Economia e Negócios

Sucesso das expedições por mar ao Oriente derruba monopólio e inaugura nova era mercantil

cabou o monopólio estrangeiro. Os mercadores que alcançam o Oriente por terra já não detêm o domínio sobre o paladar europeu. Uma nova forma de concorrência chegou com estardalhaço às rotas da pimenta, do cravo e do gengibre, cujo fornecimento era controlado exclusivamente por mercadores muçulmanos instalados na Árabia e no Egito. O comércio de especiarias orientais é o maior negócio em atividade, responsável pelo enriquecimento fenomenal de Veneza e Gênova, os grandes distribuidores do produto trazido pelos mercadores árabes entre os consumidores finais. Há cinqüenta anos esse intercâmbio não sofria uma reviravolta como o que testemunhamos agora, com a abertura de uma rota comercial oceânica entre Portugal e as Índias, confirmada pela expedição de Pedro Álvares Cabral. O último susto foi o estrangulamento de 1449, ano em que os turcos se fixaram como intermediários nas rotas e passaram a agir como especuladores. De posse de portos estratégicos, o sultão elevou os impostos que incidem sobre as especiarias a cifras monumentais, encarecendo em até quarenta vezes produtos como a pimenta.

A guinada que está acontecendo agora, ao contrário, não só é benéfica para Portugal como coloca o país à frente de uma reviravolta econômica cujo desdobramento ainda é difícil prever. Os produtos tradicionais estão ficando mais baratos, caem as barreiras entre fornecedores e consumidores, o mercado se agita. Com um pouco de ousadia, já é possível pensar até em incluir nessa rede as terras do novo mundo que estão sendo descobertas e na introdução de produtos exóticos, como o milho tipo maís encontrado pelos espanhóis nas ilhas desbravadas pelo almirante Cristóvão Colombo. Portugal tem experiência no assunto: em poucas décadas, as ilhas da Madeira, então um território virgem, se transformaram em centros de produção de açúcar. É verdade que ainda se trata de produto supérfluo, freqüentemente tão raro que se destina apenas ao uso medicinal, mas o açúcar da Madeira já chega às 120000 arrobas anuais.

A eliminação de intermediários é a grande novidade nesse mercado que se descortina. Com suas embarcações, Portugal pode trazer do Oriente um quintal de pimenta por 50 cruzados, 30 a menos do que pagaria em um porto controlado por turcos, caso de Ormuz, na Arábia. A pimenta é um gênero de primeira necessidade, como sabe qualquer um que tenha tentado comer a carne do gado abatido antes do inverno, por falta de pastagens, simplesmente salgada – sem a especiaria, ela é intragável. Mas as Índias oferecem também artigos de luxo, como seda e rubis, que encontram um mercado de endinheirados ávidos por esses exemplos do luxo oriental.

A empresa marítima portuguesa, que agora ganha nova dimensão, começou no início do século passado movida pela necessidade de encontrar fornecedores do mais cobiçado dos produtos: o ouro. Desde que Florença criou seus florins de ouro de ampla circulação, todas as outras regiões européias curvaram-se ao apelo das moedas preciosas. Veneza lançou as suas em 1280. Para Portugal, cunhar moedas de ouro era um sonho praticamente impossível até cinqüenta anos atrás. Crises financeiras forçaram a coroa portuguesa a reduzir a quantidade de metal em suas moedas – que eram feitas de material bem menos valioso que o ouro. Sem peso, o dinheiro português passou por sucessivas desvalorizações. O ouro da Guiné, na África, foi a salvação (veja quadro abaixo). A busca do ouro logo rendeu um negócio paralelo a Portugal. Nas primeiras viagens ao continente africano, os portugueses fizeram prisioneiros que levaram à Europa como escravos. Nos últimos cinqüenta anos, Portugal escravizou cerca de 130.000 africanos, deslocando o eixo e a natureza desse tipo de comércio – antes, eram as tribos eslavas que forneciam o grosso da mão-de-obra escrava, vendida na região do Mediterrâneo.

