêm antes
da pintura. Na educação, também existe uma
seqüência natural. No começo, havia que construir
prédios e contratar professores. Nisso estivemos até
recentemente. A prioridade era aumentar matrículas, o resto
faltava e ia ficando para trás. Vem então a fase de
administrar, consertar e suprir tudo que é necessário
para funcionar como escola. Terminando a faxina, espera-nos uma
notícia ruim: ainda é pouco. Prover os insumos não
produz uma boa educação. Começamos tarde, pois
nas décadas de 70 e 80 ainda tínhamos muitos alunos
fora da escola. Criamos espaço para eles, mas à custa
de massacrar a qualidade.
Na
década de 90, ainda havia que expandir, mas foi um período
também de consertar a máquina que operava e coordenava
os sistemas escolares: livros e merenda a tempo e a hora, tirar
a política dos orçamentos, uns trocados para os diretores
lidarem com os gastos do cotidiano e a modernização
de currículos. O Fundef deu uma injeção na
veia das escolas mais pobres. E os instrumentos de navegação:
as estatísticas e avaliações. Os resultados
foram bons. Prosseguimos com a expansão da matrícula,
caiu a deserção, caiu a reprovação e
aumentaram as graduações em todos os níveis.
Crescemos bastante, e, para a surpresa de muitos, não houve
uma queda adicional na qualidade. Ou seja, os consertos externos
compensaram as dificuldades de lidar com alunos de nível
social cada vez mais baixo. As provas do Saeb ao longo da década
atestam essa constância dos níveis de qualidade.
O
lado bom foi melhorar a gestão do sistema e expandir sem
deterioração dos resultados. O lado mau é que
a qualidade, embora constante, é deplorável. No Chile,
houve algo parecido. Consertou-se a economia da escola, eliminaram-se
ineficiências, foi remexida a estrutura do sistema. Mas a
qualidade não aumentou. Para melhorá-la, foi necessário
criar programas especialmente voltados para apoiar as escolas mais
pobres. Nessa transição entre séculos e presidentes,
vivemos o mesmo problema. Expandimos e investimos na gestão
dos sistemas educativos. Com isso, demos um salto que se atrasava
por mais de meio século. Mas, na qualidade, a única
proeza foi não deixar piorar. Só há uma conclusão:
a prioridade agora é chegar mais perto da sala de aula, pois
é ali que se produz a educação.
Pesquisas
do Banco Mundial mostram que a jornada escolar é curta e
uma baixa proporção do tempo é gasta em tarefas
propriamente escolares. Há intervalos sem professor em sala
de aula e professores que cuidam de um ou outro aluno e deixam os
demais sem ter o que fazer. Erro grave é o excessivo tempo
que o professor gasta escrevendo no quadro, os alunos copiando e
respondendo a perguntas desinteressantes 25% a 47% do tempo.
Os professores passam dever de casa em um volume muito pequeno.
Em alguns Estados, os alunos levam tempo demais cortando e colando,
em vez de exercitar a leitura em livros apropriados para a idade.
De resto, boa parte das leituras não é feita nos livros
comprados para tal. Nas escolas do Nordeste, a maioria das crianças
da 5ª série não consegue ler nem fazer cálculos
simples. Também o teste do Pisa mostra que ensinamos a ler
errado. Ensinamos o aluno a dar asas à imaginação,
mas sem entender o que está escrito. Ou seja, as visitas
às salas de aula confirmam o que os testes mostram: estamos
mal.
Reformamos
fora da escola, mas isso não foi o bastante. Agora é
a hora de entrar e consertar a sala de aula, de pensar na pedagogia,
no como ensinar. Mas como chegar até a sala de aula? Em muitas
escolas (sobretudo nas municipais), as equipes técnicas são
frágeis. E o que fazer quando a educação não
é prioridade no município? Seguramente, há
que melhorar a formação dos professores e suas carreiras.
Mas como? E o papel das ONGs? Aí estão os grandes
desafios para o início do novo século. Temos muito
a aprender. A boa notícia é que há um novo
aliado: a sociedade brasileira descobriu a importância da
educação e está aprendendo a demandar mais
qualidade.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)
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