|
EDIÇÃO EXTRA: Os sobreviventes
VEJA, Abril de 1912
Desinformação e apreensão marcaram a espera
das
famílias das vítimas do naufrágio. A chegada do Carpathia com
os sobreviventes - pouco mais de 700 - parou Nova York
 |
| Expectativa e desencontros: multidão se aglomera diante de painel de notícias em Nova York à espera de informações sobre mortos |
Se o marinheiro britânico Harold Cottam tivesse decidido
ir para a cama alguns minutos antes, provavelmente o mundo estaria
chorando a maior tragédia marítima da história,
um desastre de proporções homéricas que teria
vitimado mais de 2.000 pessoas. Operador do sem-fio do RMS Carpathia,
que viajava de Nova York para Gibraltar, Cottam vestia seus trajes
noturnos nas primeiras horas do dia 15 de abril e, por acaso, deixou
o rádio ligado enquanto se trocava. Nesse momento ouviu o
pedido de socorro do Titanic, e correu para acordar o capitão
Arthur Rostron, já recolhido aos seus aposentos. Rostron
decidiu colocar todas as forças do Carpathia em uma corrida
acelerada rumo à última posição conhecida
do Titanic. Com isso, mais de 700 vidas foram salvas. Não
à toa, Cottam, Rostron e toda a tripulação
do Carpathia foram saudados como heróis no retorno a Nova
York, em 18 de abril, um evento que parou a metrópole onde
o Titanic deveria chegar mas jamais aportou.
 |
| Sobreviventes a bordo do Carpathia: resgate heróico e chegada conturbada aos EUA |
Nessa noite, mais de 30.000 pessoas acotovelaram-se na região
do Píer 54 para receber o Carpathia, e, com ele, a confirmação
do naufrágio do Titanic e uma lista de todos os seus sobreviventes.
Até então, com uma tempestade de boatos e mistérios
rondando os eventos que derrubaram o mais moderno transatlântico
do planeta - uma tormenta estimulada pela desinformação
dos representantes da White Star Line -, imperava a incerteza do
destino de seus passageiros. Médicos, enfermeiras, autoridades
municipais e federais e membros do Exército da Salvação
estavam a postos para prestar socorro e fornecer roupas e alimentos
aos sobreviventes. A Bolsa de Valores arrecadou 20.000 dólares
para o auxílio aos passageiros desamparados. Diversas associações
de moradores e imigrantes também colocaram-se à disposição
para abrigar as vítimas - nas contas do prefeito William
Gaynor, entre todas as ofertas de alojamento, a cidade estava pronta
para acomodar 5.000 pessoas.
A pior das notícias - Antes do desembarque dos sobreviventes
do Titanic, os passageiros originais do Carpathia foram orientados
pelo capitão Rostron a descer primeiro. Quando aqueles finalmente
apareceram no píer, familiares, repórteres e curiosos
não se contiveram e furaram os bloqueios da polícia
em busca de informações. A maioria dos passageiros,
especialmente os homens, instintivamente justificava o motivo de
estarem nos botes salva-vidas, ocupando o lugar de outras pessoas
- especialmente J. Bruce Ismay, diretor da White Star Line, sobre
quem pairaram dúvidas sobre sua fuga do Titanic. De qualquer
forma, eram cenas de alívio e emoção de parentes
que encontravam sobreviventes, de desesepero e aflição
daqueles que receberam a pior das notícias, ou ambas - já
que dezenas de mulheres perderam seus maridos na tragédia
e voltaram sozinhas para casa. Apenas 20% dos homens sobreviveram;
a proporção para mulheres e crianças foi de
75%.
 |
| Os botes usados no resgate do transatlântico: só 20% dos homens sobreviveram |
Se a lúgubre chegada do Carpathia cravou um punhal no coração
dos nova-iorquinos, do outro lado do Atlântico, em Southampton,
na Inglaterra, ponto de partida da fatídica viagem do Titanic,
o luto foi ainda maior. Quatro em cada cinco tripulantes do agora
naufragado transatlântico provinham da cidade, cuja larga
tradição de navegação data desde o império
romano. Dos 890 profissionais em serviço, apenas 214 sobreviveram
- índice inferior ao verificado em todas as classes de passageiros.
Uma multidão de familiares fez vigília em frente à
sede da White Star Line em Southampton, em um silencioso plantão
que acabaria ainda mais quieto a partir do dia 17, quando começaram
a ser informados os nomes dos tripulantes que pereceram no navio.
"Naquele dia, a esperança morreu", decretou o jornal
London Daily Mail no último dia 23, referindo-se ao luto
que tomou conta da cidade.
|