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Cultura
Quadros,
máquinas e até engenhos voadores:
Da Vinci reinventa o mundo
Sipa-
Press/Olympia
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| A
Última Ceia:
gestualidade, movimento, rigorosa geometria da perspectiva e
briga com o prior |
eonardo
da Vinci é um dos nossos contemporâneos que deverão ser lembrados
pelos próximos séculos como um desses espécimes raros que deixam
sua marca no tempo em que viveram. Esse homem parece saber tudo.
Em sua oficina, próxima ao convento da Ordem dos Servos de Maria,
onde vive atualmente em Florença, aprendizes e ajudantes se debruçam
sobre esboços de quadros, mapas, esculturas, modelos de relógios
e projetos de estranhas máquinas de guerra. Filho bastardo de um
modesto notário da vila de Vinci, Leonardo é um autodidata: não
recebeu educação formal. Ainda hoje se ressente da rejeição que
sofreu ao chegar a Florença, aos 17 anos. "Eu sei bem que alguns
arrogantes acreditam poder me criticar, porque não sou erudito.
E, se não posso citar, como eles, todos os autores, considero mais
digno ler na experiência, na mestra de seus mestres." Um homem
como ele desperta necessariamente a inveja. Leonardo da Vinci é
um pintor soberbo, conhece anatomia como poucos e é um grande engenheiro.
Desenha máquinas que só existem na sua imaginação. Máquinas que
voam ou que navegam por baixo da superfície da água. Já criou armas
para potentados que lhe fazem encomendas. Enfim, para ele os limites
não existem.
Já
por sua aparência se vê que está aí um homem original. Quem mais
se atreveria a apresentar-se com as roupas e as maneiras que Leonardo
adotou? A longa barba que começa a ficar grisalha, cuidadosamente
penteada e frisada a ferro, serpenteia até a metade do peito. Belo
e elegante, de físico bastante avantajado, dizem que pode dobrar
uma ferradura apenas com a força das mãos. Aos 49 anos, é um dos
criadores de um novo esporte, ainda sem nome: a escalada das montanhas
dos Alpes. Leonardo se orgulha de haver chegado ao topo do Monte
Roso, de 4634 metros de altura. A figura venerável, entretanto,
é temperada com toques extravagantes: em vez do traje masculino
convencional, que desce até os pés, suas roupas param à altura dos
joelhos e são confeccionadas em ricos tecidos de tons rosados. Apesar
de viver atualmente num convento, ele não deixou de abrigar em seus
aposentos pessoais o belíssimo Giacomo Salaï, jovem de cabelos longos
e reputação duvidosa. "Giacomo veio viver em minha casa no
dia de Santa Maria Madalena do ano de 1490; ele tinha 10 anos de
idade", revela. Desde então, Leonardo o cobre de presentes
e roupas finas, desdenhando dos insistentes comentários sobre sua
suposta preferência por efebos. "A boca mata mais homens do
que a espada", diz. Os boatos sobre sua indiferença ao sexo
feminino que se refletiria no ar remoto e idealizado de suas
retratadas remontam a 1476 em Florença, quando por duas vezes
foi acusado da prática de sodomia, aos 24 anos de idade. As denúncias,
apresentadas aos Oficiais da Noite e dos Mosteiros, davam conta
de que ele e mais três jovens florentinos mantiveram relações sexuais
com o notório prostituto Jacopo Saltarelli. Por falta de provas,
o processo foi suspenso. A constante presença de Salaï ao lado de
Leonardo e o envolvimento do rapaz em pequenos furtos reavivaram
o falatório, desde que os dois voltaram a viver em Florença, no
início do ano passado.
Criador
da magnífica Última Ceia, afresco que adorna o refeitório
do convento de Santa Maria das Graças, em Milão, Leonardo é um pintor
tão exímio porque, em parte, ele é muito mais que um pintor. Seus
quadros refletem seus conhecimentos descomunais em vários campos.
