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40 bi
Não foi o bastante

Ajuda do FMI não conseguiu tirar a
Argentina
do atoleiro

Raul Juste Lores, de Buenos Aires

 

Miguel Mendez/STR/AFP
Daniel Garcia/AFP
Carne em açougue de Buenos Aires: volta da aftosa Oposição nas ruas: trinta meses de recessão

Menos de três meses depois de receber o pacotaço salvador de 40 bilhões de dólares do FMI, a Argentina está de volta à estaca zero. Não melhorou sua classificação no índice de risco para investimentos estrangeiros. Não há sinal de reativação da economia. O fato de que agora o país tem dinheiro para honrar seus compromissos de curto prazo não se traduziu em investimentos externos nem no aumento do consumo interno. A recessão já dura trinta meses. Os setores da economia mais ligados ao consumo popular, como supermercados, comércio de carros e shopping centers, estão estagnados ou encolhendo. Na noite de sexta-feira, o ministro da Economia, José Luis Machinea, fez o que todos esperavam dele: pediu demissão. As pesquisas de opinião pública constatam pessimismo generalizado. De cada dez argentinos, sete acham que a ajuda do FMI não adiantou nada. Quase 80% dos empresários dão como certo que o consumo permanecerá estagnado neste ano.


Diego Guidice/AP
De la Rúa: a culpa é do governo Menem


O quadro acima, embora negro, estava sob tênue controle. Bastaria uma pitada de crise de outra natureza para que desandasse. Pois bem, esse elemento desestabilizador apareceu na forma de denúncias graves contra o presidente do Banco Central, Pedro Pou. Ele é acusado de ter feito vista grossa para uma operação de lavagem de quase 5 bilhões de dólares envolvendo um banco local. A deputada Elisa Carrió, autora das denúncias, levou-as diretamente a uma comissão do Senado americano que investiga operações desse tipo. As autoridades dos Estados Unidos confirmaram a veracidade de algumas das acusações. A situação de Pou é insustentável. Espera-se que ele anuncie sua renúncia nas próximas semanas, o que, para os padrões argentinos, seria uma solução até rápida. O escândalo Pou é mais um golpe na já abalada credibilidade externa da Argentina.

"Perdemos as oportunidades de reativação, dadas pela redução de juros dos Estados Unidos e pela ajuda do FMI", diz o economista Norberto Sosa, do banco de investimentos Raymond James e consultor do Citibank. "Há um escândalo político a cada 45 dias, não houve um verdadeiro ajuste fiscal ou diminuição de gastos públicos. Numa situação dessas o consumidor não se atreve a pegar um empréstimo nem os empresários fazem novos investimentos." A Argentina também foi prejudicada pela crise financeira na Turquia. Ambas foram beneficiadas por programas similares do FMI. São as chamadas "blindagens", cuja intenção é permitir ao país honrar seus compromissos externos. Como não está dando certo na Turquia, os investidores fugiram também da Argentina e a Bolsa de Buenos Aires caiu 18% em fevereiro. Para completar o péssimo início de ano, a febre aftosa voltou a castigar o rebanho. É um banho de água fria na animação argentina, que contava conquistar novos mercados graças à epidemia da vaca louca nos países da União Européia. A Argentina investiu 1,2 bilhão de dólares durante dez anos para conseguir o certificado internacional de país livre da febre aftosa. O ressurgimento da doença pode fechar-lhe as portas de Estados Unidos e Canadá, que importam 200 milhões de dólares de carne fresca, um terço do que a Argentina exporta do produto. O governo brasileiro já suspendeu a importação de carne com osso e de animais vivos para evitar o risco de transmissão da doença. Fiel ao estilo de sempre culpar a "gestão anterior", o presidente Fernando De la Rúa responsabilizou seu antecessor, Carlos Menem, por ter relaxado na vacinação do gado. A Argentina, uma vez mais, está sem rumo.

 

O general Videla não se arrepende

Perfil


Não bastasse o presente desanimador, a Argentina foi forçada a relembrar momentos dolorosos de seu passado. No livro El Dictador, biografia do general Jorge Rafael Videla, lançado na semana passada, pela primeira vez um líder do regime militar admite responsabilidade na matança de opositores durante a guerra suja. "Não foi difícil para mim, nem houve descontrole algum. Eu sabia de tudo", disse Videla numa das três entrevistas que concedeu aos autores do livro, os jornalistas Vicente Muleiro e María Seoane. Ele liderou o golpe que depôs a presidente Isabel Perón em 1976 e que inaugurou um regime de terror – com quase 9.000 mortos, pelos números oficiais, ou 30.000, nas contas das organizações de direitos humanos – que terminou com a vergonhosa derrota na Guerra das Malvinas.

O ex-ditador, que está em prisão domiciliar desde 1998, acha que lutou o bom combate. "Não há guerras sujas. O cristianismo acredita em guerras justas. E a nossa foi justa", disse. Também tem explicação para os desaparecidos. "Não se podia fuzilar", comentou. "Imagine 5.000. A sociedade argentina não toparia tantos fuzilamentos. Não havia outra maneira. Todos estivemos de acordo." Depois de quinze anos de silêncio público, Videla reagiu ao livro com uma carta ao jornal La Nación na qual confirma as entrevistas, mas nega o teor das declarações. Anistiado e indultado, ele não corre o risco de ser processado com base nas próprias declarações.

A Argentina foi o único país do Cone Sul a julgar os líderes do regime militar. Em final de mandato, o presidente Raúl Alfonsín assinou uma anistia que tentava dar fim às centenas de processos que surgiam contra militares. Carlos Menem concedeu indulto, libertando os militares presos. Alguns, como Videla, voltaram a ser presos, a partir de 1998, acusados pelo seqüestro de bebês nascidos dentro das prisões. Eram filhos de mulheres que militavam nas organizações que combatiam o governo. Esse crime não está previsto no indulto, que tratou exclusivamente de atos políticos.

 
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