|
Ensaio
m
meio ao justificável regozijo provocado pelas conquistas
marítimas portuguesas, às quais acaba de se somar
a confirmação do descobrimento de uma grande e desconhecida
terra, cabe um momento de reflexão. Algumas perguntas devem
ser levantadas, ainda que poucos se disponham a responder a elas
nestes tempos em que sonhos de grandeza tomam de assalto até
os mais cautos. Que lugar é esse que o capitão-mor
Pedro Álvares Cabral vem de acrescentar às propriedades
da coroa? Que gentes são essas, de costumes jamais vistos
antes pelos portugueses? O que vai lá fazer Portugal? E como?
As
descrições que nos chegam, em especial por intermédio
da carta do falecido escrivão Pero Vaz de Caminha, dão
pistas importantes. A gente é boa e amável, aparenta
saúde excelente, revelando nos primeiros contatos grande
inocência e timidez. O entusiasmo do escrivão por esses
nativos "galantes, dispostos e bem-feitos" ficou patente, mas o
mesmo escrivão anotou que eles "não lavram nem criam"
animais domésticos. Vivem nus, do que a terra dá;
encantam-se com quaisquer ninharias. Esse povo "bestial e de pouco
saber", segundo as palavras de Caminha, não parece ter religião
nem rei. Até o sentido da propriedade se lhes escapa. Ou
seja, em tudo diferente de nós ou mesmo de outros povos não
cristãos com os quais entramos em contato através
das navegações. O que irá acontecer quando,
como é inevitável, o rei de Portugal resolver tomar
posse efetiva e colonizar esse estranho lugar? Como se dará
o encontro entre dois mundos tão diferentes?
Na
verdade, uma experiência desse tipo já está
acontecendo. Quando chegou às ilhas ao norte do Mar Oceano,
o almirante Cristóvão Colombo encontrou um povo muito
parecido com o da nova Terra de Santa Cruz. Suas primeiras descrições
foram tão elogiosas quanto as de Caminha os locais
eram "bem-feitos, com bons corpos e rostos", igualmente gentis,
enfim, "a melhor gente do mundo". Em nove anos, o paraíso
descrito por Colombo já foi transformado num inferno. Os
índios, como ele insiste em chamá-los, estão
sendo dizimados, pela doença e pela mão pesada dos
espanhóis. O novo mundo parece ensandecer os colonizadores.
Ao voltar à primeira colônia fincada numa das ilhas,
Colombo encontrou apenas os corpos putrefatos dos 41 homens que
havia deixado na guarnição. O aragonês Guillermo
Coma relata que eles acabaram atacados pelos pacíficos nativos
"por causa da conduta licenciosa de nossos homens com as mulheres
das Índias, pois cada espanhol tinha cinco mulheres para
ministrar o seu prazer".
Foi
uma exceção. O que tem acontecido é o contrário:
os espanhóis trucidam os "índios" com uma ferocidade
inédita até mesmo para seus padrões. Sem mão-de-obra
para arrancar da terra as prometidas riquezas, tentam escravizá-los,
com parcos resultados. A própria coroa espanhola ainda não
decidiu como se conduzir nessa questão. Há seis anos,
Colombo chegou a ser autorizado a vender nativos como escravos em
território espanhol, mas quatro dias depois os reis católicos
voltaram atrás. "Queremos consultar o assunto com advogados,
teólogos e especialistas em lei canônica, para ver
se eles podem ser vendidos em boa consciência", escreveu o
rei Fernando. Agora, os reis se preparam para permitir o envio de
africanos como escravos às colônias d'além-mar.
O encontro entre os mundos ainda reserva muitas perguntas.
|
|
|