Da mecânica à óptica, não há ciência que escape à sua atenção. Da
música à arquitetura, não há ramo de criação humana que lhe seja
estranho. Passa do teatro à arte da guerra com a mesma habilidade
demonstrada em pinturas que dão calor e vida à técnica da perspectiva,
desenvolvida pelo arquiteto toscano Filippo Brunelleschi (veja
quadro). Nesse sentido, a Última Ceia é o melhor
exemplo dessa técnica, embora haja outros como a inacabada Adoração
dos Magos ou o Retrato de Ginevra Benci. Na Ceia,
dentro de um universo de rigorosa geometria, Leonardo esculpiu
um arrebatador jogo de expressões e movimentos entre Cristo e seus
apóstolos.
"O
bom pintor tem essencialmente duas coisas a representar: um personagem
e seu estado de ânimo. A primeira é fácil, a segunda é difícil,
pois é preciso chegar aí por meio de gestos e de movimentos dos
membros, e isso pode ser aprendido com os mudos, que os fazem melhor
que os outros homens", afirma o artista. Em sua obsessão de
aprender com a observação da natureza, disseca corpos de homens,
mulheres e crianças recém-falecidos, em pesquisas de anatomia lamentavelmente
ignoradas pelos doutores da medicina. No momento, planeja acompanhar
todos os estágios do desenvolvimento da criança no ventre da mãe.
Seus estudos sobre as proporções humanas são detalhadíssimos, e
deles saiu uma frase que já começa a ficar famosa: "O homem
é o modelo do mundo". Com tal variedade de interesses, Leonardo
muitas vezes não termina projetos ou se demora demais, o que lhe
valeu a fama de caprichoso e instável. Há hoje uma tendência a encarar
o artista num grau superior ao do artesão. O artista de talento
também já está deixando de ser aquele elemento servil que trabalha
apenas para realizar os caprichos de príncipes e papas. Leonardo
é um desses artistas orgulhosos. Quando o prior do convento de Santa
Maria das Graças reclamou da demora na execução da Ceia ao
poderoso Ludovico Sforza, o Mouro (o senhor de Milão que encomendara
o serviço), Leonardo explicou o atraso. Era em suas longas reflexões
que "os grandes espíritos se ativam mais", em busca de
idéias e soluções no caso, sobre as figuras de Cristo e de
Judas. Se o religioso, no entanto, insistisse muito, ameaçou, ele
poderia dar a seu Judas os traços do "inoportuno e indiscreto
prior".
Na
juventude, durante a década de 1470, Leonardo foi aprendiz no ateliê
de mestre Andrea del Verrochio, onde pintou o seu primeiro quadro,
a Anunciação. Apesar do erro de perspectiva a mão
da Virgem está num plano diferente do suporte sobre o qual se apóia
, a jovem Nossa Senhora tem uma notável força interior que
se repete nos famosos retratos de mulheres executados depois pelo
artista. Embora as máquinas de guerra propostas por Leonardo continuem
no papel, os projetos militares têm impulsionado sua carreira. Quando
ainda era um artista sem amplo reconhecimento em Florença, ganhou
a confiança de Ludovico, o Mouro, de Milão, com propostas de pontes
portáteis, catapultas, canhões e navios blindados. Seu primeiro
encargo oficial em Milão, no entanto, foi de uma pintura religiosa,
a Virgem dos Rochedos. A obra inova pelo jogo de claro e
escuro (Leonardo consegue pôr luz na obscuridade da paisagem e sombra
na claridade do rosto), emoldurando a cena que une mãe, filho e
o anjo que esboça um enigmático sorriso outra marca registrada
do pintor. A pintura a óleo, desenvolvida em Flandres, ainda era
técnica nova na Itália, e a sutileza com que Leonardo a emprega
sedimentou sua fama na corte milanesa. Foi aprimorando essa técnica
que ele deu um efeito especial a seu segundo encargo, a magnífica
Dama com Arminho o toque da mão do pintor na tinta
ainda fresca suaviza a mudança de tonalidade do rosto. A Dama
no caso retrata ninguém menos que Cecilia Gallerani, amante do Mouro.
