Oficinas mecânicas
para formar advogados?

Graduados da escola técnica vão para o ensino
superior e os alunos mais modestos,
interessados no ensino prático, ficam a ver navios

Luiza Ruberti

Festa na Escola Técnica Federal. Alunos mostram a escola aos visitantes. Minha guia exibe as oficinas mecânicas onde está terminando seu curso de máquinas e motores. Pergunto o que vai fazer ao se formar: Direito. Se isso fosse um caso isolado, seria mais um trunfo para essas escolas, mostrando a flexibilidade dos seus graduados. Mas, infelizmente, desde minhas pesquisas no início dos anos 70, verifica-se que pelo menos dois terços dos graduados das escolas técnicas vão para o ensino superior. São escolas caríssimas, próximo de 5.000 reais por aluno, oferecendo um esplêndido ensino de 2º grau. Todos entenderam isso e competem para entrar, sobretudo porque é de graça. Cria-se o "vestibulinho", com mais de dez candidatos por vaga. Claro, só entram os melhores, em geral, os mesmos que poderiam pagar uma escola privada e que, mais adiante, entram nas universidades públicas mais competitivas.

Ficam as indústrias sem os técnicos de que precisam para ser competitivas e ficam a ver navios os alunos mais modestos, interessados nas ocupações técnicas oferecidas. É o pior dos mundos.

Como na proverbial piada do marido traído, a solução aqui é também tirar o sofá. É só separar a parte técnica da acadêmica, como acaba de fazer o MEC. Quem quiser só a escola acadêmica vai para um lado. Quem quiser a técnica vai para o outro. Assim, os alunos mais modestos que aspiram a uma educação técnica mais prática terão chances de entrar no ramo técnico, cujas oficinas e laboratórios estão hoje locupletados por alunos que nenhum interesse têm pelos ofícios ensinados.

Propus essa solução faz dez anos. Mas não havia então clima para se levar essas coisas a sério. Na verdade, não é uma solução muito original, já que na maioria dos sistemas educativos maduros o ensino técnico tende a ser empurrado para cima, virando um curso pós-secundário de curta duração. E, como para entrar no ramo técnico se exige diploma de 2º grau ou que se curse o 2º grau em paralelo , quem ali estiver é porque se interessa pelo lado profissional. Portanto, a escola se verá obrigada a calibrar melhor seus cursos para o mercado. Hoje, como são poucos alunos interessados nas ocupações ensinadas, a parte profissional se deteriorou.

O pedaço da escola técnica que contém o ensino médio acadêmico pode ter diferentes destinos. Em algumas escolas, poderá ser reduzido de tamanho, ou mesmo eliminado. Afinal, é muito gasto para uma clientela muito elitizada. Mas essa mudança pegou um peixe maior, que são os cursos de contabilidade, secretariado e outros, embutidos nas escolas públicas. A sacudidela é mais do que bem-vinda. Esses tendem a ser cursos obsoletos e de status baixo, embora alguns consigam profissionalizar com dificuldades e currículos cansados. Mas, combinados com o aumento da duração do ano escolar postulado pela nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação e com uma falta de definição de como serão tratados, ainda estão no limbo.

Algumas carreiras são intrinsecamente mais complexas e se encaixam bem como programas oferecidos após o secundário ou paralelamente ao último ano do ensino médio. Outras são mais simples e mais curtas e podem ser encaixadas dentro daquelas disciplinas que se pensa deixar livre para a escola acadêmica decidir o que oferecer. Infelizmente, o MEC propõe 25% de flexibilidade em vez de 33%, que seria mais razoável, por corresponder a um ano inteiro que poderia ser cursado em uma escola profissional.

Essas mudanças, naturalmente, dizem respeito ao ensino profissional, isto é, aquele que busca preparar os graduados para profissões concretas e sintonizadas com o mercado de trabalho. Nada fica dito ou resolvido sobre o ensino médio, cujo conteúdo é muito mais difícil definir. O mesmo curso para todos? Que disciplinas obrigatórias? Como fazer o curso mais prático e com algum sabor profissional? Essa é uma discussão que ora se abre e não pode ser confundida com os assuntos deste ensaio.




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