Onde estão os puxões
de orelha e os prêmios?

Nossa universidade pública é um experimento vivo de como os incentivos são poderosos para determinar o comportamento humano

Pepe Casals

John Stuart Mill dizia que o homem morre por um ideal, mas não morre de fome por um ideal. De fato, são muito fortes as disposições humanas para agir da forma que melhor atende a seus interesses. Não sabemos muito bem se a disciplina férrea em um mosteiro trapista é produto da fé ou medo de ir para o inferno. Entre nós, seres mais telúricos, as recompensas e as perdas têm forte influência no comportamento.

Os professores sabem que os prêmios e os puxões de orelha (metafóricos ou literais) produzem efeitos salutares nos alunos. Mas a lição também serve para os professores e administradores que são igualmente sensíveis a recompensas e punições.

Infelizmente, o ensino superior (público) tem regras em que não há puxões de orelha nem prêmios. Quando as coisas não andam bem na nossa conflagrada universidade, não adianta denunciar o reitor ou os professores. Eles são humanos e racionais. Tocam de acordo com a partitura que receberam. Não se trata de culpar a universidade, e sim de lamentar a regra má. (Embora possamos culpar sua resistência à mudança e a solidariedade perversa dos sérios para com os malandros.)

Contava-me um professor que em seu departamento há duas secretárias. Uma é sorridente e prestativa, ganha 250 reais e não tem estabilidade. A outra, estável, está sempre de cara amarrada, não trabalha e ganha 700 reais.

O orçamento não pode ser remanejado. Qualquer economia não resulta em recursos adicionais para fazer outras coisas. Por isso, os reitores jamais farão força para eliminar os inúteis, os incompetentes e os preguiçosos. Na sua equação correta isso traz perdas políticas e nenhum ganho econômico. Não há prêmio algum por dar aulas melhores, por motivar os alunos, nem sequer por comparecer à aula. As compras estão amarradas a procedimentos administrativos que supõem serem todos gângsteres burros, ou seja, intrinsecamente desonestos, mas incapazes de contornar as exigências formais.

A carreira docente premia a espera passiva das promoções por tempo de serviço e discrimina quem sabe fazer o serviço mas não tem os títulos formais. Pelé pode ser ministro, mas jamais professor de futebol em uma universidade pública.

Nem os privados escapam. Aí estão os comissários do povo, zelando para que na forma tudo seja certo, carimbado, alvarazado, autorizado, deferido. O que acontece na sala de aula não importa.

Nossa universidade pública é um experimento vivo de como os incentivos são poderosos para determinar o comportamento humano. Na graduação não há incentivos para premiar nem sanções. O resultado está aí para ser visto. Mas a pós-graduação dentro da mesma universidade ingovernável é totalmente montada em sistemas de incentivos. Quem não publica não ganha dinheiro de pesquisa. Quem não capricha não terá boa avaliação na Capes. Programa que não tem boa avaliação não ganha bolsa. E assim por diante. Resultado: apesar dos apertos e agruras, nossa ciência não pára de crescer, e já temos umas aventurazinhas na tecnologia que poderiam ser mais ambiciosas se os empresários tivessem mais visão.

A única novidade é o provão. As visitas do MEC mostraram que algumas notas más foram como injeções de adrenalina. A instituição reagiu bruscamente e trata de melhorar como pode. Parece gerar o mesmo impacto saudável da avaliação da Capes.

Mas há outra novidade. Uma portaria recente faz a conexão entre as notas no provão e a liberdade para abrir outros cursos por aí afora. No sistema anterior, a autonomia para abrir cursos depende da carta patente de universidade (tradicionalmente concedida por critérios algo fantasiosos). Agora será recompensado com essa autonomia quem conseguir produzir alunos que sabem mais do que os outros (notas mais altas). Possivelmente, os critérios ainda precisem de ajuste fino, mas há que aplaudir a boa direção da medida. O MEC começa a descobrir que não são só os alunos que precisam de prêmios e puxões de orelha.




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