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O que dizem os testes
Podemos
comparar dois cursos cujos alunos fizeram
o mesmo teste. Fora
disso, os números não dizem nada. Mas
isso já é de uma utilidade incalculável
Ilustração Alê
Setti
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Quem diria? Apesar de seus
parcos êxitos na educação, o Brasil
se converteu no país com o mais abrangente sistema
de avaliação. Não é pouca
porcaria. Temos o Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Básica, Saeb, para o
ensino fundamental e médio e o Exame Nacional do
Ensino Médio, Enem, para a entrada no superior.
Temos o Provão, que ninguém mais tem. Finalmente,
temos a avaliação da pós-graduação.
E agora, que fazemos com isso tudo? O primeiro
desafio é entender o que dizem os testes. Mas os
conceitos subjacentes são baseados em métodos
estatísticos pouco intuitivos. A estatística,
que serve para enganar, pode também servir para
iluminar, desde que saibamos interpretá-la.
Com avidez, olhamos para as tabelas e perguntamos:
os resultados estão bons ou maus? Infelizmente,
esta é justamente a pergunta que esses testes não
podem responder. Nas medições sociais não
há metro ou quilo, padrões absolutos de
medida. Há apenas comparações. Podemos
saber se essa escola ou esse país está melhor
ou pior que outro. Mas, ao contrário do metro,
que é uma distância marcada em uma barra
de platina em Paris, não há um padrão
de educação guardado em um museu. Alguém
poderá arbitrariamente definir um nível
mínimo a ser atingido. Mas até agora ninguém
decretou quanto se deve saber para atingir um nível
"bom" de educação. Os testes, portanto,
falam de melhor/pior e não de bom/ruim.
Os testes são construídos
para medir diferenças de conhecimento, tanto entre
os que sabem muito quanto entre os que não sabem
quase nada. Para isso, incluem perguntas fáceis
para diferenciar os ignorantes e outras muito difíceis
para diferenciar os sabidões. Daí a regra
prática de desenhar um teste: em média,
os respondentes devem acertar a metade das questões.
Portanto, quando as tabelas mostram testes com médias
próximas de 50% de acerto, vivas para o fabricante!
É um bom profissional.
Se é assim, é óbvio
que não podemos brandir as tabelas e dizer: vejam
só que desastre está nossa educação,
os alunos só acertaram metade do teste! Isso é
quase tão tolo quanto se escandalizar com o fato
de cerca de metade dos alunos estar abaixo da média.
Ora, só pode ser assim, pois a média é
o centro de gravidade da distribuição, um
tanto de alunos para cima e outros para baixo.
Nem sempre se atinge o alvo dos 50% de acerto.
Portanto, é um erro lamentável concluir,
por exemplo, ao encontrar as médias inferiores,
que a educação da 8ª série está
pior que a da 4ª, ou que o Provão piorou.
Pode ser que o teste seja mais difícil.
O Provão é vítima de
outros erros de interpretação. A rigor,
a nota E diz apenas que os outros são melhores.
Mas não diz se o curso é bom ou mau. Daí
o absurdo de dizer que a educação superior
está péssima porque há tantos cursos
com D e E. Se o Provão fosse aplicado exclusivamente
nas melhores universidades do mundo, ainda assim 13% ganhariam
nota E, simplesmente por serem "menos ótimas" do
que as outras. Da mesma forma, como as notas são
comparativas, se muitos cursos melhorarem, o que ficar
parado terá nota pior, apesar de não haver
piorado.
Outro erro clássico: verificou-se
que dentre os cursos de nota A, há duas vezes mais
públicos do que privados. O que provoca as pressurosas
interpretações de que o privado é
pior que o público. Mas para dizer se o privado
é pior que o público temos de olhar a média
de toda a distribuição, não apenas
seu topo.
Disso tudo, fiquemos com uma regrinha fácil:
podemos comparar dois cursos (ou até países)
cujos alunos fizeram o mesmo teste. Fora disso, os números
não dizem mais nada. Mas isso já é
de uma utilidade incalculável. Hoje sabemos quem
é quem na educação brasileira. Quais
Estados brilham ou fenecem, que faculdades oferecem o
melhor ensino, quem está fazendo força para
melhorar. Está tudo nos jornais ou no website do
MEC/Inep.
Claudio
de Moura Castro
é economista (claudiomc@earthlink.net)
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