Edição 1 639 - 8/3/2000

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Ultrapassando os limites

Como lidar com as dificuldades das crianças
durante o processo de alfabetização

Cristina Poles

Ricardo Benichio
Amanda, 9 anos, e uma psicopedagoga: vitória sobre os problemas do passado


Aos 9 anos, a paulista Amanda de Carvalho Melillo é uma das melhores alunas da 3ª série da escola onde estuda. Lê e escreve com desenvoltura. Ao ver seu desempenho em sala de aula, é difícil acreditar que teve uma alfabetização difícil e penosa. Na 1ª série, os colegas de Amanda liam pequenos textos em voz alta sem cerimônia. Ela, não. Escreviam com letra corrida. Ela, não. Aos 7 anos, ainda encontrava dificuldades para ler e escrever vocábulos simples. Detergente, por exemplo, era detrengente, em letras disformes, garrafais. "Ela só conseguiu se alfabetizar depois de meses de tratamento profissional", conta a empresária Heloísa, mãe da garota. Vítima de uma anemia quando bebê, filha caçula, única menina, Amanda foi superprotegida pelos pais desde muito pequena. Chegada a hora de aprender a ler e escrever, era uma criança insegura, com baixa auto-estima. Tinha tanto medo de errar que nem tentava lançar-se ao desafio da leitura e da escrita.

A vitória de Amanda sobre limitações do passado é um estímulo para quem tem um problema semelhante dentro de casa. Casos de crianças com comprometimento no processo de alfabetização são mais comuns do que os pais gostariam de imaginar. Médicos e pedagogos estimam que cerca de 10% dos alunos enfrentam dificuldades para aprender a ler e escrever. Os motivos variam de distúrbios emocionais (caso de Amanda) e de atenção a falhas pedagógicas e pequenos problemas de saúde. Desinformados, professores e pais muitas vezes rotulam essas crianças de preguiçosas, quando não suspeitam que possam ser menos inteligentes do que a maioria. A demora na identificação do problema pode produzir conseqüências sérias para as crianças. Sem entender por que seu desempenho escolar é inferior ao dos colegas de classe, esses meninos e meninas muitas vezes se julgam incapazes. "Quanto mais o tempo passa, mais o quadro tende a se complicar", alerta a psicopedagoga Carmen Carvalho, da Universidade de São Paulo. Um problema isolado – que poderia ser contornado em alguns meses com a ajuda de especialistas – transforma-se num emaranhado de difícil solução que irá acompanhar o aluno por toda sua vida escolar: indisciplina, auto-estima prejudicada e falta de estímulo para aprender.

Para não perder tempo, é preciso fazer algumas checagens acompanhadas de orientação profissional, claro. A primeira é ver se a criança não apresenta distúrbios auditivos, anemia, episódios de ausência (falha neurológica que faz a criança literalmente sair do ar) ou mesmo um quadro depressivo. Doenças podem gerar sintomas ligados ao entrave na hora de aprender a ler e a escrever. Descartados esses males, é preciso ficar de olho se o problema não está ligado à dislexia, distúrbio de origem genética que afeta até 2% da população, para o qual a ciência desenvolveu tratamentos eficientes. As principais características da dislexia são dificuldade em relacionar a letra ao som correspondente e em escrever as sílabas da palavra na ordem correta. Muitas vezes, crianças que sofrem desse problema passam por desorganizadas, desinteressadas e preguiçosas na sala de aula.

Para os especialistas, na busca das razões que levam à dificuldade de aprendizagem, os pais devem prestar atenção não só aos filhos, mas também às escolas. "Cerca de 80% dos alunos que chegam ao meu consultório com resistência ao aprendizado têm problemas construídos ao longo da vida escolar", diz a psicopedagoga Maria Lúcia Weiss, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Quando o processo de alfabetização não acontece com facilidade, além de redobrar a atenção com o aluno, os professores deveriam destacar suas outras habilidades. Precisam ser também mais atenciosos com a criança para que ela não perca o estímulo de aprender. "O ideal é que os professores festejem cada pequeno progresso, respeitando o tempo da criança", afirma a psicopedagoga paulista Renata Simon. Infelizmente, nem todos os professores fazem isso.

 
Saiba mais
Da internet
  www.dyslexia.com

 

 

 
 
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