Daí
em diante, o artista teve as portas abertas para exercitar as múltiplas
facetas de seu gênio. Como arquiteto, trabalhou no projeto de uma
torre-clarabóia para a Catedral de Milão. Datam desse período seus
primeiros cadernos de anotações, chamados de códices, escritos com
a mão esquerda e de maneira que só podem ser lidos quando refletidos
num espelho. Nessa época, Leonardo convenceu finalmente o senhor
de Milão a realizar um projeto que acalentava havia seis anos: elevar
em praça pública uma gigantesca estátua eqüestre de Francisco Sforza,
o pai do Mouro. A ambição de Leonardo era realizar uma escultura
que tivesse "a andadura natural de um cavalo em liberdade".
O gigantesco modelo do animal, com 7 metros de altura, fascinou
a cidade. Logo Leonardo seria aclamado como o maior escultor da
Itália. O artista se concentrou então no monumental trabalho de
fundição da obra 72 toneladas de bronze, numa única peça
, que o obrigou a criar procedimentos industriais totalmente
novos. Quando finalmente se preparava para iniciar o trabalho, o
exército francês marchou sobre a península italiana. Ludovico Sforza
preferiu então suspender a finalização da estátua, aproveitando
o bronze para a construção de canhões e outras armas. Até hoje,
Leonardo amarga a frustração de ver seu maior trabalho cancelado
por circunstâncias políticas. "Nada mais direi sobre o cavalo,
porque conheço nossos tempos", costuma afirmar. Entre seus
recentes projetos militares consta um intrigante ataque submarino
aos navios turcos, que atualmente ameaçam Veneza, no qual homens
andariam sob as águas carregando odres cheios de ar, protegidos
por óculos impermeáveis. A proposta, compreensivelmente, até agora
não foi aprovada. O mesmo ocorre com os navios e veículos que se
deslocam sozinhos, além do engenho voador com asas móveis, batizado
de ornitottero todos sugeridos a ele a partir da leitura
da Epistola de Secretis Operibus, do franciscano inglês Roger
Bacon (1220-1292).
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Leonardo
é o maior mestre no emprego da técnica da perspectiva, através
da qual consegue criar a ilusão de profundidade em suas pinturas.
Na Última Ceia e mesmo em obras mais antigas, como a inacabada
Adoração dos Magos, de 1481, temos a sensação de olhar não
para uma superfície plana como a tela, mas através de uma
janela que se abre para o interior do quadro. Um esboço preparatório
que Leonardo elaborou para a Adoração dos Magos revela, passo
a passo, o método que o artista emprega para criar essa ilusão.
Ele começa desenhando uma espécie de tabuleiro de xadrez,
levemente inclinado, que será utilizado para representar o
chão da obra. Depois, vai dispondo todos os elementos nesse
tabuleiro, que serve de guia para determinar a posição e a
altura de cada parte da composição. Assim, os objetos mais
próximos do observador do quadro aparecem proporcionalmente
maiores do que aqueles mais afastados, garantindo a perfeita
sensação de profundidade.
 A
técnica tem duas regras básicas. A primeira: as linhas verticais
do tabuleiro, apesar de paralelas, devem convergir todas para
um único "ponto de fuga", situado no infinito. A
segunda determina que uma mesma fonte de luz imaginária deve
iluminar todos os objetos representados no quadro. Essa técnica,
desenvolvida pelo arquiteto Filippo Brunelleschi (o criador
da cúpula da catedral de Florença) na década de 1420, foi
formalizada no tratado Da Pintura (1435), de Leon Alberti.
Seu objetivo básico é desenhar da forma mais realística possível
o tabuleiro de xadrez que serve de base para a construção
do espaço em profundidade na pintura.
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