O ouro, os escravos, o marfim, da África, e agora as especiarias das Índias, abrem as portas à transformação de Portugal em potência marítima e mercantil. A reviravolta, surpreendente na história de um país tão pequeno, isolado das principais potências econômicas do continente, só foi possível porque os pessimistas usuais não prevaleceram. Há poucos anos, quando preparava a expedição pioneira de Vasco da Gama, o rei dom Manuel teve de ignorar os conselheiros segundo os quais não se devia tentar descobrir o caminho das Índias "porque, além de trazer consigo muitas obrigações por ser Estado muito remoto para poder conquistar e conservar, debilitaria tanto as forças do reino que ficaria este sem as necessárias para a sua conservação". Dom Manuel foi em frente, e as perspectivas mais otimistas começam a se confirmar. Nunca é demais lembrar, no entanto, que Portugal tem seus pontos fracos. Os principais produtos portugueses de exportação, o vinho, o azeite de oliva e o sal, disputam mercados com concorrentes poderosos, como a Espanha. O país produz madeira bruta, mas importa tonéis, cadeiras e leitos. Armas, ferro, trigo, centeio e milho vêm de fora. Mercadores como os genoveses, que dominam a maior parte do comércio no Mar Negro, atravessam a Pérsia com suas caravanas e se destacam na navegação, continuam a ser competidores formidáveis.

Fora das fronteiras já trilhadas, Portugal também enfrenta regras de comércio que não conhece. Os indianos, por exemplo, parecem ter ficado espantados com o uso dos canhões no estabelecimento de relações comerciais – estão acostumados às táticas menos agressivas dos mercadores árabes, de há muito instalados em seus territórios e nas nações vizinhas. Em Ormuz, uma ilhota árida no Golfo Pérsico onde são comercializados os cobiçados cavalos árabes e outros produtos orientais, existe um sofisticado sistema de comércio. Para avisar sobre alta ou queda dos preços, os negociantes usam pombos-correios, que voam de Ormuz até Basra, na Árabia, e dali a Bagdá. Em dois dias, fazem o trajeto completo, carregando a informação com a cotação das mercadorias. Os portugueses são recém-chegados a todas essas praças. Os muçulmanos ainda controlam a velha rota da seda, na China, além de dominar o comércio com cidades africanas e as Índias. O império marítimo que começa a construir dá a Portugal uma espetacular vantagem competitiva, mas o novo mercado mundial certamente reserva muitos desafios.

A Casa da Moeda de Lisboa cunhou seu cruzado de ouro em 1457 e até hoje a moeda não foi desvalorizada. Esse prodígio de estabilidade só aconteceu depois que Portugal descobriu o caminho do ouro da Guiné. Antes de lançar-se ao mar, os portugueses tinham parcas noções sobre a origem e o trajeto do ouro que reluz em tantas cidades européias. Carregado em enormes caravanas, formadas por até 12.000 camelos, o ouro cruzava o Deserto do Saara em viagem de dois meses entre as minas da Guiné e o Marrocos, onde aguardavam os intermediários catalães, genoveses e venezianos. Os mercadores arriscavam-se dias a fio sem uma gota d'água, sofrendo com o intenso calor de dia e um frio de cortar os ossos à noite. Súbitos ataques de tribos nômades tornavam as caravanas vulneráveis e muitas remessas não chegavam ao destino.

Depois de ter desvendado os segredos das minas da Guiné, as caravelas portuguesas tomaram o lugar das caravanas do deserto, esvaziando o comércio do Marrocos e do Egito com outros países europeus. Portugal montou fortificações e entrepostos comerciais no litoral africano. O maior deles, o Castelo de São Jorge da Mina, foi construído na Costa do Ouro em 1482 e hoje desvia quase todo o metal que era carregado através do Saara. O ouro é trocado por cavalos, conchas das Ilhas Canárias (usadas pelos etíopes como amuletos contra raios), tecidos da Irlanda e da Inglaterra, vasos de cobre ou estanho. O lucro é enorme e paga as importações de mercadorias européias mais sofisticadas que Portugal não produz.

 
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Guinada no mercado

 
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